Auxílio emergencial: “não fizemos nada pelos jovens e isso deixa cicatrizes”, diz Marcelo Neri da FGV Social

Reprodução Flickr

Responder o que você faria com 150 reais a mais no bolso diz muito sobre qual é a sua situação financeira. Para alguns brasileiros, esse dinheiro não paga o happy hour no fim do dia de trabalho. Para outros, será um reforço no orçamento doméstico. Para muitos, é a diferença entre comer e passar fome. Esse é valor que um trabalhador informal com renda familiar até três salários mínimos, morando sozinho, tem direito a receber de ajuda pelas regras do auxílio emergencial, criado ano passado para atender as pessoas que mais sofrem com as restrições necessárias para combater a Covid-19.

O governo decidiu agora que vai pagar o auxílio por mais três meses estendendo a ajuda para agosto, setembro e outubro. Para quem mora sozinho e tem direito ao benefício é a garantia de mais 450 reais no bolso; para mulheres que são chefe de família, mais 1.125 reais; e para os demais entrarão na conta 750 reais, parcelados em três vezes.

Vamos lembrar que no ano passado o auxílio era de 600 reais, por mês —- mulheres chefe de família recebiam até 1.200 reais —, foi interrompido em dezembro e retornou com valores menores em abril deste ano. Esse vai e vem de pagamento e sobe e desce de valores mexeu consideravelmente na vida de pessoas que vivem próximo da linha pobreza, como constataram estudos da FGV Social.

Pra ter ideia, até agosto de 2020, 15 milhões de brasileiros deixaram a situação de extrema pobreza, uma queda de 23,7% em comparação com o ano anterior, graças a essa transferência de renda. Mesmo considerando que ainda havia 50 milhões de pessoas em situação de miséria, foi o maior movimento social que se assistiu no país. 

O diretor da FGV Social, Marcelo Neri, entrevistado de hoje do Jornal da CBN, calcula que a prorrogação do auxílio emergencial vai evitar que 6 milhões de pessoas voltem para a linha de pobreza. Para o economista, a medida de continuidade foi uma solução razoável: 

“Não é a cura do problema, mas uma anestesia importante”

A despeito de que toda e qualquer ajuda é bem-vinda, é preciso ressaltar que este dinheiro chegará às mãos dos mais pobres com 1/4 do seu valor comprometido pela inflação —- o aumento de preços do gás, energia e alimentos pesa muito mais nas classes sociais mais baixas.

Na conversa que Cássia Godoy e eu tivemos com Marcelo Neri ouvimos dele o alerta para o que considera ser dois pecados cometidos na pandemia: a questão da saúde, que tornou os mais pobres ainda mais vulneráveis, e a da educação, com crianças e adolescentes fora da escola, “como se isso não gerasse nenhuma perda” —- o que vai cobrar um preço caro no longo prazo, segundo o economista. 

Um dos pontos que me chamaram atenção na entrevista foi quanto a preocupação dele com a juventude que deixa de estudar e não encontra vaga no mercado de trabalho — tema que já foi assunto aqui no blog e voltaremos a tratar em breve. São necessárias ações específicas de incentivo para a contratação de mão obra mais jovem que foram os que mais perderam renda de trabalho na pandemia —- 18%, segundo cálculos da FGV Social. 

“Precisa algum tipo de iniciativa. O jovem não tem experiência e não consegue emprego. É preciso alguma coisa para conciliar trabalho e estudo. Até agora, a gente, concretamente, não fez nada com isso, embora tenham ocorrido alguns balões de ensaio … e isso deixa cicatrizes“

Ouça a entrevista completa com Marcelo Neri, da FGV Social

Saiba por que o número de pessoas com vacinação completa não passa de 12%, no Brasil

Imagem: Governo do Estado de SP

Todas as vacinas disponíveis no Brasil são seguras e eficazes e, por isso, a turnê realizada por alguns brasileiros em busca do imunizante preferido é inconsequente e egoísta. Foi o que nos disse, nesta manhã, no Jornal da CBN, doutor Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, quando perguntado sobre os sommeliers de vacinas, que foi como passaram a ser chamadas aquelas pessoas que só aceitam tomar vacina de determinadas marcas seja por desconfiarem da eficiência de alguns fabricantes, seja por temerem efeitos colaterais, seja para facilitar acesso a países no exterior. 

Pior do que escolher a marca é se negar a tomar a vacina. Isso é criminoso. 

