Avalanche Tricolor: empate para se comemorar!

Botafogo 0x0 Grêmio

Brasileiro – Mané Garrincha, Brasília/DF

Aravena ensaia um ataque em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O Grêmio estava irreconhecível na noite deste sábado. 

A marcação precisa, quase infalível, surpreendeu tanto o torcedor gremista quanto o líder do campeonato. Essa foi apenas a décima vez em 27 jogos disputados na competição que o time não tomou gols. O feito se torna ainda maior se considerarmos que o adversário tem o melhor ataque da competição, ao lado do Palmeiras. 

A mudança no meio de campo, especialmente no posicionamento e na atitude dos jogadores, e a maneira com que o time escolheu ficar mais tempo com a bola no pé, diminuiu a pressão sobre a defesa. Corremos riscos, lógico. E chegamos a levar um gol. Mas até isso esteve a nosso favor, em Brasília. O VAR identificou posição irregular do atacante e anulou o que seria uma injustiça para com a equipe que soube ser resiliente e já causou sofrimento suficiente a nós torcedores.

Especialmente no primeiro tempo e em alguns poucos momentos no segundo, chegamos a impor perigo ao adversário. Estivemos prestes a assistir a um gol que entraria para a história, no minuto final do jogo, quando Walter Kannemann fez o desarme lá atrás e disparou com a bola para o ataque, atropelando os marcadores e concluindo para fora. Seria pedir muito!

O time foi guerreiro para impedir as investidas na sua área e aparentou tranquilidade para trocar passes. Villasanti e Pepê souberam tocar a bola colocando Cristaldo em jogo. Edmilson apareceu bem lá atrás, fechando o meio de campo, e na frente, entrando na área e arriscando a gol. O time, de uma maneira geral, superou a expectativa de um torcedor que tem bons motivos (ou seriam maus?) para estar desconfiado. 

Por mais que a posição na tabela de classificação exigisse três pontos, principalmente depois da derrota em casa no meio da semana, ter saído  de Brasília com um 0 a 0 é  motivo de comemoração. Ou, ao menos, de alívio. 

Avalanche Tricolor: uma vitória na nossa Arena

Grêmio 3×2 Flamengo

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Cristaldo comemora o primeiro gol. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O Campeonato Brasileiro já está em sua vigésima-sétima rodada e esta foi apenas a quarta partida do Grêmio na Arena. Desde as enchentes que nos afastaram de casa, foi o segundo jogo no próprio estádio e a primeira vitória. Isso diz muito sobre o que se passa com o time nesta temporada, mesmo que não justifique não justifique as dificuldades em apresentar um desempenho mais seguro e qualificado em campo..

Foi um ano penoso em diversos aspectos e o futebol que apresentamos até aqui tornou tudo ainda mais complicado. O sistema defensivo é vulnerável — sofreu 32 gols em 25 jogos, sete apenas nos três últimos —, enquanto o meio de campo e o ataque nem sempre entregam a qualidade que aparentam ter. 

Hoje, mesmo com um adversário muito desfalcado e atuando a maior parte do segundo tempo com um a menos, corremos riscos até o minuto final. Um sofrimento a cada lance. Mesmo assim e, talvez, até por ter sido assim, temos que comemorar muito essa vitória. 

Cristaldo segue decisivo e preciso em seus chutes. Braithwaite cumpriu seu papel ao escorar às redes uma das poucas bolas que surgiram no seu caminho. Monsalve, apesar do desempenho aquém do esperado, fez uma jogada linda que nos levou ao terceiro gol. E Diego Costa voltou a marcar. Há ainda Soteldo que é sempre um escape diante da falta de solução.

Mais importante do que tudo isso é que ganhamos. E depois de cinco meses e todas as intempéries que cruzaram nosso caminho, ganhamos na Arena.

A Arena vive! Viva a Arena!

