Conte Sua História de SP: o apito dos afiadores de faca

 

 

Por Wagner Nobrega Gimenez

 

Nasci no bairro do Brás, na Almirante Barroso, 838, em junho de 1954 – ano do IV Centenário de São Paulo. Essa casa não existe mais. Pertence a uma igreja evangélica. Naquela época se fazia partos em casa, como o meu. Dona Cândida, a parteira portuguesa, assistiu minha mãe, dona Luzia, em sete partos, um infelizmente de um natimorto, dois anos após o meu nascimento. Eu, filho temporão, o caçulinha,  brincava só com os moleques na rua: era jogo de bola, figurinha, cowboy, pega-pega, taco – brincadeirinhas que não acontecem mais.

 

Fiz o primário no Grupo Escolar Eduardo Prado, acho que ainda está lá; o ginásio no Colégio São João (que foi demolido; é sede de outra igreja evangélica). Cursei o Senai e me formei Técnico Têxtil em fiação, profissão e indústrias quase em extinção no Brasil.

 

Minhas recordações do centro de São Paulo, quando pequeno e jovem, incluem, entre outras, o Mappin, as Lojas Americanas – que bauru gostoso se fazia ali, será que ainda tem hoje? – a Pirani, na Av. Celso Garcia, onde no terraço havia um parquinho de diversões no qual eu brincava quando pequeno, levado pela Cida, minha irmã.

 

As recordações desses locais hoje inexistentes fazem às vezes eu me sentir como se tudo aquilo tivesse se passado em outro século, que de verdade foi, não é mesmo.

 

Se não vejamos:  tempo em que a TV era em branco e preto e existia o televizinho; que a vitrola, nos bailinhos aos sábados, tocava músicas gravadas em LPs; que existia namoro, noivado e casamento; que a minissaia e o biquíni eram novidades; que o Brasil tinha o melhor futebol do mundo, tinha o rei Pelé. Tempo em que passavam homens pelas ruas vendendo bijous e afiadores de facas e tesouras – ambos faziam barulhos para chamar a atenção dos moradores: os primeiros com uma matraca;os outros com um apito característico. Lembram desse som?

 

Poderia ficar recordando outras tantas cenas desta cidade, mas, não se engane, não sou saudosista. Emociono-me toda vez que recorda daqueles velhos tempos, mas sou muito feliz vivendo na São Paulo atual.

 

Para participar do Conte Sua História de São Pauo, envie seu texto para milton@cbn.com.br. O quadro vai ao ar aos sábados, logo após às 10h30, no CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio.

Conte Sua História de São Paulo: a primeira pizzaria da cidade

 

Por Elmira Pasquini

 

 

Nasci no Paraíso, em Janeiro  de 1927. Com  10 meses, meus pais mudaram para Itaquera, subúrbio da cidade de São Paulo, a apenas 45 minutos de trem. Naquele tempo, um lugar lindo e gostoso  de se viver.   As ruas eram de terra, não havia luz elétrica nem água encanada. Nossa água de poço era uma delícia, pura, leve e sempre geladinha, muito bem cuidada por papai que era caprichoso em tudo que fazia.  Nossa chácara era à esquerda  da ladeira que saía da estação do trem e terminava no alto onde havia uma igreja católica. Ficava no centro da segunda grande quadra,  sem vizinhos em volta, Tinha um belo jardim, uma gostosa casa, quintal todo cultivado, com horta, pomar e um grande galinheiro, onde até peru tínhamos. Havia muitas chácaras  espalhadas  e uma grande colônia de japoneses, que cultivavam e ainda cultivam flores.

 

Para irmos a cidade dependíamos da Maria Fumaça que descia a ladeira chegando de São Paulo, apitando lá em cima do morro: PIiiiiiiiiiiiiiiiiiiii  … anunciando que estava  pronta com seus vagões para deixar ou pegar passageiros na estação. Quando subia a pequena mas íngreme ladeira puxando o comboio, ia gemendo: “muito peso, pouca força, muito peso pouca força”… e mais lenha na caldeira era colocada.

