Conte Sua História de São Paulo: o sobrado em cima da Chapelaria Paulista

 

Por Thereza Harfman Müller
Ouvinte da CBN

 

 

Eu, me chamo Thereza Harfman Müller, estou atualmente com 87 anos. Como sou ouvinte da CBN, resolvi também narrar fatos marcantes da minha vida que passei no Centro da Capital.

 

Minha mãe trabalhava como diarista da casa do Dr. Angelo Del Olio, italiano, médico com consultório na rua Quintino Bocaiuva, em cima da Chapelaria Paulista — um sobrado grande daqueles bem antigos. Como uma vez quase o assaltaram durante à noite, ele ofereceu para minha mãe e para meu pai para morarmos lá.

 

Na frente, ficava a sala de espera, a sala de consulta e um banheiro. Do outro lado do corredor, nos fundos, nós tínhamos um dormitório grande, uma saleta, cozinha, área de serviço e banheiro. Da janela da sala de espera, dava para ver a Praça da Sé, através da rua Barão Paranapiacaba. Ali vi muitos desfiles das escolas nos dia sete de setembro e 15 de novembro. Vi desfiles dos carros no Carnaval, na avenida São João, e as corridas de São Silvestre que eram à noite.

 

Na rua Direita, existia uma loja dos “Dois Mil Reis”, que depois da guerra ficou como Lojas Americanas. Tinha também a Camisaria Alemã, que depois por causa da guerra passou a chamar Casa Kosmos, que na compra de uma camisa ganhava um colarinho extra. Também por causa da guerra, Dr Angelo e os outros comerciantes estrangeiros foram obrigados a encerrar os seus negócios e se mudarem do centro.

 

Nos dois anos que vivi no centro, estudava na escola Alemã, na Vila Mariana, que depois passou a chamar-se Escola Osvaldo Cruza. Tomava o bonde Santo Amaro no Largo São Francisco. Tinha passe escolar que a minha mãe comprava na Light And Power, na Praça Ramos de Azevedo.

 

Eu, minha mãe e às vezes meu pai, íamos no cinema. Na Praça da Sé, tinha o Cine Santa Helena; o Cine Recreio era na praça onde atualmente começa o Viaduto Brigadeiro Luiz Antonio — nesse cinema, lembro quando a minha mãe deu dinheiro para comprar os bilhetes de entrada e o bilheteiro falou que não tinha troco, então ela poderia voltar na semana que vem. Outra cena pitoresca foi no Cine Art Palacio, na Av. São João. Estava passando a Marca do Zorro. Eu não tinha ainda 12 anos, era muito pequenininha. Então, minha mãe dobrou um casaco sobre a poltrona para que pudesse sentar e ficar uma pouco mais alta, até enxergar a tela do cinema.

 

Só fomos embora de São Paulo quando dois anos depois o Dr Angelo fechou o consultório dele. Foi quando mudamos para São Caetano do Sul.

 

Thereza Harfman Müller é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: o passeio ao centro tinha o sabor do guaraná caçula

 

Por José Antonio Braz Sola
Ouvinte da CBN

 

 

 

Início da década de 1960. Morávamos em Pinheiros, perto do Largo. Eu tinha uns 7 anos e minha irmã, 4. Nos domingos em que meu pai — um simples comerciário — tinha folga, ele nos  levava para passear, de ônibus ou de  bonde, enquanto a mamãe ficava em casa cuidando do almoço mais caprichado da semana.

 

Íamos com frequência ao Parque da Água Branca, onde podíamos ver e tocar  os bichinhos que tanto nos encantavam — especialmente bois, vacas e cavalos. Lembro-me de que ficava particularmente feliz quando o ônibus passava em frente ao Estádio Palestra Itália, sede do clube pelo qual já era apaixonado, o Palmeiras.