Avalanche Tricolor: os 121 anos mereciam mais do que um suspiro

RB Bragantino 2×2 Grêmio

Brasileiro – Bragança Paulista/SP

Braithwaite deu assistência para o primeiro gol. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Os 121 anos do Grêmio mereciam resultado mais expressivo. Nem me refiro àquelas vitórias de encher os olhos e dar orgulho ao torcedor. Daquelas que tornamos memoráveis pelo placar e perfomance. Que nos colocam à frente dos adversários e nos encaminham à conquista maior. Essas, infelizmente, não fazem parte do roteiro que almejamos nessa temporada. 

Além da conquista do Campeonato Gaúcho, restou-nos pouco em 2024. Fomos eliminados da Libertadores e da Copa do Brasil, enquanto no Brasileiro a disputa será mesmo para ficar fora daquela zona-que-você-sabe-qual-é. Sem muita esperança de que esse martírio termine cedo, considerando que as oportunidades para respirar um pouco mais aliviado têm sido desperdiçadas partida após partida. Nos últimos dois jogos, entregamos cinco de seis pontos disputados.

Do jogo desta tarde no interior paulista, há talvez a celebrar apenas o suspiro de talento que tivemos aos 28 minutos do segundo tempo. A triangulação iniciada por Monsalve, do lado esquerdo, que teve a participação de Cristaldo e um passe preciso de Braithwaite, foi concluída com uma cavadinha do jovem colombiano em direção às redes. É pedir muito que esse futebol bem jogado se espraie no restante do jogo? 

Verdade que chegamos a marcar um segundo gol: em mais uma troca de passes de Monsalve e Cristaldo, o cruzamento chegou para Jemerson completar de cabeça. Diante da forma como temos desperdiçado pontos, porém, confesso, minha dúvida era apenas a que horas cometeríamos mais um pênalti (assim como havíamos feito no primeiro tempo, e no jogo anterior e em uma dezena de outras partidas neste ano). Não precisou. Falhamos de maneira bizarra e sofremos o empate.

Temos experimentado mais amarguras do que precisaríamos. Mesmo considerando os impactos das enchentes na trajetória gremista — muito maior do que para qualquer outro time gaúcho —, o time que temos à disposição deveria ter uma performance superior. Pelo menos acima de algumas das equipes que temos enfrentado na competição — caso do adversário de hoje. 

Mais do que não conseguirmos os resultados, tenho a impressão de que estamos dispostos a aceitar esse destino. Em lugar de lutar até o último instante pelos três pontos, admitimos o empate. As substituições finais sinalizaram esse comportamento. Entendo a prudência diante da maneira como entregamos a partida anterior e de estarmos jogando fora de casa. Mas eu queria muito um time pautado pela valentia, especialmente no dia em que comemoramos 121 anos de uma história que me enche de orgulho.

Avalanche Tricolor: uma vitória para Cacalo, o Imortal

Criciúma 0x1 Grêmio
Brasileiro – Heriberto Hülse, Criciúma/SC

Na braçadeira de capitão, uma das homenagens a Cacalo. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

“Cacalo vivia o Grêmio como poucos viveram. O defendia com a gana de um Dinho, a disposição de um Kannemann e o sarcasmo de um Danrlei. Cacalo nunca foi Valdo, tampouco Gessy. Porque esses jogavam com diplomacia vestidos de Grêmio. Quando se tratava de Grêmio, Cacalo dispensava as diplomacias. A paixão era maior.”

Leonardo Oliveira, GZH

Aproveito-me do talento no texto e da proximidade que o jornalista Leonardo Oliveira, da GZH, tinha com Luiz Carlos Silveira Martins para homenagear um dos maiores dirigentes destes quase 121 anos de história do Grêmio. Cacalo morreu no sábado, aos 73 anos. Era o patrono do clube, título concedido a alguém que se satisfaria em ser apenas torcedor, porque era o maior deles.

Quando ascendeu na hierarquia gremista, eu já estava distante dos bastidores do time. Lembro dele de algumas conversas apaixonadas no pátio do Olímpico Monumental, exercendo a função que mais sabia fazer: torcer pelo Grêmio. Dos presidentes gremistas, conheci mais de perto Hélio Dourado e Fábio Koff, muito mais pelas mãos de meu pai do que por minhas competências. Admirava aquelas figuras pelo poder que tinham de construir o time do coração.

