Conte Sua História de São Paulo: amor à primeira viagem

Roseanne Decanini

Ouvinte da CBN

Foto de Sergio Souza on Pexels.com

Meu amor por São Paulo começou cedo, quando eu tinha apenas seis anos de idade. Foi naquela primeira viagem, ao lado da minha mãe, que a cidade me conquistou para sempre. Viajávamos de trem, em vagão-leito, privilégio de filha de ferroviário. Foram doze horas de expectativa até chegar à Estação da Luz — um cenário que até hoje mora na minha memória.

Ficamos hospedadas no apartamento dos meus tios, em Pinheiros. Enquanto minha mãe ia ao hospital visitar meu irmão, que estava internado devido a um tumor na cabeça, eu permanecia no apartamento, encantada, observando a cidade pela janela do quarto. 

Via a movimentação da rua, os troleibus passando, as pessoas indo e vindo, a garoa fina caindo… Tudo aquilo era moderno, vibrante, fascinante para uma criança do interior. Naquele momento, pensei: “Gostaria de morar aqui.”

Achava lindas as mulheres sempre bem arrumadas, os homens elegantes, as pizzas deliciosas que comíamos. Mas, como tudo na vida, aquela temporada chegou ao fim e voltamos para Assis, minha cidade natal.

Anos depois, quando minha irmã se formou em Enfermagem, ela me convidou para ir com ela para São Paulo, onde haveria mais oportunidades. Não pensei duas vezes. Embarquei novamente rumo à cidade que já morava no meu coração.

E São Paulo me abraçou. Foi ali que cresci de verdade como pessoa. De uma caipira do interior, tornei-me uma paulistana antenada. Tive boas oportunidades de trabalho, estudei, me formei, amadureci. Trabalhei no centro de São Paulo, em banco, e morava próxima à Marechal Deodoro, perto do Minhocão e da antiga sede da Rede Globo.

Vivi intensamente a cidade: ia ao Mappin admirar vitrines e promoções, conheci o Museu do Ipiranga, caminhei pelo Largo São Bento, frequentei o Shopping Ibirapuera, fui ao cinema — ah, que delícia ir ao cinema! — ao teatro, às pizzarias, andei pela Avenida Paulista, onde também trabalhei, e aproveitei o Parque do Ibirapuera.

São Paulo é isso: cultura, movimento, oportunidades, acolhimento. É uma metrópole linda, pulsante, que transforma e impulsiona quem nela vive. São Paulo é, sem dúvida, a cidade do meu coração. E a quem fala mal dela, só lamento. Gostaria que nossos políticos tivessem o mesmo olhar carinhoso que nós, paulistanos de alma, temos por ela, e a tratassem tão bem quanto ela nos trata e acolhe.

Uma cidade que não apenas se visita — se vive, se ama e se leva para sempre na alma.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo


Roseanne Decanini é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: olhares para a cidade

Silvana Menezes

Ouvinte da CBN

Metrópole nacional

Trilhar São Paulo,

a capital nacional do Brasil,

é ter um olhar múltiplo

Ora você observa lindos museus

palco de exposições,

Grafites do mestre kobra

O vai e vem da massa humana

O frenesi nas avenidas

O contraste do urbano chique com o urbano miserável

O olhar vê a realidade de cada esquina, com os humanos nas ruas,

com suas tralhas e coisas que carregam para todo canto, no espaço público: suas casas.

O símbolo da miséria nas ruas da metrópole.

Mudando o rumo do olhar

olhando para cima

A arte de rua em grafites que estampam mensagens

Os arranha céus esplêndidos da avenida Paulista,

O extravagante Copan de Nyemeyer

O Terraço Itália tocando o céu da metrópole

O olhar do ritmo capta o fluxo de pessoas indo e vindo,

intenso e pulsante dos trens que partem da Estação da Luz,

dos metrôs que cruzam a cidade,

da intensa movimentação da Paulista

Imagine, então, mais de 11 milhões de habitantes, numa cidade que encanta, canta, segrega, pouco dorme, faz negócios, lidera em áreas como a saúde e a pesquisa, faz eventos culturais.

