Conte Sua História de SP 467: o grupo de WhatsApp que mexeu no meu bom retiro

Por Betty Boguchwal

Ouvinte da CBN

“Os quadros e as obras de arte marcam

a presença dos moradores numa casa.

Digo isso porque a decoração

podemos encomendar a um profissional,

mas a arte nós que escolhemos”.

Maurício Boguchwal

 

Dentre os inúmeros grupos de WhatsApp e reuniões via plataformas digitais que movimentam e atenuam o isolamento social e, também, diversificam o cotidiano e cenários desta interminável quarentena, seleciono o grupo Bom Retiro — um coletivo com lotação máxima de 256 pessoas com larga faixa etária, comprovada vivência neste bairro — condição sine qua non para marcar presença nesse “hospício”, como é carinhosamente chamado. Daí o slogan:

— Você sai do Bom Retiro, mas ele não sai de você!

O dito bairro carece de uma revitalização digna da história de seus antepassados para, atualmente, marcar a presença da comunidade judaica em São Paulo. Na primeira reunião, agendada para às oito e meia da noite de uma quarta-feira, excepcionalmente eu estava on time. Sabe, com tantas reuniões no Zoom, eu criei um lugar, melhor dizendo, puxo uma mesinha que expõe antiguidades, substituo um telefone quadrado de disco, bege com dourado, pelo meu fiel companheiro notebook Dell, e arrasto a referida mesinha em frente ao sofá, onde me sento sempre no mesmo lugar, óbvio, na esquerda.

Ora, esse tipo de reunião em plataformas digitais tem as mais diversas demandas, com um anfitrião muitas vezes desconhecido, além de muitos outros convivas, que abre a sala Zoom, Google Meet, etc, com uma lista de convidados e agregados. E com esse convite você acaba entrando na residência, local de trabalho, enfim, lugares diversos de pessoas que invariavelmente você irá conhecer ou não, com tudo e todos dispostos na tela vertical. A propósito, a pauta dessa reunião era a revitalização do Pletzl — maneira carinhosa de chamar a esquina da Rua Correia de Mello e Rua da Graça, cercada pelo comércio atacadista, uma sinagoga histórica, hoje convertida no Museu Judaico do Holocausto, e bancos, onde nossos pais, avós se encontravam e sabiam das novidades, negócios e fofocas.

E não é que em meio aos “boa noite”, Mauro me faz uma pergunta bem peculiar:

— Este quadro aí atrás é muito bonito, ele é original?

Olho para trás e respondo:

— Não, este é uma reprodução, afirmei.

— Ah, mas ele é tão lindo, que nem pude identificar que fosse uma cópia, complementou.

De fato, Mauro tinha razão. Trata-se de um Alfredo Volpi. 

Caramba, com tantas reuniões sentadas neste mesmo lugar, como vem este Mauro com esta observação singular?

Pois é, tanto a sala, como o apartamento  inteiro estavam com muito pó, e embora isto não fique visível no Zoom, ele involuntariamente passou um aspirador não somente em todo o imóvel, como também na minha cabeça. No dia seguinte, ele me moveu a um ato, já ensaiado há um considerável tempo. Desembalei todo o acervo de quadros, esculturas, obras de arte, enfeites que vieram da residência da minha mãe, desde sua partida final, há um ano, e que estavam escondidos da minha visão.

Em outra parede, pendurei uma autêntica mulata de Di Cavalcanti. E que mulata! Aos poucos, fui selecionando com a Márcia, a co-herdeira, outros quadros e objetos, os quais, prazerosamente distribui no meu novo ambiente e ela, respectivamente, fez o mesmo no seu. Ou seja, eu simplesmente revitalizei a sala com diversas e singulares imagens em fortes cores. Ah, incluí a presença dos meus pais na minha casa, à minha moda.

Quanto ao objetivo do grupo, revitalizar o Pletzl, a prefeitura se encarregou da obra física e elegemos Artur Lescher, escultor, para criar a obra que contemplará o espaço histórico. 

Betty Boguchwal é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de SP: a tinturaria do meu tio no Bom Retiro

 

Por Tadeu Magnani

 

 

Década de 50, o terno, vezes incluso colete, era traje diário e também nos finais de semana.

 

Com intensa clientela, meus tios Guilherme, Primo, Casemiro e Mário Magnani eram proprietários da Tinturaria Guarani, no Bairro do Bom Retiro, incialmenteo na Rua Silva Pinto, depois na Rua Joaquim Murtinho, telefone 37-09-59.

