Avalanche Tricolor: o prazer de ver o Grêmio jogar futebol está de volta, na Nossa Arena

Grêmio 2×0 São Paulo
Brasileiro – Nossa Arena, Porto Alegre (RS)

“Vini da Pose” comemora mais um gol em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A melhor versão do Grêmio se fez presente, hoje, no belo gramado da sua Arena — que eu tomo a liberdade de, a partir de agora, chamar orgulhosamente de Nossa Arena. Há muito tempo não assistia a uma partida gremista em que a bola fosse tão bem tratada como na noite desta quinta-feira. Uma performance premiada com uma vitória, conquistada de maneira perene e tranquila, na qual o torcedor pôde sentir o prazer de torcer por um time, verdadeiramente, de futebol.

O suprassumo desse futebol que se expressou em Porto Alegre foi Arthur — meio-campista excepcional e essencial para a transformação da maneira de o Grêmio jogar. Desde que o filho pródigo voltou para casa, retomamos o domínio da bola e reconquistamos o protagonismo do jogo. Mesmo nas partidas em que sofremos reveses — e não foram poucas —, o bailado de Arthur no meio de campo se impunha e nos oferecia alguma esperança de transformação. Já se ouvem vozes pedindo sua presença na seleção brasileira.

Hoje, fomos além. Depois de alguns momentos de desacerto, a defesa ajustou seu posicionamento, o time diminuiu os espaços e reduziu os riscos — a ponto de terminar o jogo sem tomar gols, o que não acontecia há sete rodadas. Evidentemente, não foi apenas o ajuste defensivo que nos deu vantagem sobre o adversário. O meio de campo — com o já devido destaque a Arthur — se impôs também pela intensidade de Edenílson e pela atuação sempre regular de Dodi.

Lá na frente, aplaudir Carlos Vinícius, autor dos dois gols da partida, é fácil. Primeiro porque, desde que chegou, o atacante tem demonstrado um ímpeto que agrada ao torcedor. Depois, porque começou a ser protagonista com seus gols e a comemoração que lhe rendeu o apelido de Vini da Pose. Hoje, foi o farejador de gols que tanto desejamos. Com um só toque, concluiu para as redes a bola que havia rebatido na defesa, após o chute de Amuzu, abrindo o placar no primeiro tempo. E, no segundo, cobrou com segurança o pênalti sofrido por Edenílson.

Aliás, o ganês também merece destaque pelo que tem proporcionado nos últimos jogos. Atrevido, Amuzu provoca dribles, acelera o ataque e não tem medo de arriscar a gol. Parece cada vez mais à vontade em campo. Às vezes, é capaz de brincar com a bola — e isso torna o futebol muito mais divertido.

Como disse em parágrafos anteriores, aplaudir o goleador é fácil. Difícil é admitir que Pavón foi fundamental para a virada do Grêmio na partida de hoje. A entrada dele, ainda no primeiro tempo, após a lesão precoce de Alysson, mudou o domínio do jogo, que até então era do adversário. O atacante argentino, que por muitas razões causou desconforto no torcedor e foi vaiado com frequência — a meu ver, de forma exagerada —, fez o Grêmio melhor no ataque.

Quando falo das vaias, é porque, mesmo quando não conseguia apresentar um futebol mais qualificado — às vezes autor de jogadas bizarras —, Pavón sempre me mostrou algo que valorizo na vida: um esforço descomunal, uma entrega acima da média, uma dedicação que merecia ser recompensada com algo melhor. Hoje, ele foi premiado. E nós também.

Na noite em que o Grêmio, definitivamente, passou a ser o dono da Nossa Arena, o placar foi 2 a 0, mas o resultado maior foi outro: o reencontro com o prazer de ver o Grêmio jogar futebol.