Assim como Dourado e Koff, Cacalo fez do Grêmio um campeão. Com presença ativa entre o fim da década de 1980 e ao longo dos anos de 1990, ele participou de grandes conquistas do clube, com destaque para a Libertadores de 1995, o Brasileiro de 1996 e as Copas do Brasil em 1994 e 1997. Foram 13 títulos no total. ‘Aposentado’ do papel de cartola, foi defender o Grêmio na imprensa, como colunista do jornal Diário Gaúcho e, depois, comentarista da rádio Gaúcha de Porto Alegre.

Era ‘sanguinário’, como bem disse o texto publicado pelo Grêmio ao anunciar a morte do ex-presidente. Era feliz em ser gremista, sentimento expresso na frase que ele imortalizou e estava estampada na braçadeira de capitão e na camisa do técnico e dos jogadores que entraram em campo, em Criciúma, nesta tarde: “Como é bom ser gremista.”

Por essas coincidências que a vida nos apronta, Cacalo morreu às vésperas de uma partida do Grêmio. Considerando que noutra vez em que esteve em coma por cinco dias, ao acordar, a primeira coisa que perguntou foi se o Grêmio havia vencido, desconfio que tenha sido dele o cuidado para que o velório se encerrasse uma hora antes de o jogo de hoje se iniciar. Cacalo tinha pressa, queria assistir ao Grêmio lá do alto e transmitir a energia necessária para o time se recuperar das duas eliminações recentes, na Libertadores e Copa do Brasil.

Na preleção que antecedeu a partida, o atual presidente do Grêmio, Alberto Guerra, falou aos jogadores sobre a importância de Cacalo na história do clube. Pediu a vitória em homenagem ao dirigente falecido. Em campo, o que se viu foi um Grêmio buscando o resultado desde o início, mesmo diante da pressão adversária e de desacertos na movimentação e troca de bola em algumas jogadas.

Com Cristaldo e Monsalve no meio de campo, o Grêmio se arriscou mais. No gol, Marchesín fez defesas importantes. No ataque, Soteldo aparecia com destaque. A vitória foi alcançada no segundo tempo, após as entradas de Arezo e Aravena. Foi o chileno quem fez a jogada pela esquerda e cruzou para Monsalve brigar com os zagueiros e o goleiro antes de desviar a bola às redes.

Foi só um a zero, mas não precisava mais do que isso para somarmos três pontos na tabela de classificação, nos afastarmos mais um pouco daquela-zona-que-você-sabe-qual-é, e começarmos a olhar para cima. Ao fim do primeiro tempo e no encerramento da partida, tanto Villasanti quanto Monsalve, aos serem entrevistados, fizeram questão de lembrar o nome de Cacalo. Dois jogadores que não tiveram proximidade com o dirigente, mas que entenderam o simbolismo dele para o clube.

Que Cacalo, lá em cima, siga nos iluminando para que nós, cá embaixo, sejamos fortes e capazes de manter o legado que ele nos deixou.

Avalanche Tricolor: Jeg er allerede illuderet!

Cuiabá 1×3 Grêmio

Brasileiro – Arena Pantanal, Cuiabá MT

Martin Braithwaite comemora gol, em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

Diga o que você quiser! Lembre-me que o adversário não vencia há sete jogos em casa. Diga que enfrentamos um time que está naquela zona-que-você-sabe-qual-é. Grite que eles nunca ganharam da gente em toda a história do futebol e, no máximo, tinham arrancado um só empate contra nós em sete partidas disputadas. 

Eu já estou apaixonado! 

Nada do que você disser mudará minha percepção. O que assisti na Arena Pantanal, no início da noite deste sábado, me deslumbrou. A corrida em direção à bola, o tranco no zagueiro, a tomada de frente na jogada, o toque para o companheiro concluir a gol, aos 14 minutos de jogo, bastaram para eu acreditar que estava diante de um jogador que chegou para fazer história no Grêmio.

