Carta a um sobrinho corintiano

 

Por José Renato Santiago
Amante do futebol e ouvinte-internauta

 

Meu querido sobrinho, Felipe.

 

Sua mãe, minha irmã, é testemunha sobre o quanto a sua chegada foi desejada.
Em 1995, quando ela engravidou pela primeira vez, ganhei de presente ser padrinho de sua irmã, Mariana.
Uma grande alegria e orgulho para mim.
Em 1999, quando sua mãe nos avisou que o meu primeiro sobrinho viria ao mundo, vibrei!!!
Mesmo assumindo, apenas, o papel de tio, me satisfez muito saber que passaria a ter um novo amigo para ir comigo aos jogos do meu tricolor.
Olha que tentei.

 

Seu primeiro jogo no estádio foi um São Paulo x Juventus no Morumbi.
Escolha estratégica, adversário supostamente tranquilo, tudo convidativo para fazer alguém se tornar são paulino.
Bem, só não avisaram isso ao Juventus que venceu por 1 a 0 naquele dia.
Não foi problema, você era tão pequeno que nem notou a derrota do São Paulo.
Ainda assim, fui tentando de trazer para o meu lado rs rs.

 

Em uma partida do São Paulo x Rio Claro, conseguiu que você, juntamente com seu irmão, Marcos, entrassem junto com a equipe tricolor, ao lado de Ceni.
Desta vez, vitória tricolor, para mim, o jogo estava ganho.
Ledo engano…

 

Em 2007, o Corinthians estava muito mal no campeonato brasileiro e acabou rebaixado.
Novamente, achei que estava resolvida esta questão, ainda mais porque o São Paulo tinha sido campeão.
Mas naquele dia, o do rebaixamento, a primeira coisa que você fez foi: vestir a camisa do Corinthians e ficou com ela a semana inteira.
Realmente, o jogo estava ganho, você seria corintiano.

 

Aliás, foi com você que aprendi a respeitar efetivamente os torcedores rivais.
Não que eu fosse desses torcedores que saem ofendendo os rivais, mas achava, até então, impossível ter um corintiano na minha família (lembrando que cunhado, seu pai, não é parente rs).

 

Minha torcida contrária ao Corinthians continuou, mas certamente sem a mesma força de antes, graças a você.
Não conseguia realmente torcer de forma contrária da mesma maneira.
Esta Libertadores, torci a favor do Vasco, a favor do Santos e até mesmo a favor do Boca…
Mas, capitulei…

 

Acompanhei a sua aflição…
Acompanhei a sua alegria…

 

E mais, é difícil deixar de admitir que a atual equipe corintiana é realmente merecedora da conquista da Libertadores deste ano.
Sendo assim, não irei torcer a favor do seu time, mas sim que você fique feliz com o resultado.
Pois independente do resultado, para você, o Corinthians é sempre Corinthians e isto é o suficiente!

 

Um grande abraço de seu tio tricolor desde sempre.

De boca e coração


Por Maria Lucia Solla

O que te mantém vivo? Dizem que você é o que come: Cuidado com o que entra pela boca! mas também dizem: Cuidado com o que sai dela.

No primeiro caso a gente ingere combustível para a máquina funcionar; e há quem afirme viver, há anos, única e exclusivamente, de água e da luz solar. Quem sou eu para duvidar!

No segundo caso não acredito que o cuidado more no cuidar com o que sai dela, porque só sai o que está dentro, certo? É lei da Física.

Na área controversa de alimentos tem os minerais, por exemplo, sobre os quais quando eu era pequena nem se ouvia falar. Sódio, potássio, iodo, cloro, ferro, magnésio, cromo; meu Deus do Céu, que suplemento eu tomo!

fibra fruta legume
nada de muito açúcar
nem muito sal
senão você passa mal

colesterol que sobe
colesterol que desce
tem o bom e o ruim
muito complicado para mim

cálcio zinco selênio
hormônio insulina
hemoglobina e proteína
dessa eu ouço falar desde que era menina

Naquele tempo, a saúde vinha da cor. A pele era amarela ou rosada, a gente ficava vermelho de raiva, verde de ciúme e roxo de dor. E sorria, quando estava tudo azul.

Lá em casa quem ditava a dieta era meu pai. Café da manhã tinha suco de tomate feitinho na hora, docinho, gelado, tomado de canudinho; dali vinha o vermelho. Da gema de ovo, da galinha do quintal, na colher, deitada numa caminha de azeite puro, é que vinha o amarelo e o dourado. Espinafre não podia faltar; dali vinha o verde fácil de assimilar.

Na nossa mesa tinha bife, feijão arroz, macarrão com molho vermelho, feito na panela que fazia a sua parte durante toda a manhã; sem pressa, no fogo lento. Encorpava o molho uma porção generosa de bifes enrolados, guardando recheio gostoso, amarrados por linha forte. Quantas vezes fiquei ali olhando minha mãe que bordava, um a um.

A vovó Grazia vinha toda semana e escolhia o feijão na mesa da cozinha: você vai, você fica. A vasilha no seu colo se enchia enquanto eu olhava maravilhada e intrigada. Que coisa! como ela é que ela sabia?! Mas criança falava pouco, de preferência nada, e eu olhava. Que saudade!

Hoje percebo que era de lá que vinha a saúde, era das mãos delas, não das panelas. Era da entrega, do saber a sua missão; e de cumpri-la. Confidentes, às vezes falavam de perto coisas de gente grande, de certo.

Hoje, sabendo daquelas coisas, me sirvo da memória para entender minha história.

A conclusão a que chego, agora, é de que o que te mantém vivo vem do outro e vem de dentro. Vem dele o olhar de compreensão, o nem sempre te dar razão, o te apoiar quando precisa e tirar teu apoio para que você aprenda a nadar.

o que te mantém vivo
não é cálcio proteína ou a boa digestão
é o que entra e sai da tua boca
o que entra e sai do coração

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung