Avalanche Tricolor: um jogo para matar a saudade!

Grêmio 3×0 Cruzeiro

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Jogadores comemoram gol em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Teve Geromel de volta. E com a braçadeira de capitão. Mais do que isso, com Kannemann também recuperado, tivemos o retorno da melhor dupla de zaga que já vestiu a camisa do Grêmio, neste século. Que enquanto esteve em campo não perdeu uma só disputa de bola. Adiantou-se ao marcador para impedir a sequência da jogada. Despachou o perigo quando o lançamento chegou a nossa área. E nos fez relembrar a imagem clássica deles levantando todos os troféus que conquistamos na última década. 

Teve Luan no meio de campo vestindo a camisa 7, mesmo que apenas nos 15 minutos finais. Ouvir a torcida gritando seu nome, pedindo para que entrasse, já valia o ingresso. Diferentemente da primeira vez em que retornou ao time, foi mais acionado. Tocou a bola com leveza. Tabelou com seus colegas. Cadenciou o jogo. Esforçou-se na marcação. E acionou na mente de cada um de nós — caros e raros gremistas que leem esta Avalanche — uma série de cenas inesquecíveis de quando fomos campeões da Libertadores e  Luan, o Rei da América.

Foi um jogo para, também, matar a saudade recente de Suárez que estava há oito partidas sem marcar o seu, coisa rara na jornada esportiva do terceiro maior goleador em atividade no mundo. Registre-se: não ter feito gols diz muito mais de como atuamos nas últimas partidas do que propriamente do desempenho do atacante; assim como não diminuiu sua importância no elenco a medida que nos faz muito maior sempre que está em campo. Agora, em 36 partidas, Suárez marcou 14 gols e deu 11 assistências. Um prazer que poucos torcedores no mundo terão para contar.

O jogo deste fim de domingo, que nos elevou a terceira posição do Campeonato Brasileiro, mexeu com essa emoção nem sempre fácil de definir: a saudade. Até o toque de bola no meio de campo que se sobrepôs ao do adversário nos remeteu às glórias mais recentes. A começar pelo talento de Pepê que comparam com o de Michael, outro genial que vestiu nossa camisa e nos levou aos últimos grandes títulos. Foi dele, Pepê, o terceiro gol em uma jogada que nos fez lembrar os bons tempos de triangulação, aproximação e forte movimentação no ataque.

A categoria de Pepê fez fluir melhor o futebol de Villasanti, Carballo e Cristaldo — os dois últimos com participações decisivas nos gols da vitória. Cristaldo foi quem, no primeiro gol, roubou a bola no ataque e serviu Suárez; e quem, no segundo, bateu a falta com rapidez, encontrou Suárez que de calcanhar entregou para Carballo colocar com categoria nas redes.

O Grêmio, hoje, foi um time que matou a minha saudade! 

Avalanche Tricolor: um recado ao grupo de WhatsApp

Santos 2×1 Grêmio

Brasileiro – Vila Belmiro, Santos/SP

Foto de Lucas Uebal GrêmioFBPA

Quem me conhece bem sabe que quase não abro espaço a grupos de WhastApp em meu celular. É estratégia para preservar a sanidade. Uma forma de silenciar o barulho das redes sociais e ser menos impactado pelo contágio emocional que a vida em bando provoca. Quando uma pessoa expressa uma emoção forte como medo, empolgação ou raiva tende a insuflar esse mesmo estado psicológico em seus pares. Pessoas aparentemente tranquilas podem ter reações extemporâneas e radicais se envolvidas por um coletivo que reforça suas convicções e pensamentos. É em parte o que acontece em um estádio de futebol no instante em que cidadãos pacíficos fazem coro aos torcedores que ofendem o árbitro, o adversário ou o jogador que pisa na bola (ou esquece que ela está em jogo).

Mesmo que não acredite em grupos de WhastApp que eles existem, existem. Poucos, mas estão lá no meu celular e se movimentam ativamente conforme a situação. Hoje, minha tela não parava de piscar com as notificações de um desses grupos — claro, aquele formado por gremistas –, especialmente após os 17 minutos do segundo tempo quando se iniciou a “contra virada” (será que posso chamar assim quando meu time sai na frente e entrega o jogo depois?). Aos 44 do segundo tempo, após a pataquada dos nossos jogadores, o que era pisca-pisca virou luz estroboscópica. A prudência me fez virar o celular com a tela para baixo e me calar diante do que haveria de acontecer ao fim desta primeira rodada do returno do campeonato.