Apesar de dizer que o “brasileiro gosta de vacina” e oferecer uma visão otimista em relação a adesão ao programa nacional de imunização contra Covid-19, Juarez Cunha teme a ação dos negacionista e mostra que ao deixar de se imunizar você coloca em risco também a vida das outras pessoas:

“Não se vacinar é uma decisão egoísta”

Nem os sommeliers nem os negacionistas, porém, são o motivo de, há duas semanas, o número de pessoas vacinadas com duas doses se manter na faixa de 11 a 12% dos brasileiros.

No levantamento desta noite de segunda-feira, feito pelo consórcio de veículos de imprensa, o Brasil chegou à marca de cerca de 27,3 milhões de habitantes com vacinação completa contra a Covid-19 — esse número corresponde a 12,92% da população nacional.

Juarez Cunha explicou que a despeito de algumas pessoas não terem voltado para a segunda dose —- e isso exigirá uma forte campanha no sentido de mostrar que o ciclo vacinal precisa ser respeitado —, o índice se mantém estável porque atualmente a maior parte das vacinas distribuídas no Brasil exige intervalo de até 90 dias entre a primeira e segunda doses.  

Ao contrário da Coronavac, que prevê intervalo de apenas 28 dias, e foi aplicada em maior número no início da vacinação, atualmente a maior quantidade de imunizastes é da AstraZeneca que, assim como a Pfizer, sugere cerca de três meses de intervalo entre uma dose e outra. Por enquanto, apenas a Janssen, recém-chegada e em quantidade pequena, prevê apenas uma dose.

Ouça a entrevista completa que fiz ao lado de Cássia Godoy, no Jornal da CBN

Conte Sua História de SP: sinto o pulso da cidade ao levantar com o sabiá

Por Fernando Dezena

Ouvinte da CBN

Foto: André Pereira/Flickr

Confesso que São Paulo sempre me amedrontou quando menino, mas, ao mesmo tempo, imantava meus pensamentos, como o canto da sereia. Há dez anos, era junho, convidado a trabalhar por estas bandas, não pestanejei. Troquei as ondas do Atlântico, que quebravam sob minha janela, pelos prédios inumeráveis.

Antes da cidade, do todo, quem primeiro me acolheu foi a Mooca. No labor, o Brás; a Letícia, nos estudos em Higienópolis pelo Mackenzie e o Lucas terminando o colegial. A Mooca guarda um pedaço que a cidade perdeu: algo de humano, de brisa, de andar pelas calçadas. Pode ser que em outros bairros aconteça assim: na Penha, na Vila Maria, em Santo Amaro, em Heliópolis; em cada canto dentro de suas verdades. A identidade do bairro sussurra, às vezes grita:

– Olhem para mim! 

Gosto — pena que o isolamento não mais permita — de encontrar a cidade.

Em alguns lugares é possível. A Avenida Paulista, reduto dos milionários do café, virou um misturador de todas as raças e credos, mas é no centro que brota algo mais forte, genuíno. Se na Paulista respiramos folhas e flores, no centro tem-se o gosto de raiz, o cheiro forte da terra, de minhocas, de rios, de histórias que construíram a cidade. 

Não é a primeira vez, mas repito que gosto de andar por suas ruas.

Aos domingos, em especial, como a cidade demora a acordar, as janelas tardam a abrir, aproveito, interiorano que sou, madrugadinha, para correr por suas ruas; depois, ao volante, ando pelos bairros como a escutar a cidade. Já fiz tal questionamento em um poema e, como na crônica, não encontro resposta.

E a cidade continua se expandindo, subindo, por vezes morrendo, alagando, alongando tentáculos de concreto, barro, tijolos, madeiras, para além de seus limites.

A cidade tem fome e vai engolindo o entorno; ela tem fome e vai ganhando os céus; muita fome e desce por sob a terra com seus túneis, metrôs em subsolos sombrios. 

São Paulo pulsa e é possível senti-lo. Não ao meio-dia, no turbilhão de milhões de pessoas à procura de sobrevivência. Quem pensa que é nesta hora, engana-se. Para sentir o pulso da cidade é preciso levantar-se de madrugadinha, junto com o sabiá, abrir a janela, colher a brisa fresca, fechar os olhos e respirar pausadamente. Ao se escutar um canto estranho, por vezes sem melodia, saiba que ele não vem das sereias, mas da coragem de teu povo que em boa parte nesta hora dorme e sonha com a luta por um dia melhor. Assim pulsa a cidade!