Olhando essa mesma cidade lá do alto, 45º andar, do Terraço Itália, o olhar fica extasiado, da imensidão das construções, muros, pontes, edifícios, casas, aeroporto, parques, viadutos e do ponto mais alto: o Pico do Jaraguá.

Lá de cima, tudo é silêncio e contemplação. Assim, olhar São Paulo é ter a oportunidade de vivenciar o urbano com suas mazelas e suas grandezas alegóricas. Em São Paulo, o seu nome pode ser solidão, liberdade, alegria, riscos, violência, autenticidade e cada indivíduo pode ter a sua própria verdade.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Silvana Menezes Calixto, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você, também, o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Não lugar: entre a exclusão subjetiva e a dor social

Por Ciro Férrer Herbster Albuquerque

Mulher idosa e pedestre
Imagem criada com IA

O termo “não lugar” designa espaços nos quais não predominam relações duradouras de identidade, memória e pertencimento. Em contraste com o lugar antropológico, constituído por relações sociais, acontecimentos históricos e referências compartilhadas, o não lugar caracteriza-se pela circulação, pelo trânsito e por interações predominantemente impessoais e temporárias. A expressão foi utilizada pelo antropólogo francês Marc Augé pela primeira vez em 1992, em seu livro Não lugares.

Aeroportos, autoestradas, hotéis, centros comerciais e determinados espaços de consumo são exemplos dessa condição. O não lugar, entretanto, não constitui uma categoria absoluta. Um mesmo espaço pode ser lugar para algumas pessoas e não lugar para outras, dependendo dos vínculos, significados e experiências que nele se estabelecem.

Essa compreensão desloca o olhar das características exclusivamente físicas do ambiente para as relações que se constroem entre pessoas, espaços e coletividades. As transformações decorrentes da globalização modificaram os modos de circular, permanecer e interagir, produzindo ambientes nos quais o indivíduo é frequentemente reconhecido por funções, códigos, documentos, contratos ou práticas de consumo.

Neles, é possível estar fisicamente presente sem, necessariamente, estabelecer vínculos de pertencimento, reconhecimento ou continuidade.

O envelhecimento passa a transformar a relação cotidiana com o espaço à medida que a mobilidade, a percepção, a autonomia, os ritmos de deslocamento e as possibilidades de participação social se modificam. Apesar disso, grande parte das cidades ainda é organizada a partir de referências associadas a um corpo considerado padrão: autônomo, produtivo, veloz e fisicamente capaz.

A partir do momento em que o ambiente não considera a diversidade dos corpos e de seus modos de experienciar a cidade, as barreiras deixam de ser exclusivamente físicas e passam a alcançar dimensões simbólicas, afetivas e sociais.



É nesse contexto que o não lugar pode ser compreendido também como uma experiência de não pertencimento. Uma calçada que dificulta a circulação, uma praça que não oferece condições adequadas de permanência, um transporte público pouco acessível ou um equipamento que desconsidera diferentes necessidades corporais podem transmitir, ainda que silenciosamente, que aquele espaço não foi pensado para determinado corpo.

A pessoa está presente, mas encontra dificuldades para reconhecer o ambiente como parte de sua experiência cotidiana e, sobretudo, para sentir-se reconhecida por ele.

Tal experiência torna-se significativa quando relacionada à solidão e ao isolamento social na velhice. A Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente 1 em cada 10 pessoas idosas vivencie solidão, enquanto 1 em cada 4 esteja socialmente isolada. Embora os conceitos não sejam equivalentes — a solidão corresponde à experiência subjetiva de insuficiência ou ausência de conexões significativas, enquanto o isolamento social se refere à reduzida frequência ou quantidade de relações e contatos sociais —, ambos podem ser agravados por condições que restringem a mobilidade, a convivência e a participação na vida coletiva.