Claro que estou falando do dinamarquês Martin Braithwaite, que estreou  com a nossa camisa, neste 10 de agosto de 2024. O lance que descrevi foi o primeiro protagonizado por ele em campo. Depois disso, só maravilhas. Eu sei que teve o gol contra dele. Este, porém, além de uma fatalidade, serviu para escrever com perfeição sua primeira jornada do herói no Imortal Tricolor.

Aos 33 anos, o atacante saciou a fome de gol anunciada em sua primeira entrevista coletiva ao chegar ao clube. Antes de marcar, foi o responsável pela jogada que deu início à vitória. Tabelou com Edenílson e chutou na trave. No rebote, Gustavo Nunes conclui de cabeça.

Quando a partida estava empatada, no segundo tempo, e o adversário pressionava de forma preocupante, Braithwaite foi preciso no toque da bola em direção às redes, que colocou o Grêmio na frente mais uma vez. Que se faça justiça: o autor intelectual da jogada foi Miguel Monsalve. O colombiano driblou todos seus marcadores, entrou na área e deu o gol de presente para o centroavante. 

O terceiro gol gremista e o segundo de Braithwaite, porém, foi todo mérito dele. Após mais uma assistência de Cristaldo, primeiro venceu os defensores no jogo aéreo. Diante da defesa do goleiro, não se fez de rogado: de bate-pronto e com a perna esquerda, pegou o rebote e fulminou as redes. 

Forte, preciso, talentoso, insaciável e inteligente! Adjetivos que acompanharam Braithwaite do primeiro ao último ato nesta estreia, inspirando meu otimismo com tudo que vi em campo. Tenho certeza que a maior parte do torcedor gremista comunga deste mesmo sentimento neste instante. 

Sim, eu sei que é apenas o começo. Sei o que você está pensando, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche. Sei que vai repetir todos os argumentos descritos no primeiro parágrafo deste texto. Pode lembrar, falar e gritar. Diga o que quiser, mas eu já estou iludido ou, como se diz na língua de nosso craque, “jeg er allerede illuderet!”

Avalanche Tricolor: o Grêmio renasce nas águas de Chapecó

Grêmio 1×0 Vasco

Brasileiro – Arena Condá, Chapecó SC

reprodução canal Premiere

O Grêmio escolheu Chapecó e sua Arena, símbolos de superação e resiliência, diante de um desastre que marcou o futebol e nossas vidas, para enfrentar o adversário desta noite de domingo. Sabia da importância do resultado e do impacto que teria no ânimo e nas possibilidades do time para o restante da temporada. Avizinham-se as decisões da Copa do Brasil e da Libertadores. Encarar as duas competições fora daquela zona-que-você-sabe-qual-é no Campeonato Brasileiro seria fundamental para nossas pretensões.

Como se a pressão do resultado e as dificuldades enfrentadas devido à tragédia ambiental no Rio Grande do Sul não fossem suficientes, nos deparamos mais uma vez com uma tempestade no caminho. Já havia sido assim em momento decisivo da Libertadores, quando garantimos passagem à fase seguinte, em junho, no Chile. Hoje, um temporal se formou, tornando o futebol uma batalha arriscada e marcada pela lama e coragem.

Forjado no drama da enchente, o Grêmio parece se agigantar nesses momentos, apesar das dificuldades técnicas. Mesmo com o gramado encharcado e o domínio da bola sendo um desafio extraordinário no campo de jogo, o time se impôs. Fez o que pôde para ameaçar o adversário e se colocar em condições de marcar. Esteve quase sempre com a bola no pé e com o domínio da partida. 

Apesar de uma defesa consistente, com três zagueiros deixando pouco espaço ao adversário, e um meio de campo que logo entendeu como deveria jogar frente às intempéries, ninguém foi maior do que Soteldo. O venezuelano secou o gramado por onde passou, como bem disse Ledio Carmona, em transmissão do Premiere. No primeiro tempo, jogou pela direita e entortou quem se atreveu a marcá-lo. Trocou de lado no segundo tempo, e foi por lá que encontrou o gol que deu a vitória para o Grêmio.