 

Quando crianças, nossas idas à cidade eram raras, porém anualmente,  uma delas sempre foi marcante. Era na semana entre Natal e Ano Novo. Era um passeio muito aguardado. Papai trabalhava no jornal ” As Folhas” onde, após 36 anos, se aposentou. Quando o bonde que nos trazia da estação do Norte chegava no ponto final, papai já nos aguardava ao lado do relógio da Praça da Sé. Meus dois irmãos e eu vestidos para a ocasião especial, felizes ao lado de mamãe, o procuramos. Ele sempre estava lá, sempre elegante, feliz e sorridente. Por toda nossa vida, isso sempre nos deu muita segurança.
Toda essa expectativa era para, em família, saborearmos uma bela pizza na famosa Cantina do Papai, que era a primeira e única pizzaria de São Paulo na época. Nos acomodávamos, observando tudo ao nosso redor. Pessoas chegavam, saiam e o ambiente era sempre agradável.  Pizza só havia de mussarela,  com ou sem aliche. Estas eram um pouco maiores do que as grandes pizzas de hoje. Papai sempre pedia meio a meio. Era tão saborosa… Para beber, só havia Guaraná e Soda Limonada.

 

Era tão bom ver a família reunida, alegre e feliz. Saboreávamos sem pressa, pois sabíamos que papai voltaria no trem para casa conosco. A festa era completa por tê-lo conosco. Aliás, ele e  mamãe eram lindos e seus rostos transmitiam muita paz.

Conte Sua História de São Paulo: para que lado fica a Rua Direita?

 

Por Eduardo Menezes
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Era 1989. Eu com 16 anos de idade. Iniciei minha carreira profissional em uma empresa de informática em Diadema, ABC paulista. O emprego era de office-boy e, logo nos primeiros dias de trabalho, minha chefe designou um dos office-boys mais velhos para nos ensinar o trabalho. Tudo foi muito bem na primeira semana, na parte teórica (se é que se pode dizer assim) e na semana seguinte partimos para a prática.

 

Andamos a pé desde a empresa na divisa da cidade com São Paulo, no Jardim Miriam, e chegamos ao ponto de ônibus, o que já tinha sido uma aventura e tanto para os meus padrões. Pegamos o ônibus com destino ao Metrô Paraíso e fizemos o restante do caminho a pé. Andamos toda a Paulista e meus olhos brilhavam com tanta grandiosidade, trânsito, gente importante e, o melhor de tudo, tantas meninas bonitas. Apesar de estar maravilhado, tinha um pouco de vergonha em usar o uniforme da empresa, mas fazia parte do trabalho.

 

Andamos por toda a Paulista com destino à Angélica, sempre parando em alguns escritórios e empresas. Descemos a Angélica até o Centro e seguimos para o Terraço Itália, na Av. Ipiranga. Foi aí que meu “mestre” na arte de andar por São Paulo, percebendo que eu era “esperto”, teve uma daquelas idéias geniais, que nunca deveriam ter sido executadas. Propôs que, para agilizar o nosso trabalho, nós dividíssemos o nosso trabalho e assim iríamos para casa mais cedo. Ele me ensinou como chegar da Av. Ipiranga até a Praça da Sé, local em que ele me encontraria em aproximadamente uma hora. Parecia muito simples, segundo ele, bastaria pegar a rua Barão de Itapetininga, atravessar o viaduto do Chá, pegar a rua Direita que já estaria na praça da Sé.

 

Que ideia brilhante!

 

Fiz o meu trabalho na Ipiranga e como o mestre havia explicado segui pela Barão, passando pelo viaduto do Chá e virei à Direita. Para meu espanto, havia uma praça, sim, neste caminho, mas não era a Sé. Fiquei confuso. Como qualquer office-boy que se preze, fui perguntar ao jornaleiro, que sem nem olhar mim, disse: “volte por esta rua e pegue a rua Direita”. Pois bem, voltei e pegue a rua logo a minha direita e novamente não deu em nada!

 

Resolvi voltar ao caminho original e ver se não tinha feito nada de errado, mas para meu espanto mais uma vez sempre que entrava a minha direita, após o Viaduto do Chá, não chegava na praça da Sé.

 

Quase desesperado, perdido, sem dinheiro, eis que olho uma placa na rua com o nome “Rua Direita”. Quase chorei de raiva, alegria, vergonha, sei lá. Sei apenas que virei piada no trabalho por muitos anos. Uma história sobre minha relação com esta cidade que aprendia a amar e respeitar seus nomes estranhos.

Conte Sua História de SP: a boneca que o Seu João comprou no Mappin

 

Por Luiz Silva

 

 

E assim que desembarcou na antiga rodoviária da estação da Luz, dentro do ônibus observou uma grande movimentação de pessoas que passavam rapidamente com enormes malas pra lá e pra cá.

 

O motorista abriu o compartimento que ficava na parte debaixo do ônibus, colocou as enormes malas do Senhor João no chão, conferiu o bilhete e fechou rispidamente o enorme “maleiro”:
 

 

– Felicidades e muito sucesso nesta grande metrópole!disse em tom de despedida.
 

 

O senhor João, sua esposa Maria e os seis filhos pequenos pegaram as enormes malas e saíram silenciosamente pelas ruas da redondeza sem destino, entraram num pequeno boteco e pediram alguns pastéis e duas tubaínas e lá ficaram a degustar os pastéis e olhando toda aquela movimentação da rua com muito receio da grande metrópole São Paulo.

 

Após saciarem a fome de todos, saíram ainda em silêncio olhando para o chão, enquanto as crianças admiravam com muita alegria e ansiedade tudo e todos.

 

Embarcaram em um ônibus lotadíssimo com destino a zona Leste onde poderiam rever um compadre que tinha vindo para a cidade há muitos anos e prontificou-se a recebê-los até que arranjassem um cômodo por lá mesmo, um emprego e a vida pudesse ganhar o seu rumo na cidade.

 

Durante o café da manhã o compadre disse ao senhor João:
– Olha compadre, vocês podem ficar aqui na nossa casinha morando conosco até “aprumarem”. Enquanto isso, tenho um pequeno serviço para o senhor!
O senhor João olhou para o compadre e foi logo perguntando:
– Mas que tipo de serviço eu poderia fazer se só sei capinar roçado, cuidar de gado e cortar lenha?

 

 
O compadre foi logo explicando que conhecia um senhor que trabalhava numa agência de publicidade e sempre estava precisando de pessoas para carregar algumas placas com propagandas pelo centro de São Paulo.
 

 

O senhor João um pouco receoso perguntou:
– Mas, Compadre, será que eu sirvo pra este tipo de serviço? Afinal nem ler e escrever eu sei!
– Ora compadre, é só carregar a placa pra lá e pra cá e ficar orientando o pessoal para ir até a loja, muito fácil o serviço e nem é necessário ser “letrado”.
 

 

      
No outro dia lá estavam os compadres descendo do ônibus no centro da capital e entrando numa agência de publicidade. O senhor João foi apresentado para um senhor obeso que fez algumas perguntas. E sem perder tempo, o levou até a frente da grande loja de departamento, chamada Mappin.

 

 
Após algumas orientações. o senhor João foi “abandonado” em frente a loja  com uma enorme placa que cobria todo o seu esquelético corpo e seguiu caminhando pela rua Sete de Abril com destino a Praça da República.

 

O senhor João muito apreensivo andava pela praça toda e sempre o seu olhar parava naquela enorme loja de departamento. Ficava imaginando o que poderia ser encontrado ali, na loja com aquele  enorme relógio e muitas letras, que ele não sabia o que dizia.

 

 
Pessoas passavam apressadas e a maioria nem parava para observar a insignificante presença do senhor João. No finalzinho da tarde quando a chuva despencou, todos correram para baixo de um toldo. E lá o senhor João coçou a barba e ficou morrendo de vontade de entrar na loja.

 

 
O senhor obeso apareceu e depositou uma quantia em dinheiro na mãos do senhor João. Desejou  boa noite e pediu que na manhã seguinte ele se apresentasse no mesmo lugar em seguida saiu apressado pelo viaduto do Chá.

 

 
O senhor João tomou coragem e entrou na loja. Vagarosamente atravessou o andar térreo, repleto de pessoas olhando tudo, e ficou a imaginar na grandiosidade daquela cidade. Foi andando entre alguns esbarrões, parou diante da vitrine que vendia brinquedos e perguntou, com sua humildade de praxe, quanto custava aquela boneca com um lacinho na cabeça. Atenciosa, a vendedora disse o preço, o senhor João enfiou a mão no bolso da carcomida calça e retirou a quantia exata para comprar o presente para a filhinha caçula.

 

 
Chegou em casa após viagem de duas horas dev ônibus, entrou sorrateiramente e depositou a bonequinha ao lado da filha que já estava dormindo. Tomou banho e foi dormir ao lado da esposa.