Preferi deixar que a turma do WhatsApp expressasse no silêncio do meu celular sua indignação perante a iminência da derrota que nos afastaria do líder e nos deixaria momentaneamente fora do G4 — grupo que almejamos ocupar para garantir vaga direta na Libertadores e ganhar um respiro no início da próxima temporada com uma preparação mais longa para a competição sul-americana. Não queria ser influenciado pelas opiniões catastróficas e as teorias de conspiração que costumam florescer nesses momentos de forte emoção. A bronca, a opinião exarcebada e a frase sangrada pela raiva se justificam por humanos que somos. Tanto quanto mais apaixonado, mais sensível se torna o nosso coração. Não pense que sou santo — ops, melhor não usar hoje esse adjetivo. Não pense que sou calmo mediante os acontecimentos do futebol. Assim como qualquer torcedor, alterno o vibrar e o esbravejar conforme o lance. Reclamo do árbitro nas marcações contra o meu time — mesmo que tenha de me redimir ao conferir o acerto dele no replay. 

Minha estratégia, porém, é clara. Jamais permitir que o movimento de bando me impulsione a dizer o que a razão não concorda. Da mesma forma que não faço cálculos antecipados que “provam” que seremos campeões após uma vitória incrível sobre um adversário de peso, me nego a ter previsões trágicas por causa de uma derrota impossível de admitir como a deste domingo. Mesmo porque, nesta altura do campeonato, o destino de cada time ainda não está traçado. Alguns até flertam desde o início com o rebaixamento e outros estão se aproximando cada vez mais desta faixa — sem nenhuma provocação, tá!?! Assim como há os que miram o topo da tabela e têm feito por merecer o lugar lá no alto. 

O Grêmio, que voltou a ter revés contra times da parte de baixo da competição, ainda tem muito a fazer para que possamos dizer com certeza qual será nosso lugar neste campeonato. Aquele elenco que nos colocou na vice-liderança foi reforçado para o returno com as novas contratações e a recuperação de lesionados. Acertá-lo e fazê-lo jogar de maneira coordenada mesmo quando há necessidade de substituições ao longo da partida é responsabilidade do comando técnico. Teremos mais tempo para fazer esse arranjo a medida que estamos agora dedicados ao Brasileiro, por força da desclassificação da Copa do Brasil, no meio da semana passada.

Quanto a você que por ventura esteja  gritando “Fora Renato” ou “desse jeito nem Libertadores” ou “o campeonato acabou para nós” ou “tem que botar todos estes que aí estão no banco” —- juro que não li meu grupo depois que a bola parou —, tenho certeza que vestirá a camisa tricolor no próximo domingo, vai correr para frente da televisão, ligar o rádio ou ocupar uma cadeira na Arena, e ressuscitará sua esperança logo que a bola começar a rolar, devolvendo ao nosso grupo de WhatsApp aquele clima saudável e de confiança que nos entusiasma a entrar logo cedo e desejar: “Bom dia, gremistada!”

Avalanche Tricolor: os “guri” estão de volta!

Grêmio 2×1 Fluminense

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

A festa do gol da virada em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Os “guri” voltam ao protagonismo. Da defesa ao ataque, foram eles os destaques desta vitória que nos repõe no G4 — enquanto escrevo esse texto, ainda somos vice-líder e com um jogo a menos do que os concorrentes diretos. Eles foram importantes tanto evitando como marcando gols. 

Gabriel Gandro, mesmo que ainda tenha seu nome visto com ressalva por parcela do torcedor, demonstra competência a cada partida. Fez defesas difíceis embaixo dos paus quando fomos pressionado e despachou a bola da área com segurança quando esta era a única opção. 

Nos dois gols que tomou — um deles salvo pelo VAR — foi mais vítima do que algoz. Saiu de campo com o troféu de “Craque da Partida” o que não é pouca coisa se considerarmos que tivemos um jogo de alto nível com jogadores demonstrando talento em diversos fundamentos e nos dois times. 

Tem confirmado a escolha da comissão técnica diante da crise de goleiros que sofremos recentemente, com casos de indisciplina e queda de produção de algumas das nossas principais promessas para a posição. Na conta de Gandro, claro, tem ainda a classificação para a semifinal da Copa do Brasil na defesa de pênaltis.

Guri que voltou a se destacar, após uma sequência de partidas abaixo da sua capacidade, foi Bitello que apareceu bem dentro da área para receber o passe preciso de Suárez e chutar cruzado no gol de empate. Mesmo que ainda não tenha retomado o futebol que o levou a ser titular indiscutível, ocupando uma posição no meio de campo ou no ataque, conforme o esquema escolhido pelo técnico, hoje foi bastante útil na marcação e nas arrancadas para o campo do adversário. 

(Em tempo, se alguém entre os raros e caros leitores desta Avalanche tiver o WhastApp do Bitello, por favor, passe esse recado para ele: em qualquer situação, sempre que partir para o ataque, mesmo que um companheiro esteja mais bem posicionado, mete a bola no Luis Suárez. Você nunca vai estar errado, guri!)

Da base, também, Ferreirinha tem se mostrado essencial para a retomada dos bons resultados nas duas competições que estão em jogo. Nesta tarde de domingo, marcou pela primeira vez desde que voltou de lesão. Até então aparecia bem na assistência e hoje completou na rede um belo chute dentro da área após troca de passe com Fábio, pela direita. Firma-se como titular e tem competência para desequilibrar a marcação e ser a “válvula de escape” nos contra-ataques. Não tem medo de decidir e isso faz diferença.

De todos os guris, o que provocou maior comoção não marcou nem evitou gols. Estava no banco e pouco tocou na bola nos minutos em que esteve em campo. Refiro-me a Luan, que já jogou futebol suficiente para ser tratado como “Rei da América” e retorna ao Grêmio após uma série de percalços na carreira. 

A torcida gritou o nome de Luan quando ainda estava prestes a substituir Bitello como para lembrá-lo de quem ele foi e de quem queremos que ele volte a ser um dia. Vê-lo recuperado e prestando bons serviços à camisa tricolor será o “estado da arte” de um personagem que fez história no Grêmio. A história dos “guri” do Grêmio!

Avalanche Tricolor: Lumumba tinha razão!

Vasco 1×0 Grêmio

Brasileiro – São Januário, RJ/RJ

Paulo Lumumba foi dessas figuras que marcaram sua vida com a camisa do Grêmio, mesmo que tenha passado por outros dois grandes tricolores brasileiros, São Paulo e Fluminense. Nascido no Sergipe, onde começou a jogar pelo Confiança, foi no Rio Grande do Sul que se estabeleceu e fez história. Batizado Paulo Otacílio de Souza ganhou apelido do líder político Patrice Lumumba que libertou o Congo da dominação belga, nos anos de 1960. Morreu em Porto Alegre, em 2010, quando estava com 74 anos.

Leia também a Avalanche Tricolor: se inspirem em Lumumba

Foi atacante de um dos maiores times que o Grêmio já formou, quase campeão da Taça Brasil de 1963 — só o Santos de Pelé foi capaz de nos parar na final — e heptacampeão estadual. Nas lembranças que tenho, conheci Lumumba já como auxiliar técnico de um dos muitos treinadores que passaram pelo Olímpico. Eu era apenas um guri levado pelo pai quase que diariamente ao estádio. 

Um das coisas que me chamavam atenção em Lumumba era a elegância com que ele caminhava pelas calçadas gremistas. Aquele negro retinto quase sempre com roupa esportiva, fazia do passeio pelos arredores do  Monumental um desfile. No gramado, entrava com pompa de majestade, como se revivesse a cada passada suas glórias. Tinha orgulho do que fez e das lutas que venceu em vida — não lhe faltavam motivos para tal. 

Com base na sua trajetória, foi conselheiro e ajudou muitos jovens jogadores e recém-chegados ao clube. Era minucioso ao orientar qual a melhor forma de bater na bola, o movimento para o passe preciso e, principalmente, de como se comportar. O que eu mais admirava era a maneira como Lumumba contava suas histórias e expressava seu conhecimento sobre as mais diversas coisas da vida.

Um dos ensinamentos que guardei — e certamente Lumumba ensinou fatos bem mais relevantes àqueles que puderam conviver com ele dentro do clube —- foi sobre um comportamento dos clubes do interior do Rio Grande do Sul. Dizia que esses times passavam uma temporada inteira se preparando para ganhar da dupla Gre-Nal e se esqueciam que havia outros adversário no meio do caminho. Para ele, geralmente esses times perdiam as competição estaduais não para o Grêmio ou para o Inter, mas naquelas partidas contra os clubes mais frágeis — onde os dois pontos (naquele tempo era apenas dois) deveriam ser garantidos.

O nome de Paulo Lumumba fez parte da conversa que tive com João Antônio, campeão brasileiro e da Copa do Brasil, nos anos de 1990, pelo Grêmio, há duas semanas, ao visitar Porto Alegre. No fim da tarde deste domingo, após ver o Grêmio em São Januário, voltei a relembrar daquele gremista histórico e seu ensinamento sobre o momento em que se costuma perder os campeonatos. Lumumba tinha razão!

Avalanche Tricolor: vamos falar de André, o 77

Goiás 1×1 Grêmio

Brasileiro – Serrinha, Goiânia/GO

André recebe o abraço de Suárez em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Tem nome de goleador. E não foi qualquer goleador. Vamos lembrar: André, sobrenome Catimba, foi quem marcou o gol histórico que nos deu o Campeonato Gaúcho de 1977. Rememorar aquela competição é voltar ao instante em que, ainda adolescente, tive a maior alegria que o Grêmio poderia me dar naqueles tempos. 

Aos gremistas, caros e raros que visitam esta Avalanche, é desnecessário descrever o que representou o título estadual, após amargarmos sete anos de perdas. Hoje, é óbvio, os tempos são outros. Não apenas porque passou como sempre o tempo passa, mas porque as pretensões do Grêmio são muito maiores do que apenas manter a hegemonia estadual.

O André de hoje é bem diferente daquele, também. Quando Catimba entrou para nossa história, tinha idade avançada, 31 anos. Era experiente. Rodado, como se fiz no futebol. Seu apelido era autoexplicativo. De estatura mediana, conseguia furar bloqueios com talento, raça e muita malandragem. Encarava qualquer grandalhão que se atravessasse no seu caminho.  

O de agora é um guri. Apenas 21 anos. Nem apelido tem (ao menos não que valha destaque quando está em campo). Quando muito é lembrado pelo nome composto: André Henrique. Tinha apenas passagem em clubes de pequena expressão: Capivariano, do interior de São Paulo, e os catarinenses Marcílio Dias e Hercílio Luz, onde estava quando foi surpreendido com um convite para jogar na Arena. 

”Caraca, o Grêmio, clube gigante de A” — pensou consigo mesmo, como confessou na primeira entrevista já vestindo a camisa tricolor, em abril deste ano. Até aquele momento, André analisava convites de clubes da série B, lá por Santa Catarina mesmo. 

Se jogar na A era sonho distante, imagine ser o jogador reverenciado e abraçado por um dos maiores artilheiros da história do futebol mundial. Hoje, ao marcar de cabeça, após cobrança de escanteio de Ferreirinha, aos 48 do segundo tempo, foi de Luis Suárez o primeiro e efusivo abraço que recebeu na comemoração do gol que impediu que o Grêmio fosse derrotado, no fim da rodada deste domingo. 

Para marcar seu segundo gol com a camisa do Grêmio —- para mim o terceiro e mais à frente explico o motivo —, André primeiro disputou pelo alto com o zagueiro adversário e forçou o escanteio. Na cobrança que veio da direita, estava bem colocado e subiu muito para se safar da marcação e girar a cabeça em direção a bola, em movimento clássico de quem sabe o que está fazendo, que entende do riscado. 

A primeira vez em que havia comemorado seu gol com o Grêmio foi em jogo já decidido, uma goleada contra o Coritiba, na décima segunda rodada do Campeonato Brasileiro. Bem mais importante do que esse gol, porém, foi o que marcou nas cobranças de pênalti que nos valeram uma vaga à semifinal da Copa do Brasil — e esse não entra nas estatísticas, erroneamente. Depois do empate no jogo corrido e na primeira série de pênaltis, coube a André abrir a cobrança alternada. Teve segurança e categoria para superar o goleiro, estufar a rede, colocar o Grêmio à frente e jogar a pressão para o adversário. Como você deve lembrar, Gandro defendeu a última cobrança e o Grêmio está na semifinal.

André jogou pouco até aqui. Em raras partidas saiu como titular. Na maioria das vezes, entra nos minutos finais. Hoje, foi a campo aos 38 do segundo tempo quando já estávamos atrás do marcador e o empate parecia difícil diante da falta de criatividade do time. Seu esforço e talento no cabeceio nos renderam um ponto importante na disputa acirrada pelas vagas da Libertadores. 

Se alcançará os feitos de seu xará dos anos de 1970 é muito cedo para afirmar. O fato é que aos poucos parece estar se sentindo cada vez mais à vontade e confiante com a camisa do Grêmio, o “clube gigante da A”. E leva nas costas uma feliz coincidência. O número 77 do ano em que o pai dele nasceu (e essa foi a razão da escolha que fez) e do ano em que André Catimba entrou para a história do Imortal. 