Soteldo é polêmico por onde passa. Atrasou seu retorno ao time após a Copa América. E na última partida esbravejou ao ser substituído. Quando está em campo, porém, não há do que reclamar dele. Tem sido decisivo, especialmente depois de se recuperar da lesão que o afastou dos gramados, ainda no Campeonato Gaúcho. Fez gol domingo passado, quando abriu o placar para vencermos o Vitória, e voltou a marcar neste domingo. Foi fundamental nesse primeiro alívio que tivemos desde que entramos naquela zona-que-você-sabe-qual-é.

Sabemos que novas batalhas teremos pela frente e precisaremos de muito mais futebol para vencê-las. Os reforços estão chegando e os lesionados, especialmente Diego Costa, estão se recuperando. Nossa Arena, em breve ,estará reaberta. Das águas de Chapecó, renasce a esperança de tempos melhores em nossa caminhada. O Grêmio está vivo!

Avalanche Tricolor: Marchesín fala em nome da minha paixão

Corinthians 2×2 Grêmio

Brasileiro – Itaquerão, São Paulo/SP

Marchesin defende mais uma. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Futebol é paixão. E por apaixonados, extrapolamos. Já fiz coisas absurdas em nome deste sentimento humano que é intenso no corpo e na mente. Briguei e me arrependi. Chorei e me lamentei. Praguejei ao mesmo tempo que roguei. Gritei e, de tanto gritar, calei.

No latim, paixão é sofrimento e ato de suportar. O grego nos remete ao sentir. A religião relaciona esse sentir à dor física, espiritual e mental. Com o tempo, paixão passou a ser traduzida por forte emoção e desejo; mais tarde ainda, por predileção.

Paixão é essa coisa que nos leva a acreditar no impossível, mesmo que o possível se imponha a todo instante. É o que nos capacita a persistir na torcida, apesar de tudo que se realiza anunciar que chegou a hora de renunciar.

Por apaixonado que sou, reajo na intimidade enquanto me contenho na vida pública. Critico o árbitro e ofendo o adversário na privacidade do meu lar, onde a liberdade de expressão é maior e as consequências são menores. Prefiro manter o respeito ao outro e ao esporte, lembrando que a paixão, quando exposta sem filtro, pode ferir e ofender.

Futebol é um espetáculo coletivo e, como tal, exige de nós um comportamento que preserve a harmonia e o espírito esportivo. Cada gesto e palavra dita em público têm o poder de influenciar e impactar não apenas os jogadores e torcedores, mas toda a comunidade que se envolve com o esporte. A paixão, quando bem dosada, enriquece a experiência e fortalece os laços entre os fãs e seus times.

Portanto, é no equilíbrio entre a emoção fervorosa e a razão respeitosa que encontramos a verdadeira essência do torcedor apaixonado. A paixão não precisa ser escondida, mas sim, canalizada de forma a contribuir positivamente para o ambiente do futebol. Porque, no fim, a paixão que nos une é a mesma que deve nos lembrar de manter o respeito e a dignidade, tanto dentro quanto fora de campo.

Agora, perdoe-me a lógica e a prudência, como é difícil conter os sinais que a paixão emite diante de mais uma injustiça sofrida no mesmo palco e  contra os mesmos atores.

Independentemente do futebol que expressamos, das falhas que seguimos cometendo, das intempéries inerentes a um time que improvisa sua formação e sua estratégia, a sensação de que mais uma vez poderia ter sido diferente não fosse a intervenção do árbitro é de dor e irritação. Por isso, não culpo Marchesin de misturar alhos e bugalhos no momento em que revelou a dor de sua paixão, ao fim do primeiro tempo da partida desta noite, em São Paulo. Ele representa a minha paixão.

Avalanche Tricolor: de volta!

Grêmio 2×0 Vitória

Brasileiro – Centenário, Caxias do Sul/RS

Matías Arezo está chegando e fez diferença. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Estava de malas prontas e nos preparativos para o retorno ao Brasil quando o Grêmio entrara em campo para uma partida fundamental diante das suas pretensões de deixar aquela zona-que-você-sabe-qual-é, e voltar a disputar de verdade o Campeonato Brasileiro. 

