Aging in place: o que é preciso para envelhecer em casa e na comunidade

Por Ciro Férrer Herbster Albuquerque

Envelhecer no lugar
Imagem produzida por IA

O envelhecimento é uma experiência heterogênea, marcada por diferentes trajetórias, condições de vida, histórias pessoais e relações sociais. O ambiente físico e o ambiente social participam diretamente da maneira como cada pessoa envelhece.

A casa, a vizinhança e os espaços onde a vida cotidiana acontece acumulam memórias, hábitos, referências e vínculos que contribuem para a construção da identidade e do sentimento de pertencimento.

É nesse contexto que se insere o conceito de aging in place. Entre 2011 e 2021, estudos da American Association of Retired Persons (AARP) identificaram que 77% das pessoas com mais de 50 anos desejavam permanecer em suas próprias casas. Entretanto, “envelhecer no lugar” não significa apenas permanecer fisicamente na mesma residência.

O conceito envolve a possibilidade de continuar vivendo em um lugar significativo, preservando autonomia, segurança, identidade, vínculos sociais e participação na comunidade à medida que as necessidades se transformam.

O pesquisador português António Fonseca amplia essa perspectiva ao destacar que o lugar não se restringe à casa. A vizinhança, os espaços públicos, os serviços, a mobilidade e as relações sociais também fazem parte das condições necessárias para envelhecer no local. Permanecer em casa sem conseguir circular, acessar serviços ou manter relações sociais pode resultar em isolamento, e não necessariamente em aging in place.

Por isso, o aging in place está relacionado à capacidade de o ambiente acompanhar as mudanças funcionais, cognitivas e sociais que ocorrem ao longo do envelhecimento.

Avanços na saúde, na farmacologia, na nutrição e nos hábitos de vida ampliaram a expectativa de vida, ao mesmo tempo que as cidades se tornaram mais complexas. Trânsito, ruído, deslocamentos prolongados, excesso de estímulos e conectividade permanente fazem parte da experiência urbana contemporânea e podem aumentar as exigências físicas e cognitivas impostas ao indivíduo.

Compreender como essas condições repercutem sobre o corpo envelhescente exige uma abordagem que articule arquitetura, desenho urbano, gerontologia e serviços socioassistenciais e de saúde.

Em 1973, os pesquisadores Lawton e Nahemow formularam a Teoria da Pressão–Competência, segundo a qual o comportamento e a adaptação da pessoa ao ambiente resultam da relação entre suas capacidades e as demandas impostas pelo espaço. Quando a competência diminui, ambientes com elevada pressão ambiental podem ampliar dificuldades, insegurança e dependência. A adequação do ambiente, nesse sentido, consiste em compatibilizar suas características com as capacidades do indivíduo, reduzindo barreiras desnecessárias sem eliminar estímulos que favoreçam a autonomia e a participação.

A partir dessa perspectiva, a Teoria Ecológica do Envelhecimento amplia a compreensão da relação entre pessoa e ambiente ao considerar que diferentes níveis de competência exigem diferentes graus de suporte ambiental. Assim, à medida que as capacidades funcionais diminuem, o ambiente passa a exercer maior influência sobre o comportamento. Pequenas alterações nas condições espaciais podem, portanto, produzir efeitos significativos sobre a autonomia, a segurança e a participação cotidiana.

Essa relação é fundamental para o aging in place, uma vez que a permanência no lugar escolhido depende da capacidade de o ambiente acompanhar as transformações decorrentes do envelhecimento.

Nesse contexto, ganha importância o princípio da docilidade ambiental, segundo o qual a influência do ambiente sobre o comportamento tende a aumentar conforme diminuem as competências individuais. Já a proatividade ambiental reflete a capacidade ativa da pessoa idosa de modificar, gerenciar e controlar seu espaço físico e social para atender às suas necessidades e manter a independência. O ambiente, portanto, passa a fortalecer ou enfraquecer a competência do indivíduo em sua própria moradia.

Dentro dessa perspectiva, a percepção também constitui uma peça fundamental da relação entre pessoa e ambiente. Cada indivíduo seleciona, organiza e interpreta os estímulos ao seu redor a partir de experiências, valores, hábitos e referências construídas ao longo da vida.

Uma rua associada ao medo pode ser evitada, enquanto um espaço reconhecido como familiar pode favorecer segurança e confiança. Esses códigos de referência influenciam escolhas, comportamentos e formas de utilização dos lugares.

Essa compreensão deve estar presente no projeto das residências e das instituições destinadas às pessoas idosas. Pequenas decisões podem modificar significativamente a autonomia cotidiana. A altura das janelas, a disposição dos equipamentos, a largura dos percursos, o alcance dos objetos e a relação visual com o exterior interferem na capacidade de realizar atividades sem depender continuamente de outra pessoa.

Uma janela alta, por exemplo, pode restringir a paisagem de quem permanece sentado ou deitado. Uma simples alteração na altura da abertura ou a inclusão de uma faixa transparente pode ampliar o campo visual e favorecer a relação com o entorno.

O mesmo princípio se aplica aos ambientes institucionais. A autonomia não desaparece quando a pessoa passa a viver em uma instituição. Ao contrário, o espaço deve oferecer condições para que ela continue exercendo escolhas. Isso inclui decidir onde sentar, com quem permanecer, quando buscar privacidade e quais atividades realizar.

