Do pula-pula ao monociclo, um passeio da piada à evolução

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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O sueco Adam Mikkelsen, da cidade de Mamo, profissional disruptivo e colecionador de sucessos, anunciou o lançamento do Pula-Pula como elemento de mobilidade urbana. E alertou que não era piada.

 

Não pegou!

 

No Hora de Expediente, da CBN, o Pula-Pula analisado como um dos temas e tido como modal, não emplacou e fez com que o episódio radiofônico enveredasse pelo humor, e pelo viés da diversão esportiva.

 

Ouça o quadro Hora de Expediente, que foi ao ar no Jornal da CBN

 
Coincidentemente, dias antes, tínhamos sido convidados a imergir no recente mundo das alternativas urbanas de mobilidade da cidade de São Paulo por um aficionado do setor: Marcio Canzian, ex-publicitário e atual empresário do segmento de equipamentos onde convivem patinetes, bikes e monociclos elétrico-eletrônicos.

 

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A startup disruptiva do Marcio, na Vila Olímpia SP, corresponde ao clima urbano e contemporâneo esperado na arquitetura, no visual merchandising e no atendimento, mas contrasta até certo ponto com a expectativa do perfil do cliente. Na medida em que não são os millennials que preenchem plenamente seus espaços.

 

Uma análise do portfólio de produtos da ELETRICZ dá a pista na medida em que os patinetes elétricos e as bikes são os produtos padrão, mas a estrela máxima da loja é o monociclo elétrico, para o qual parte do público é mais maduro. Provavelmente o mesmo da turma do Hora de Expediente.

 

Para Canzian, cujo “mindset” está focado na facilidade de locomoção e na melhoria do meio ambiente, a aposta é nos micros modais, mas como carro-chefe de seu negócio o monociclo tem a principal atenção na evolução do produto, na produção e na comercialização. Daí a constância de viagens à China, terra de seu fornecedor e desenvolvedor, onde como piloto atento municia a evolução deste processo.

 

Por esta única roda do monociclo, plena de tecnologia, que agora faz parte da extensão de seu corpo, largou as quatro rodas de uma super BMW, uma agência de propaganda e se dedica ao futuro através de veículos que possam trazer mais conforto e prazer.

 

Hoje, está buscando local no Rio para instalar a segunda loja, nos moldes da Vila Olímpia — com exposição e pista para aprendizado. Ao mesmo tempo se prepara para estruturar um sistema de franquia na busca de outros apaixonados pela mobilidade urbana e com o necessário espírito empreendedor.

 

Vale a pena visitar o site da Eletricz, depois ir até a loja e dar umas pedaladas nas bikes — e, claro, umas equilibradas nos patinetes e nos monociclos.

 

Carlos Magno Gibrail, Consultor e autor do livro “Arquitetura do Varejo”, é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung

Sua Marca: qual o bairro mais famoso da sua cidade?

 

 

“Quando escolhemos um destino turístico ou quando uma empresa vai sediar os seus negócios, locais do mundo estão competindo pela nossa atenção” —- Cecília Russo

Da mesma forma que países e cidades conseguem criar identidade própria e se destacar a ponto de atraírem a atenção de turistas e empresas, os bairros também têm essa capacidade. O conceito de “place branding”, quando a marca é um território geográfico, foi tema da conversa de Mílton Jung com Jaime Troiano e Cecília Russo, em Sua Marca Vai Ser Um Sucesso.
 

 

“Nem sempre (o place branding) acontece de forma planejada”, lembra Jaime Troiano, mas o importante é que esses espaços assumem determinadas características que se transformam em alavanca de negócios para comerciantes e moradores da região.
 

 

Alguns bairros que ganharam fama e exploram bem este conceito são Copacabana e Ipanema, no Rio de Janeiro, Mooca e Pinheiros, em São Paulo, Cidade Baixa e Moinhos de Vento, em Porto Alegre. As regiões históricas das mais diversas cidades brasileiras também podem se encaixar na ideia de “place branding”, desde que as prefeituras saibam explorar essa identidade. 
 

 

Brincando com as palavras, Cecília Russo diz que tudo pode ser “branded” ou transformado em marca: “as disputas nas grandes cidades abraçam os bairros que buscam a atenção de moradores, visitantes e comerciantes”.
 

