Crime sem castigo

 

Como meu editor, da Contexto, sempre foi caridoso em permitir a reprodução de seus artigos aqui no blog, hoje tomei a liberdade de compartilhar seu pensamento sem antes ter-lhe pedido autorização. Que Deus me perdoe por esse pecado. Se não, que você me absolva deste crime, Jaime, porque estou longe de ser um dos poderosos protegidos pela justiça!

 

Por Jaime Pinsky

 

Teve um tempo em que acreditei na Justiça. Ou melhor, nas justiças, na dos homens e na divina. Parecia-me razoável que cada pecado cometido fosse devidamente punido. Que cada desobediência implicasse algum castigo. Claro que isso me custou muito sofrimento. Aquele dia em que me isolei no quarto alegando necessidade de estudar e fiquei jogando botão (quem nem botão era, mas plásticos rijos que cobriam relógios de pulso) a tarde toda, e no dia seguinte me saí muito mal na prova de latim… O outro em que briguei com um colega de escola, rolei com ele na terra aos socos e pontapés, entrei quietinho em casa, me lavei, joguei a camisa rasgada e encardida no cesto de roupa suja e fui almoçar sem contar nada aos meus pais (desta vez não tive muita sorte, o olho roxo e as escoriações no joelho me traíram miseravelmente). Os castigos me pareceram razoáveis: uma semana passa depressa, embora eu adorasse jogar bolinha de gude com a turma da Vila Gagliardi, rua sem saída, nosso empoeirado parque e praça esportiva improvisada.

A vida, à época, fazia sentido: a cada pecado, uma punição. Uma das coisas que eu fazia, esporadicamente, era dar uns sopapos no meu irmão “do meio” (éramos três meninos) sempre que ele, sob qualquer pretexto, agredia o caçula. Quando eu me entusiasmava nos sopapos e o chorão abria o berreiro, o cinto do meu pai fazia o papel de juiz, entrava na contenda e meu traseiro ganhava algumas faixas avermelhadas. Meu pai averiguava, julgava e aplicava o castigo, sem delongas. Já o castigo divino… Desse eu tinha mais medo, mas devo reconhecer, por outro lado, e à distância, que era bem menos eficiente. Eu me lembro até hoje da vez que fiquei um tempão tentando espiar uma freguesa, quando ela provava blusas na loja do meu pai. A moça ficou muito tempo experimentando cores, modelos e tamanhos diferentes, enquanto eu, nos meus heroicos nove anos, rondava a porta do provador improvisado. Um pirralho como eu certamente não representava ameaça alguma ao pudor dela… Mesmo assim, e mesmo não tendo tido nenhum sucesso na minha precoce atividade de voyeur, eu sabia que havia pecado. Talvez o sexto mandamento, ou outro qualquer, mas alguma lei de Deus. Esperei conformado o castigo, ficando em troca apenas com o azul-claro do enorme sutiã que vislumbrara. Mas o castigo nunca veio. Bem diferente de um colega de colégio, que ao confessar ao padre a prática da masturbação, foi aconselhado a se autopunir para ficar limpo. O resultado da queimadura que J.B. provocou em si próprio o acompanhou até sua morte precoce.

Já adulto me dei conta de que a Justiça tem cor, sexo e leva em conta fatores que, anteriormente, nunca imaginei que pudessem influenciar na decisão de quem julga. Algumas pessoas são julgadas logo, outras nunca. Alguns têm ótimos defensores em todas as numerosas instâncias, outros mal conseguem defensores razoáveis e se dão mal por erros técnicos, esquecimento de prazos legais para apresentar a defesa, má vontade dos cartórios e até dos próprios juízes. A lei, embora nominalmente coloque todos os cidadãos no mesmo patamar de direitos e obrigações, é muito mais generosa com uma parte da população, os que têm poder. Um complexo e lento sistema de defesa composto de numerosas etapas tem a função de protelar qualquer julgamento definitivo e respectiva punição. Recursos infindáveis, muito bem apresentados por equipes afiadas, lideradas por advogados muito hábeis, fazem com que o medo de punição não atemorize criminosos conhecidos. E, se algum juiz do andar de baixo comete a “irresponsabilidade” de sugerir prisão a um figurão, corre o risco de cair  em desgraça. Não importa o que diz a constituição sobre igualdade de direitos. Temos uma cultura estabelecida e ai de quem ousar questioná-la.

Uma amiga, promotora em São Paulo, me disse uma vez que a justiça de classe no Brasil nunca permitiria que tivéssemos um verdadeiro país de cidadãos. Ela tinha razão. Olhamos os iguais, ou supostos iguais, de modo distinto do que fazemos com pessoas “diferentes”, seja por sua origem social, cor da pele, religião, grau de instrução, tipo de roupa que usam. Isso é uma flagrante violação à letra e ao espírito da Constituição Brasileira, à  democracia e à cidadania. Deixar o tempo passar para que os crimes prescrevam, colocar ricos em prisão domiciliar, mesmo quando cometeram crimes horríveis, enquanto abandonamos  dezenas de milhares de pobres presos sem julgamento, é comum por aqui.
 
Aos iguais tudo, aos demais a força da lei.

