Beto morreu porque é negro! Que triste, minha Porto Alegre!

Foto: SILVIO AVILA / AFP publicada no site CBN

 

Um homem negro foi espancado até a morte, na garagem de uma das lojas do supermercado Carrefour, no bairro do Passo da Areia, zona norte de Porto Alegre. Logo na minha Porto Alegre, como gosto de me referir à cidade em que nasci, aprendi, amei e sofri. Logo lá! Foi o que pensei quando li a notícia na abertura do Jornal da CBN desta sexta-feira marcada pelo Dia da Consciência Negra. Logo tu, Porto Alegre, de onde saí em 1991 e trouxe um carinho especial pelas pessoas que me cercavam e o orgulho por ter entendido quão rica culturalmente e diversa é a capital gaúcha — após anos de passeios noturnos do Bom Fim à Cidade Baixa, dali para o Menino Deus, com paradas no Ocidente, no Opinião, no Bar do Pio e outros locais tão anônimos quanto eu  que os frequentava muitas vezes sozinho, e acompanhado de uma bebida qualquer.

Sim, foi de Porto Alegre que o repórter da rádio Gaúcha Tiago Boff falou ao vivo no programa e relatou como João Alberto Silveira Freitas, o Beto, um homem negro, de 40 anos, aposentado por invalidez, após um suposto desentendimento com a fiscal de caixa, foi levado por cinco pessoas para fora do supermercado — eram três homens e duas mulheres —- e espancado por dois deles, e pisoteado, e sufocado até morrer. A mulher de Beto, que havia ficado para pagar a conta do supermercado, para o qual os assassinos de seu marido trabalham, encontrou-o no chão e em tempo de ouvir seu último desejo: “Emilia me ajuda”. Não deu tempo, ele morreu com os dois homens ainda prensando-o no chão com o uso dos pés.

Emília agora chora porque não pode ajudar o marido. Chora o pai de Beto, Joao Batista Rodrigues, de 65 anos, que teve de reconhecer o corpo do filho no DLM, lá na avenida Ipiranga — contramão para quem mora no Passo da Areia como a família de Beto. Eles moram —- Beto não mora mais — pertinho do supermercado, são clientes e o pai diz que até fez o cartão de compras por sugestão do filho. Programa de fidelidade que será “recompensado” com as custas do funeral,  o “suporte necessário” e um lamento impresso em nota assinada pelo Carrefour.

Saber que Porto Alegre estará na boca do mundo por essa lamentável e irreparável ocorrência me entristeceu nesta manhã —- o que foi percebido pelo sempre observador Dan Stulbach, na conversa do Hora de Expediente. Minha tristeza, lógico, não se constrói apenas por um sentimento paroquial. É muito maior pelo crime cometido. E acrescida por perceber que vivemos em um país onde muita gente ainda é capaz de relativizar a violência imensurável sofrida por negros, seja lá na minha Porto Alegre, seja aqui na minha São Paulo, seja onde for.

Por mais que houvesse pessoas solidárias ao drama da família e indignadas com o ato que expressa o racismo estrutural da nossa sociedade —- transformando-se em dose de bom senso e esperança —-, confesso que doeu no coração saber que há aqueles que são tão incapazes de se sensibilizar com esse comportamento quanto rápidos em criticar quem o denuncia. Poucos minutos após o relato jornalístico das barbaridades cometidas contra Beto, um homem negro, na minha Porto Alegre, alertas de mensagens piscaram na tela do computador. 

Por que destacar que a vítima é negra? Se fosse branco, você diria? Se fosse branco, não teria a mesma importância? Quem disse que ele foi morto porque é negro? Racismo é isso que vocês fazem! Cadê a ética jornalística? Todas as vidas importam. Vocês tem de ser isentos! 

Exclamações e interrogações de mãos dadas com a fatídica conjunção coordenativa de adversidade: …. não se deve matar, mas quem disse que …; eles erraram, mas o cara …; o mas —- que lá na minha Porto Alegre é pronunciado com o som do a fechado — sempre surge distorcendo o fato e querendo por dúvidas onde só temos uma certeza: o racismo existe e é praticado diariamente no Brasil.

O negacionista surge travestido de defensor da moral e dos bons costumes. Pede isenção quando o que quer é ser isento de punição. Só lembra de soletrar a palavra igualdade quando tenta impedir a implantação de políticas afirmativas. Fala em discriminação invertida onde o que existe —- e se exige — é discriminação positiva, aquela que estabelece equilíbrios e garantias para pessoas que historicamente foram excluídas pela sociedade. Surrupia o nome do crime que comete ao questionar o discriminado.

Beto foi morto porque é negro. Porque se branco fosse, seria oferecido a ele a abordagem do gerente do supermercado e não a intervenção violenta dos seguranças. Morreu porque é negro e morreu lá na minha Porto Alegre! Que triste!

Taxistas abusados ocupam vaga de deficiente

 

Ponto de táxi ilegal

Motoristas de táxis transformaram as vagas para pessoas com deficiência em ponto fixo, no supermercado Carrefour, na avenida Giovanni Gronchi, no bairro do Morumbi, em São Paulo. Quem reclama é nossa colunista dominical Maria Lucia Solla que chegou a alertar funcionários do supermercado, que não parecem tão interessados assim em resolver o problema. Sem solução, resolveu registrar em foto a irregularidade e o desrespeito com o cidadão.