É nesse ponto que a noção de dor social, discutida pela neurociência afetiva, amplia a compreensão dessa experiência. A dor social refere-se ao sofrimento associado à rejeição, à exclusão, à perda ou à ruptura de vínculos. Estudos baseados em evidências indicam que experiências dessa natureza envolvem circuitos relacionados ao processamento do sofrimento e da dor, incluindo regiões como o córtex cingulado anterior e a ínsula.

Contudo, isso não significa que a dor social e a dor física sejam neurologicamente equivalentes. Pesquisas posteriores demonstram que essa relação é mais complexa, embora sustentem a existência de mecanismos neurobiológicos associados ao sofrimento produzido pela desconexão social.

Sob essa perspectiva, o isolamento não pode ser compreendido apenas como ausência de companhia. Ele pode representar uma experiência prolongada de redução das oportunidades de encontro, participação e construção de vínculos.

A permanência dessas restrições pode repercutir sobre a qualidade de vida. Ambientes que reduzem a autonomia, dificultam a orientação, produzem insegurança ou limitam as oportunidades de convivência favorecem estados de tensão e vigilância. Quando essas condições se articulam à solidão, ao isolamento social e à perda de autonomia, contribuem para a manutenção de estressores ambientais e sociais, com repercussões sobre o bem-estar físico, psicológico e cognitivo.

O estresse, nesse sentido, não deve ser compreendido apenas como uma resposta individual, mas como fenômeno produzido na interação entre corpo, ambiente e contexto social.

Em oposição a essa experiência, o lugar pressupõe a possibilidade de estabelecer vínculos, reconhecer referências e construir relações de continuidade com a própria história. Para a pessoa que envelhece, isso significa poder circular, permanecer, descansar, encontrar outras pessoas, recordar, participar e sentir-se parte da vida cotidiana. Bancos, percursos legíveis, iluminação adequada, vegetação, referências visuais, diversidade de usos e espaços de convivência podem contribuir para essa experiência quando concebidos a partir das necessidades e dos modos de uso das pessoas.

A relação entre lugar, não lugar, dor social e corpo envelhecente evidencia que a qualidade de vida também se constitui nas relações entre pessoas e espaços. Pertencimento não significa apenas estar fisicamente presente, mas poder reconhecer-se no ambiente e ser reconhecido por ele.

Projetar para o envelhecimento, portanto, ultrapassa a eliminação de barreiras arquitetônicas. Implica criar condições espaciais para que diferentes corpos possam circular, permanecer, se encontrar, participar e estabelecer vínculos.

O desafio consiste, assim, em compreender a arquitetura e a cidade como estruturas relacionais.

Ciro Férrer Herbster Albuquerque é mestre em Arquitetura, Urbanismo e Design pela Universidade Federal do Ceará, especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e coordenador da Comissão de Normatização, Fiscalização e Cadastro no Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa em Fortaleza, Ceará. Ciro escreve a convite do Blog do Mílton Jung

Dez Por Cento Mais: Ciro Férrer explica como arquitetura pode favorecer um envelhecimento com mais autonomia

“A casa pode tanto prejudicar quanto auxiliar nesse processo que é da longevidade qualitativa e digna.”

O Brasil envelhece rapidamente, mas casas e cidades ainda são projetadas, em grande parte, sem considerar as mudanças físicas, cognitivas e emocionais que acompanham o passar dos anos. Pequenas adaptações nos ambientes podem reduzir riscos, preservar a independência e melhorar a qualidade de vida. Esse foi o tema da entrevista de Ciro Férrer, arquiteto, urbanista, especialista em gerontologia, neurociência e neuroarquitetura ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Ao longo da conversa, Ciro desmontou a ideia de quem vê a arquitetura apenas pelo viés da estética. Segundo ele, a forma como uma casa é organizada influencia diretamente o comportamento, a saúde e a autonomia das pessoas, especialmente durante o envelhecimento.