Fernando Dezena é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio.  Seja você também um personagem da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca: livros que inspiram ideias

Foto de Element5 Digital no Pexels

“Branding é fruto da compreensão das pessoas. E o que lemos, além dos livros de negócios, é fonte de inspiração para entender melhor de gente. Pelo amor de Deus, não deixem de ler!”

Jaime Troinao

A cena é bastante comum. Já aconteceu milhares de vezes. Talvez até com você. Diante do entusiasmo e do prazer de estar em frente a um prato de espaguete a pomodoro, a pessoa se descuida e um pingo de molho de tomate cai na blusa que veste. A primeira reação: “que azar, sujei!”. Perceba que curioso: enquanto está no prato, ou no campo do alimento, o molho é uma delícia; no instante em que cai na blusa, uma sujeira.

O que isso tem a ver com branding? 

Cecília Russo conta essa história inspirada no livro “Pureza e Perigo” da antropóloga Mary Douglas, que fala de rituais de poluição em várias culturas e analisa a relação entre ordem e desordem, pureza e impureza, contágio e purificação. A ideia de que coisas fora do lugar podem nos remeter à desordem ou a significados diferentes é um alerta para gestores que estejam planejando a extensão da marca:

“Quando penso em outras categorias de negócios que eu posso avançar no meu produto, tem áreas em que vou entrar que podem ser consideradas “sujeiras” e outras que não, que reservam a ordem da marca”.

No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Cecília e Jaime Troiano apresentaram uma série de livros que não estão na categoria de negócios —- tratam-se de ensaios, romances e contos — que ajudam os gestores de marcas a pensarem sobre o seu negócio. Uma dessas obras é “O espelho – esboço sobre uma nova teoria da alma” de Machado de Assis que conta a história do alferes que só se enxergava sua imagem refletida no espelho quando estivesse vestindo sua farda —- tema que, aliás, já foi assunto de um episódio do programa:

“O conto chama atenção para o fato de que as marcas são, sim, uma opção em nossas vidas, mas o branding não pode criar um aprisionamento”.

Fernando Pessoa também está na biblioteca de sugestões da nossa dupla de especialistas em marcas com o poema sobre o rio Tejo, em Lisboa:

“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

 Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia 

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”

Jaime vibra ao declamar o primeiro verso desse poema e ao lembrar que essa forma de pensar é pura etnografia, estudo que se faz com consumidores, pois somente convivendo com eles, nas suas ‘aldeias’, somos capazes de entender suas motivações e sentimentos.

A lista de livros e lições é longa; e você poderá entender melhor a relação de cada um com a gestão de marcas ouvindo o comentário completo do Jaime Troiano e da Cecília Russo.

Antes, deixo a lista  dos livros que citamos neste episódio do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso:

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, 7h55 da manhã, no Jornal da CBN

Mundo Corporativo: no marketing digital, o cientista erra 999 vezes até chegar a fórmula certa, ensina Dener Lippert, da V4 Company

Foto: Pixabay

“Compreender os fundamentos é mais importante do que compreender as ferramentas porque a ferramenta dependem do comportamento”.

Dener Lippert, V4 Company

Foi o desejo de assistir a um show de Charlie Brown Jr que moveu o instinto empreendedor de Dener Lippert, aos 15 anos, quando abriu seu primeiro negócio. Sem dinheiro para viajar de Canoas, na “periferia de Porto Alegre”, ao litoral gaúcho, onde sua banda preferida tocaria, fretou um ônibus e vendeu as passagens com os bilhetes para o show. Um negócio digital com transação fechada pelo Orkut e o MSN que deu super certo. 

Entusiasmado com a possibilidade de novos negócios, aos 17 anos, Dener abriu com a irmã uma casa noturna. “Esse (negócio) eu quebrei”, confessa sem vergonha e com a certeza de que ao empreender, independentemente do resultado, é importante aprender. Parece que entendeu bem a lição, porque aos 18, fundou a V4 Company, especializada em marketing digital, e a transformou em uma empresa com 140 escritórios e 700 profissionais, no Brasil, 1.500 clientes ativos e investimentos acima de  R$ 50 milhões em mídia.  

Hoje, com 32 anos, Dener Lippert, entrevistado do programa Mundo Corporativo, além de comandar sua empresa, defende a tese de que devemos ser cientistas de marketing digital:

“A publicidade e o marketing, por muito tempo, foram atrelados ao aspecto mais artístico, em que o objetivo era ganhar prêmio. Na prática, o pequeno e médio empresário não está interessado em prêmio, mas em vender da maneira mais provável de trazer receita para ele. Minha ideia foi sair da arte, da subjetividade, e trazer para algo mais científico, que eu possa controlar, medir e ter um caminho mais assertivo e replicável para o meu negócio”. 