Avalanche Tricolor: do inferno astral ao céu tricolor

Grêmio 3×1 Vitória
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

André comemora o primeiro gol Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

De repente, o que parecia um destino cruel começou a se desenhar em cores mais vivas. Sorte? Astros? Ou apenas futebol jogado com alma? O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche deve se lembrar que, às vésperas do aniversário gremista, eu falava de um tal “inferno astral”. Era tanto tropeço, tanta desclassificação e tanto perrengue que nem a astrologia parecia capaz de explicar.

Pois não é que, depois da festa, vencemos um Gre-Nal nas circunstâncias que vencemos, arrancamos um ponto improvável contra o atual campeão brasileiro e agora somamos mais três, dando um salto na tabela? Obra dos céus ou da bola?

Sem nunca esquecer que somos “imortais tricolores”, prefiro deixar de lado as explicações celestes. As razões estão aqui mesmo, no gramado. Uma delas atende pelo nome de Arthur, o filho pródigo. Ao voltar para casa, trouxe talento, cadência e ordem ao nosso meio-campo. Seja recuado, ajudando a defesa, seja avançado, ditando passes no ataque, ele nos lembra que quando há qualidade, a bola sempre encontra o melhor caminho.

Outro nome que se impõe é Marcos Rocha. Líder, dono de bom passe e especialista em transformar um arremesso lateral em estratégia de ataque. Foi assim que nasceu o primeiro gol, concluído pelo jovem André Henrique.

Também pesa a experiência de Mano Menezes. Mesmo sob críticas constantes, ele observa o cotidiano dos treinos e arrisca soluções que nem sempre agradam ao torcedor. Depois do empate sofrido, foram justamente suas mudanças que nos levaram à vitória. Trouxe de volta Cristaldo e Amuzu, nomes em quem poucos ainda acreditavam. E os dois corresponderam: Cristaldo com visão de jogo, Amuzu com drible e coragem. O belga fez o segundo gol e ainda serviu Aravena para o terceiro – atacante chileno que escolhido por Mano ao perceber que André Henrique não tinha mais fôlego para permanecer em campo. 

Seja pela lógica da bola ou pela magia dos céus, o torcedor voltou a sorrir. E se a tabela começa a nos mostrar caminhos para a Libertadores, que assim seja: sonhar é, afinal, parte da alma tricolor.

Avalanche Tricolor: um gol para Walter Kannemann

Grêmio 1×1 Botafogo
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Reprodução do canal Premiere

Thiago Volpi que me perdoe — e sei que há de entender —, mas se pudesse dedicar esse gol de empate no minuto final, entregaria a autoria a Walter Kannemann. O capitão do Grêmio fez uma partida colossal dentro da área: ganhou todas as disputas, não deixou sobrar espaço para os atacantes e lutou do jeito que só ele sabe lutar.

Logo no primeiro contra-ataque inimigo, ainda no início, foi Kannemann quem se atirou contra o adversário de forma espalhafatosa e necessária, impedindo a finalização certeira contra o nosso gol. A cena parecia a de um guarda-costas se jogando na frente do protegido para deter a bala fatal. No caso, a bola fatal. Minutos depois, já estava ele do outro lado, na área ofensiva, chutando forte e obrigando o goleiro rival a fazer defesa complicada.

Durante toda a partida, foi Kannemann quem mais bem representou o desejo do torcedor: devolver ao Grêmio o caminho da vitória em casa. Nos últimos três jogos na Arena havíamos perdido dois, empatado um e, pior, não marcado nenhum gol — sequência absurda para quem sempre transformou o estádio em diferencial.

Nada, no entanto, foi tão Kannemann quanto o momento em que ele arrancou do árbitro a marcação do pênalti que nos deu o empate. A bola mal havia saído para escanteio e nosso zagueiro já corria em direção ao juiz, gesticulando, denunciando a infração.

Sim, foi ele quem marcou aquele pênalti. Havia árbitro em campo, auxiliar na beira do gramado e VAR com câmeras de todos os ângulos. Mas, sinceramente, duvido que alguém tivesse visto a irregularidade se não fosse a eloquência do nosso capitão. O gestual teatral, a dança quase grotesca imitando o movimento dos homens da barreira, a braçadeira erguida com orgulho quando o juiz o mandou calar — tudo isso foi decisivo para que ninguém ousasse ignorar o que acontecera.