 

Fazíamos passeios  também no centro, onde ficávamos maravilhados com as vitrines das lojas mais conceituadas da cidade, localizadas nas Ruas Barão de Itapetininga, 24 de Maio, do Arouche e na Praça da República. Era uma época pré-shopping centers.

 

Seguíamos, também, até a Praça do Patriarca, para admirar a vitrine da Kopenhagen, que estava sempre ornamentada maravilhosamente, sobretudo em datas especiais como Páscoa e Natal. Em dezembro, claro, era obrigatório ver e falar com o Papai Noel no Mappin, além de ir apreciar o maravilhoso presépio mecanizado, montado na Galeria Prestes Maia.

 

O dinheiro do papai era curto, mas ele dava um jeitinho de nos oferecer um lanche, sempre acompanhado do insubstituível Guaraná Caçula Antárctica. Sinto muitas saudades daqueles tempos, de todas aquelas coisas e especialmente daquela São Paulo.  

 

José Antonio Braz Sola é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: na porta do Mappin, o encontro dos jovens negros da cidade

 


Por Antonio Carlos Arruda
Ouvinte da CBN

 

 

Tenho 66 anos. Sou paulistano da Vila Guarani, no Jabaquara. Negro, advogado formado pela PUC. Quero contar um fenômeno da década de 1970: o encontro da juventude negra, toda sexta-feira, na porta do Mappin, a grande loja de departamentos paulista.

 

Era uma coisa mágica, uma expectativa e uma ansiedade que mexia com o nosso sentimento, jovens negros, de todos os lugares de São Paulo. Sem que ninguém marcasse nada, comparecíamos ali espontaneamente. Sexta, sim, e a outra, também. Não havia motivação política, muito embora pude entender tempos depois, que havia de maneira subliminar a procura por uma situação de igualdade — infelizmente, ainda não alcançada pela nossa gente.

 

Mas o importante aqui é que íamos para a porta do Mappin para encontrar jovens, negras e negros, onde rolavam por certo as paqueras –- muitos casamentos saíram dali. Mas, especialmente, para saber onde seriam as festas, os bailes de fim de semana, nas casas de família e nos salões da cidade. Falávamos de música, dos últimos lançamentos e dos sucessos dos nossos ídolos brasileiros e americanos. Desfilávamos com nossas melhores roupas —– calças bocas de sino; as meninas com suas blusas colantes, saltos altíssimos e cabelos afros mais incríveis e grandes que pudéssemos armar.

 

Algumas explicações para esse fenômeno:

 

Éramos o segmento mais pobre da população, raríssimos tinham telefone em casa. Se uma garota passava o número, era uma referência de “gente fina”, coisa que só os brancos tinham. Desde muito jovens trabalhávamos de office-boys, auxiliares de escritório, bancários. As meninas também em escritório, poucas lojas as aceitavam como vendedoras; eram faxineiras nas empresas do centro e, outras tantas, empregadas domésticas nos Jardins.

 

Também porque festa de preto não era igual festa de branco. Não gostávamos de Jovem Guarda. Nossas referências eram Wilson Simonal e sua pilantragem; Jorge Ben com seu samba-rock; Tim Maia com seu soul americanizado e parecido com James Brown, Billy Stuart, Aretha Franklyn, o exotismo de Miriam Makeba; os sambas de Elza Soares, Elis Regina, Originais do Samba e por aí afora.

 

Eram tantos negros naquele espaço, que se estendia por um pedaço do Viaduto do Chá defronte a antiga Light até a Galeria Nova Barão, num vai e vem que ia das seis da tarde às dez da noite.

 

Além de quase todos sermos clientes do Mappin e aproveitarmos para pagar nossos carnês e fazer novas compras, outra explicação para o local do encontro era a facilidade para depois cada um tomar o rumo do seu destino.

 

Foi tão marcante a presença de negras e negros, que as escadarias do Teatro Municipal foram o local de lançamento do Movimento Negro Unificado, numa sexta-feira, dia sete de julho de 1978.

 

Antonio Carlos Arruda é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: orgulho de ter nascido, crescido e envelhecido na cidade

 

Por Sérgio Paulo Böemer

 

 

Em junho de 1963, uma jovem parturiente, moradora do longínquo bairro de Arthur Alvim, dá à luz a um menino do hospital conveniado com o antigo IAPETC – Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Empregados em Transportes e Cargas, localizado no Ipiranga, hoje Hospital Leão XIII. Nascia um dos maiores amantes da cidade de São Paulo.

 

Posteriormente, a família se mudou para o bairro do Brás, quase divisa com o da Mooca —- era na Mooca que ficava a escola estadual – a E.E.P.S.G. “Antonio Firmino de Proença”, até hoje em atividade – a qual frequentou do jardim da infância a sua formatura no colegial — ou seja, por mais de 14 anos.

 

Um detalhe: ao adentrar na adolescência, por força de mudança do emprego de seu pai, a família mudou-se para o bairro da Casa Verde, na zona Norte, ele continuou a estudar no colégio na Mooca, tendo que se utilizar de duas conduções para ir e duas para voltar à casa, pois naquela época não havia metrô em atividade — estava em construção. Ele e seu irmão eram os únicos alunos a morarem tão longe do colégio. Com a separação de seus pais, o garoto, o irmão e a mãe, retornaram a viver no Brás, para sua alegria.

 

Mais tarde, esse amante da cidade, frequentou as faculdades da Mooca, do Ipiranga, da Liberdade, da avenida Brigadeiro Luis Antônio, na Bela Vista … Forçado mais uma vez a se mudar, seu destino foi Sorocaba, no interior, mas tendo uma namorada nesta cidade, semanalmente, se encontrava feliz em sua amada São Paulo. Na primeira oportunidade, retornou ao Brás.

 

Por amar o centro velho dessa capital, sempre andava pelas ruas Senador Feijó, Barão de Paranapiacaba, Direita, Boa Vista, Líbero Badaró, Xavier de Toledo. Tem orgulho ao falar do Teatro Municipal, dos antigos prédios do Mappin, Light e Votorantin. Se vangloria ao citar as arquiteturas do Palácio da Justiça, na Praça Clóvis Bevilácqua, do Viaduto do Chá, do Minhocão –- hoje elevado Presidente João Goulart, que já foi Presidente Costa e Silva — da Pinacoteca e do Museu de Arte Sacra, ambos na avenida Tiradentes.

 

Tal amante da cidade, sempre que pode, exalta os padres Manuel de Nóbrega e José de Anchieta, que, em 25 de janeiro de 1554, fundaram um colégio para ser o centro de educação e formação dos indígenas para se adequarem ao modo de vida dos jesuítas portugueses. Eles jamais imaginariam que estariam fundando uma das maiores megalópoles do mundo.

 

Bem, pode haver muitos amantes de São Paulo, mas esse menino que tem Paulo no nome, e orgulho de ter nascido, crescido e envelhecido nesta cidade maravilhosa, crê que o lema lançado no brasão do Estado de São Paulo “pro brasilia fiant eximia” (‘pelo Brasil, faça-se o melhor’), sempre será empunhado, por primeiro, por esta cidade.

 

Sérgio Paulo Böemer é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também outros capítulos da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: o passeio com papai nas lojas do centro

 


Por José Antonio Braz Sola
Ouvinte da CBN

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto do ouvinte da CBN José Antonio Braz Sola:

 

 

Início dos ano de 1960. Morávamos em Pinheiros, perto do Largo. Eu tinha uns sete anos idade e minha irmã, quatro. Nos domingos, em que meu pai — que era comerciário — tinha folga, passeávamos com ele, de ônibus ou de bonde, enquanto a mamãe, em casa, cuidava do almoço mais caprichado da semana.