Avalanche Tricolor: eu vim ver o Grêmio e venci!

Grêmio 1×0 Atlético MG

Brasileiro – Arena Grêmio

Ronald comemora o gol da vitória em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Estar em Porto Alegre é estar em família. É reviver o passado. É relembrar a vida que se foi e me trouxe até aqui. É homenagear os que me legaram a carreira que percorri e reencontrar o principal protagonista da minha história nas casas que frequentei quando criança, nas ruas pelas quais passei na adolescência e nas esquinas que me provocavam a escolher um caminho em busca do amadurecimento — eu mesmo.

Todas essas sensações percorrem as veias e mexem com as emoções quando chego à cidade. Estando aqui não há como esquecer o quanto minha história com o Grêmio foi importante — mais do que o time de futebol, aquele espaço que hoje é ruínas, muito próximo da casa em que vivi e me abriga sempre que visito a capital gaúcha foi meu palco de vida, onde forjei parte da personalidade que me representa, construí relações familiares e fraternais e aprendi a valorizar tanto vitórias quanto derrotas.

Estar na Arena, na noite desse sábado, ao lado do Christian, meu irmão, e da Jacque, minha irmã, é evocar aos céus a presença daquele que me fez gente e gremista — meu pai, que nos deixou há quatro anos em um 28 de julho. Por isso, mais do que o resultado, o que me importava era a solenidade do ato: vestir a camisa do Grêmio, sair de casa em direção ao estádio com meus irmãos, sentar-me em uma cadeira e ao lado deles torcer pelo que desse e viesse.

Veio uma vitória que nos projetou à vice-liderança do Campeonato Brasileiro. Vitória sofrida! Nem tanto pela forma como se construiu. O gol chegou cedo em uma cobrança de escanteio que foi concluída nas redes por Ronald, de apenas 20 anos, que está no clube desde pequeno e estreou hoje realizando o sonho de todos nós que já fomos um guri gremista.

O sofrimento deu-se na sequência quando o adversário se adonou da bola. Mesmo que não tenha sido capaz de transformar esse ato em superioridade técnica, exigiu uma atenção redobrada dos nossos marcadores. Nesse quesito, Walter Kannemann foi a referência do torcedor, foi gigante ao anular toda e qualquer tentativa de ataque. Nas vezes em que as ações passavam distante da intervenção de nosso zagueiro, Grando voltou a ser grande. Defendeu as bolas que por ventura não eram interceptadas por nossos defensores. E o fez mesmo naquelas em que o nível de dificuldade exigia rapidez e habilidade.

Saber sofrer é preciso. E o gremista ontem aprendeu mais um pouco. Entendeu o momento da equipe, apoiou do início ao fim, e comemorou de gol marcado a bola despachada pela lateral; de gol anulado a cartão amarelo para o adversário —- foi a primeira vez que assisti à revisão do VAR no estádio, e gostei, especialmente porque foi providencial. Sabia que os três pontos se faziam necessários e a torcida esteve ao lado do time — uma prévia do que acontecerá na quarta-feira, na Copa do Brasil. 

Nenhuma ausência no gramado me fez frustrar a expectativa de estar na Arena, porque vim a Porto Alegre, vi o Grêmio e venci (dentro e fora do campo)!

Avalanche Tricolor: com o Grêmio onde a internet estiver

Bahia 1×2 Grêmio

Campeonato Brasileiro – Arena Fonte Nova, Salvador/BA

Gustavo Martins comemora o gol da vitória em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Férias nunca me afastaram do Grêmio. Para acompanhar seu desempenho e seus resultados, usei de todos os artifícios que encontrei. Já “assisti” a partidas a bordo do navio e com internet à lenha (o máximo que conseguia era atualizar o placar em um site); investi em uma “caixa mágica” que replicava minha TV a cabo em qualquer parte do mundo; e, confesso, recorri a transmissões alternativas quando nada mais me restava. Nem sempre esse esforço foi recompensando. Uma passagem de olhos em Avalanches escritas em tempos de férias mostra quão difícil já foi nossa vida para manter a audiência e a torcida — derrotas retumbantes, performances frustrantes e placares desfavoráveis me ajudaram a escrever essas crônicas no exterior.