Ambientes padronizados e com aparência hospitalar podem reforçar a dependência e a institucionalização.

Mobiliário familiar, cores, texturas, objetos pessoais, conforto ambiental, referências visuais e diferentes possibilidades de permanência, por sua vez, ajudam a construir espaços mais próximos da experiência residencial. Vale ressaltar que o conforto ambiental ultrapassa a dimensão física. Temperatura, iluminação, ventilação, acústica, materiais, cores e organização espacial influenciam a experiência corporal, emocional e social.

Um ambiente confortável deve proporcionar descanso, conversa, observação, escolha, circulação e manutenção das relações com outras pessoas, sem exposição ou vigilância excessiva.

Uma mesma área de convivência pode oferecer locais próximos à televisão, espaços mais silenciosos, pontos de observação e áreas destinadas à conversa. Essa variedade permite que cada pessoa escolha como deseja vivenciar aquele momento, respeitando diferentes necessidades e preferências.

Portanto, o aging in place pressupõe construir condições para que a pessoa possa continuar vivendo, escolhendo, circulando, convivendo e reconhecendo-se no lugar onde sua vida acontece.

A arquitetura participa desse processo quando deixa de considerar o envelhecimento apenas como uma questão de acessibilidade e passa a compreender o espaço como parte inerente das condições que sustentam autonomia, independência, pertencimento, segurança e continuidade da vida.

Ciro Férrer Herbster Albuquerque é doutorando e mestre em Arquitetura, Urbanismo e Design pela Universidade Federal do Ceará, especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e coordenador da Comissão de Normatização, Fiscalização e Cadastro do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa de Fortaleza, Ceará.

Dez Por Cento Mais: Ciro Férrer explica como arquitetura pode favorecer um envelhecimento com mais autonomia

“A casa pode tanto prejudicar quanto auxiliar nesse processo que é da longevidade qualitativa e digna.”

O Brasil envelhece rapidamente, mas casas e cidades ainda são projetadas, em grande parte, sem considerar as mudanças físicas, cognitivas e emocionais que acompanham o passar dos anos. Pequenas adaptações nos ambientes podem reduzir riscos, preservar a independência e melhorar a qualidade de vida. Esse foi o tema da entrevista de Ciro Férrer, arquiteto, urbanista, especialista em gerontologia, neurociência e neuroarquitetura ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Ao longo da conversa, Ciro desmontou a ideia de quem vê a arquitetura apenas pelo viés da estética. Segundo ele, a forma como uma casa é organizada influencia diretamente o comportamento, a saúde e a autonomia das pessoas, especialmente durante o envelhecimento.

O interesse de Ciro pelo tema nasceu de uma experiência pessoal. Durante a graduação em Arquitetura, ele acompanhou a mudança radical na vida da avó após uma queda dentro de casa. Até então independente, ela passou a enfrentar limitações impostas pelo próprio ambiente onde sempre viveu.

“A casa passou a dominá-la”, resume.

A experiência revelou obstáculos que costumam passar despercebidos: portas estreitas para cadeiras de rodas, banheiros com circulação limitada, pisos escorregadios e mobiliário que dificulta os movimentos. Ao mesmo tempo, ele percebeu que sua formação acadêmica pouco abordava a relação entre envelhecimento e ambiente construído.

Leia, também, os artigos de Ciro Férrer no Blog do Mílton Jung

Adaptações simples fazem diferença

Durante a entrevista, Ciro destacou que muitas melhorias podem ser feitas sem grandes reformas. Entre elas estão a instalação de fitas antiderrapantes em pisos lisos, proteção para quinas de móveis, reorganização da circulação da casa e escolha de cadeiras com braços, altura adequada e apoio para as costas.

Ele também alertou que cada adaptação deve respeitar os hábitos e a história de quem mora no local.

“Não adianta a gente pegar a norma. Cada pessoa é única e a casa dela tem que ser única.”

Por isso, antes de definir onde instalar barras de apoio ou alterar a disposição dos móveis, ele observa como a pessoa realiza atividades do cotidiano, como tomar banho, preparar um café ou levantar-se do vaso sanitário.

Outro ponto enfatizado por Ciro é que a casa guarda lembranças, afetos e referências que ajudam na orientação espacial, especialmente para pessoas com comprometimento cognitivo. Ao comentar o hábito de retirar tapetes de residências de pessoas idosas, ele defendeu uma análise individual de cada caso.

“Esse tapete é importante para você? Tem sentido para você? Tem? Vamos manter.”

Quando o objeto representa um risco, a solução nem sempre é descartá-lo. Segundo ele, o tapete pode ganhar uma nova função, como peça decorativa na parede ou sobre um móvel, preservando seu valor afetivo.

A iluminação tem um capítulo especial nesta conversa, seja pela visibilidade do espaço seha porque influencia o nosso cérebro.

Ciro explicou que o organismo humano continua regulado pelo ciclo natural entre claro e escuro. A exposição à luz pela manhã ajuda a sincronizar o ritmo biológico, melhora o estado de alerta e favorece funções como memória, atenção e planejamento. Já durante a noite, a recomendação é reduzir a intensidade da iluminação e evitar luzes fortes diretamente nos olhos.