O interesse de Ciro pelo tema nasceu de uma experiência pessoal. Durante a graduação em Arquitetura, ele acompanhou a mudança radical na vida da avó após uma queda dentro de casa. Até então independente, ela passou a enfrentar limitações impostas pelo próprio ambiente onde sempre viveu.

“A casa passou a dominá-la”, resume.

A experiência revelou obstáculos que costumam passar despercebidos: portas estreitas para cadeiras de rodas, banheiros com circulação limitada, pisos escorregadios e mobiliário que dificulta os movimentos. Ao mesmo tempo, ele percebeu que sua formação acadêmica pouco abordava a relação entre envelhecimento e ambiente construído.

Leia, também, os artigos de Ciro Férrer no Blog do Mílton Jung

Adaptações simples fazem diferença

Durante a entrevista, Ciro destacou que muitas melhorias podem ser feitas sem grandes reformas. Entre elas estão a instalação de fitas antiderrapantes em pisos lisos, proteção para quinas de móveis, reorganização da circulação da casa e escolha de cadeiras com braços, altura adequada e apoio para as costas.

Ele também alertou que cada adaptação deve respeitar os hábitos e a história de quem mora no local.

“Não adianta a gente pegar a norma. Cada pessoa é única e a casa dela tem que ser única.”

Por isso, antes de definir onde instalar barras de apoio ou alterar a disposição dos móveis, ele observa como a pessoa realiza atividades do cotidiano, como tomar banho, preparar um café ou levantar-se do vaso sanitário.

Outro ponto enfatizado por Ciro é que a casa guarda lembranças, afetos e referências que ajudam na orientação espacial, especialmente para pessoas com comprometimento cognitivo. Ao comentar o hábito de retirar tapetes de residências de pessoas idosas, ele defendeu uma análise individual de cada caso.

“Esse tapete é importante para você? Tem sentido para você? Tem? Vamos manter.”

Quando o objeto representa um risco, a solução nem sempre é descartá-lo. Segundo ele, o tapete pode ganhar uma nova função, como peça decorativa na parede ou sobre um móvel, preservando seu valor afetivo.

A iluminação tem um capítulo especial nesta conversa, seja pela visibilidade do espaço seha porque influencia o nosso cérebro.

Ciro explicou que o organismo humano continua regulado pelo ciclo natural entre claro e escuro. A exposição à luz pela manhã ajuda a sincronizar o ritmo biológico, melhora o estado de alerta e favorece funções como memória, atenção e planejamento. Já durante a noite, a recomendação é reduzir a intensidade da iluminação e evitar luzes fortes diretamente nos olhos.

Como alternativa, ele sugeriu o uso de luzes de vigília próximas ao piso, instaladas entre o quarto e o banheiro. Dessa forma, a pessoa consegue caminhar com segurança sem comprometer o ciclo do sono.

Cidades também precisam envelhecer

Para Ciro Férrer, pensar apenas na casa não é suficiente. O envelhecimento depende também da qualidade dos espaços públicos. Ele afirmou que muitas cidades brasileiras continuam priorizando o deslocamento por automóveis, enquanto calçadas irregulares, falta de acessibilidade e insegurança limitam a circulação das pessoas.

“O desenho da cidade não pode se limitar ao concreto.”

Integrante do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa de Fortaleza, ele defendeu maior investimento em políticas públicas voltadas ao envelhecimento e lembrou que acessibilidade envolve muito mais do que rampas e barras de apoio. Inclui comunicação, atendimento respeitoso, sinalização adequada e condições para que as pessoas exerçam plenamente sua cidadania.

Ao citar uma pesquisa realizada durante seu mestrado, Ciro observou que muitas pessoas idosas convivem com o medo de cair, mas continuam frequentando praças e espaços públicos porque esses locais representam convivência, pertencimento e qualidade de vida.