A vida hoje é bem mais simples. Pouco antes da meia-noite, aqui na Itália, acessei a internet, preenchi uma ou duas vezes os pedidos de confirmação de email e senha, e as imagens do canal Premier estavam à disposição na tela do computador. Verdade que a internet do hotel em Orbetello ameaçava me deixar na mão em alguns momentos, atrasando a conclusão da jogada para  aumentar minha ansiedade. Nada parecido com que já sofri no passado. 

Assim como a tecnologia avançou, o Grêmio e seu futebol, também. Mesmo com os riscos que sofremos e o gol de empate que tomamos ainda no primeiro tempo, o desempenho gremista nesse início de rodada de Campeonato Brasileiro foi muito bom. Comemorei até gol anulado pelo VAR. A jogada que fez Suárez concluir às redes, no que deveria ter sido o gol da vitória, foi simbólica, desde o passe de costas de Villasanti, o cruzamento em um só toque de Bitello até o chute de primeira de nosso atacante.

Nos deixamos dominar pelo adversário em parte do primeiro tempo, apesar de termos iniciado melhores e marcado logo de início através de Cristaldo. Voltamos no segundo tempo com uma intensidade alucinante. Fico pensando o que teriam conversado no vestiário para sermos capazes de retomar o ritmo e a forma brilhante de passar a bola, se deslocar, receber e chutar. 

Villa e Bitello foram incríveis. Suárez com todas as limitações físicas e visíveis, consegue ser muito superior a qualquer outro vivente que se atreva a jogar futebol. Cuiabano entrou muito bem.

A defesa, depois dos primeiros desacertos de posição, manteve-se segura e foi decisiva nos dois gols. No primeiro, a jogada começou com um desarme de Kannemann na intermediária adversária. E o segundo teve a conclusão do jovem Gustavo Martins — naquela altura do jogo, um zagueiro aparecer dentro da área para marcar é sinal de muita disposição, fôlego e crença. 

A ressaltar a assistência de Ferreirinha que entrou nos minutos finais, depois de uma lesão que o tirou por mais de três meses do time, e com drible e precisão nos proporcionou a oportunidade dos três pontos que nos mantém na vice-liderança do Campeonato Brasileiro — uma posição alcançada apesar de derrotas que havíamos sofrido contra dois dos principais concorrentes ao título, que seguem atras de nós. Aliás, uma verdade que apenas confirma o que sempre pensei nestas competições de longo alcance. O título jamais se conquista em um só jogo ou contra um só adversário — li muitos gremistas vaticinando o pior depois daqueles placares adversos (“nos restará o meio da tabela” e “temos times só pra não cair”  — não adianta apagar porque eu já li). É o equilíbrio e a constância das vitórias que mantém vivas as nossas chances.

Se seremos capazes de manter esse ritmo considerando as duas competições que temos pela frente e as dificuldades que a necessidade de dar folgas a Suárez e seu joelho direito pode gerar, só o tempo dirá. De minha parte, esteja onde estiver, sempre depositarei esperança na vitória e meu esforço será jamais perder um só jogo do Grêmio, claro, desde que a tecnologia siga colaborando (já basta ter ficado longe da goleada contra o Coritiba por causa de compromissos com o lançamento de “Escute, expresse e fale!”).

Avalanche Tricolor: o prazer de assistir a Luis Suárez com a camisa do Grêmio

Grêmio 3×1 América-MG

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Suárez comemora mais um gol em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

Vou te contar uma coisa. Há muito tempo não tinha tanto prazer em assistir ao Grêmio em campo. Nem é porque estamos jogando o melhor futebol do Brasil. Até porque não estamos. Esboçamos um bom jogo mas ainda há a necessidade de azeitar a máquina. Vemos a tentativa de um toque de bola mais refinado — e às vezes esse toque até aparece —, mas ainda tropeçamos na finalização do passe, do movimento ou do chute. 

Defensivamente também pecamos como no gol que abriu o placar e nos colocou em risco, nesta noite de quinta-feira. A bola foi cruzada no meio da pequena área e não havia razão de deixamos o zagueiro deles cabecear daquela forma contra as nossas redes. Foi o décimo sexto gol que tomamos em 11 partidas disputadas. É gol demais. E isso não me dá prazer. 

O prazer está mesmo em assistir a Luis Suárez com a camisa do Grêmio. Vê-lo caminhando com nosso grupo de jogadores pelo túnel que leva ao gramado da Arena é algo que ainda tenho dificuldade em acreditar. 