A maior parte dos clientes de Dener Lippert não é digital. São indústrias, serviços e varejos físicos, que usam a internet para vender, mas não vendem na internet —- e é preciso que essa diferença fique bastante clara.

“A V4 faz isso, faz todo processo de venda pela internet. Nosso foco é no digital …  pegamos o que a empresa é, para ver para onde o cliente quer ir e como a internet pode trazer essa receita para o negócio”.

No livro “Cientista do Marketing Digital, como vender para mais pessoas, por mais vezes e pelo maior valor”, que lançou pela editora Gente, Dener explica que tudo começa por entender qual a fase de maturidade que a empresa está no processo de venda pela internet. Smartfit e Spotify, dois dos clientes de Dener, estão no patamar mais alto —- marcas conhecidas, forte presença de público e alto investimento em campanhas. A maioria, porém, está ainda em uma fase incipiente e, por isso, a jornada começa pequena, de forma rápida e com baixo custo, tendo como primeiro foco a geração de tráfego.

Há casos, segundo Dener, em que o empreendedor se lança no comércio eletrônico e faz um grande investimento na plataforma, mas esquece que precisa ter tráfego para a loja ser conhecida. Na analogia com o varejo físico é como tomar a decisão entre abrir uma loja em uma rua na cidade de Guarulhos, em São Paulo, ou dentro de um shopping center, onde o custo será maior, mas a movimentação, também, o que aumenta a possibilidade de se gerar receita. 

A propósito, na hora de pensar em estratégia para o marketing digital é preciso considerar quatro passos essenciais:

  1. Tráfego
  2. Engajamento
  3. Conversão
  4. Retenção

No livro e na entrevista ao Mundo Corporativo, Dener explica de forma mais precisa cada uma dessas etapas e alerta para a necessidade de se entender que esses passos são dados de forma  não-linear ou seja de maneira integrada. 

Uma das perguntas que surgiram durante a entrevista, foi de um ouvinte interessado em saber qual o melhor canal para investir em marketing digital. Depende, foi resposta. É preciso analisar se o produto que pretende vender é de desejo ou necessidade. Por exemplo, moda é desejo, desentupidor de pia é necessidade. Moda exige investimento em mídia de display, que tem exposição de banner como Google dAs, Facebook e Instagram. E já que dificilmente alguém vai ao Instagram procurar um desentupidor, a opção são as mídias de necessidade como Google Search ou plataformas como o Mercado Livre.

Uma dica de quem tem conseguido excelentes resultados no mercado:

“Foca em executar e ir aprendendo com a execução, porque às vezes o cara pensa em ter um baita site. Compra mídia da melhor maneira. Qual é o canal certo? Testa pequenino, vai fazendo e vai descobrindo a partir dessa experimentação. Isso é um método científico: descobrir 999 formas de não fazer até tu chegares na forma certa de fazer”

Assista ao Mundo Corporativo e tenha acesso a outras sugestões que ajudarão você a investir melhor em marketing digital

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, toda quarta-feira, às 11 horas, no site e nos canais da CBN no Facebook e no Youtube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo, ou a qualquer momento em podcast. Colaboram com o programa: Izabela Ares, Bruno Teixeira, Debora Gonçalves e Rafael Furugen.

Mundo Corporativo:  Natália Pirro, da API, diz como lições do surfe ajudaram a enfrentar a crise

@girlssurfingexperience

“Mar calmo, não faz um bom surfista. Eu acredito que pra vida, se você entender isso, você pode levar para tudo. Não desistir. Nunca! Nunca desistir! É entender que você  tem de continuar, tem de batalhar, estar aberta às críticas” 

Natália Pirro, API

Com dois anos de empresa e 29 de vida, Natália Pirro foi apresentada a um desafio assustador, especialmente se considerarmos o momento econômico e social que o Brasil enfrentava, em 2015: assumir o posto mais importante do grupo, no país, e provar que o negócio era viável em um prazo de apenas seis meses. Sim, a empresa lá fora não acreditava muito que a coisa pudesse vingar por aqui. Natália provou o contrário. Seis anos depois, ela comanda as operações da empresa americana API na América Latina, responsável por todos os negócios da companhia na região, cerca de R$ 35 milhões, como contou em entrevista do Mundo Corporativo, da CBN.