 

Era eu, garoto de 8 a 9 anos, e adorava retirar e entregar ternos com meu tio Casemiro, pelas ruas do Bom Retiro e Campos Elíseos.

 

Passava pelo Palácio do Governo, em rua acanhada, pois esta, a época, ainda não havia sido alargada para dar lugar a atual Avenida Rio Branco, pela Estação e Parque da Luz, pelo Colégio Santa Inês.

 

 

Na Rua Três Rios, a Escola de Farmácia e a Igreja N. S. Auxiliadora, nela fui batizado, e onde minha avó Augusta levava – me quase todos os dias, comprando – me os “bêigales”, espécie de rosca de massa, recoberta com gergelim.

 

Mas, o que o menino mais gostava, eram os caminhões da Transportadora Mayer ( na maioria enormes FENEMES ), vindos do Rio Grande do Sul, estacionados na Joaquim Murtinho e os dois Ford 51 ( um azul e outro verde ) do pessoal da Cartonagem São Lázaro, vizinhos a tinturaria …………

Conte Sua História de SP: uma vida centenária na capital paulista

 

Por Jacob Pomerancblum

 

 

Tenho 100 anos. Nasci no dia 12 de setembro de 1914, numa pequena aldeia na Polônia. Assim que completei 13 anos, eu e meu irmão de 10 fomos colocados num navio, sozinhos, a caminho do Brasil. Cheguei em São Paulo em 1927 e cada vez que ando pelas ruas da cidade que me recebeu e onde construí minha vida lembro como era nos anos da minha juventude.

 

Vivi no Bom Retiro a maior parte da minha vida. Caminhei pelas ruas iluminadas por lampiões de gás e lembro que nas ruas laterais do Colégio Santa Inês sempre eram quebrados para manter as ruas escurinhas. Assisti a muitos filmes mudos nos “poleiros” dos cinemas de bairro.

 

Estive na inauguração do Estádio do Pacaembu e do Jóquei Clube. A avenida Pacaembu nem estava asfaltada ainda e ia-se ao Jóquei de bonde. Não havia nenhuma construção no entorno.

 

Depois que casei fui morar por uns anos no bairro do Tremembé. A estação do trem Maria Fumaça ficava no centro do bairro e muitas vezes a família ia para o centro de trem.

 

São 87 anos vividos nesta cidade que se tornou “minha cidade”, onde tive muitos e bons amigos com quem vivi muitas aventuras e alegrias e onde criei minha família. Só lamento que todos amigos tenham decidido “ir embora” e me deixaram sozinho com minhas lembranças, guardadas e vívidas na minha memória.

 

Jacob Pomerancblum é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: Os passeios no cinema

 

No Conte Sua História de São Paulo, Arnaldo Leff, nascido na capital paulista em 1940. Filho de poloneses foi criado no bairro do Bom Retiro, no centro de São Paulo. Seu Arnaldo lembra que o cinema era o único meio de diversão na São Paulo dos anos 1950:

 

Ouça o depoimento de Arnaldo Leff sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

Este depoimento foi gravado pelo Museu da Pessoa. Conte você, também, mais um capítulo da nossa cidade. Envie um texto ou agende uma entrevista em áudio e vídeo no site do Museu da Pessoa

O Retiro da moda popular em São Paulo

 

Por Dora Estevam

 

 

O que diriam paulistanos que conheceram as chácaras e fazendas do Bom Retiro, no Século 19, e encontravam no local refúgio para o descanso e a tranquilidade se visitassem o bairro nos dias atuais ? Definitivamente, descansar não é mais verbo a ser conjugado por lá, haja vista o enorme movimento de pessoas nas ruas deste distrito que faz parte do centro de São Paulo – cerca de 80 mil por dia. Calcula-se que 20 ônibus chegam diariamente de diversas partes do Brasil, em especial do Sul, trazendo consumidores que se somam aqueles que vão de carro e lotam os 30 estacionamentos que têm nas proximidades. A maioria destes é revendedor e responsável por 60% das compras feitas nas lojas do bairro.