Ciro reforçou que o envelhecimento não deve ser tratado como responsabilidade exclusiva de profissionais da saúde ou da arquitetura.

“Todos somos seres envelhecentes e todos queremos ser cuidados e acolhidos de maneira independente e autônoma.”

Para ele, construir ambientes mais seguros e cidades mais inclusivas significa criar condições para que as pessoas possam envelhecer com autonomia, dignidade e participação na vida em comunidade.

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Conte Sua História de São Paulo: um amor que nasceu à distância e nas ondas do rádio

Neusa Prata Vieira

Ouvinte da CBN

Nos idos de 1960 e 1963, meu pai, caminhoneiro, começou a transportar pedras para São Paulo, a nossa Capital, que tanto eu ansiava conhecer. À distância, eu já amava esta cidade, a minha Capital, mesmo sem a conhecer.

E o que tudo dela eu ouvi era transmitido pela rádio Bandeirantes, na rua Paula Souza, número 181. Todas as notícias do mundo e as narrações dos jogos de futebol.

Um belo dia, sem saber qual, fui para o batismo: São Paulo à vista! Ah! Que expectativa! Não cabia dentro de mim tamanhas a satisfação e a felicidade. Ao entrar na cidade, com tantos veículos por ruas e avenidas que não tinham fim, com uma incontável quantidade de prédios que nunca acabavam, fiquei fascinada, deslumbrada!

Fui tomada por um bem-estar imenso que jamais havia experimentado. E tudo isso, dentro de mim, me fortalecia, me empoderava e me completava.

Lembro-me tanto da emoção de estar pisando naquelas poucas ruas por onde caminhei … caminhei? Não, eu flutuei! Queria delas saber os nomes. Não encontrei uma só placa para guardar na memória.

Os policiais vestidos a rigor no centro dos cruzamentos das avenidas. Ficavam em cabines de madeira abertas, com seus apitos para comandar um trânsito, a meus olhos, assustador.

Achei lindo tudo aquilo. Que me transportava para um clima de festa, como se eu estivesse num parque de diversão.

Retornei de lá até triste porque queria que viesse comigo toda aquela gostosa intimidade que com ela mantive, naquele único dia que lá passei. Mas o que de emoção senti e guardei dessa inusitada viagem foi muito forte e surpreendente para mim mesma. 

Em 1976, fiz um concurso público para o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e, a partir de então e durante 27 anos, prestei serviços no Fórum de São Carlos, onde já me aposentei.

Veja só como São Paulo me acolheu! Olha só o presente que me deu!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

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Cidadania mutilada: o desencontro entre o corpo envelhecido e a cidade contemporânea

Por Ciro Férrer Herbster Albuquerque

Foto: Georgy Druzhinin

A experiência cotidiana da pessoa idosa na cidade revela que o exercício da cidadania ultrapassa a garantia formal de direitos e depende, sobretudo, das condições concretas de apropriação do espaço urbano. 

Nessa perspectiva, a noção de cidadania mutilada, desenvolvida por Milton Santos, evidencia que parcela significativa da população não vivencia plenamente os direitos assegurados pela legislação, em razão das desigualdades produzidas pela organização do território. 

A cidade, longe de constituir um espaço neutro, expressa relações de poder que distribuem oportunidades, recursos e barreiras de maneira desigual, condicionando as possibilidades de inserção social de seus habitantes.

No envelhecimento, essas limitações tornam-se ainda mais evidentes.As transformações fisiológicas, sensoriais e cognitivas próprias dessa etapa da vida ampliam a dependência em relação às características do ambiente construído. 

A população idosa, que em 2025 representava 16,6% do total de brasileiros, estabelece uma relação distinta com a cidade, exigindo maior previsibilidade espacial, segurança, acessibilidade e conforto para realizar as atividades do dia a dia com autonomia. Quando esses requisitos não são atendidos, o ambiente urbano deixa de promover inclusão e passa a atuar como um agente de exclusão.