“Eu não me sentia preparada 100%. Ainda bem. Porque eu não teria chegado onde cheguei. Tive de aprender, conversar e escutar para chegar onde cheguei. Eu não estava preparada, mas tinha muita vontade de fazer …”

A coragem para enfrentar as dificuldades, Natália encontrou na educação e no esporte. Desde a adolescência, pratica surfe; quando morou nos Estados Unidos, esquiou; e, sempre disposta a ir além, também fez triatlo. Hoje, faz parte de um grupo de 15 mulheres, muitas executivas, que viaja pelo mundo em busca de boas ondas: o Girls Surfing Experience, coordenado por Suelen Naraísa, bicampeão brasileira.

“Todo o esporte desenvolve você como pessoa. O que faz um cicilista acordar às cinco da manhã para pedalar no frio: é o propósito. É entender que aquilo vai lhe trazer algo bom”.

Formada em administração e finanças e especializada na área de controladoria, Natália teve de buscar novos conhecimentos para administrar a empresa formada basicamente por engenheiros. Hoje, tem cinco pós-graduação e parar de estudar não está nos seus planos. Desenvolver-se nas mais diversas áreas faz parte das metas que a empresa negocia com ela, um hábito que levou aos funcionários da API na América Latina:

“Em janeiro de todo ano, sento com meu RH, com cada time, com cada gestor e para cada um colocamos algo a desenvolver. No ano passado, os nossos engenheiros, acostumados com máquinas e cálculos, tiveram de realizar cursos especializados em experiência do consumidor”.

A API é uma das principais empresas de medição e calibração de equipamentos do mundo, com atuação nos diversos setores da indústria: aeroespacial, automotivo, de defesa, energia e manufatura, por exemplo.  Áreas em que homens sempre predominaram, o que se transformou em outro desafio, especialmente por Natália ser tão jovem:

“É um meio masculino, mais sênior e de pessoas que não são muito abertas. E eu tive de ter muita certeza de onde eu queria chegar. Entender que a aquela crítica que recebia não era 100%. Tive de saber absorver da melhor maneira possível. Os questionamento foram visto como incentivo”.

Não apenas soube se impor diante desse cenário como ajudou a mudá-lo. Hoje, a equipe comandada por Natália tem 35 pessoas e muitas são mulheres, o que, segundo ela, é uma das marcas que diferencia a API quando participa de eventos do setor. Por isso, não teve dúvida em responder a pergunta feita por uma das ouvintes do Mundo Corporativo que queria entender sobre as oportunidades na área de medição e calibração de equipamentos. Para Natália, as mulheres podem investir na carreira de engenharia e pensar no setor:

“As empresas cada vez mais precisam evitar erros e acidentes de trabalho. Esse é um mercado imensurável … Antigamente, todas as empresas e industrias esperavam ter o problema para corrigir. Entendeu-se que isso era muito caro. A manutenção preventiva evita esse gasto. Esse vai ser o futuro.”

O ano de 2020 foi difícil em diversos sentidos. Com a economia em baixa e a necessidade de adaptação às restrições sanitárias, exercitar a resiliência, foi essencial para chegar às melhorias registradas no primeiro trimestre deste ano: a empresa vendeu, na região, 49% do realizado em todo o ano passado. E mais uma vez, as viagens que havia realizado com as colegas do surfe, que foram canceladas por motivos óbvios, foram úteis:

“A pandemia está bem difícil. Então a resiliência e a adaptação, que eu aprendi no surfe, para enfrentar todas as condições, estão acontecendo todos os dias. Eu trabalho em uma empresa americana e o dólar cai 30 centavos em um dia. Como você explica para as pessoas? Como manter a segurança dos funcionários? Faço reuniões semanais. Tento manter um contato mais próximo para oferecer alguma segurança, para termos um resultado melhor. Se eles não estão trabalhando bem, a empresa não vai ter resultado”. 

Assim como acontece na busca pelas melhores ondas, Natália ensina que nem sempre no mundo do trabalho se terá as melhores condições ou o profissional vai acordar bem para trabalhar ou todos os stakholder estarão pensando da mesma maneira. O importante é ter consciência do resultado que você pretende alcançar. Para os jovens e profissionais que estão iniciando carreira, Natália recomenda:

“Nunca desista porque alguém falou algo para você. Nunca desista porque talvez não seja o mercado apropriado. Não! Se você tem um sonho e você quer algo lá na frente. Tenha certeza disso e não desista”

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às 11 horas, no canal do Youtube, no Facebook e no site da CBN. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite. Está disponível também em podcast. Colaboraram com o Mundo Corporativo: Izabela Ares, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Conte Sua História de SP: Santa Lourdes!