Como alternativa, ele sugeriu o uso de luzes de vigília próximas ao piso, instaladas entre o quarto e o banheiro. Dessa forma, a pessoa consegue caminhar com segurança sem comprometer o ciclo do sono.

Cidades também precisam envelhecer

Para Ciro Férrer, pensar apenas na casa não é suficiente. O envelhecimento depende também da qualidade dos espaços públicos. Ele afirmou que muitas cidades brasileiras continuam priorizando o deslocamento por automóveis, enquanto calçadas irregulares, falta de acessibilidade e insegurança limitam a circulação das pessoas.

“O desenho da cidade não pode se limitar ao concreto.”

Integrante do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa de Fortaleza, ele defendeu maior investimento em políticas públicas voltadas ao envelhecimento e lembrou que acessibilidade envolve muito mais do que rampas e barras de apoio. Inclui comunicação, atendimento respeitoso, sinalização adequada e condições para que as pessoas exerçam plenamente sua cidadania.

Ao citar uma pesquisa realizada durante seu mestrado, Ciro observou que muitas pessoas idosas convivem com o medo de cair, mas continuam frequentando praças e espaços públicos porque esses locais representam convivência, pertencimento e qualidade de vida.

Ciro reforçou que o envelhecimento não deve ser tratado como responsabilidade exclusiva de profissionais da saúde ou da arquitetura.

“Todos somos seres envelhecentes e todos queremos ser cuidados e acolhidos de maneira independente e autônoma.”

Para ele, construir ambientes mais seguros e cidades mais inclusivas significa criar condições para que as pessoas possam envelhecer com autonomia, dignidade e participação na vida em comunidade.

Assista ao Dez Por Cento Mais

Inscreva-se agora no canal Dez Por Cento Mais no YouTube e receba alertas sempre que um novo episódio estiver no ar. Você pode ouvir, também, em podcast no Spotify. A apresentação é de Abigail Costa e a produção de Amanda Costa.

Conte Sua História de São Paulo: a casa mal-assombrada da Bela Vista

Iorli Marli Bezerra Pivato

Ouvinte da CBN

Door Lock
Foto: Gustavo Maximo/Flickr

Minha história de São Paulo começa em 1948, quando eu tinha 6 anos, e mudei da casa da minha avó, na Rua Cruzeiro do Sul, para uma casa “mal-assombrada” na Rua Santo Antônio, 104, no bairro da Bela Vista.

No local havia acabado de acontecer um crime que abalou a cidade de São Paulo. Um jovem químico professor da USP, Paulo Ferreira de Camargo, havia matado a mãe e as duas irmãs e jogado os corpos em um poço no quintal da casa. Quando os corpos foram descobertos, ele se matou no banheiro.  Um dos bombeiros que participaram das escavações, sem proteção, morreu por infecção cadavérica.

Todos esses fatos e o exagero da imprensa em criar reportagens sensacionalistas, deram a ideia de que o local era amaldiçoado, mal assombrado, tornando o imóvel desvalorizado. 

Minha mãe viu ali uma oportunidade de negócio, alugou o imóvel, montou seu salão de beleza e relocou quartos e salas fazendo uma espécie de pensão.

Tenho boas lembranças daquela época, da ingenuidade da criança que se divertia observando curiosa os quartos dos inquilinos pelas fechaduras das portas, quando voltava do jardim da Infância, na Cruzada Pró-Infância, na Praça da República. 

Lembro das brincadeiras com os tubos de lança-perfume, comprados por meu avô, para a festa de carnaval, na avenida 9 de Julho, onde o cordão passava cantando “Nega Maluca”, de Linda Batista.

Lembro da curiosidade sobre o teatro de alumínio, instalado em 1952 na Praça da Bandeira, onde a companhia de teatro de Nicete Bruno se apresentava e usava os serviços do salão de beleza da minha mãe.

Lembro da festa do quadricentenário de São Paulo, dos papéis picados sendo jogados do alto dos prédios.

Vivemos na casa muito felizes, até 1954, quando foi demolida. Mudamos então para o bairro da Vila Rosa, perto do Horto Florestal, mas não abandonamos o Centro. Trabalhamos no Largo do Arouche, na Praça Patriarca, na Praça da República, mas aí são outras histórias.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Iorli Marli Bezerra Pivato é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Quem define o seu sucesso?

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

Foto de Aysegul Aytoren on Pexels.com

Bater metas no trabalho, dar conta da rotina em casa, cuidar da saúde com alimentação regrada e exercícios físicos, ter higiene do sono, ler para ser uma pessoa bem informada… Ser produtivo é sinônimo de sucesso! 

Mas, afinal: o que é ser produtivo? Quem define isso?

Viver, para um ser humano, é uma experiência complexa. Reforço “para um ser humano” porque somos uma espécie animal que tem consciência  — outra coisa de difícil definição. Ou seja, sabemos dos fatos, das consequências, dos riscos, das possibilidades e isso nos dá poder e, ao mesmo tempo, angústia.

Sabemos dessa realidade dura e sentimos desejos — temos vontade de vivenciar experiências, conquistar bens materiais, ser admirados e amados. Reparou quantos movimentos acontecem ao mesmo tempo?