 

 
Adormeceu muito feliz com a imagem da grande loja de departamentos na cabeça e sonhando com o rosto de felicidade da filhinha no dia seguinte, quando abriria os olhos diante da linda boneca comprada no Mappin.

 


O Conte Sua História de São Paulo tem a sonorização do Cláudio Antonio. Você pode participar, enviando seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: saudades da Tia Ilze

 

Por Maria de Lourdes Figueiredo Sioli

 

 

Tia Ilze era a única irmã de mamãe. Era um pouco mais moça e fisicamente bem diferente dela. Mais clara, de cabelos cacheados e olhos grandes … muito bonita afinal.

 

Pelas fotos vejo-a muito ligada a minha infância, de primeira neta e sobrinha, lugar engrandecido na pequena família materna.

 

Casou-se com um americano – tio Mitchel – teve duas filhas, foi morar no Rio de Janeiro e na década de 50 voltou a São Paulo, onde nos encontramos novamente, pois eu terminara o ensino médio e frequentava um cursinho para o vestibular.

 

Foi morar na Rua Morás, uma rua calma e arborizada no Alto de Pinheiros, com um lindo jardim onde havia um pé de cerejas, que me encantava!

 

Um dia telefonou-me dizendo “Vou levá-la a um lugar que será inesquecível para você…” Nos encontramos na Praça Patriarca, na frente da Igreja de Santo Antonio e fomos de braços dados pelo Viaduto do Chá até ao Mappin para o chá das cinco!

 

Quando entramos no salão pensei assim como se fosse Alice entrando no País das Maravilhas tal o impacto sentido! Mesinhas redondas amparavam toalhas de fino tecido, em tons claro de azul, que iam até o chão. Sobre a mesa, xícaras de fina porcelana, talheres e demais objetos, tudo discreto e chique.

 

Compunha ainda o cenário, vários arranjos de flor natural que  enfeitavam o ambiente. Em um canto do salão um pequeno conjunto tocava músicas suaves e o violino passeava pelo recinto detendo-se minutos em cada mesa, que tornava-se no momento, alvo de todos os olhares. E que olhares! A fina flor da sociedade paulistana ali se encontrava para o chá das cinco!

 

Os garçons elegantemente vestidos, com luvas brancas, trouxeram inúmeros pratinhos com petit four variados, a chavena de chá, leite e chocolate quente, que tomei deliciada!

 

Conversamos sobre várias coisas e o tempo passou como por encanto.
 

 

Voltei ainda algumas vezes ao Mappin para o chá, agora sem hora marcada e sem o encanto da primeira vez.

 

Assisti à decadência do ritual, o empobrecimento dos detalhes e a mudança da clientela, os músicos desapareceram e glamour acabou! Mas na memória ficou mesmo inesquecível aquela tarde mágica, a companhia querida da tia Ilze e uma grande saudade!

 

Maria de Lourdes Figueiredo Sioli e a tia Ilze são personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar também mais um capítulo da nossa cidade: envie seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: o Rei dos Cartões na 25 de Março

 

Por Luiz Silva

 

 

Para entender a Rua 25 de Março é necessário vivê-la intensamente, é necessário passar um dia inteiro circulando por lojas, entrar na galeria Pajé, subir os 12 andares de elevador e descer a pé pelas escadas, passando loja por loja, visitar o shopping 25 e observar a multidão comprando e pesquisando preços.

 

Em 1.998 comecei a vender cartões de visita na 25 de Março. Nas primeiras horas da manhã, lá estava eu com meu mostruário de cartões e uma lanterna para iluminar os pedidos, pois quando era horário de verão, ainda estava escuro.

 

Descia no metrô São Bento, atravessava a praça, benzia-me diante da Igreja São Bento, pegava um pedaçinho da Rua Florêncio da Abreu e percorria a ladeira Porto Geral. E lá estava eu no meu escritório a céu aberto.

 

Confesso que no primeiro dia fiquei um pouco assustado, mas com o passar do tempo fui acostumando com o pessoal. Pessoas maravilhosas, sofridas, que montavam suas barracas logo nas primeiras horas da madrugada e passavam lá na Rua Vinte e Cinco de Março doze e até quinze horas das suas vidas a cada dia.