Maria de Lourdes Cocozza

Ouvinte da CBN

Estamos em 1980.


Sou uma universitária que faço a graduação na Unicamp. Vou de manhã de carona para Campinas com amigos que fazem pesquisa — eles têm até carro! — e retorno de ônibus até a rodoviária de São Paulo. De lá, pego um ônibus para o apartamento onde moro.

Estamos em abril. 

Cheguei na Rodoviária e como sempre, sinto-me meio perdida pois a capital é nova para mim. Sou do interior. Ao pegar a carteira para tirar o dinheiro da passagem, não a encontro. Minha bolsa está rasgada e a carteira sumiu. Me desespero e uma pessoa generosa me dá o dinheiro da passagem e me orienta a procurar nos achados e perdidos, meus documentos. 

Acho estranho e a pessoa fala: “sabe garota, muitas vezes o ladrão pega apenas o dinheiro e joga o resto fora”. Fui para casa e no dia seguinte, no mesmo horário, retornando de Campinas, vou até o balcão. 

Várias caixas com embrulhos feito carinhosamente, com elástico de “dinheiro” embalam pertences. As caixas são organizadas pelo alfabeto e há muitas Marias. Eu, uma delas.

Estava lá! O meu nome estava em um embrulho. Entre curiosa e esperançosa, o abri.

O que encontrei? 

Minha carteira de Identidade. Duas imagens de Santo Antônio, o santo de devoção da minha família,  há gerações. E uma imagem de Nossa Senhora de Lourdes que ganhei em 1975, de minha Madrinha de Crisma, a Dona Chica, pois ela achou interessante o fato de eu ter sido batizada Maria de Lourdes e ter nascido em 1958, ano de comemoração do centenário da Santa. Desde então, essa imagem eu guardo com meus documentos.

Fico muito feliz, saio radiante sabendo que meus Santos me protegeram.

Você deve estar pensando: o que tem de especial esta história de São Paulo? Isso acontece com milhares de pessoas, todos os dias. Sim! Acontece mesmo. Aconteceu comigo, de novo, e de novo, e de novo. Quatro vezes em três anos. E em todas as vezes lá estavam a carteira de identidade, Santo Antônio e Nossa Senhora de Lourdes.

Hoje, estou com 63 anos, já tenho carro, e o Conte Sua História de São Paulo me desafia a abrir a carteira e revelar as memórias agencias que acalantam a alma.  Com imensa gratidão a vocês da CBN e enorme respeito a São Paulo e a alguns patrícios habilidosos que socializaram meus recursos, mas respeitaram a minha fé, me despeço!

Maria de Lourdes Patrocínio da Silva Cocozza Simoni, Lou Cocozza, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. para conhecer outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca: como os planos de milhagem seduzem os clientes

Clooney e Goran em cena de ‘Up in the air’

“Os clubes, seja o formato que tenham, vieram para ficar. Eles atendem tanto a necessidades humanas como a objetivos mercadológicos” 

Cecília Russo

Ryan Bingham, interpretado pelo charmoso George Clooney, tem por profissão demitir pessoas. A frieza com que exerce sua atividade se contrapõe a paixão que tem por viagens e hotéis —- prazeres que ele curte enquanto cruza os Estados Unidos para cumprir sua função.  Em uma das cenas do filme “Up in the air” ou “Amor sem escalas”, Ryan está em um balcão de bar ao lado de seu affair Alex Goram (Vera Farmiga); e os dois seduzem um ao outro brincando com seus cartões de crédito ultra-especiais, resultado de vantagens e programas de fidelidade dos quais são beneficiários. 

Aqui começa a relação do filme —- lembrado por Jaime Troiano —– e o tema de mais um episódio do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso. Empresas e marcas criam clubes especiais para conquistar a fidelidade de seus clientes. São planos prime, masters, platinum, gold …. e quanto mais valor o nome puder expressar, melhor. Do ponto de vista emocional existem dois mecanismos que movem as pessoas a fazerem parte desses clubes: a busca pela diferenciação e pelo pertencimento.