Kannemann brigou como um soldado disposto a morrer pela batalha, até a confirmação da penalidade. Depois, restou a Thiago Volpi a execução perfeita: frio, sereno, certeiro na cobrança, como já havia feito no Maracanã em situação semelhante.

Volpi tem nossos aplausos, claro, pelo que tem feito e decidido a nosso favor. Mas Kannemann, ah, esse merece uma homenagem especial. Foi ele quem transformou o empate em conquista, num jogo em que o resultado teve gosto de alívio diante da fase recente na competição. Ainda não ganhamos em casa, como desejávamos, mas como não vibrar ao assistir à bravura de Kannemann nos permitindo seguir em frente no Campeonato Brasileiro.

Avalanche Tricolor: o dia em que o Grêmio voltou a ser Imortal!

Inter 2×3 Grêmio
Brasileiro – Beira-Rio, Porto Alegre/RS

A foto é do mago das lentes: Richard Dücker @ducker_gremio

É difícil até saber por onde começar. Talvez pelas lágrimas que encheram meus olhos no apito final — daquelas que há muito tempo os resultados e o futebol jogado não me proporcionavam. Penso, porém, que seria egoísta começar por esse sentimento tão meu, após uma partida em que a força do coletivo se expressou de forma gigantesca.

Imagino que muitos artigos de jornais e mesas redondas de fim de domingo se dedicarão às decisões do árbitro que marcou três pênaltis contra o Grêmio. Três! Dois deles sequer percebidos em campo. Ainda expulsou Arthur ao reverter o cartão amarelo que ele mesmo havia considerado correto no momento da jogada. Vamos convir: ao fim, as marcações controversas só tornaram nossa conquista ainda maior. Não gastarei mais do que este parágrafo com esse descalabro.

Poderia começar pelo fim de uma sequência de oito Grenais sem vencer — a última vez havia sido em maio de 2023, na Arena, pelo Campeonato Brasileiro, época em que Suárez era nosso craque (3×1). Na casa do adversário, a distância de uma vitória era ainda maior: março de 2022 (0x3). Mas, convenhamos, o que são estatísticas senão números de um tempo que já passou? O passado é referência, eu sei. Mas não é suficiente para explicar a alegria do presente.

Os personagens do clássico deste fim de tarde de pôr do sol exuberante talvez merecessem o destaque inicial desta Avalanche. Carlos Vinícius, que marcou um gol após um ano e meio, logo em seu primeiro Gre-Nal, empatando a partida depois de termos sofrido o primeiro pênalti. E, para tornar tudo mais dramático, saiu lesionado em seguida. Ou André Henrique, o centroavante com a cara da humildade, que apareceu entre os zagueiros e empatou de cabeça após o segundo gol de pênalti deles — eles só fizeram gol de pênalti, né?

Ou Alysson, que precisou de apenas 45 segundos em campo para disparar, driblar os marcadores e mandar a bola no “fundo do poço” (saudade de ti, pai!). Apenas o segundo dele no time principal. O da virada. O da vitória — mesmo com mais um pênalti para eles antes do apito final.

Ou Willian, que estreou no Gre-Nal, participou diretamente dos dois primeiros gols e pode se transformar em peça importante na arrancada final do campeonato.

Ou Thiago Volpi, que fez ao menos três defesas muito difíceis, especialmente no segundo tempo, e impediu o empate quando já estávamos com um a menos. Teve ainda a sorte de ver a bola explodir no poste no último pênalti cobrado pelo adversário. Sim, foram três pênaltis contra o Grêmio!

Caro e cada vez mais raro leitor: começar esta Avalanche pelas minhas lágrimas, pelas decisões do árbitro, pelo fim de uma invencibilidade ou pelo brilho individual de quem vestiu a camisa do Grêmio não seria justo o suficiente para o feito deste domingo.