 

Vendia meus cartões de visita para os camelôs da feirinha da madrugada e era muito engraçado quando existia o tal do “rapa”, que era o pessoal da prefeitura que vinha verificar os camelôs ilegais vendendo seus produtos. Aí era um corre-corre danado; e eu acompanhava meus clientes, ajudando-os a carregar pesados plásticos. cheio de brinquedinhos, perfumes e outras mercadorias que eram esparramadas pela rua. Afinal, tinha que vender meus cartões e até avisava quando o rapa estava se aproximando e os camelôs agradeciam e faziam os cartões comigo.

 

Muitos camelôs da Rua Vinte e Cinco de Março eram pessoas que vinham do nordeste do Brasil; e das experiências que tive uma delas foi o prazer de nunca ter recebido um “calote” de nenhum comerciante, eram todos honestíssimos. Quando não tinham dinheiro suficiente para pagar os cartões, o que era raro, eles pegavam emprestado de um conterrâneo e estavam sempre de bom humor, pois tudo era festa, com chuva, com sol, sempre estavam a sorrir, às vezes de alegria em ter vendido muito, outras, de tristeza, mas sempre de bom humor com todos e sempre fazendo algumas piadinhas que era para quebrar o gelo e a sisudez de alguns clientes.

 

Garanto que muitas vezes é necessário um pouco de sorte, além da nossa capacidade de persuasão e garanto que tive muita sorte, pois uma das minhas primeiras vendas foi feita para o Senhor José, um camelô que vendia alguns colares, brincos e pulseiras de pedras de todas as cores, que vinham de Minas Gerais, e estava trabalhando na Rua Vinte e Cinco de Março fazia uns trinta anos. Então ele conhecia quase todos os comerciantes e assim foi apresentando-me um a um e meus cartões eram comercializados com alguma tranquilidade e lá pelas dez horas da manhã já tinha vendido de dez a quinze mil cartões para os camelôs.

 

O tempo foi passando e eu fui conhecendo várias pessoas da Rua Vinte e Cinco de Março e até já era conhecido como o “Rei dos Cartões”.

 

A vida começava a melhorar, os negócios iam de vento em popa com as vendas dos cartões e foi quando observei dois garotos vendendo bonequinhos do Pikachu que soltavam bolinhas de sabão, não tive dúvida, larguei a venda dos cartões de visita, comprei mil bonequinhos e fui vendê-los nas praias de Ubatuba até Santos.

 

Mas a saudade ainda existia e tempos depois voltava a Rua Vinte e Cinco de Março como “comprador” e ficava imaginando como era gostoso aquele tempo que saia as quatro e meia de casa, na zona Leste de São Paulo e passava um período entre os maravilhosos camelôs da Rua 25 de Março.

 

Parabéns Rua Vinte e Cinco de Março, o maior centro comercial a céu aberto da América Latina e obrigado por permitir que eu passasse um período maravilhoso entre seus clientes e camelôs! Muitas saudades, muitas boas recordações! Obrigado!

 

Luiz Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você mais um capítulo da nossa cidade e envie para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: no cortiço, os melhores dias da minha infância

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto de Mariza Christina, de 60 anos, moradora da Água Funda, que preferiu escrever uma carta à mão em lugar de nos enviar um e-mail, pois assim se sente mais próxima das pessoas:

 

 

Em 1961, eu estava com 7 anos e minha irmã, 5. Meus pais passavam por dificuldades financeiras, não podiam pagar mais o aluguel da casa onde morávamos, no bairro da Ponte Rasa, onde nasci, por isso decidiram que iríamos morar com a minha avó materna até a situação melhorar. Ela morava na Rua da Glória, entre a Rua Conselheiro Furtado e a Rua Lava-pés, bem no centro de São Paulo. Era um terreno longo e estreito com vários quartos. Imagine seis pessoas num quarto 6×3, mais ou menos, era um aperto danado, bem diferente da casa grande e confortável que vivíamos, mas para mim e minha irmã era novidade e nos divertíamos muito.

 

Naquela época era comum quartos como aquele por serem baratos e fáceis de alugar, eram popularmente chamados de ‘cortiços’. E foi nesse quarto tão simples e apertado que passei os melhores dias da minha infância. Moramos lá um ano, mas o suficiente para deixar muitas lembranças.

 

Fiquei encanada quando vi pela primeira vez o bonde, aquele carro grande que andava sobre trilhos carregando pessoas, e fiquei intrigada como elas não se molhavam quando chovia, pois não tinham portas! Será que elas abriram o guarda-chuvas?! Corri para contar à minha avó, tão curiosa e ofegante que mal podia falar. Assim que pude, a enchi de perguntas. Quanto ela me disse que os bondes iriam acabar, pois estavam sendo substituídos por ônibus, fiquei muito triste: eles eram tão bonitos! Às vezes, ficava horas no portão só para vê-lo passar, queria gravar aquela imagem na memória.