“Pertencer e ser diferenciado, algo quase paradoxal; ao mesmo tempo que queremos parecer diferentes, queremos também fazer parte de alguma coisa, queremos pertencer, estar junto dos escolhidos… “ — Cecília Russo

Diferente no filme é George Clooney ou melhor Ryan Bingham que, em pleno voo, recebe das mãos do comandante do avião um cartão oferecido aos raros clientes capazes de alcançar 10 milhões de milhas. No cartão, está estampado um número de telefone que a empresa de benefícios reservou apenas para ele: quando precisar de alguma coisa, haverá um funcionários exclusivo aguardando para atendê-lo.

Para Jaime Troiano, os mecanismos que movem os sentimentos dos clientes trazem quatro benefícios para as marcas: 

  1. As marcas conseguem levar propostas diferenciadas aos clientes e precificar também de forma diferenciada, superior. Ou seja, passa a ser um grupo de pessoas que traz uma rentabilidade maior para as empresas. 
  2. A fidelização dos clientes. Engajar consumidores em um clube, trazendo vantagens para eles, é uma das melhores formas de garantir que esses clientes fiquem satisfeitos e construam vínculos mais duradouros. Pode ser na escolha da companhia aérea ou até mesmo numa loja que cria uma fila especial para os escolhidos. 
  3. A customização das ofertas. No lugar de pensar em produtos para todos, quando o público é mais homogêneo, a criação de produtos e ofertas fica mais direta. De certa forma, consigo trazer algo mais pertinente se conheço este público melhor e, assim, sou mais assertivo e consequentemente melhoro o desempenho de vendas. 
  4. A possibilidade de fazer uma comunicação mais relevante porque a marca conhece melhor as pessoas. Branding depende de conhecer gente e essa é mais uma forma de conhecer o seu cliente.

Falamos de George Clooney, companhias aéreas, hotéis e atendimento de luxo. Mas a estratégia de gerar fidelidade do cliente com benefícios especiais pode ser adaptado para todos os tipos de negócio —- independentemente da condição financeira do seu publico-alvo. Basta um pouco de atenção ao que o consumidor deseja e criatividade. 

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN.

Sua Marca: apesar do sucesso da Barbarella, marcas ainda vão precisar muito da Jussara

Reprodução da cena do filme ‘Barbarella

Quem lembra de Jane Fonda? Todos nós lembramos. 

Quem lembra de Barbarella? Jaime Troiano, com certeza.

Foi ele quem citou, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, o filme batizado com o nome da personagem principal que é um clássico nonsense dos anos de 1960, e levou às telas a atriz que se transformaria em símbolo de rebeldia. No início de carreira, Jane Fonda destacou-se por sua performance sensual; em seguida por um talento contagiante; e, ao longo da vida, por sua coragem em se posicionar politicamente: foi marcante quando se declarou contra a Guerra do Vietnã; mais recentemente, aos 83 anos, tem se expressado como ativista em defesa ao meio ambiente, ao feminismo e a equidade de gênero.

Em Barbarella, Jane Fonda faz o papel de uma astronauta que é convocada pelo presidente da Terra para enfrentar o inimigo que está prestes a usar uma arma de raio positrônico que acabaria com a paz no universo. Na busca pelo vilão, é exposta a uma máquina capaz de matar suas vítimas de prazer, o Orgamastron. Bem, o resto você assiste por ai, no vídeo mais próximo da sua tela (e souber onde podemos rever o filme, nos conte).

De nossa parte, lembramos de Barbarella porque Jaime Troiano tem boa memória e procurava algo para ilustrar o tema que serviu de conversa entre ele, Cecília Russo e eu, em Sua Marca Vai Ser Um Sucesso. Falávamos da relação das marcas com seu público através de tecnologias virtuais. O Magazine Luiza tem a Magalu. O Bradesco nos apresentou a Bia. E por aí vai …  Todas personagens virtuais de enorme sucesso na prestação de serviços aos clientes.

Barbarella também foi um sucesso na época em que foi lançada, mas foi uma promessa que não se realizou, pondera Jaime em um tom que me pareceu de lamento — talvez resultado de suas memórias afetivas.

O fato é que, sem desdenhar dos avanços tecnológicos — aqui não tem negacionista —, a relação pessoal ainda é muito relevante, destaca Cecília Russo: 

“Por mais que as tecnologias avancem e tornem o digital quase real, ele não é real: tecnologia é sempre virtual. A gente precisa desse contato humano para a nossa própria sobrevivência”.