Precisei contar com conexões nem sempre seguras de internet e sinais de vídeo claudicantes no meu caminho até o aeroporto de Curaçao de onde partiria para o Panamá, para acompanhar em “tempo real” o nosso desempenho. A demora na atualização das informações e das imagens colaboraram bastante com a ansiedade de quem estava a espera de um resultado positivo, assim como eu e toda a torcida gremista.

O Centenário lotado sinalizava que os torcedores haviam aceitado o desafio feito pelo time, especialmente após a entrevista coletiva da sexta-feira que colocou os dois maiores ídolos da atualidade, Geromel e Kannemann, ao lado de Renato, que é o maior deles, goste-se ou não de sua forma de falar, treinar e escalar a equipe. A impressão que fiquei, desde que a bola começou a rolar, é que a entrega dos jogadores também estava sintonizada com o apoio das arquibancadas. Digo impressão porque seria injusta uma análise mais aprofundada com base no que lia nos sites que atualizam as informações do jogo e os rompantes de imagens que recebia no meu celular.

(em tempo: avise às marcas que patrocinam as transmissões que é irritante ter de esperá-las se apresentar até podermos pular o anúncio toda vez que precisamos reconectar)

Dava para perceber o esforço em fazer a bola chegar ao ataque e de reduzir ao máximo os riscos impostos pelo adversário com uma marcação forte. A falta de precisão nos chutes, porém, impedia que o domínio em campo se traduzisse em gols – este maldito gol que teima em não sair na quantidade necessária para nos dar um respiro no campeonato.

As estatísticas eram gritantes: dez chutes a gol contra apenas dois do adversário, muito mais escanteios, passes trocados e posse de bola a nosso favor. Mesmo assim terminamos o primeiro tempo no zero a zero e levamos para o vestiário o temor de que o roteiro das últimas partidas se repetiria.

Eu já despachara as malas, quando o segundo tempo havia se iniciado e o que mais buscávamos nessa partida começava a se construir. A visão de jogo de Edenílson deu início a jogada que terminaria nos pés de Soteldo, que driblou duas vezes seus marcadores para chutar de dentro da área. Pouco me importou o sinal da internet deixar a imagem travada ainda antes do chute do venezuelano. Ver o 1 a 0 no placar do APP de esportes era o suficiente aquela altura.

Enquanto apresentava o passaporte no setor de  imigração e submetia as malas ao escaner da fiscalização, minha única preocupação era que o Grêmio, lá em Caxias, não deixasse nenhuma bola passar pela nossa defesa. Pelo que ouvi dos críticos, Rodrigo Ely e Geromel — que entrou ainda no início da partida devido a lesão de Kannemann — deram conta do recado.

A caminho do embarque, minha torcida era só pelo apito final. O um a zero seria o suficiente nesta altura da viagem. Fosse meio a zero, comemoraria igual os necessários três pontos ganhos. Tudo que queria era a vitória de volta. O árbitro, então, resolveu esticar a partida por mais cinco minutos. E o sofrimento pelo tempo estendido foi compensado: o sinal de WI-FI de uma sala VIP me permitiu assistir à jogada que culminaria no pênalti.

Claro que a cobrança de Reinaldo, de pé esquerdo, forte e no alto, me fez vibrar. Mas o que mais me fez feliz no lance, foi ver a presença de Matías Arezo dentro da área. O jovem atacante, que chegou nestes dias e mal desfez as suas malas, recebeu a bola e girou com velocidade em direção ao gol, levando o zagueiro a derrubá-lo. 

Sem ilusões, quero crer que tenhamos encontrado um jogador que sabe o que significa ser um número 9. E o lance tenha sido a primeira escala de uma longa e ótima viagem do uruguaio com a camisa do Grêmio. 

Dito isso, deseje-me boa viagem, também, porque assim como a vitória, eu estou voltando!

