Solução para segurança não é tirar o capacete do jerico

 

Texto escrito originalmente para o Blog Adote São Paulo, da revista Época São Paulo

 

Trânsito em São Paulo

 

Os helicópteros de televisão sobrevoavam o quarteirão sinalizando a ocorrência policial. Uma mulher acabara de ser baleada por reagir a um assalto, pouco tempo depois de deixar a agência bancária. Tipo de crime que tentaram combater no Estado de São Paulo proibindo o uso do telefone celular dentro dos bancos. Uma ideia de jerico, com o devido respeito a seus criadores e defensores, vendida como se fosse a solução de todos os nossos problemas.

 

Nesta semana, lá vem o Estado com mais uma novidade para combater o crime organizado. Está proibido o uso de capacete em estabelecimentos comerciais, forma encontrada para impedir os frequentes assaltos a postos de combustível, geralmente cometidos por motociclistas. Pela nova norma, quando a moto se aproximar da linha de segurança das bombas, o piloto já deve estar sem capacete. Portanto, imagina o legislador, o assaltante ficará intimidado.

 

Esta agora do “capacete assaltante” logo deverá ser seguida pela proibição do carona em moto, outra saída mágica que ouço à exaustão toda vez que se noticia que uma dupla assaltou motoristas, pedestres ou comerciantes na cidade. E não me venha com a justificativa de que em Bogotá, na Colômbia, a medida foi adotada com ótimo resultado. Poucos meses depois de entrar em vigor, as autoridades policiais perceberam a inutilidade da lei e a revogaram.

 

Repete-se a busca de soluções fáceis para problemas complexos como o da segurança pública. Assistindo ao aumento dos casos de violência e sem saber em que direção correr, os governos aceitam as propostas que chegam das casas legislativas, ratificam essas ideias de apelo popular e fogem da responsabilidade de desenvolver ações de inteligência – bem mais difíceis e demoradas para serem implantadas.

 

É impossível solucionar crimes, por exemplo, com número tão reduzido de investigadores. Há quase um ano, ao ter a casa invadida por bandidos, tive o privilégio de receber uma dupla de peritos com seus equipamentos para coletar provas. Soube que eram os únicos para atender todo o distrito. Por mais habilidade que tenham, são poucos diante do desafio diário que enfrentam.

 

Investir na polícia preventiva e investigativa, oferecer aos agentes estrutura para trabalhar e responsabilizar os bandidos fazem parte de um conjunto de esforços necessário e conhecido para que se reduza os índices de criminalidade. Enquanto não tivermos esta capacidade, continuaremos buscando a salvação na cabeça do jerico (mas sem capacete).