 

Frequentávamos o Parque da Água Branca, onde podíamos ver e até tocar alguns dos bichinhos que nos encantavam — especialmente bois, vacas e cavalos.

 

Eu ficava particularmente feliz quando passava em frente ao Palestra Itália, sede do clube pelo qual já era e ainda sou apaixonado

 

Fazíamos passeios também no Centro, onde ficávamos maravilhados com as vitrines das lojas mais conceituadas da cidade, nas Ruas Barão de Itapetininga, 24 de Maio, na rua do Arouche e na Praça da República.

 

Na Praça do Patriarca admirávamos a vitrine da Kopenhagen, que estava sempre ornamentada maravilhosamente, sobretudo em datas especiais como Páscoa e Natal. Aliás, em dezembro era obrigatório ver e falar com o Papai Noel, no Mappin. Tinha também o presépio mecanizado, na Galeria Prestes Maia.

 

O dinheiro do papai era pouco, mas ele dava um jeitinho de nos oferecer um lanche — sempre acompanhado do insubstituível Guaraná Caçula Antárctica. Sou capaz de sentir o sabor enquanto escrevo essas lembranças da minha querida São Paulo.

 

José Antonio Braz Sola é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: aprendi a andar por aqui com as páginas do guia da cidade

 

Por Pedro Lúcio Ribeiro
Ouvinte da rádio CBN

 

 

Vivo em Campinas, desde meus dois anos de idade. Logo, sou campineiro aos sessenta.

 

Aos sete ou oito anos, conheci São Paulo, no Parque Edú Chaves, e fiquei vivendo na casa dos tios por uma semana em companhia de meu priminho de oito meses.

 

Naqueles dias, conheci a televisão assistindo ao Zas-Trás, programa infantil apresentado pelo “Tio Molina” e pela “Tia Márcia”. Hoje esse priminho é Tenente Coronel Reformado, aposentado, da PM de São Paulo.
 

 

Muito tempo depois, mais de 25 anos, tive de me embrenhar nas ruas e avenidas de São Paulo, sozinho, por minha conta, para cumprir missão decorrente de um concurso para o cargo de escriturário na Secretaria de Fazenda de São Paulo.
 

 

Putz! Eu não conhecia São Paulo, tinha medo de andar sozinho, mas tinha de ir à Secretaria da Fazenda para tomar posse do cargo de “Escriturário Lei 500” (só quem é do ramo sabe o significado disto).
 

 

Peguei um “Cometão” de Campinas a São Paulo com algumas páginas de um guia da cidade. Apeei antes da Julio Prestes – antiga rodoviária – e fui contando as quadras e as quebradas pelas quais eu deveria passar para chegar ate a Rangel Pestana, número 300.
 

 

De lá, outras instruções para exames médicos no Instituto de Assistência Médica do Estado de São Paulo. Tive de pegar as páginas do guia no bolso da calça para ver como chegar na rua Maria Paula passando pelo viaduto Maria Paulina, etecetera e tal. 

 

Fiz o trajeto pelo menos três vezes, sempre acelerado. Era tal a minha tensão  e concentração que muitos pensavam que eu era dali e paravam minha caminhada frenética para perguntar uma ou outra informação. E, medroso, medo de ser assaltado, eu falava qualquer coisa para me desvencilhar da pessoa.
 

 

Coitada de uma mulher, coitado de mim. Uma senhora queria ir para São Miguel e me perguntou se aquele ônibus pertinho de nós, por onde eu passava, fazia este trajeto. Eu apressado disse que sim. Só depois li no letreiro que o itinerário era outro e no sentido oposto: jóquei clube ou coisa parecida.

 

Depois disto, vinte e tantos anos depois, conheci essa cidade como “motorista de juiz”. Hoje, sei andar por São Paulo como se paulistano fosse. Mas não gosto de ser motorista por aqui. E não gosto por razões que só explico em verso:
 

 

“Cidade imponente, decadente e ultrapassa,
adorada só por gente impaciente e afobada.
Que loucura é aquilo ali! Quanta gente nas calçadas!
Cedo, tarde ou à noitinha… Ou varando a madrugada.
 