Avalanche Tricolor: ninguém apaga a história de Roger Machado no Grêmio

São Paulo 1×0 Grêmio

Brasileiro – Morumbis, São Paulo/SP

Roger Machado em foto de arquivo de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Décima derrota em 15 partidas disputadas no Brasileiro. A quarta partida seguida sem vitória. Vitória? Somamos apenas três até este momento na competição. Gols? Foram somente dez, o que nos coloca como o pior ataque do campeonato. E contrariando a máxima de que “quem não faz leva”, para cada gol que marcamos, levamos dois.

Tenho sempre a crença de que algo acontecerá para nos tirar dessa situação. Deposito minhas esperanças ainda na chegada de reforços e na recuperação de lesionados, em especial Diego Costa. Agora, diante de uma campanha como esta, me surpreende que a principal preocupação do torcedor gremista, nesta semana, foi o fato de um profissional de futebol aceitar um convite para trabalhar em um clube que lhe oferece a oportunidade de crescer na carreira e ser muito bem remunerado para exercer sua função.

Sim, eu sei que Roger Machado treinar o Internacional sensibiliza o coração de todos nós que o admiramos pelo futebol jogado no Grêmio em seu passado.  Temos a ilusão de que aqueles que vestiram a camisa tricolor e foram elevados a posição de ídolo devem reverência ao clube para o restante de suas vidas. Queremos acreditar que são como nós, torcedores e apaixonados, incapazes de cometermos o sacrilégio de vestirmos outro manto que não seja o do Imortal. E se o fizerem, que nunca, jamais e em nenhuma circunstância seja o do colorado.

Roger tem o direito de treinar o clube que bem entender. É profissional do futebol. Deve escolher a trajetória que lhe convier. É inteligente, tem personalidade amadurecida e um equilíbrio emocional que poucas pessoas alcançam. Certamente, precisou de muita coragem para tomar a decisão de se transferir para o Internacional. Calculou o risco que corria e a pressão que sofreria. Chego a imaginar com quem se consultou antes de aceitar o convite. Fez uma escolha bem pensada, porque foi assim que sempre se comportou ao construir sua carreira, especialmente desde que migrou de jogador para treinador. 

O conheci pessoalmente em 2015, em virtude de entrevista que participei a convite da ESPN. Vinha de uma sequência inédita de vitórias no Campeonato Brasileiro, edição em que o Grêmio terminou na terceira posição e com vaga na Libertadores, apresentando um futebol bonito de se ver. Ano em que venceu o Gre-Nal do Dia dos Pais com um histórico 5 a 0. 

A conversa que havia iniciado, antes da entrevista, diante de um ídolo do futebol, encerrou-se bem depois do programa de TV, frente a um ser humano admirável, que me inspira e respeito profundamente. Um cara que defende causas fundamentais para a humanidade, preza valores como integridade, justiça e solidariedade, e utiliza sua influência para promover o bem-estar social e a igualdade. Suas ações fora dos campos revelam um compromisso genuíno com a construção de um mundo melhor, fazendo dele um exemplo de cidadania e liderança.

Na época, revelou, ainda, uma visão estratégica para a vida. Assumir um clube de expressão como o Grêmio havia sido uma das etapas estabelecidas para seguir  na carreira. Desejava conquistar um título de expressão e concluir sua missão como treinador aos 55 anos. Está com 49. Cheguei a perguntar a ele se aceitaria treinar o Internacional. Respondeu-me que tinha uma relação histórica com o Grêmio e acrescentou: “me preparei para treinar grandes times”.

As glórias que teve pelo Grêmio e com o Grêmio ficarão registradas para todo e sempre no nosso coração (no meu com certeza). Fez parte de um dos maiores times que já formamos. Foi campeão Gaúcho, da Copa do Brasil, do Brasileiro e da Libertadores. Sempre que esteve com a camisa do clube, seja como jogador seja como técnico, honrou aquilo que gostamos de nominar como imortalidade. Nunca deu as costas aos compromissos que lhe eram propostos. Mereceu e seguirá merecendo cada homenagem que recebeu desde então: dos pés na calçada da fama ao título de atleta laureado. Qualquer movimento que busque apagar a história e importância de Roger Machado é apequenar o clube, não bastasse ser inútil. O que ele fez com a nossa camisa está nos registros e foi gigante. 