Unir o mundo de dentro, que é “quem somos”, com o mundo de fora, “os outros e a vida como ela é”, dá trabalho — um trabalho árduo e, muitas vezes, confuso.

Quem devo ouvir: a mim mesmo — e minhas vontades e ideias — ou aos outros — o que todos falam que é bom, o que a sociedade diz ser certo? Quem estabelece se eu “tenho sucesso”?

Ser produtivo, hoje, significa estar sempre ocupado com coisas que trazem resultado, que posso provar que fiz. Com aquilo que todos enxergam. Números, dados, imagem, soluções palpáveis ou visíveis. E isso é ruim? A verdade é que a sensação de “chegar lá” é muito prazerosa. Inclusive, a construção da nossa “autoestima” (o conceito que temos sobre nós mesmos) está muito relacionada às nossas realizações. Então, vale a pena produzir!

A grande questão aqui é: produzir o quê, quanto, por quê, para quem? 

Convido você a pensar: dentro da sua realidade hoje e dos seus parâmetros (do seu mundo interno), o que é possível fazer sem se destruir de cansaço? O que é um sucesso atingível, de forma que você se mantenha vivo, com saúde, para saborear essas conquistas?

E faço uma  última pergunta: qual conceito de “ser produtivo” você vai construir e viver?

Te desejo muitas realizações autênticas, muito sucesso, o seu sucesso!

Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Conte Sua História de São Paulo 472 anos: os cortiços da Vila Carioca receberam as famílias da usina de cana


Fábio J. Orenhas

Ouvinte da CBN

Esquina da Vila Carioca Foto: Google Street View

São Paulo, década de 1940. Primeiro vieram os Carinalli, que saíram de uma pequena cidade do interior, Cosmópolis, para tentar a sorte em São Paulo. Eram moradores de colônias construídas na fazenda para abrigar os trabalhadores da Usina Ester, produtora de açúcar e álcool. Depois vieram os Baron, Rosa, Tejeda. Todos atraídos pela força da cidade grande.

O local escolhido não por consenso, mas por decisão do primeiro que chegou: Ipiranga, Vila Carioca. Moravam em um espaço de dois ou três quarteirões, tendo como centro a Rua Lício de Miranda. Viviam em cortiços ou em casas, próximos uns dos outros. Formavam a comunidade da Usina Ester, em São Paulo.

Minha mãe que herdou o nome da usina de açúcar, Dona Esther,  chegou no fim dos anos 1940. Da família Todero, viúva, veio com a filha mais velha, morar no mesmo quarteirão dos Rosa, do marido falecido. Conheceu meu pai, que era de Birigui. Foi aí que nasci, e passei a morar na comunidade da Usina Ester.

Lembro dos casamentos, muitos entre famílias que vieram da Usina.  Eu mesmo casei com minha esposa, também de Cosmópolis, e continuei morando na Vila Carioca. Quando vinha alguém lá da usina ou da cidade natal era uma festa — oportunidade de lembrar as histórias de antigamente. 

Estas comunidades duraram até os anos 1990. Perderam-se, substituída pelos barracões e pelo crescimento da cidade. Os cortiços já não estão mais lá, a comunidade se espalhou por outros lugares — eu estou morando em Paulínia, pertinho de Cosmópolis. As ruas Licio de Miranda, Albino de Moraes, Brás de Pina e Colorado resistem bravamente, assim como o calçamento de paralelepípedo e um solitário portão de uma das antigas casas. 

Sobraram saudades que tentamos passar para as novas gerações; lembranças deste tempo que se foi na garoa e na neblina de São Paulo. O progresso levou embora as colônias da Usina Ester. 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Fábio J. Orenhas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 472 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Em memória de minha querida cunhada Helena Zang

Por Christian Müller Jung

Photo by Engin Akyurt on Pexels.com

A vida me ensinou a ter casa cheia!

Se há algo que guardo na memória do tempo de adolescente, é a quantidade de pães, presuntos e queijos que minha mãe trazia do supermercado. A geladeira sempre cheia, porque nunca se sabia quem mais poderia chegar. E assim eram os cafés da tarde, os jantares. A mesa rodeada de amigos que se misturavam aos meus irmãos. Família completa que habitava aqui mesmo, onde moro. Ao todo, éramos seis integrantes, mas houve tempos em que éramos mais. Na ordem de precedência, pai, mãe, irmã, irmão e uma prima.

Por duas vezes, as avós também vieram morar aqui. A mãe da minha mãe, que ficou por muitos anos, e depois a mãe do meu pai, que veio para receber os cuidados de saúde necessários para não precisar ir para uma clínica. Minha mãe sempre acolhia a todos. E assim, a mesa sempre repleta de pessoas. Parentes e amigos que se misturavam a toda hora. Os colegas do basquete do meu irmão, os meus colegas do Rosário, da banda de jazz, gente que entrava e saía e já sabia até onde ficava a chave da porta. E por isso aquela pilha de queijo sempre presente na geladeira.

