Sem palavras para Cony

 

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Ensaio escrever algumas palavras sobre Carlos Heitor Cony desde sábado quando fui informado da morte dele, ocorrida na noite anterior, no Rio de Janeiro. Cony teve o corpo cremado, nesta terçao-feira, e suas cinzas serão levadas para algum local especialmente escolhido por ele e descrito em documento registrado em cartório. Apesar do tempo e de sua passagem, a palavra certa ainda não apareceu. Escrevo uma, deleto. Substituo por outra, desisto. Recomeço. Busco uma palavra para identificá-lo e não encontro. Busca que se iniciou logo que fui convidado pelo Roberto Nonato a falar na rádio CBN, minutos após termos noticiado o falecimento de nosso comentarista.

 

O Arthur Xexéo, que dividiu com Cony o protagonismo do “Liberdade de Expressão”, no ar desde 2001, no Jornal da CBN, e também esteve comigo na conversa com o Nonato, foi direto ao ponto: o Cony era o cara mais culto que conheceu em toda sua vida. A cultura dele realmente era impressionante. Não refugava tema algum que lhe fosse oferecido para comentar no “Liberdade”. Quando muito, pedia para ser o último a falar, como se quisesse antes saber o que pensava seu companheiro de quadro – o que lhe permitiria, se fosse o caso, discordar sem constranger. Assim podia também perceber qual o melhor caminho a percorrer e, especialmente, como dar ao tema, por mais mundano que fosse, uma abordagem histórica.

 

Às vezes arriscávamos, dentro do estúdio, com a equipe do Jornal da CBN, antecipar o que o Cony nos diria sobre determinada notícia. Já estava há tanto tempo no ar com a gente que sabíamos um pouco do que pensava sobre tudo. Mas ele sempre nos surpreendia, seja pelas palavras usadas para se expressar, seja pela história compartilhada, seja pela sinceridade que marcava sua opinião. Uma opinião que não temia rótulos nem patrulha. Oferecida com humor, ironia e deboche, conforme a situação.

 

Lembro que sempre que abordávamos o poder dos bicheiros e o envolvimento deles no crime organizado, Cony preferia se ater a figura do apontador do jogo, que ficava aguardando os apostadores na calçada: um homem bom, inofensivo e amigo, era o que dizia. Ele era assim mesmo: capaz de descrever com romantismo os casos mais escabrosos do noticiário assim como analisava com crueza e sem perdão outros tantos assuntos.

 

Não tinha medo de ser contraditório: falou no “Liberdade”, quando completou 90 anos, que nas festas de aniversário, cantava apenas o “parabéns à você” e se negava a desejar “muito anos de vida”: – Ninguém merece isso, justificou-se. Por outro lado, era categórico ao dizer que, apesar de todos os males da velhice, gostaria de continuar vivo se pudesse escolher.

 

Impressionava-me era a dedicação que tinha com o trabalho. Mesmo aos 91 anos, e diante de dificuldades expostas por doenças que enfrentou nos últimos tempos, não abria mão de sua participação no “Liberdade”. Costumava dizer que estar ao vivo, na rádio, o deixava mais vivo. Declarou em entrevista – que reproduzimos nesta segunda-feira, no Jornal – o orgulho que tinha pela repercussão dos seus comentários na rádio. Logo ele que tem livros que são “campeões de audiência”.

 

Aliás, reescrever “O Beijo da Morte”, ao lado da jornalista Anna Lee, certamente era outro grande motivo para se manter vivo e atento. O livro, sucesso desde que chegou às livrarias em 2003, será relançado em breve com novos capítulos e notas suplementares, além de um novo nome: “Operação Condor”, conforme nos contou em entrevista, nessa segunda-feira, a própria co-autora, ao Jornal da CBN.

 

Cético, provocador, inteligente, contraditório, polêmico, sincero, genuíno, romântico … Temo que qualquer uma dessas e outras palavras que surjam não sejam fidedignas a estatura intelectual e humana do Cony. E talvez por isso minha busca iniciada no sábado não faça o menor sentido. Quem sou eu para querer defini-lo com palavras? Cony falava por si mesmo e seus livros e obras estarão sempre aí à disposição para quem quiser conhecê-lo melhor. Eu não perderia essa oportunidade de jeito nenhum.

 

Conhecer Cony é um privilégio para todos nós, seus leitores e admiradores.

Para aumentar a taxa de ocitocina dos nossos cães. E a nossa, também!

 

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Foi a ciência que nos inspirou a tratar do assunto, mas foi o coração que falou mais alto.

 

Carlos Heitor Cony e Artur Xexéo dividiram com os ouvintes do Liberdade de Expressão, quadro do Jornal da CBN, a experiência de ambos com seus animais de estimação. Foram provocados pelo estudo de pesquisadores japoneses que dizem ter encontrado em um hormônio, a ocitocina, a resposta para a ligação forte entre humanos e cães.

 

Deixando os dados científicos de lado, Xexéo já se apresentou como “cachorreiro” e daquele tipo que, ao ver um dos seus morrer, jura que nunca mais terá outro, para, em seguida, repetir a experiência. Olha ele aí com Arya:

 

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Cony foi mais longe, lembrou-se de Mila, uma cadela que, segundo o próprio, o escolheu e foi personagem de crônica escrita no jornal Folha de SP, em 1975. Até hoje, nosso cronista recebe recados de leitores querendo saber um pouco mais da “moça” que, infelizmente, já se foi.

 


Ouça aqui a nossa conversa no Liberdade de Expressão.

 

Nosso bate-papo não havia se encerrado e no meu Twitter já surgiam as imagens de dezenas de animais de estimação amados por seus donos, cada um com seu olhar e nome especiais. Foi uma sequência de lembranças e juras de amor. Coisa de chamar a atenção.

 

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No meu e-mail, recebi a mensagem do Elmano Baroncelli, do Rio de Janeiro:

 

Da indiferença à paixão. É como podemos chamar a emocionante narrativa do Cony sobre o olhar dos cachorros. Deu pra sentir vc ali no programa com agonia do tempo restrito  correndo e  sem “coragem” de interromper narrativa tão interessante e de uma pessoa que muitos esperavam frio com esse tipo de sentimento. Vivi deve ter cedido, discretamente, seu tempo para se deleitar e também se emocionar com o que estava escutando. Deu pra “ver” a cadela pedindo para voltar com ele no Karman-Ghia e não ser devolvida; deu pra sentir o carinho que ele foi adquirindo por ela. No final, até livro dedicado ela ganhou! Onde vemos a utilização muito engraçada desse “olhar sedutor” dos animais é no filme Gato de Botas com a voz do Antonio Banderas. Quando aquele gato esperto quer alguma coisa lança um olhar irresistível de coitadinho e sempre consegue o que quer! Sou daqueles caras, como disse bem o Xexéo, que quando perde o cão que estimava diz que não vai ter mais nenhum outro, mas que acaba tendo.  Estou na fase do “não quero ter mais nenhum outro”.  Se tiver – e acho que é o que vai acabar acontendo – vai ser uma cadela como a outra que perdi e vai se chamar MILA. Com certeza.

 

Com tantos interessados, na conversa, resolvi buscar nos arquivos da Folha, a coluna escrita pelo Cony. Vale a leitura:

 

Mila Cony

 

Depois de ler em voz alta, aqui em casa, Eros e Ramazzotti, meus cães de estimação, me olharam com aquele olho de quem pede uma crônica igual. Pobres coitados! Posso me comprometer em cuidar muito bem deles, mas escrever como o Cony, ninguém será capaz. Resta-me seduzi-los publicando a foto dos dois aqui no blog. Espero que ao verem este post, a dose de ocitocina aumente:

 

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