 

O que mais atrai os milhares de visitantes, além da enorme concentração de lojas – cerca de 1.600 -, são as roupas baratas que há muito tempo deixaram de ser sinônimo de baixa qualidade. Este preconceito já está fora do dicionário da moda dos lojistas. Encontra-se no Bom Retiro produtos de acabamento invejável e é clara a preocupação com relação aos tecidos e aviamentos. No setor atacadista, a maioria das empresas tem estilista própria que viaja no mínimo duas vezes ao ano em busca de novidades e tendências, no exterior. Têm ainda empresas de consultoria que prestam serviço nesta área incentivando a criatividade e inovação. Todos os dias, as grifes abastecem as vitrines com seis novas peças o que atrai mais e mais clientes e gera empregos constantemente

 

No setor atacadista a maioria das empresas tem sua estilista que viaja no mínimo duas vezes por ano ao exterior em busca de novidades e tendências internacionais, além das empresas de consultoria que prestam serviços nesta área. Todos os dias tem novidade nas lojas, cada grife produz cerca de 6 peças novas por dia o que atrai mais e mais clientes, e também gera empregos constantemente – são 50 mil empregos diretos e 30 mil, indiretos. Um dos sinais de que os fabricantes estão conectados com o que há de mais novo é o surgimento de confecções preocupadas com a questão da sustentabilidade, caso da ADJI- Menswear.

 

Antenados, muitos lojistas desenvolveram sistemas de e-commerce, apesar de o maior sucesso ainda ser o telemarketing. Como as vendedoras conhecem o tipo de produto que atendem as necessidades de seus clientes, assim que chegam novos modelos elas entram em contato e, por telefone mesmo, fecham o negócio , sendo a mercadoria enviada pelo correio – 55% da moda feminina do Brasil saem do Bom Retiro. Os fabricantes da região faturam perto de R$ 3,5 bi por ano.

 

Um dos desafios dos empresários da região é com a manutenção do bairro e para que os problemas sejam resolvidos mais facilmente a Associação dos Lojistas do Bom Retiro têm mantido diálogo permanente com a prefeitura. Um dos resultados desta conversa foi a coleta de lixo pela manhã que impede o acúmulo de sacos com retalhos que antes acabavam abertos por catadores e se espalhavam pelas ruas. As calçadas são pouco confortáveis para o passeio, pois além da multidão que procura as lojas também existe uma série de barreiras como os postes de iluminação. Para amenizar este cenário, a Eletropaulo está fazendo o aterramento da fiação e os dois primeiros quarteirões do bairro já estão com energia sendo transmitida por baixo das vias. O custo para esta primeira parte da obra foi assumido pela Associação que agora espera que a prefeitura assuma seu compromisso e financie o restante do projeto. De acordo com informações da Subprefeitura da Sé ainda é preciso abrir o processo de licitação. A segurança melhorou um pouco com a Operação Delegada, da Polícia Militar, que reforçou o policiamento na região, mas muitas lojas ainda preferem manter equipe própria de vigilância.

 

Ufa! Se só de ler todos os aspectos que envolvem o Bom Retiro já dá fome, imagine caminhar por lá. Para matar a fome também não falta estrutura, são mais de 52 restaurantes, bares e lanchonetes para atender os visitantes. E com uma área dominada por coreanos – na maioria -, judeus, italianos e gregos, é possível imaginar a variedade de comidas. A culinária grega e italiana são minhas prediletas. Para você aproveitar melhor todo este espaço e não se perder na multidão, separei alguns endereços de lojas do atacado e do varejo. Aproveite o máximo e depois deixe aqui outras sugestões do Bom Retiro:

 

Jeans
Atacado: Di Collani – Rua Prof. Cesare Lombroso, 259 lj.,21 – 3224.0166
Varejo: Loony – Rua Jose Paulino, 190 – 3334.2050

 

Tricô
Atacado: Modelan – Rua da Graça, 42 – 3333-2193
Varejo: Rua Jose Paulino, 256  – 3223-7711

 

Camisaria
Atacado: Umen – Rua Jose Paulino, 140 – 3221-3203
Varejo: Fascynios – Rua da Graça, 450 – 3333-2000

 

Terninho
Atacado: Seiki – Rua Aimores, 143 – 3225-9214
Varejo: Karmiss – Rua Jose Paulino, 210 – 3331-6059

 


Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida, aos sábados, no Blog do MÍlton Jung

Canto da Cátia: Enchente no Bom Retiro, sem saída

 

Enchente no Bom Retiro

O verão ainda não começou, mas as enchentes, sim. O bairro do Bom Retiro acordou com algumas ruas alagadas, nesta quarta-feira, conforme registrou a Cátia Toffoletto em reportagem no CBN SP. Nenhuma novidade, apesar de os moradores do prédio darem a impressão de que estão surpresos com a situação que encontraram na hora de deixar os apartamentos. Parecem procurar uma resposta para a encrenca que enfrentam há muitos anos. E a respota está logo ali, bem na esquina, na placa de sinalização de trânsito.

Ouça aqui a reportagem da Cátia Toffoletto que foi ao ar no CBN SP