E assim, eram as festas de final de ano. Faltava espaço e sobrava alegria. Por uma infelicidade, dessas tantas que se abatem sobre nós, ainda mais quando já somamos alguns anos de vida, minha mãe também se foi, muito antes do que o previsto na tabela do tempo, e eu me vi perdido, tentando juntar as pessoas como peças que caíam da caixa do jogo de xadrez. E a casa foi se esvaziando, cada um saindo aos poucos, tomando seu rumo, desenhando suas histórias. Para mim, um tanto de sofrimento de ver os cômodos vazios, precisando naquele momento, não de pão, presunto e queijo abarrotando a geladeira, mas de vozes se cruzando ao redor da mesa.

Mas essa vida é uma roda. Casei e a família da Lúcia passou a ser também a minha família. Ali, onde eu me agregava a uma turma nova, também trazia os meus a se somarem. E aos poucos fomos ocupando os espaços. Os filhos, cunhados, tios, avós, uma enorme corrente que novamente se unia formando um grande grupo. Recebi por herança essa vontade de reunir. Talvez por isso a casa tenha três churrasqueiras e quatro fogões. De fato, estar com as pessoas é o que mais nos enriquece, afinal precisamos uns dos outros. E ainda assim, a vida insiste em escorregar por nossas mãos.

Nessa roda que já citei anteriormente, muita gente que aparece nas fotos que se misturam entre álbuns, gavetas e paredes vai se indo. E não depende de nós esse controle. É um jogo que devemos aproveitar, não pra ganhar, mas por saber que teremos pessoas à volta dispostas a estarem contigo o tempo que lhes for dado. Que, à medida que tombamos no caminho, saibamos repor e dar espaço a novas vidas que se agregam. Os amigos do filho. Da filha. O genro, a nora, afilhados, sobrinhos, gente querida que dá prazer de novamente abarrotar a geladeira de queijo e presunto só pra ter a mesa novamente repleta de felicidade e toalha suja de comida. Pratos que se acumulam na pia e uma casa que no final do dia temos que colocar em ordem.

Sempre gostei de casa cheia. E pra cada um desses que se foram e que passaram por aqui, saibam que a casa sempre será de vocês, porque onde se soma alegria, mesmo na memória, o certo é que nos veremos um dia.

Christian Müller Jung é publicitário de formação, mestre de cerimônia por profissão. Colabora com o blog do Mílton Jung — o irmão dele, com muito orgulho.

Porto Alegre de joelhos: a oportunidade de renascer surge nas margens do Guaíba

O dilúvio de 2024 em Porto Alegre, em foto de Ricardo Stuckert/PR EBC

A casa do Menino Deus foi esvaziada. Minha gente se mudou preventivamente para um lugar mais seguro, diante do alerta de enchente. O Guaíba, esse espaço d’água que chamamos de rio, mas é um lago, fica a dois quilômetros de distância. Está bem mais próximo, há três dias, retomando suas margens originais frente ao volume excessivo de água que recebeu dos rios que correm do interior do estado. Ainda há possibilidade de chuva forte e falência total do sistema de bombeamento, o que poderia tornar ainda pior o cenário atual.

As raras e boas notícias desta manhã de terça-feira são de que a ameaça de enchente na Saldanha Marinho, rua em que nasci e vivi, diminuiu. É provável que seja preservada desta desgraça que assola o Rio Grande do Sul desde a semana passada. Algo sem precedentes, mas previsível. A incapacidade de escutarmos os sinais da natureza impede, contudo, ações preventivas, nos leva a desdenhar dos riscos e desperdiçar dinheiro em obras e projetos urbanísticos desconectados da realidade ambiental que geramos ao longo dos anos.

Guri de calça curta, correndo pelos corredores da casa da Saldanha, ouvia meus pais falarem do dilúvio de 1941, que levou a cidade a se reinventar e criar uma rede de proteção com muros e diques. Por incrível que possa parecer, foi o que amenizou a tragédia atual. Sim, chega a ser irônico: a Porto Alegre do século 21 foi salva por uma tecnologia dos anos de 1960. 


Nos últimos anos, estava admirado com a maneira como a cidade havia se voltado para o Guaíba. A orla foi recuperada, com a criação de parques e áreas de lazer. Desde o cais, no centro antigo, até a região do estaleiro, no início da zona sul, a população retomou o espaço de convívio com o seu rio. Nas visitas à cidade, fazia questão de passar por essa região e, orgulhosamente, apreciar o mais lindo pôr do sol que já conheci. 

Hoje, a cidade está de joelhos para o seu rio. Alguns bairros estão embaixo d’água, outros tiveram de ser evacuados, falta energia e água potável para a maior parte da população. Ainda não se tem ideia da dimensão dos estragos e quanto tempo Porto Alegre precisará para se reerguer. A esperança, e eu me recuso a falência da esperança, é que a coincidência deste desastre com o calendário eleitoral, leve partidos, políticos e eleitores a priorizarem projetos urbanístico que reinventem a cidade.

Temos de aprender com essa tragédia. É preciso cobrar dos candidatos uma revisão do planejamento urbano para garantir que novas construções e reestruturações de áreas sejam realizadas com a resiliência climática em mente, incluindo o aumento da área verde e a redução da impermeabilização do solo.