Essa realidade manifesta-se em ações aparentemente simples, como caminhar até uma padaria, uma farmácia ou uma praça. Calçadas irregulares, percursos interrompidos, obstáculos físicos, travessias inseguras, iluminação insuficiente, mobiliário inadequado e a ausência de locais para descanso transformam deslocamentos curtos em experiências marcadas pelo esforço físico, pela insegurança e pelo medo de quedas.

O espaço que deveria favorecer o encontro, a convivência e a vida cotidiana, converte-se em um ambiente de constante negociação entre as capacidades individuais e as barreiras impostas pela cidade.

O transporte coletivo amplia essa condição de vulnerabilidade. Longas distâncias até os pontos de embarque, veículos superlotados, intervalos prolongados, dificuldade para subir e descer nos ônibus, falta de assentos disponíveis e viagens desconfortáveis comprometem não apenas a mobilidade, mas também a saúde física e emocional da população idosa. O tempo excessivo dedicado aos deslocamentos reduz as oportunidades de participação social, limita o acesso à cultura e ao lazer e dificulta a manutenção de vínculos comunitários.  Nesse contexto, o direito à cidade deixa de ser apenas uma questão de circulação e passa a significar a possibilidade concreta de permanecer, usufruir e participar da vida coletiva.

Sob essa perspectiva, a cidadania mutilada não decorre exclusivamente da ausência de direitos formais, mas da incapacidade da cidade de proporcionar condições efetivas para seu exercício. O ambiente urbano atua como mediador entre o indivíduo e suas possibilidades de participação social, podendo ampliar ou restringir autonomia, capacidades e bem-estar. A distribuição desigual da infraestrutura, dos serviços públicos e das oportunidades produz diferentes experiências de envelhecimento, determinadas não apenas pelas características biológicas de cada pessoa, mas também pelas relações de poder materializadas no território.

No caso da pessoa idosa, a experiência corporal evidencia essas assimetrias de forma particularmente intensa. O corpo envelhecido torna perceptíveis obstáculos frequentemente invisíveis para outros grupos populacionais, revelando que acessibilidade, segurança, proximidade dos serviços, qualidade dos espaços públicos e mobilidade representam condições indispensáveis para o exercício da cidadania. 

Promover cidades mais inclusivas significa, portanto, superar a cidadania mutilada por meio de uma organização territorial que reconheça a diversidade das capacidades humanas e assegure que o direito à cidade possa ser efetivamente vivenciado ao longo de todo o curso da vida.

Ciro Férrer Herbster Albuquerque é mestre em Arquitetura, Urbanismo e Design pela Universidade Federal do Ceará, especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e coordenador da Comissão de Normatização, Fiscalização e Cadastro no Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa em Fortaleza, Ceará. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Conte Sua História de São Paulo: a paixão por trás das câmeras

Neomar Leite Da Silva

Ouvinte da CBN

Foto de Bruno Massao on Pexels.com

Sou um jovem de 46 anos, casado com Silvana, dois filhos, Júlia e Felipe Noé. Comecei  a trabalhar muito cedo. Tinha 16 anos. Foi na rádio e TV Bandeirantes, como mensageiro, entregando correspondências internas para grandes nomes do rádio: José Paulo de Andrade, Mano Véio e Mano Novo …

Logo no início da minha carreira, perdi meu pai, que era a minha maior referência. Noe leite da Silva era um grande homem, honesto, digno e de enorme coração. 

Somos em cinco filhos: Noelmo, Nelson, Simone, Silvana e eu, Neomar. Minha mãe, dona Maria, criou a gente com todo amor. 

Aos 20 anos fui trabalhar no Shop Tour como assistente de câmera. Fiquei totalmente apaixonado pela profissão. Logo virei operador de câmera e corri atrás dos meus documentos para tirar o meu DRT. 