Se há algo que precisa ser exaltado logo de início é a retomada de uma mística. Aquele fenômeno que nos acompanha ao longo da história. Que surge quando o possível já não basta. Quando tudo conspira contra nós. Porque nada é maior do que o Grêmio, que volta a ser Imortal.

Sim, o Grêmio Imortal é que deveria abrir esta Avalanche. Mas é melhor eu encerrar por aqui, antes que o árbitro marque mais um pênalti contra a gente.

Avalanche Tricolor: uma vitória a Fernandão

Atlético MG 1×3 Grêmio
Brasileiro – Arena MRV, Belo Horizonte MG

Balbuena comemora o gol da virada. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

17 de agosto de 2025. Guarde essa data, torcedor gremista! Tende a ser definitiva nos destinos do Grêmio, nesta titubeante temporada que estamos encarando. Para o calendário futebolístico, é o início da metade final do Campeonato Brasileiro. Um momento crucial para as pretensões de qualquer clube, em especial daqueles que, como nós, estão na parte de baixo da tabela. Se há um momento de reação, a hora é agora. E o Grêmio reagiu!

Lá em Minas, em momento de extrema tensão e pressão, superou-se e venceu de virada o adversário que contava com o apoio maciço de sua torcida. O Grêmio foi a campo depois de ter sido alvo de injustificáveis agressões por parte de um grupo violento de pessoas que se identifica como gremista. Esses trogloditas, que têm de ser expulsos da Arena e do clube, se sócios forem, invadiram a área reservada à delegação no aeroporto Salgado Filho, antes do embarque para Belo Horizonte. Atacaram o ônibus, ameaçaram agredir os jogadores e feriram Luis Fernando Cardoso, conhecido como Fernandão, segurança do Grêmio e da seleção brasileira.

Fernandão é uma dessas personagens que surgem no futebol e ganham destaque sem precisar entrar em campo ou jogar bola. Seu caráter e a excelência do seu trabalho se expressaram ao longo do tempo. Está onde o Grêmio estiver — menos neste fim de semana, quando precisou ficar em Porto Alegre, afastado pela violência da qual foi vítima. Seguidamente é visto na beira do gramado na saída dos jogadores; sempre que aparece alguma treta no caminho para os vestiários, lá está ele para proteger a todos. Ao contrário do que possa estar no imaginário de qualquer um de nós, é o tipo de segurança que está lá para cuidar das pessoas, não para agredir.

Lembro do carinho com que Fernandão tratou meu pai quando fomos à Arena do Grêmio comemorar seus 80 anos de vida. No fim da partida, estávamos a caminho do vestiário, onde o pai receberia de presente uma camiseta do tricolor, das mãos da diretoria e da comissão técnica. Fomos parados em uma das barreiras necessárias para controlar a movimentação de pessoas. E, sem que precisássemos dizer uma só palavra, assim que ele percebeu a presença do pai fez questão de se dirigir até nós e pedir licença a todos para que dessem passagem ao que ele tratou como uma lenda do jornalismo esportivo: “este é o grande Milton Ferretti Jung”. Um ato singelo que ficou no coração de todos nós.

Fernandão já deverá estar de volta à ativa para receber a delegação que chegará em Porto Alegre com uma rara vitória fora de casa na bagagem. Rara e muito importante, especialmente pela maneira como foi construída. Havia uma aparente consistência defensiva quando tomamos o primeiro gol — e como temos levado golaços nestes últimos tempos.

Parecia que estávamos prestes a assistir a mais uma derrota. Porém, sem desistir, conseguimos o empate ainda no primeiro tempo, com Edenilson cabeceando para as redes depois de uma cobrança de escanteio. No segundo tempo, mais uma vez, de uma bola que veio do escanteio, Balbuena aproveitou a sobra e virou o placar a nosso favor. Receosos — gato escaldado tem medo de água fria — só acreditamos que a vitória seria nossa após Aravena completar nas redes uma assistência de André Henrique, a partir de jogada iniciada por Riquelme no meio de campo.

Essa vitória — e por isso convido você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, a registrar a data de hoje — pode ser o ponto de inflexão que o Grêmio precisava para se recuperar de uma temporada ruim. Que seja também uma vitória dedicada ao Fernandão, símbolo de proteção, caráter e resistência gremista.

Avalanche Tricolor: amor que empata, mas não esfria

Grêmio 1×1 Corinthians

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Foi no Dia dos Namorados que o Grêmio entrou em campo para enfrentar o Corinthians. Um a um, placar final. Um empate que, à primeira vista, parece pouco para quem jogou em casa. Mas quem ama sabe: nem todo encontro precisa ser vitória esmagadora. Às vezes, o que vale mesmo é não sair derrotado.

Essa partida foi mais do que futebol. Foi quase um jantar a dois, daqueles em que os dois lados evitam discussões maiores, escorregam num ou outro erro, mas permanecem sentados à mesa. O Grêmio, que vinha tropeçando muito no Campeonato Brasileiro, resistiu. E resistência, numa fase dessas, é mais do que suficiente para manter acesa a chama.

Sim, tem quem diga que empatar em casa é tropeço. Pode até ser, tecnicamente falando. Mas para quem, como eu, vive esse relacionamento de décadas com o tricolor gaúcho, há algo mais profundo. Quando a maré anda brava, o que importa é não deixar o barco virar. E o Grêmio não virou. Manteve a invencibilidade dos últimos jogos — há cinco partidas não perdemos . E isso já é uma forma de cuidado, de reencontro com um pouco de estabilidade.

Mano Menezes agora terá tempo com a parada para a Copa do Mundo de Clubes. E tempo, todo casal sabe, é matéria-prima do recomeço. Com tempo, ajeita-se a defesa, melhora-se o entrosamento, encontra-se o tom certo da conversa entre meio-campo e ataque. Com tempo, o amor reencontra seu jeito de jogar.

Amar um time é como viver um relacionamento longo. Há momentos de paixão arrebatadora, títulos levantados como declarações públicas de afeto. E há fases de silêncio, de desentendimentos, de expectativas frustradas. Mas a gente permanece. Não por teimosia, mas por compromisso. Por memória. Por promessa.

No Dia dos Namorados, o Grêmio me presenteou com um empate. Não foi buquê nem bombom. Foi apenas o sinal de que, apesar das falhas e da fase, ainda estamos juntos. E isso, convenhamos, também é uma forma de amor.

Avalanche Tricolor: o Grêmio venceu!

Grêmio 1×0 Bahia — Campeonato Brasileiro
Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Kannemann é um dos nossos méritos. Foto: Lucas Uebel/GremioFBPA

Fazia tanto tempo que eu não via um árbitro marcar pênalti para o Grêmio que, no primeiro momento, nem reconheci o lance como tal — entenda como quiser essa frase. A verdade é que não temos o luxo de discutir as circunstâncias de uma vitória — elas têm sido raras demais. Esta foi apenas a segunda nas últimas treze partidas.

Apesar das limitações repetidas e dos riscos desnecessários de sempre, o Grêmio teve alguns méritos neste início de domingo. A resiliência diante de um adversário mais organizado e com talento no meio-campo foi um deles. E não dá para reclamar da entrega dos nossos jogadores que, visivelmente, têm redobrado esforços para impedir qualquer triunfo adversário. Surpreendentemente, hoje, não tomamos gol. Mesmo aqueles que, ao receberem a bola, parecem não saber exatamente para que serve aquele objeto, correm intensamente no gramado — registre-se: o mais feio da Série A do Campeonato Brasileiro.

Christian Oliveira, pelo lado direito, também está na restrita lista de méritos gremistas. Pena que não tenhamos sido competentes para transformar seus dribles e cruzamentos em finalizações. Ao lado dele, Kannemann. Apesar das duas cirurgias recentes e dos 34 anos, continua um exemplo de dedicação. Vê-lo protagonizando jogadas ofensivas — hoje, deu chapéu, cruzou para a área e ainda deu assistência — revela tanto o destemor do nosso zagueiro quanto o grau de desorganização que ainda nos define. Tem ainda a cobrança de pênalti certeira nas redes de Braithwait — um surpresa se pensarmos que nossos jogadores não têm tido o costume de ver árbitros apitando pênalti a nosso favor.

Por fim, é claro, os três pontos. Conquistados a despeito de todas as condições, são o que temos a comemorar, por enquanto. O Grêmio venceu! Portanto, que comemoremos!

Avalanche Tricolor: aprendendo a salivar no amargo

Grêmio 1×1 Godoy Cruz
Sul-Americana – Arena do Grêmio

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O sabor do empate já foi tema desta Avalanche em outras ocasiões. Foram tantas as vezes em que saímos de campo com esse estranho resultado no placar, que ele já começa a parecer rotina. Cada um azeda nossa boca de uma forma diferente. Alguns são absorvidos com a acidez amarga de um café queimado no fim do expediente. Outros se parecem com o vinagre branco, seco e implacável, que desce cortando, como quem não aceita réplica. Da mesma forma que os empates, há azedos que despertam, outros que ardem.

Perdi a conta — e não vou me dar o trabalho de rever — da quantidade de vezes que saímos à frente e fomos incapazes de manter a vitória em nossas mãos, nesta temporada. O fato é que me esforço para tirar de cada um desses empates algum ensinamento e um pouco de esperança. No desta noite, em Porto Alegre, a dupla Braithwaite e Arezo, com o dinamarquês jogando de ‘meio-atacante’ — é assim que se chama quem fica naquela posição? —, sinalizou que pode evoluir à medida que insistirmos nessa formação. Talvez não seja a solução, mas é uma opção.

Sei que tem torcedor que não reconhece, mas é evidente que o time está num esforço desmedido para oferecer mais. Percebe-se uma doação da alma para que a bola seja alcançada, a jogada se complete e, especialmente, o adversário não nos imponha risco. Não existe acomodamento. O treinador tenta de um jeito, escala de outro, explora o potencial de cada jogador que tem à disposição… aí vêm as lesões — hoje, os dois laterais direitos saíram machucados de campo; aparecem os tropeços, os limites técnicos acabam se impondo e, mesmo quem pode entregar talento, sucumbe. Nem vou falar do descaso dos árbitros com as infrações que poderiam nos beneficiar.

Como, porém, fui forjado na sofrência de um time que carrega a alcunha de “Imortal”, fique certo, caro e cada vez mais raro leitor: mesmo com o azedume do empate (mais um empate), agora na Sul-Americana, sou capaz de lembrar que o gosto da vida não precisa ser suave para ser bom. Como disse na abertura desta conversa, o azedo incomoda, mas também desperta. Faz salivar, limpa os excessos, realça o que estava apagado. É o gosto do estranhamento que, quando aceito, vira prazer.

Sigo à espera de salivar o sabor da vitória.

Avalanche Tricolor: o desafio de Mano e Felipão

CSA 3×2 Grêmio
Copa do Brasil – Rei Pelé, Maceió (AL)

Foto: Lucas Uebel / Grêmio FBPA

Mano Menezes e Luiz Felipe Scolari terão muito trabalho pela frente. A tarefa da dupla de velhos conhecidos do torcedor gremista vai além do posicionamento tático em campo. A impressão é que os jogadores perderam completamente a autoestima — e isso impacta de forma contundente a confiança nas decisões tomadas durante as partidas.

Na noite de hoje, mesmo considerando que jogamos fora de casa e diante de uma torcida ensandecida, é impossível ignorar que enfrentamos um time da Série C. Nas fases anteriores da Copa do Brasil, nossas classificações também foram sofridas contra adversários distantes da elite do futebol brasileiro.

É preciso reconhecer que vivemos um novo momento. Mano chegou há pouco mais de uma semana. Felipão desembarcou de madrugada em Maceió para iniciar seu trabalho na coordenação técnica. O elenco mal teve tempo para treinar e assimilar as ideias do treinador. O ajuste acontece durante os jogos.

Com boa vontade, é possível identificar mudanças de comportamento e posicionamento em campo, em comparação ao que víamos sob o comando de Quinteros. Ainda assim, seguem evidentes — e fatais — as falhas de marcação e a dificuldade de afastar a bola da nossa área. A todo momento, o adversário ameaça nosso gol. E, de tanto insistir, acaba sendo recompensado. Desta vez, nem o empate conseguimos manter, mesmo após termos virado o placar.

Alguns jogadores parecem receosos ao receber a bola. Têm medo de arriscar jogadas mais ousadas e hesitam na escolha dos passes que podem levar ao ataque. Quando pressionados, sofrem para afastar o perigo e cometem faltas desnecessárias, como se esse fosse o único recurso para frear o adversário.

Resgatar a confiança do elenco e dar um mínimo de organização tática ao time são os grandes desafios de Mano e Felipão. Resta-nos, mais uma vez, acreditar que a história e a experiência de ambos sejam suficientes para superar as limitações que o Grêmio tem apresentado nesta temporada.

Avalanche Tricolor: devolvam o meu Grêmio!

Mirassol 4×1 Grêmio
Brasileiro – Campos Maia, Mirassol (SP)

Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Uma vergonha! Uma vergonha atrás da outra.

Despindo-me de qualquer romantismo, a campanha do Grêmio na atual temporada é medíocre — a despeito de tudo que, apaixonadamente, já escrevi até aqui.

Fui logrado pela ilusão, levado pela história de superação que sempre foi motivo de orgulho do nosso torcedor. Enxerguei heroísmo e bravura em resultados que deveriam ter sido alcançados com facilidade — como nos dois primeiros jogos da Copa do Brasil, contra equipes sem nenhuma expressão.

No Gaúcho, fechei os olhos para o fato de que nossos melhores desempenhos foram contra times de categorias inferiores. Diante dos dois clubes da Série A, primeiro quase perdemos a classificação à final e, depois, fomos superados com extrema facilidade — especialmente diante da nossa torcida.

Na Sul-Americana, onde sustentamos uma campanha invicta e com duas vitórias, minhas alegrias esconderam a fragilidade dos adversários que enfrentamos. O principal teste ainda está por vir, na próxima semana.

No Brasileiro, após uma vitória improvável na estreia — considerando as falhas cometidas no início da partida — acumulamos uma sequência de derrotas. A mais vexaminosa aconteceu na noite desta quarta-feira, no interior paulista: uma goleada sofrida contra um time estreante na Série A, que ainda não havia vencido nenhum jogo na competição.

Minha paixão cega pelo Grêmio não me permitiu entender o que estava acontecendo na (des)construção do time. Bastavam alguns rompantes individuais de jogadores mais comprometidos com o clube para que eu acreditasse que, a partir dali, viria uma reação. Entusiasmo fugaz!

Hoje, os erros do Grêmio foram escancarados. A marcação é frouxa, feita à distância. O posicionamento defensivo é frágil. Bastam alguns toques de bola para o adversário aparecer na frente do gol. No instante em que recuperamos a bola, a desarticulação se manifesta em passes errados e movimentos sem sintonia. A impressão é de que cada jogador busca uma solução por conta própria. Até nas bolas paradas, como nos escanteios, percebe-se que não há uma ideia a ser executada: cruza-se na área e torce-se para que algo dê certo. Nada dá certo!

O Grêmio que estamos vendo nesta temporada não merece a presença do seu torcedor no estádio — o que explica muito do que falamos na edição dominical desta Avalanche. Parece um time qualquer, irreconhecível, que sequestrou o manto tricolor para entrar em campo. Veste nossa camisa tradicional, mas se despiu da nossa história.

Por favor, devolvam o meu Grêmio!
Antes que a torcida esqueça como é vestir a alma junto com a camisa.
Antes que a paixão silencie.
Antes que a imortalidade vire apenas uma lenda esquecida nos muros da Arena.