Quando a bola começa a rolar, desejo que haja uma câmera que apenas mire os movimentos do quarto maior atacante do mundo em atividade — sim, infelizmente, neste momento em que temos um Craque (assim mesmo, com letra maiúscula) em campo, só tenho a possibilidade de ver o Grêmio pela televisão. Se morasse em Porto Alegre, não faltaria um só dia de futebol na Arena.

Em tempo: por que a Arena não estava lotada nesta retomada do Campeonato Brasileiro? 

Pela TV, fico à espreita de Suárez. Quero entender o movimento que fará a medida que o time avança. Espero seu deslocamento e torço para que nossos jogadores o enxerguem e sejam capazes de colocar a bola no espaço em que ele ocupa. Vibro quando a bola chega aos seus pés e me deleito com a tentativa de drible, com o passe rápido, com a entrega de corpo, alma e dor que o nosso atacante oferece em cada lance que protagoniza. 

Suárez conseguiu fazer do lateral — a jogada mais desperdiçada do futebol mundial —- um lance de perigo, seja porque se desloca com rapidez para receber a bola, geralmente de Reinaldo, seja porque cobra a lateral, como fez na partida de hoje, se assim for necessário para agilizar o jogo. Sim, pode me chamar de deslumbrado, mas vibro até com a cobrança de lateral.

Tu podes até achar exagero de minha parte. Não é! 

Quando tu vês um cara com a estatura de Suárez cobrando lateral é porque esse cara está realmente muito comprometido com os objetivos do seu time. Claro que não é essa a diferença dele em campo. O que o faz genial são lances como o do segundo gol em que mete a bola do outro lado do ataque no pé de Reinaldo, que cruza para Villasanti cabecear e marcar. Ou o do terceiro em que ele recebe a bola e de primeira  encontra novamente Reinaldo (esse também esta jogando muito) do lado esquerdo. Imediatamente, corre em direção a área e se coloca em posição de receber, por trás da marcação, e bater forte em direção às redes. 

Sei lá por quanto tempo Suárez conseguirá vestir a camisa do Grêmio. Tentaram nos convencer de que o tempo já havia se esgotado. E ele, em campo, provou que é capaz de superar a dor  que sente no corpo e que causa nos invejosos. A expressão do seu rosto é reveladora. Não há como negar as dificuldades físicas que enfrenta. Até aqui, porém, se mostrou muito maior do que qualquer revés que surja no seu caminho.

A despeito do tempo que possa permanecer em campo ou na ativa, Suárez já cumpriu sua missão ao aceitar o convite de vestir o manto tricolor: nos deu o prazer de assistir a um dos maiores jogadores do planeta com a nossa camisa. E isso, caro e raro leitor desta Avalanche, não tem preço. E é para poucos!

Avalanche Tricolor: sofrer e vencer!

Grêmio 2×1 São Paulo

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Cristaldo comemora o primeiro gol. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Vencer era preciso. E o Grêmio venceu. Poderia ter sido mais bem resolvido pelo que mostramos no primeiro tempo. Porém, foi necessário virar o placar e ser resiliente durante os 54 minutos que duraram o segundo tempo da partida — tempo em que mais sofremos, até mais do que naqueles primeiros minutos de jogo em que levamos um gol em uma rara escapada de contra-ataque que não conseguimos impedir. Naquele momento, havia superioridade técnica do Grêmio e a dúvida era apenas quando sairia o gol de empate — empatamos e viramos.

Voltamos a sofrer para ficar com os três pontos, mas o que ouço nos botecos da cidade e nas resenhas esportivas é que saber sofrer é um mérito. E o Grêmio tem sabido. Hoje, o recuo da marcação para próximo da nossa área — que nunca sei se é tático, se é físico ou se é casual — fez com que tivéssemos de esperar até o apito final para comemorar a vitória que confirma nossa ascensão e nos coloca de volta no G4. Enquanto o jogo não se encerrava, o risco de uma sobra de bola ou chute desviado em direção ao nosso gol era enorme. 

O jeito gremista de sofrer nessas últimas partidas tem aparecido, porém de forma controlada. Deixando a bola com adversário — mais do que eu gostaria — mas sabendo travar a jogada, fechar os espaços, sendo dominante nos cruzamentos sobre a nossa área — a despeito do vacilo no gol que tomamos — e se der, mas apenas se estiver muito certo de que dará, tentamos o passe e a aproximação. Não é o melhor jeito de se jogar, mas é funcional, especialmente diante de adversários que também têm dificuldade de armar o jogo.