Melhor faremos se nos voltarmos para os problemas que levam o Grêmio a atual situação de dificuldade no Campeonato Brasileiro. Isso, sim, é preocupante e pode ser desastroso para a nossa história — esta que Roger ajudou a construir.

Avalanche Tricolor: quando sequer Suárez resolve!

Grêmio 0x2 Cruzeiro

Brasileiro – Centenário, Caxias do Sul RS

Panamenhos assistem, no terraço do bar, à Copa América Foto: eu mesmo

Acompanhei pela atualização do Google a partida do Grêmio. Era meu primeiro dia de férias e acabara de chegar ao Panamá, onde tinha uma agenda intensa de atividades, considerando que só ficaria um dia por aqui, antes de partir para outro destino. Fui surpreendido pelo que vi. Não na tela do celular, mas nos passeios previamente planejados. Surpreendi-me ao conhecer lugares impressionantes e histórias curiosas deste país da América Central, que costumo usar apenas como ponto de passagem para a América do Norte ou o Caribe. 

É incrível como unir a capacidade da engenharia e o poder da natureza possibilitou o funcionamento do Canal do Panamá, inaugurado às vésperas da Primeira Grande Guerra Mundial, em 15 de agosto de 1914. É um país resiliente, também. Com sua importância geográfica, matas ricas e  ouro a ser extraído foi explorado por franceses, espanhóis e americanos, entre outras nações e povos. Foi vítima da ditadura e de políticos gananciosos. Mas resiste! 

Tem riqueza e diversidade na sua floresta, que se parece com a nossa Amazônia. Beleza em suas praias, especialmente as do lado do Caribe. E uma capital que se expressa por arquitetura pujante, mesmo que de gosto duvidoso, a partir de prédios intermináveis de tão altos. No centro antigo, Casco Viejo, a reforma de parte das estruturas e a transformação em patrimônio histórico fizeram do local uma atração à parte, seguro para passear e com culinária típica.

Panamá não é um país tradicional no futebol. O pessoal parece se dar melhor com tacos de beisebol nas mãos. Porém, deparei-me com uma curiosidade. Sem uma seleção local de prestígio, os panamenhos se divertem torcendo para seleções alheias, especialmente as sul-americanas. Adoram o Brasil e estavam decepcionados com nosso desempenho na Copa América. Vibram com a Argentina, especialmente por causa de Messi. E têm rixa com a Colômbia, contra quem já enfrentaram algumas batalhas violentas — e não foi nos campos de futebol. 

Na noite de ontem, enquanto ainda me refazia de mais uma chulapada que levamos no Campeonato Brasileiro, as atenções na cidade do Panamá estavam voltadas para a semifinal da Copa América, entre Colômbia e Uruguai. Não havia um restaurante que não tivesse com a televisão sintonizada no jogo. Em alguns bares, situados no topo dos prédios baixos do centro antigo, havia festa e muita gente reunida para torcer. Na praça principal algumas pessoas estavam sentadas ao lado da catedral de onde conseguiam acompanhar à distância o telão de um bar no alto do prédio.

Por motivos óbvios estava mais interessado na comida servida à mesa e na conversa divertida sobre o início das férias. Só fui me atentar à partida quando Suárez apareceu ao lado do gramado para entrar em campo e tentar salvar o Uruguai. Foi um momento de nostalgia. Que saudade de nosso atacante! Aquele que nos levou ao vice-campeonato brasileiro, ano passado, a despeito de todos nossos defeitos.

Comecei a imaginá-lo de volta ao Grêmio e chegando para nos tirar dessa situação vexatória que estamos enfrentando. Puro exercício de imaginação, porque é evidente que o atacante uruguaio não tem a menor pretensão de retornar ao Brasil. Para piorar, pelo que assisti nas telas dos restaurantes panamenhos, há algumas situações no futebol que sequer Suárez resolve.