 

Todos os dias, as duas horas da tarde, saía uma fornada de pão da padaria que havia em frente a nossa casa, o cheiro era inebriante e tão delicioso que até hoje quando me lembro posso sentir aquele cheirinho maravilhoso. É inesquecível!

 

O Carnaval estava próximo. A ansiedade era grande, eu nunca tinha assistido a um desfile. Ao lado da nossa casa tinha uma lojinha que vendia de tudo; fantasias, plumas, máscaras, adereços, etc … O movimento na loja era enorme, pessoas que entravam e saíam alegres com fantasias que iriam vestir. Meus olhos brilhavam com tantas coisas bonitas e coloridas. Meus pais também iam desfilar e deixaram que eu ajudasse a escolher suas fantasias. Compraram ainda confetes, serpentinas e bisnagas de água, para mim e minha irmã.

 

Ainda não existiam blocos ou escolas de samba, eram cordões. As fantasias simples, sem luxo, porém, muito bonitas e criativas. Os cordões se concentravam na Rua Lava-pés e de lá saíam cantando marchinhas que até hoje são lembradas, subiam a rua da Glória e outras ruas do bairro. Quem não desfilava acompanhava jogando confetes e serpentinas. No ar, exalava um perfume delicioso de lança-perfume. Ao fim do desfile ia-se atrás do cordão preferido.

 

Apesar das dificuldades foram os dias mais felizes das nossas vidas e, com certeza, deixou muitas saudades em todos nós.

 

Mariza Christina é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. Ou mande um carta como fez dona Mariza.

Conte Sua História de SP – 461 anos: quando os engenheiros chegaram para construir o Minhocão

 

Por Deborah Pereira

 

 

Em 1965, minha família se mudou para a Rua Albuquerque Lins no trecho entre a Praça Marechal Deodoro e a Brigadeiro Galvão. O bairro era ótimo, tranquilo e residencial. A rua era de paralelepípedos e andávamos de bicicleta com tranquilidade até a praça.

 

De repente começaram a aparecer uns engenheiros da prefeitura, mediam aqui, ali e só diziam que haveria uma obra enorme que mudaria o bairro. São Paulo não podia parar e isso, na época, era sinal de progresso, valorização dos imóveis e crescimento econômico. Nada foi perguntado ou informado aos moradores.

 

Depois dos engenheiros chegaram os trabalhadores e o minhocão começou a subir. E foi rápido. Se me lembro bem, coisa de um ano. Na véspera da inauguração deixaram as bicicletas curiosas subirem sob os olhares surpresos dos adultos.

 

Nossa que obra! Isso sim é um país que cresce!

 

E cresceu, e se tornou um problema para os vizinhos que moravam em frente e que aos poucos foram se mudando. A rua foi se deteriorando, meu pai foi transferido para uma cidade do interior e nós também partimos.

 

A vida me trouxe para morar na Rua Albuquerque Lins de novo, agora entre a Alameda Barros e a Rua Baronesa de Itú e daqui observo agora o destino que se quer dar ao elevado Presidente Costa e Silva.

 

Do meu modesto ponto de vista, ele deve ser demolido e o seu entorno recuperado. O sol deve voltar a iluminar a praça Marechal para que as crianças possam voltar a andar de bicicleta.
 

 

Deborah Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar a sua história da nossa cidade, escrevendo para milton@cbn.com.br

Venha declarar sua paixão por São Paulo, neste sábado, na CBN

 

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Se você é apaixonado por São Paulo já está convidado a participar do programa CBN SP – especial, em homenagem aos 461 anos da cidade, que será apresentado, neste sábado, dia 24 de janeiro, a partir das 10 da manhã, no Pateo do Collegio. O Thiago Barbosa e eu estaremos recebendo convidados da área cultural, artística, esportiva e ambiental que falarão sobre suas experiências na capital paulista e as ações que desenvolvem para ajudar a cidade a crescer e melhorar a qualidade de vida.