Curiosamente, falava sempre para o meu irmão Nelson, que me dava carona todos os dias para o trabalho, ao passar em frente a sede da TV Globo, ali na Marginal Pinheiros, que eu ainda trabalharia lá.

Sonho realizado em 2006, contratado como técnico de sistemas. Na Globo permanecei até 2023, quando fui contratado pelo SBT. É lá que trabalho atualmente. No próximo dia 1º de abril, completarei 30 anos de carreira. Sou apaixonado pela profissão. E agradeço a São Paulo pelas oportunidades que me ofereceu.

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Neomar Leite é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também um personagem da nossa cidade:  envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conheça o Orçamentômetro e saiba para onde vai o seu dinheiro em São Paulo

Foto de Jean depocas on Pexels.com

Você sabe quanto do dinheiro prometido para o seu bairro realmente foi gasto ou investido?

Em São Paulo, essa resposta está ao alcance de qualquer cidadão. O Orçamentômetro permite consultar, a partir do CEP, o orçamento da subprefeitura responsável pela sua região e acompanhar três informações centrais: quanto foi previsto, quanto foi ajustado ao longo do ano e quanto, de fato, já foi executado.

É um caminho direto para acompanhar serviços que interferem na vida cotidiana, como operação tapa-buraco, iluminação pública, manutenção de ruas e zeladoria urbana. O tipo de ação que não aparece em grandes anúncios, mas faz diferença na rotina de quem vive a cidade.

O projeto foi criado pela Agência Mural, com apoio do Pulitzer Center, “para ajudar moradores a acompanharem se o que foi prometido durante o ano foi cumprido em cada uma das subprefeituras de São Paulo e também nas secretarias municipais”. Os dados são oficiais, extraídos do portal da Prefeitura de São Paulo e atualizados diariamente. Eles ajudam a transformar números abstratos em elementos concretos de acompanhamento e cobrança. A ferramenta não avalia a qualidade do gasto. Mostra algo mais básico e igualmente relevante: se o dinheiro saiu do papel.

Acompanhar o orçamento da subprefeitura é acompanhar o trabalho que chega — ou não — à porta de casa.

São Paulo tem 32 subprefeituras. De acordo com os dados mais recentes do Orçamentômetro, sete delas executaram mais de 100% do orçamento inicialmente previsto. Oito delas chegaram a pelo menos 90% de execução.

No outro extremo, quatro subprefeituras não conseguiram investir nem 70% do que estava planejado: Sapopemba, Campo Limpo, São Mateus e Perus. No caso de Perus, a execução ficou em apenas 43% do orçamento previsto.

Quando o leitor entra nos detalhes, os números ganham ainda mais significado. Não houve execução de recursos em áreas como reforma e acessibilidade em passeios públicos, operação tapa-buraco, atividades culturais, desenvolvimento de espaços participativos e manutenção da Operação Descomplica.

Em um dos principais eixos de investimento local — Intervenção, Urbanização e Melhoria de Bairros, que concentra o plano de obras das subprefeituras — a execução em Perus ficou em apenas 11%.

O Orçamentômetro oferece mais do que respostas prontas. Ele entrega dados bem organizados que ampliam a capacidade de acompanhamento, fiscalização e participação do cidadão na gestão da cidade.

Conte Sua História de São Paulo: a lista telefônica que me ensinou para onde ir

Luiz Serenini Prado

Ouvinte da CBN

Orelhão por Ednei Lopes
Orelhão em São Paulo. Foto de Ednei Lopes/Flickr CBN SP

Quem apostaria em um jornalista recém-formado, mineirinho de Poço Fundo, diante de um desafio que não caberia nem nos seus melhores sonhos? De repente, lá estava eu, em um dos espigões da antiga Faria Lima, dentro de um escritório executivo todo envidraçado da Editora Abril. Não como jornalista — que, afinal, nunca fui —, mas como o publicitário que me tornei, por essas linhas tortas com que dizem que Deus escreve certo.