 

Jaime PinskyHistoriador, professor titular da Unicamp, autor ou coautor de 30 livros, diretor editorial da Editora Contexto
 

De crime e castigo

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça De crime e castigo na voz e sonorizado pela autora

Por que coisas ruins acontecem a pessoas boas é o título de um livro que li há muito tempo. Do conteúdo só me lembro o título, um mistério que me fascina, levada em caríssima conta a relatividade dos adjetivos ruins e boas. Me distancio, aperto bem os olhos, olho para o mistério dos acontecimentos, tento enquadrar uma tela onde o desenho do que percebo faça algum sentido, mas o desenho muda, muda sem trégua, e não vejo sombra de definição antes que uma cena tome o lugar de outra, e outra e outra.

Quem sabe? Se é que existe resposta que não mude de feitio no mesmo ritmo em que se cria a próxima pergunta. Ontem aquela ruga não estava ali, a dor do abandono também não. O novo amor, que parecia que nunca ia chegar, chegou e já foi embora também, como todos os amores de todos os tempos, de todos os mundos. Como tudo. Tanto chega e tanto vai, o movimento é contínuo; dele é feita a vida, mas a gente não passa incólume. Se permite marcar, se permite impressionar. E o registro se modifica também, como foto velha que desbota. A dor do parto cresce para ser lembrança de alegria; uma ou outra alegria, que estava na caixinha de pronto socorro contra a tristeza, foi se perdendo pelo caminho, e quando mais a gente precisa dela, cadê?

O Deus que mora em mim, e em quem eu moro, não tem fraqueza humana; é equilíbrio puro, na essência da pureza jorrada da fonte. Lá onde ela não nasce porque sempre jorrou. Ele não mantém um diário, ou blog, onde anota cada falha tua, cada escorregão meu para depois enviar-nos a sua ira em forma de dor. Sei que ruim e bom são faces da mesma moeda que nos serve de chão; agora, o difícil é deixarmos de ser a criança mimada que sofre a cada coisa que não acontece a seu contento. Somos pirralhos batendo os pés. Por isso sofremos. Não somos santos nem bandidos.

Não sei você, mas eu tenho a tendência de melhorar o ruim e enfeitar o bom. Para esse eu tenho sempre tempo e disposição para mais um retoque. O ruim da história é que à medida que camuflo as crateras, ando em círculo e caio no mesmo buraco. Aí, dói.

Sou inteligente, dura na queda, mas aprendo a viver devagar demais. Fico tentando puxar a vida para a minha estrada, quando o indolor seria andar livremente explorando quantas alamedas pudesse. Cabeça mais rápida que o coração. Imagino uma ponte entre os dois e tento mandar o conhecimento ponte adentro, estrada a fora, para chegar ao coração, onde tudo se concretiza, porque é só quando ele entende, quando ele aprende, que teoria cresce e vira compreensão.

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De vida desimportante

Por Maria Lucia Solla


Assista ao vídeo com a leitura deste texto pela própria autora

Tem gente que olha para a própria vida, compara com a de quem é notícia, e a vê pequena. Descolorida
Mas esqueça a vida pequena e veja uma grande pedra, em cena.

Vai carregada por homens que se curvam ao seu peso, e chama atenção; primeiro pelo tamanho, depois porque não é todo dia que a gente vê uma pedra dessas andando de lá para cá, na via certa ou na contramão.

Teria sido condenada a ser, para sempre, o pilar de seja lá o que for, ou teria sido condenada a, por algum tempo, deixar de ser pilar para ser arrastada para outro lugar?

A gente sempre tende a achar que tudo na vida é condenação. A tal da herança judaico-cristã do auto-flagelo e da comiseração.
Da culpa, da culpa, e da culpa.

Tudo isso é retrato do óbvio, eu sei, e é por isso mesmo que merece especial atenção, pensei.
O óbvio confunde; o óbvio distrai. Leva tua atenção embora, te conquista e te trai.
Reina soberano, feito senador sacano que se locupleta e lambuza, e do óbvio se serve e abusa

A desimportância atribuída a própria vida, acaba virando fato banal;
esporte nacional.

Como vai?
A gente vai levando… diz a canção.
Como Deus quer!
Assim, assim.
Eu mereço!

Ainda tem o esporte de achar que tudo na vida, se não é crime é castigo.
Quem foi que teve a ideia de acorrentar o prazer na masmorra de algum inferno gelado?
Sem sua intervenção, você, eu, todo mundo está condenado.
A sorrateira da culpa campeia solta, começa na mente e toma de assalto o coração.
E então, morre a esperança de redenção.

O fato é que temos, todos, a mesma importância, na tessitura da Vida. Entramos na sociedade com a única coisa que temos para oferecer: a vida. Também por isso é importante lembrar que

A DOR DE VIVER É IGUAL EM TODOS NÓS
… e a alegria também

Quantas vezes a gente perde o foco e sofre a dor do outro, ou regozija pelo sucesso alheio que parece já ter vindo pronto.
A gente segue a cartilha que encontrou esquecida
no banco do carona, depois da sua descida.

E aprende a lição alheia
que leva a tecer, do outro, a teia.
Luta noite e dia
e acaba de alma vazia.
Derrama lágrima estrangeira
e suspira suspiros quânticos
sem sentido,
de coração partido
Sem nome, só um número de RG
Com fome, cena triste de se ver

Tudo isso devido ao erro tamanho,
de ter largado, lá atrás, à beira do caminho,
o fardo da própria vida que considerou tacanho
em busca de quê? Do sonho do vizinho.

E você, sabe por onde e a quantas anda a tua vida?
Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. Aos domingos, reescreve o livro “De bem com a vida mesmo que doa” em parceira com seus leitores no Blog do Mílton Jung – livro que respira em cada anotação deixada por você.