Será necessário, ainda, investimento nas tecnologias mais avançadas de barreiras e diques; expansão das áreas úmidas naturais próximas ao rio; implementação de sistemas de drenagem urbana sustentáveis; desenvolvimento de um sistema de alerta precoce com sensores e tecnologia de dados para monitorar os níveis de água e prever enchentes; e a criação de grupos comunitários de resposta a emergências para fortalecer a proteção local e a capacidade de resposta coletiva. 

À medida que as águas recuam, a oportunidade de renascer surge nas margens do Guaíba. As mudanças climáticas são uma realidade incontestável e responder a elas com resiliência e adaptabilidade não é apenas uma escolha, mas uma necessidade urgente.

Conte Sua História de São Paulo 470: um passeio nas lembranças da casa na Augusta

Miguel Chammas

Ouvinte da CBN

Hoje o dia está chuvoso e frio; perfeito para sentar em qualquer canto, calar a voz e permitir que o peito, através das lembranças, chore e ria o quanto e como quiser.

Não será preciso nenhum toque especial, nenhum gole de álcool ou qualquer outro motivador que seja. Basta, apenas, relaxar e esperar as memórias começarem a aparecer.

Bem pensado. Imediatamente colocado em prática. Surge uma dúvida: O que lembrar?

Bem, eu queria voltar no tempo, ir para as décadas de 40/50, e lá, naquele casarão da Rua Augusta, encontrar a minha infância, encontrar meu avô Gidi, minha avó Siti, minhas tias Neide e Zazá, meus primos Sonia e Roberto, minha mãe, meu pai, meu irmão.

Queria subir pelas escadas de mármore, ganhar o corredor, entrar no quarto da frente, encontrar meu avô, já doente, lhe fazer um cigarro de palha para, depois, ler uma boa parte do jornal até ele ressonar tranquilamente.

Depois, continuar percorrendo o longo corredor, ultrapassar o primeiro quarto onde dormiam eu, meu irmão, meu pai e minha mãezinha. Passar, logo em seguida, pelo segundo dormitório que era ocupado por minha tia Neide e meus primos Sonia e Roberto e, finalmente, chegar à sala de jantar onde as reuniões familiares aconteciam. Onde a árvore de Natal era montada todos os anos, e os presentes do ”Papai Noel” eram desembrulhados a cada dia 25 de Dezembro. Onde as macarronadas dos almoços domingueiros eram realizadas, onde os pacotes de doces do Bar Viaducto, comprados por meu pai, eram abertos e os doces devorados por todos, onde nós, crianças, a cada almoço, tínhamos, divididas com justiça, garrafas de deliciosas Tubainas.

Sala onde eu presenciei ainda garoto, os bailecos promovidos por minha tia, recheados de trilhas sonoras com Fernando Albuerne, Gregório Barrios, Lucho Gatica. Bing Crosby, Frank Sinatra, Tommy Dorsey, Glenn Miller e outros sons doces e melodiosos e, depois, passados alguns anos, mudado de assistente a promotor, passei a realizar bailinhos, não de garagem, mas de sala, abrilhantados por “Pick-up e sus Negritos”, amparados por “sandubas” de “Carne-Louca” e espetinhos de Salsicha e Picles enfeitando abacaxis ou outros que tais, regados a Ponche confeccionados com muita guaraná, Cinzano, frutas picadinhas e gelo.

Sala de mil lembranças, inclusive tristes, como os velórios de meu avô e depois de minha tia, quando era transformada em morgue, forrada de panos pretos, e iluminada por velas em castiçais prateados e flores de odor doce e nauseabundo, arejada por um pequeno aparelho emissor de ozônio de barulho irritante.

Queria continuar atravessando o corredor, passando pelo pequeno quartinho ocupado por minha tia, quando de sua solteirice, passando, depois, pela porta do único banheiro da casa que, no seu interior, guardava uma antiga cômoda de madeira usada para guardar materiais de higiene e toalhas de rosto e banho. Tinha, também, uma enorme banheira de ferro fundido, usada de quando em vez, para banhos alegres das crianças que, depois de se refestelarem na água represada, usavam o chuveiro elétrico que ao centro da banheira para o desensaboamento.

Chegaria, então, ao cômodo mais importante da casa, a cozinha, onde a vida inteligente da família se reunia nos dias não festivos para consumirem os alimentos (poucos no pós-guerra), mas elaborados com carinho e maestria por Tia Neide e minha mãe. A cozinha era simples, tinha um fogão de ferro onde eram acesos, com a ajuda de cascas de laranja secas que eram penduradas na barrinha em frente para transformarem os carvões inertes dentro das bocas do fogão, em brasas vivas, e emprestarem o seu calor para uma perfeita cocção dos alimentos.

Tinha também uma mesa antiga, de madeira já bastante gasta nas bordas arredondadas, um armário para guardar pratos e copos, uma pia que, nos seus baixos, tinham sido empilhadas umas tábuas para acondicionarem-se as panelas que, por sua vez, eram escondidas por uma cortininha de pano estampada com pequenas flores azuis.

A geladeira, que chegou um dia, para gáudio de todos, estava instalada ao lado da pia e, pasmem, era alimentada por barras de gelo que recebíamos diariamente através do “geleiro” e sua carroça básica.