 

Seu tamanho é seu orgulho.
Seu tamanho é seu perigo.
Ali cheguei sem barulho, paranóico e nada rico.
 

 

Que me vê até se ilude.
Pensa até que sou dali.
Tenho cá minhas virtudes,
E uma delas é fingir.

 

São Paulo imponente,
São Paulo meu terror,
Eu não sei se te odeio,
Ou por ti declaro amor!

 


Pedro Lucio Ribeiro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Débora Gonçalves. Conte você também a sua história. Escreva para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: um passeio para matar a sede da metrópole

 

Por Frei Antonio Leandro da Silva

 

 

Tenho sede não só de conhecer a metrópole, como também desvendar seus recantos obscuros, percorrer interstícios, caminhar sempre um pouco mais…

 

Impressionam-me suas largas e movimentadas avenidas, arrojados viadutos, fascinantes monumentos, modernas arquiteturas, templos monetários… Uma cidade construída sobre concreto e asfalto. Nessa sociedade, sinto-me desconhecido de todos, estranho no meio da multidão.

 

Sigo a Rua São Bento, atravesso as praças do Patriarca e Antônio Prado. Subi a Avenida São João e, no cruzamento desta com a Ipiranga, experimento o que tantos nordestinos já sentiram: o anonimato de quem vive na cidade grande. Visito a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, espaço sagrado para acolher os fadigados, refúgio dos caminhantes. Ajoelho-me, rezo. O espaço fortalece minhas forças e esperanças para caminhar. A oração reanima, acalenta e silencia a alma.

 

O tempo corre, olho para o relógio, levanto-me. Retorno pela Avenida São João. Contemplo situações e pessoas, cines pornográficos, prostitutas encostadas nas esquinas e bares, bêbados deitados no chão, adolescentes cheiram cola, mulheres, com seus filhinhos, imploram esmolas aos transeuntes. Homens de gravatas conduzem pastas, mulheres bem vestidas e simpáticas seguem caminhos, camelôs desmontam suas barracas. Polícia faz a ronda, ambulâncias acionam as sirenes. Atravesso o Vale do Anhangabaú, olho atentamente os arredores. Subo a rampa da Rua São Francisco, cruzando com a Rua do Ouvidor.

 

Finalmente, meus passos me trouxeram de volta ao convento. Caminho direto ao meu quarto e concluo a escrituração:

 

“Uma coisa aprendi neste dia: o caminho da vida é longo, sinuoso e penoso. Preciso sempre caminhar com determinação, coragem e autoconfiança, mesmo quando as circunstâncias me pareçam estranhas, pois é vivenciando o novo, o estranho, que podemos dar significado ao caminhar sem desanimar”.

 

Frei Antonio Leandro da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte outros capítulos da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: da rua da Mooca sai para conhecer minha cidade

 

Por Paula Bueno
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

 

Nasci no bairro da Mooca, na década de 70 e ainda muito menina nos mudamos para a zona norte da cidade, num condomínio de casas chamado Parque Residencial Santa Teresinha, com muita área verde e até um clube. O condomínio era totalmente murado com guaritas. Hoje, penso que a proposta era até muito moderna para a época. No fundo do condomínio tinha um córrego não canalizado. O engraçado é que para nós, crianças, aquilo era como se fosse o fim do mundo mesmo, o limite do planeta. Depois do muro tem o córrego e mais nada, acabou… Todo nosso universo se restringia aquelas ruas e a passar horas e horas brincando de esconde-esconde, pega-pega, barra manteiga, amarelinha e a andar de bicicleta.
 