A defesa dá sinais de que se acertou com os três zagueiros e, hoje, os laterais conseguiram aproveitar bem essa estratégia, com os dois se soltando pelos lados do campo, chegando no ataque com perigo, tabelando com os homens de meio e até marcando gol — foi o caso de Reinaldo que recebeu um passe adocicado de Luis Suárez, bateu forte e contou com a colaboração do goleiro adversário. Antes já havíamos empatado em outra jogada que passou pelos lados do campo e acabou centralizada para uma sequência de chutes de fora da área que resultou no pênalti bem cobrado por Cristaldo.

Alguns nomes voltaram a brilhar. E precisamos começar a lista por Kannemann que foi dominante na área. Fábio e Reinaldo fizeram muito bem suas funções. Villasanti cobre todos os lados, assim como Bitello aparece para tabelar por todos os lados. Cristaldo além do gol teve a oportunidade de ampliar após receber um passe magistral de Suárez. E Suárez, bem, esse é gênio e a cada movimento que faz no campo a expectativa é saber o que ele vai inventar para se desvencilhar de um marcador, que tipo de chute vai dar em direção ao gol ou qual a solução que buscará para dar assistência ao colega mais bem posicionado — foi assim que chegamos a vitória.

O Grêmio tem sofrido e tem vencido. E com sofrimento e vitorias seguimos em frente na Copa do Brasil e firme e forte em direção ao topo da tabela do Campeonato Brasileiro. 

Avalanche Tricolor: a maior vitória deste ano

 

Athletico PR 1×2 Grêmio

Brasileiro – Arena da Baixada, Curitiba/PR

Bruno Uvini comemora o gol da vitória em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O Grêmio obteve sua maior vitória nesta temporada. Sei que pode soar exagerada essa afirmação. Afinal, viemos de uma conquista importantíssima e simbólica no Gre-nal. Sem desdenhar o resultado no clássico e consciente do significado que teve para retomarmos a caminhada após reveses e jogos mal jogados, temos de convir que não chegou a ser uma novidade e estávamos atuando em casa. 

Hoje, não! Era contra tudo e contra todos — ops, aqui sim soou exagerado. Desculpa, aí! É que estou mesmo entusiasmado com o que assisti ao Grêmio apresentar no gramado sintético de altíssima velocidade da Arena da Baixada e diante de quase 26 mil torcedores acostumados a empurrar o time para cima do adversário. A força é tal que nos últimos cinco anos havíamos vencido apenas uma vez. E os paranaenses não tinham perdido um só jogo nesta temporada.

Além do mais, havia desafios a serem superados do nosso lado. Luis Suárez foi poupado e sua ausência dispensa comentários. Nosso segundo mais importante jogador, Bitello, também ficou em repouso. Jogamos com três zagueiros, quatro novatos e nenhum centroavante. No ataque improvisamos Galdino de um lado e Cuiabano do outro — o que esse jovem talento que se prepara para ser titular da lateral esquerda jogou foi demais, não bastasse o gol que abriu o placar a nossa favor. 

Vina ficou mais ao centro, atuando como pivô e sem muita necessidade de marcar, o que deu liberdade para criar e ser o maestro do time. Villasanti e Mila foram enormes à frente da área e empurraram nossa marcação para dentro do campo deles. Os zagueiros, após os dois sustos que tomaram com a bola nas costas — um deles acabou no gol de empate no primeiro tempo —, retomaram a confiança e despacharam de toda forma o perigo que nos cercava devido a pressão desesperada do adversário. Não bastasse cumprirem suas tarefas lá atrás, Bruno Uvini representou muito bem o setor com o gol da vitória, de cabeça, resultado da boa cobrança de escanteio de Reinaldo.

Nem só de gols e boa marcação vivemos nesta tarde em Curitiba. Com a bola no pé ensaiamos boa transição para o ataque e uma movimentação mais coordenada, considerando o time improvisado e poupado. Chegamos ao gol adversário com algum perigo e quase sempre por mando de Vina e talento de Cuiabano. Fomos resilientes com jogadores se desdobrando para recuperar a falha de algum companheiro. E até quando perdemos qualidade com as substituições, o esforço foi impressionante.

O Grêmio recuperou parte dos pontos perdidos em casa e deu um salto na tabela de classificação, independentemente da posição que encerrará ao fim dessa rodada; se qualifica para a decisão do meio da semana pela Copa do Brasil, quando teremos nossos melhores em campo; e dá esperança ao torcedor de que o grupo voltou a se reencontrar. 

Frente a tudo isso, você ainda acha que fui exagerado em dizer que o Grêmio conquistou sua maior vitória na temporada?