Finalmente, descerrar a porta da cozinha e deparar com o cenário de minha pobre, mas alegre infância o quintal que, ainda hoje, povoa minhas lembranças.

No seguimento da porta da cozinha ficava uma escada que descia pela parede até o piso do quintal. Uma pequena parte do quintal, em que estava instalado o tanque onde um dia eu mergulhei como se fora um super-herói e quase matei de susto minha mãe, o corredor lateral e todo o porão da casa eram cimentados, O resto do enorme quintal era em terra bruta, onde além dos varais de roupa, suspensos por taquaras secas existiam, também, alguns mamoeiros, uma goiabeira de frutos vermelhos, onde eu saciava minha gula, uma velha parreira de uvas vermelhas e deliciosas e algumas ervam aromáticas, um enorme e pesado pilão de cimento dos tempos de minha avó e, a minha paixão, uma touceira de hortênsias azuis que eram o meu esconderijo preferido depois de alguma travessura.

Esta era minha casa, meu mundo, minha vida, minha querência querida.  Ah que bom seria poder voltar a ela e matar as saudades que hoje moram no meu coração.

Infelizmente, a realidade é cruel e sei, pesarosamente, ser impossível meu desejo, então tento amenizar estas saudades escrevendo e descrevendo o velho casarão.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Miguel Chammas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Seja você também personagem dos 470 anos da nossa cidade. O texto que você ouvirá a seguir foi adaptado para ser apresentado no rádio.

Escreva a sua história e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos leia o meu blog miltonjung.com.br e ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Desvendando fantasmas

 

 

Por Christian Müller Jung

  

 

ghosts-572038_960_720

  

 

Quando tinha cinco de anos de vida, minha cama ficava voltada para porta do quarto. De lá podia ver a mureta que separava a escada que dava acesso ao corredor. Muitas das vezes em que de sobressalto acordava com um barulho ou tão somente para virar de lado, olhava rapidamente para aquela direção e via um vulto que descia.

  

 

Em algumas datas o formato era evidente: no Natal o Papai Noel e na Páscoa, logicamente, algo parecido com o coelho que viria depositar a tão esperada cesta com os ovos. Evidentemente que no despertar noturno, até a pupila fazer a movimentação necessária para suprir a falta de luz, aqueles fantasmas tinham o formato da minha imaginação. Assustadora na maioria das vezes, como são esses medos de dormir com a luz apagada. Poderia ser o tal “velho do saco” ou sei lá o que mais que passa por essas nossas cabeças infantis e muito criativa na época. Nem bicho papão e ninguém embaixo da cama: simplesmente um assustador vulto na escada.

  

 

Hoje, com 50 anos e ainda morando na mesma casa, agora ocupando o quarto do casal e, ao mesmo tempo, me vendo ali onde meus pais dormiam, os tais fantasmas já não me assombram quando abro os olhos durante a madrugada. Eles me aparecem quando fecho os olhos. Justo agora quando eu é quem os assustaria porque sei, conheço cada gemido do material que sustenta das paredes ao teto da casa.

  

 

É engraçado como o nosso cérebro funciona dando luz à imaginação, indiferentemente da idade. Somos tão absorvidos pelo susto que mesmo quando já temos consciência de que os vultos que eu via na infância não me levariam para um lugar desconhecido, ainda assim me surgem fantasmas.

  

 

A diferença é que agora eles se parecem muito mais reais e pertinentes com as minhas perspectivas diante da idade que tenho. São em forma de sucesso profissional que não vem na proporção como imaginei, de salário muito distante do que preciso, de relação mais racional sobre o tempo que me resta e do tanto que ainda tenho para absorver.

  

 

Pode ser do filho que se distancia porque vai seguindo o seu próprio caminho, pode ser pela minha filha que cresce e convive com uma paralisia e nunca se distanciará. Pode ser somente pelo tempo. A angustiante tarefa de ser adulto, como também é a de ser adolescente e de ser criança.

  

 

Fantasmas que hoje tem o formato desse paradigma que é a existência. Da forma como a gente imaginou que um dia seria o nosso “futuro”. Desse mesmo vulto inexistente que eu enxergava da cama do quarto e ainda teme em tentar me frear ou me direcionar ao desconhecido.

  

 

A verdade é que todos os dias quando abrimos os olhos temos tão somente duas opções a tomar: ou deixamos que eles nos levem para o buraco infinito da falta de explicação; ou criamos nós mesmos o formato que queremos que eles se transformem.

  

 

Não! Eu conheço bem a minha casa.
Aviso aos fantasmas.
Eu ainda tenho muito para lhes assustar!

  

 

Christian Müller Jung é cerimonialista, palestrante e meu irmão (não necessariamente nesta ordem)

A pracinha em frente de casa e o Citroën de cano reto

 

Milton Ferretti Jung

 

Recém havia sentado e preparado o meu computador a fim de escrever o texto para o blog do Mílton, que não é uma obrigação,mas,isso sim, uma satisfação para um pai aposentado cujo único compromisso,nos últimos tempos,é visitar médicos das mais variadas especialidades. Aliás, são tantos que deixo parte da organização dessa tarefa à Maria Helena,minha mulher,filha de farmacêutico, que trabalhou alguns anos na farmácia paterna e é bem mais afeita,por isso, a lidar com os que cuidam da minha saúde. Este escriba de Facebook que,talvez,alguém leia,seja por curiosidade ou amizade,sempre acha assim tempo para redigir esta coluna,nem sempre nas quintas-feiras,conforme minha combinação com o filho,este sim um escritor de verdade. Por falar nisso,recentemente,ele lançou um livro em parceria com a fonoaudióloga Lenny Kyrillos,com este título:”Comunicar para liderar”.Recomendo a sua leitura e não é por corujice paterna,mas porque já o estou lendo e é muito bom.

 

Não era bem este o meu assunto,mas os caminhões que durante um dia inteiro subiram e desceram a rua onde moro. Acontece que os tais caminhões passaram fazendo isso por pelo menos dez dias. Retiravam terra e restos de árvores de um terreno baldio,o último existente, por sinal,na Dr.Possidônio da Cunha, em Porto Alegre. Um pensamento,às vezes,corre atrás do outro ou mesmo dos outros. Este me veio à cabeça ao assistir à azáfama dos caminhões,que chegavam vazios ao terreno que limpavam e saíam carregadíssimos,fazendo um barulho ensurdecedor. Não são eles,porém,os protagonistas da historiazinha que vou contar e da qual me lembrei quando escrevi que os monstrengos ruidosos levavam o que chegou a ser um espaço arborizado e não um simples barral. Ainda,no entanto,tergiverso e,com isso,deixo entrar no que interessa ou pode interessar.

 

Na minha infância e até casar,morei com os meus pais em uma rua que,bem na frente da casa paterna,se unia a outra. A minha era a 16 de Julho,a vizinha dela,Zamenhoff. As duas,por muito tempo,possuíam,entre as suas casas,terrenos baldios. Os terrenos baldios eram os locais onde brincávamos de esconde-esconde e,principalmente,jogávamos as nossas peladas.Para desespero dos nossos pais, chegávamos em casa com os sapatos em pandarecos. Naquela época não haviam ainda inventado sequer as alpargatas e os sapatos não eram baratos. Os espaço livres foram terminando.Recebiam casas modernas e acabavam, principalmente,com o futebol que a gente jogava. A única bola que usávamos – bola de tento – como eram conhecidas,tinha um dono,o Airton Stein. No bom do jogo,a mãe do dono da bola o chamava para tomar café ou dar um pulo no armazém para comprar isso ou aquilo.

 

Escrevi que os espaço livres para se brincar foram,aos poucos,virando casas.Sobrou a “pracinha” que ficava na junção das duas ruas a que já me referi. Em roda da “pracinha”,ficavam as casas mais próximas dela.Volta e meia,a bola do Airton ia parar dentro de uma dessas casas. E a bronca do residente era imediata. Alguns faziam de conta que nos deixariam sem bola.

 

Encontrávamos,entretanto,novos “esportes”. Bola de gude,bolinhas de tênis muito usadas,etc. A “pracinha”,que a prefeitura tentava transformar em praça de verdade, nunca passou do diminutivo. As flores da prefeitura nunca chegaram a crescer e inventávamos,a casa dia ou durante algum tempo,toda a espécie de “esportes”. Jogou-se nela desde futebol,vôlei e até tênis,com rede e tudo.

 

A “pracinha” teve,inclusive,os seus personagens. Um deles,de repetente,sofria um ataque e o remédio era lhe pôr na mão a bola do Airton. O outro menino problemático não jogava. Apenas nos olhava e segurava entre dois dedos folhas de trepadeiras e as sacudia incansavelmente. Era na minha casa que a turma pedia licença para beber água da pena. No Dia de São João,os esportes davam lugar a uma imensa fogueira. Lembro-me que o meu pai enchia de água a banheira,o tanque,enfim,todos os baldes da residência,temendo que a fogueira soltasse fagulhas capazes de incendiar a nossa casa.

 

Crescemos quase todos e continuamos morando nas casas que nossos pais haviam construído. Um vizinho,que morava no fundo da minha casa,numa rua paralela chamada São Pedro,bem mais velho do que eu,tinha comprado um Citroën e colocado nele um cano de descarga reto. Esse fazia um ruído tão encorpado que parecia uma Ferrari.Fiquei doidinho por ter um carro com tal tipo de descarga e consegui convencer meu pai a me deixar imitar o cano do Citroën que ele comprara direto da fábrica, na França e era igualzinho ao do Valnei Law. O cano reto foi um presente por eu ter passado de ano,no colégio. Eu retirava uma tampa da boca do cano reto (o original era mantido e ficava depois de uma curva que deixava a descarga fluir pelo lado esquerdo do carro). O meu pai me emprestava o Citroën para ir às missas dominicais. Nunca fui. Em um desses domingos um carro de praça (assim chamavam os carros de aluguel na época), em um cruzamento perto da minha casa, bateu no paralama traseiro do Citröen. Como não tinha carteira dispensei o taxista e fiquei sem poder dirigir por um bom tempo.

 

Contei todas essas histórias,a partir do dia de hoje e daí para trás por uma razão:não suporto mais ler ou ouvir notícias de crimes,estupros e de mortos por balas perdidas,afora o inesgotável Lava-Jatos e safadeza de políticos.