Quase por acidente, eu representava um grupo empresarial de Uberlândia que, em parceria com a Abril, disputava, lá pelos idos de 1985, uma concorrência acirrada para a impressão das listas telefônicas de São Paulo. Coisa grande — literalmente. Do outro lado, nada menos que o grupo Estadão.

Munido de um slogan escrito despretensiosamente apenas para orientar minha defesa estratégica diante de um grupo de americanos da Nynex — a maior impressora de listas telefônicas de Nova York —, ouvi o tradutor repetir a minha frase em inglês:

“Now you know where to go!”

Soou perfeita. Melhor, inclusive, do que a minha versão em português: 

“Agora você sabe onde ir.”

Os americanos, smart como são, perceberam o mesmo que eu e reagiram à sua maneira: “Ohhhh!”, “Good!”, e por aí afora.

As listas não saíram. Na verdade, poucos anos depois, desapareceram de vez. Mas ficou a experiência. O batismo de fogo do publicitário — quase jornalista — em uma daquelas oportunidades que só São Paulo costuma oferecer: aquelas que a gente não planeja, mas que mudam o rumo da nossa história.

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Luiz Serenini Prado  é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: fiz concurso para a Light

Francisco J. Camilo Hernandes 

Ouvinte da CBN

sao paulo downtown
À direita, o Shopping Light no Centro de São Paulo. Foto Fernando Stankuns

Era o começo dos anos 1970. Eu com 14 anos estudava pela manhã, na quarta série ginasial, no colégio Augusto Meirelles, no bairro do Imirim, na zona norte. Estava na casa do meu primo Jonas, filho da tia Joana, irmã mais nova da minha mãe Tereza. O Jonas me disse que participaria de um concurso na Light. 

Eu já havia trabalho nas férias escolares. No início de 1971, na padaria do Seu Lucas cortando pão de forma e na CID Ferreira Comissária de Despachos, como office boy.

Fiz a inscrição no concurso da Light e como eu era um bom aluno passei com facilidade. Meu primo não conseguiu e isso definiu a minha carreira profissional e a dele, também.

No fim daquele ano eu já tinha fechado as notas em todas as matérias. Então, enquanto esperava ser chamado pela Light, fui trabalhar como office-boy na Construtora e Imobiliária Lutfalla da família Maluf, na Praça da Sé. Foi lá que conheci a transferência de documento contábil através da impressão com gelatina.  

Logo que 1972 se iniciou, chegou a convocação para assumir o meu cargo de aprendiz de caixa na Light. Ganhava um salário mínimo, tinha duas horas de almoço e a alimentação era fornecida pela empresa. Na época, isso não era obrigatório: ou você comia nos restaurantes e lanchonetes ou então levava marmita de casa.

Na Light a nossa seção era a Apuração da Arrecadação. Éramos 60 meninos — não havia mulheres —, todos chefiados por três senhores na faixa dos 50 anos: senhor Esteves, Amadeu e Pereira. Cada um com uns 30 anos de empresa.

Os rapazes éramos divididos em dez grupos de quatro pessoas cada um. Cada grupo representava uma zona de 1 a 10 que eram as regiões de São Paulo. O nosso serviço era colocar as contas de luz que os bancos haviam recebido no dia anterior em ordem numérica. Após os lotes de contas terem sido organizados, aos demais 20 garotos cabia fazer a soma final, conferindo os valores enviados pelos bancos. 

Depois de três anos sai dessa seção para atuar como eletrotécnico na própria Light, pois havia me formado na escola técnica Albert Einstein no bairro da Casa Verde. A curiosidade é que quando deixei a seção estava se iniciando o sistema de leitura ótica das contas de luz.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Francisco Camilo Hernandes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 472 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.