 

Meus avós tinham ficado lá na Mooca e nós os visitávamos com muita frequência. Eu particularmente adorava quando ficávamos para o jantar, pois assim só voltaríamos para casa à noite o que significava que eu ia poder ver as luzes da cidade! Eu amava ficar olhando pela janela do carro de papai as luzes dos postes e a iluminação dos prédios, pontes, construções e outdoors. Meu momento favorito era passar na Av. Tiradentes e avistar o imenso lustre da Pinacoteca aceso (hoje infelizmente ele não fica mais).
 

 

Então fui estudar no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo e uma das disciplinas era História da Arquitetura. Tornei-me uma aluna assídua, daquelas que não cede a carteira na primeira fila nem para a melhor amiga! O professor trazia muitas fotos e a descrição detalhada de pontos inimagináveis da cidade com uma riqueza arquitetônica incrível e que infelizmente na maioria das vezes nem nos damos conta, passando por esses pontos sem saber de sua história e sem ao menos enxerga-los, como o Castelinho da Brigadeiro, o Solar da Marquesa de Santos ou o Edifício Martinelli.
 

 

Uma ocasião, eu já era moça, tive a oportunidade de fazer uma viagem para Buenos Aires. Passamos cinco dias conhecendo a capital, percorrendo suas ruas, observando a arquitetura, a cultura, a gastronomia, os museus, lojas e pontos turísticos. De volta a São Paulo me perguntei: “por que pagamos para conhecermos a cidade dos outros e não conhecemos a nossa?” Naquele momento me dei conta que gastamos fortunas para conhecermos os principais pontos turísticos de Buenos Aires, Montevideo, Nova York ou Paris sem antes termos dado uma única volta no Parque do Ibirapuera ou ter entrado no MASP.
 

 

Então comecei a fazer listas de locais em São Paulo com o status: Para conhecer! E todos os anos passei a reservar alguns dias das minhas férias para esses passeios.
 

 

Alguns foram muito marcantes. O pavilhão japonês no parque do Ibirapuera, por exemplo, foi uma grata surpresa. Estávamos andando a esmo pelo parque quando avistamos a construção, entramos e uau! Que lindo! O Museu do Imigrante que me emocionou profundamente quando vi pela primeira vez uma réplica do quadro de Bertha Worms – Saudades de Nápoles. A festa de Nossa Senhora Achiropita, onde além das barraquinhas havia na garagem de uma casa, logo no início da rua, o melhor macarrão com porpeta que já comi na minha vida (com perdão da minha avó). A escultura de Willian Zadig – O Beijo Eterno, localizada no largo São Francisco e que já ficou guardada nos depósitos da prefeitura por mais de dez anos por ser considerada imoral. Subir a 23 de Maio a pé, isso mesmo, a pé, no aniversário de 450 anos da cidade. Foi Incrível! Ou passar um réveillon na Paulista com um mar de gente pra todo lado onde mal se consegue respirar, mas mesmo assim você não quer ir embora!
 

 

Quando adulta fui trabalhar com hotelaria, o que me permitiu viajar bastante e conhecer lugares incríveis, mas o sentimento de casa, de estar em casa, aquele suspiro que se dá ao sentir um calor gostoso como se fosse um abraço apertado não sai do meu coração quando ponho os pés na área de desembarque do aeroporto da minha amada São Paulo.
 

 

Paula Bueno é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung. Envie seu texto sobre a cidade para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: meus passeios no centro, nas décadas de 40 e 50

 

Por Elvira Soubihe Tocci

 

 

O centro da cidade de São Paulo era, literalmente, o centro do nosso mundo. Na nossa infância, adolescência e juventude tudo de importante que fazíamos ou vivíamos, passava pelo centro da cidade. Percorríamos o centro para irmos à escola, para fazer as compras, para nos divertir, para encontrar os amigos e, depois, mais tarde namorar… Para ir ao centro colocávamos as melhores roupas, o centro para mim tinha um cheiro especial: era colorido, claro, brilhante e repleto de surpresas…

 

Quem não se lembra dos tecidos comprados na “Casa Fortes: a que é forte nos preços baixos!” e os lindos tecidos dos nossos vestidos de baile e de noiva da Tecelagem Francesa?