A pandemia, aliás, nos alertou para essa necessidade. Quando já acreditávamos que o mundo migraria para o virtual, percebemos o quão importante é o olho no olho, o abraço, a troca de ideias ao vivo ou a visita a uma loja:

“A gente vive desses sentidos, do toque, do olhar do cheiro, do aconchego”. 

Para Jaime e Cecília, as relações que as marcas criam com as pessoas pelo digital são bem-vindas, mas ganham mais valor quando a troca de afetos acontece. 

“A assistente virtual ainda não sorri de verdade, não te responde quando você questiona se é possível trocar um ingrediente pelo outro quando pedimos um prato nem tem a espontaneidade que prezamos nas relações diretas”, diz Cecília.

Espontaneidade não falta para a Jussara.

Você conhece a Jussara? O Jaime conhece.

Jussara trabalha em uma distribuidora de vinho, em Minas Gerais. Toda vez que o Jaime liga para lá, é com ela que conversa. Jussara, de carne, osso e alma, não vende apenas os vinhos, ela cria o ambiente propício para a compra, convence-o tecnicamente e, também, se envolve na escolha: 

“… para que eu comece a beber (o vinho) no telefonema”.

Esse é um aspecto relevante nessa comparação entre o atendimento virtual e real. E um fator que desafia os desenvolvedores de tecnologia, que trabalham baseados em algoritmos —- uma sequência de dados que faz muito mas não faz tudo: 

“Hoje, com os algoritmos, as lojas virtuais empurram produtos, achando que me conhecem. Ou me conheciam. Afinal, o algoritmo sempre olha para trás para projetar o futuro. Quem disse que meu futuro é apenas espelho do meu passado?”

Antes que você deixe esse texto em busca do filme Barbarella (ou da Jussara), Cecília Russo diz qual é a nossa marca de hoje

“Inteligência em gestão de marcas é pensar a melhor forma de integrar esses dois universos”. 

Ouça o comentário completo do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, sonorizado pelo Paschoal Júnior:

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN.

Conte Sua História de SP: trabalhei na fábrica de chocolates da Joaquim Floriano

Marta Alves

Ouvinte da CBN

Imagem: divulgação

Tenho 64 anos, nasci em Canaã, zona da Mata Mineira. Com seis anos, mudamos para São Paulo —- o que naquela época correspondia a ir para outro planeta.

Lá em casa, vivíamos muito humildemente. Éramos uma família, com seis irmão, sendo eu a mais velha. Morávamos na zona sul de São Paulo, no bairro de Pedreira, região de Santo Amaro. 

Minha mãe trabalhava de doméstica no Itaim Bibi, na rua Bandeira Paulista, esquina com a Tabapuã, na casa de dona Amélia. Como ela arrumou um outro emprego e pediu demissão, dona Amélia perguntou se não tinha uma filha que pudesse ficar no seu lugar só pra fazer as tarefas mais leves e ajudar com as crianças. Doce ilusão!

Eu estava com 12 anos e havia terminado o primário, então minha mãe, acreditando que fazia um bem para mim, permitiu que eu fosse trabalhar por lá. Como era muito longe de casa,  ficou acertado que eu dormiria no emprego e fosse pra casa só aos sábados, retornando na segunda-feira. As semanas eram infinitamente grandes. Devo dizer que sofri bastante naquela época, sem contar pra minha mãe as humilhações pelas quais eu passava. 

Quase um ano se foi, até que um dia, minha mãe, que continuava trabalhando em outra casa, também no Itaim, viu uma placa em uma imensa fábrica branca, na Joaquim Floriano: “precisa-se de menores” …. sim, naqueles anos era permitido.

Imediatamente, minha mãe foi até a portaria buscar informações. Em uma semana, fiz minha malinha na casa da Bandeira Paulista, dei tchau para a Dona Amélia, voltei para o bairro de Pedreira, onde morava minha família, e comecei no meu primeiro emprego com carteira assinada.

Imagine. A fábrica era da Kopenhagen. Sim, uma fábrica de chocolates. Dá pra imaginar o encanamento de um grupo de jovens e adolescentes adentrando aquele mundo no qual para todo lado que se olhava havia chocolate. 

O curioso é que a empresa tinha como regra que não poderíamos levar nada lá de dentro. Mas lá dentro, não era proibido comer as guloseimas. Claro que eles sabiam que depois de poucos dias convivendo com aquela esbórnia de delícias logo estaríamos saturados.

Foram poucos, mas foram inesquecíveis e doces aqueles meses de 1971.

Marta Alves é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias  visite agora o meu blog miltonjung.com.br ou assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.