 

Os ouvintes também terão espaço para declarar seu amor pela cidade. Desde às 9n horas da manhã, a CBN terá locais abertos para que o cidadão paulistano grave uma mensagem para São Paulo. Esses depoimentos serão publicados no site da rádio CBN para você compartilhar com os seus amigos nas redes sociais.

 

Participarão das conversas no palco central, do Pateo do Collegio, Andre Sturm, diretor do Museu da Imagem e do Som e responsável pela reabertura do Cine Belas Artes; Eduardo Kobra, artista plástico, criador de vários painéis de grafite da cidade, alguns representando uma São Paulo do início do século XX; Stela Goldenstein, ambientalista, diretora da ONG Águas Claras do Rio Pinheiros; e os comentaristas da CBN Juca Kfouri e Gilberto Dimenstein. Durante todo o programa vamos ouvir a música de Negra Li que estará ao vivo também declarando a sua paixão por São Paulo.

 

Ouça aqui a chamada para a festa da CBN:

 

Conte Sua História de São Paulo – 461 anos: meus passeios na Galeria do Rock e o cheiro do churrasquinho grego

 


Por Rogério Loro

 


 


Quando meus pais disseram que mudaríamos para a cidade de São Paulo, eu sabia que muita coisa seria diferente na minha vida. Imagina o que seria para um garoto de 14 anos que nasceu e viveu em uma cidade do interior, se mudar para a capital.

 


Nossa nova casa ficava em uma rua sem saída no bairro da Vila Formosa, bairro que tratei logo de explorar com minha bicicleta. Pedalando em meio ao trânsito local, pude conhecer lugares como o Mercado Municipal, o CERET, a Praça Sampaio Vidal e a Praça Silvio Romero.

 


Fui estudar na escola SENAI na Rua Anhaia no bairro do Bom Retiro e para chegar até lá utilizava o Metrô saindo da Estação Tatuapé, passando pela Sé até a Luz, mas na volta dava preferência ao trem que saia da Estação Brás, pois ele era mais barato que o Metrô e o dinheiro economizado, eu juntava com o que meu pai me dava, para comprar meus discos e camisetas na Galeria do Rock no centro, lugar que conheci com meus amigos de escola.

 


O centro de São Paulo era um paraíso para nós, lá ficavam além da Galeria, a maioria dos cinemas, lojas de troca de discos e livros e componentes eletrônicos. Ruas como a Barão de Itapetininga, 7 de Abril, Santa Ifigênia e a Praça da República, faziam parte do nosso roteiro particular em busca de novidades e claro, dos inesquecíveis carrinhos de Churrasco Grego com suco grátis, que alimentavam toda a molecada com um precinho bem camarada. As recomendações de meus pais eram sempre as mesmas: “-Tome cuidado nas ruas, pois é muito perigoso andar pela cidade e não fique comendo bobagens por aí”. Ah, nossos pais sempre exageram, a cidade nem era tão perigosa e os lanches e as esfihas da Rua Mauá nem eram tão porcaria assim. No Vale do Anhangabaú, eu e meu pai pegávamos os ônibus da CMTC em direção ao Morumbi para assistirmos aos clássicos do Timão, ou quando os jogos eram no Pacaembú íamos caminhando da Praça Marechal Deodoro até o estádio, e sempre tive a impressão que as caminhadas eram sempre mais curtas do que nossas conversas.

 


Passei minha adolescência e me tornei um adulto, casei e constitui família sempre aproveitando todas as inúmeras oportunidades que a cidade oferece, cheguei a retornar para Jundiaí minha são cidade natal, mas acabei voltando para São Paulo atraído pelas inevitáveis oportunidades profissionais que ela oferece.

 


Hoje sigo minha vida ainda pedalando pela cidade, em meio a um trânsito muito pior do que na década de 80, a Galeria do Rock hoje parece ter muito mais jovens fantasiados de roqueiros do que aquela molecada da época com correntes de xaxim das samambaias da mãe penduradas no cós da calça, o centro da cidade me parece mesmo perigoso como os meus pais diziam, para ir aos jogos do Corinthians não preciso mais ir ao Vale do Anhangabaú, apenas caminho até o Itaquerão que fica próximo da minha casa, agora sem a companhia e as conversas com meu pai. Os lanches de Churrasco Grego?

 


Alguns ainda estão pelo centro da cidade, me falta agora coragem para comê-los.

 


Rogério Loro é personagem do Conte Sua Historia de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história da nossa cidade, escreva para milton@cbn.com.br