 

Qual jovem poderia se esquecer das bijouterias da Casa Slopper?

 

A voz do ascensorista, enumerando as mercadorias de cada andar e do famoso “Chá da tarde do Mappin Stores”…

 

Quem não se lembra dos eternos sapatos escolares da Casa Clarck e da Casa Eduardo e os lindos calçados iguais aos das estrelas de cinema da Casa Sutoris.
Qual a criança daquela época, nunca cobiçou os inacessíveis brinquedos maravilhosos da Casa Fuchs e São Nicolau.

 

Quem nunca provou a geléia de mocotó e o Milk Shake da Leiteria Pereira.

 

Naquela época tudo era consertado, até as meias nylon de minha avó e de minha mãe! Acompanhávamos admiradas a moça colocar a meia desfiada em uma perna de madeira, e com uma espécie de agulha elétrica puxar o fio e consertá-la, rapidamente. Tudo isso, adivinhem onde: lá no centro da cidade na encantadora e movimentada Casa Henrique.

 

Qual jovem noiva não teve ao menos uma peça de seu enxoval da Casa Valentim, assim como o pai teve um pijama da Casa Kosmos e um chapéu ―que todos os homens usavam ― da Casa Prada ou da Ramenzoni?

 

Quem não comprou óculos na Casa Fretin e viu lá, pela primeira vez, uma lupa ou um binóculo…

 

Ou nunca comprou linhas, lãs, sinhaninhas, elástico para calcinhas na Casa Genin.

 

Quem nunca tomou os remédios homeopáticos da Veado d’Ouro ou das Farmácias do Dr Alberto Seabra.

 

Qual menina-moça não teve seu primeiro soutien “Mourisco”, comprado nas Lojas Ethan ou nas Lojas Cisne?

 

Quem não se lembra da Casa dos Dois Mil Réis, que depois virou Lojas Americanas e nós nos sentíamos verdadeiras “americanas” saboreando um hot-dog, praticamente, na calçada!

 

Lá no Centro da cidade de São Paulo, aprendíamos a viver e fomos envolvidos, sem perceber, por algumas das melhores sensações de nossa juventude…

 

Elvira Soubihe Tocci é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe com suas lembranças: envie o texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: aos 11 anos conheci a cidade dos bondes e da garoa

 

 

Sou do Paraná. Da pequena cidade do norte do estado, Santa Inês, ali na divisa com o rio Paranapanema. Ainda hoje pequena cidade, pois diz o censo que não moram muito mais de 2 mil e 500 pessoas por lá.

 

Cheguei aqui em São Paulo em 7 de Setembro de 1964, em pleno feriado da Independência. No dia seguinte já havia conseguido trabalho na Praça João Mendes, no centro da cidade. É ali que temos o fórum que também leva o nome do famoso jurista João Mendes de Almeida, construído bem antes de eu chegar, na década de 1950.

 

Imagine que tudo isso me aconteceu com apenas 11 anos de idade. Foi nessa época que comecei a produzir um filme em minha cabeça com imagens que ainda estão muito presentes na memória: para o menino recém-chegado a cidade era enorme: lembro-me do movimento dos carros que já era facilmente percebido; por lá, também, passavam os bondes levando trabalhadores e estudantes; tinha ainda a correria das pessoas pelas calçadas; a garoa, que quase não existe mais, era a marca da cidade. E aqueles prédios …. gigantes.

 

Sou muito grato a São Paulo. Foi aqui que construi minha vida. Foi aqui que casei, há 42 anos, e consegui dar boa educação aos meus três filhos.

 

Só tenho a te dizer, São Paulo, obrigado, pois com todos seus defeitos te carrego aqui no meu peito.

 

Carlos Pereira da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio.