Conte Sua História de SP: o prédio

 

Por Suely A. Schraner

 

 

A tarde trazia consigo melancolia de pôr-do-sol. Andara o dia todo.
As têmperas latejando. Britadeira batucando do outro lado da rua.
Demolira planos. Rompera ilusões. Nadara em águas revoltas. Nebulosas da memória. Mistura de vinho com Rivotril, as suas sinapses poéticas.

 

Ávidos edifícios o espreitam.

 

Pele de vidro e frita aves. Caleidoscópio lancinante. Lugarzinho inabitável. Áreas descomunais. A planta letal. A vida por um fio é que dá força para amar. Certificar o nada.

 

O desespero a um passo da felicidade.

 

Deu por si e estava diante dela.

 

“Não esperava te encontrar aqui”. “Ah, bem sabe que minha vida é nos cascos”. “Sei, nos sapatos e na cama”. “Andou chorando?”

 

Abaixa os olhos. “Cisco”.

 

Sinto que gostaria de me beijar. “Diga-me, será que desta vez conseguiremos? “O não, nós já temos. Agora, é tentar o sim”.

 

Passam despercebidos.

 

No andar, começara a sentir-se mal. “Você está doente? “Cisco”. Tá brincando! “Sinta o cheiro”. De morte? “Não amole, é cheiro de felicidade”.

 

Embolados. “Sabia que o corpo fala? Ás vezes faz bem ficar doente”. “É a vida chamando a atenção da gente”. Tem o dinheiro?

 

“Daqui dez dias”. “Dez dias não é possível. Até lá…”

 

Saem.

 

O sol se escondera detrás do prédio.

 

Espelhado e colorido.

 

Caleidoscópio onírico. Na planta ou próprio para morar. A vida alucinada. Certificação AQUA- alta qualidade ambiental. Áreas comuns generosas.

 

A felicidade a um passo do desespero.

 


O predio ou Suely Schraner é personagem do Conte Sua Historia de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Esta história foi reproduzida no CBN SP há dois anos, porém jamais havia sido publicada no blog. Aproveito o aniversário de São Paulo para compartilhar com você

Conte Sua História de SP: minha cidade caleidoscópica

 

Por Carolina de Medeiros Cecatto

 

A São Paulo em que nasci é a cidade onde vou trabalhar desde os meus vinte anos. Não que eu tenha longeva idade, mas desde pequena já dava meus passinhos por ela. Aos 7, fazia exames na Vila Mariana, bairro em que nasci por sinal, porque logo precisei usar óculos e tampão. E minha nossa! Ia com minha mãe de metrô, e como eu adorava aquilo! Nunca achei em minha vida que entenderia os entremeios das linhas daquela lombriga de ferro – assim como nunca imaginei que essas linhas cresceriam tanto como agora, tanto como eu cresci.

 

Hoje, domino e escolho as plataformas, guiada às vezes pelo instinto das grandes massas, costurando entre elas, vislumbrando pessoas, paisagens e concretos: são os violinistas das estações de metrô, é aquela avenida de uma vida inteira chamada Paulista, são os adolescentes de cabelos coloridos e fãs de mangá nas escadarias da Liberdade, é o verde imperial do Parque da Independência, é o corre-corre, o compra-compra da 25 de Março, é a miscelânea abençoada de coisas que vejo e reparo e que me fazem sentir mais deslumbrada.

 

O lugar mais cosmopolita, de gente mais desconfiada, é a cidade mais acolhedora, acredite! Nos dias de chuva fica mais poética, mais indiferente e triste, mas é esse o seu charme. É de se ver o colorido da noite nas baladas, corpos e sinestesia e fluidos, é nelas que vinga um pouco de Sampa. Bate também o coração dessa cidade com o tráfego diário de carros, buzinas e xingamentos, e aquela palavrinha que todo paulistano detesta já é praxe: congestionamento.

 

Vibra a cidade com seus vários times valentes e pioneiros, além de tudo tradicionais, que jogam bola e dão brilho e paixão nos olhos da gente. Permeiam seus muros os grafites psicodélicos, sem contar as calçadas e as ruas com várias pernas malabares sobre seus skates e patins, a correria para pegar o ônibus – o lindo caos diário que tudo isso encerra!

 

É a cidade cheia de registros, de mistura fina, de seriedade, de inegável disposição, de comércio, da pizza mais gostosa, dos edifícios mais audazes e cinzas, da gente mais diversa e colorida. É a cidade que não desliga, nem pisca. É a minha São Paulo caleidoscópica.