 

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55, no Jornal da CBN.

A maior cidade do Brasil ainda depende do cara da chave do almoxarifado

 

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Ao “escorregar” e criar um degrau no meio do caminho dos motoristas de carro, o viaduto de acesso da Marginal Pinheiros à Rodovia Castello Branco, em São Paulo, também deixou à mostra como estamos atrasados na gestão pública. E isso não é coisa desse ou daquele governo. É coisa do Brasil.

 

Um dos exemplos mais evidentes dessa realidade é o fato de o problema ter ocorrido na quinta-feira da semana passada e até agora a prefeitura de São Paulo não ter tido acesso ao projeto original de engenharia, o que facilitaria a análise dos técnicos para identificar a causa do incidente e planejar a recuperação o mais rapidamente possível.

 

Tudo bem, a estrutura foi projetada e construída nos anos de 1970. Faz muito tempo. Vivíamos a era analógica. Tudo no papel e depositado em arquivos públicos nem sempre com organização apropriada.

 

Também deve-se levar em consideração que a obra foi feita em convênio entre a prefeitura de São Paulo e a Fepasa. Ou seja, havia órgãos municipais e estaduais envolvidos. E o diálogo entre autarquias e instâncias diferentes costuma ser precário no País.

 

Alguns registros estavam na secretaria municipal, mas os técnicos não encontraram o memorial de cálculo, que é um dos estudos mais importantes de uma obra.

 

Quem sabe a resposta não estaria nos arquivos do DER – Departamento de Estradas de Rodagem? Liga pra lá.

 

— Quem tem chave?
— O cara do almoxarifado
— Cadê o cara?
— Tá na praia.

(aviso aos nervosinhos: este diálogo é pura imaginação minha)

 

O problema é que tudo aconteceu em meio a um feriado prolongado e o órgão está fechado. E a autoridade não tem autoridade para acessar qualquer uma das salas onde o documento pudesse estar disponível.

 

O secretário de Obras da cidade, Vitor Aly, declarou aos repórteres: “o que acontece é que as vezes a gente consegue o diretor, às vezes você não consegue o cara que tem a chave do almoxarifado”.

 

Caos!

 

Foram, então, atrás dos engenheiros. Walter de Almeida Braga morreu em 2016 e a viúva, que atendeu ao telefone, disse que se desfez do acervo.

 

No último dia do feriadão, encontraram Roberto de Abreu, responsável pela execução da obra. Estava no Guarujá e agora se juntou a equipe de técnicos da prefeitura para ver o que dá pra fazer.

 

Graças a Deus!

 

Por coincidência, no mesmo último dia do feriadão, li na BBC News que policiais da cidade de Nápoles, cidade onde nasceu uma das organizações mafiosas mais perigosas do mundo, a Camorra, usam tecnologia baseada em algoritmo que identifica com algumas horas de antecedência locais onde há maior possibilidade de ocorrência de crimes. Com isso conseguiram aumentar o número de capturas de criminosos.

 

Em um mundo no qual o uso de Big Data, inteligência artificial e algoritmo já é disseminado, São Paulo, a maior cidade brasileira, em lugar de investir esforço e recurso na digitalização de todos os seus documentos — do presente e do passado –, ainda depende da chave do cara do almoxarifado para coisa dar certo.

 

É dose pra mamute!

Conte Sua História de São Paulo: a turma de amigos que se conheceu há 60 anos na cidade

 

Por Antonio Carlos Nogueira
Ouvinte da CBN

 

 

Sou paulista do interior, fiz o ginásio em Avaré e mudei para São Paulo, em julho de 1963, para trabalhar e estudar. Era um sonho morar na capital, essa cidade que sempre admirei. Adorava sair à noite nos fins de semana para apreciar os luminosos na Av. São João, Ipiranga e adjacências.

 

Éramos um grupo de 15 jovens todos de Avaré e mudamos quase ao mesmo tempo para São Paulo. Cada um foi morar em apartamentos e pensões separados mas todos no centro da cidade. Nos fins de semana nos encontrávamos na esquina da Ipiranga com a São João para bater papo e apreciar as garotas que circulavam por ali.

 

Sempre visitávamos os restaurantes Gato que Ri, do Papai, o Ponto Chic, o Bar Brahma, o Moraes, o Salada Paulista e o Café Vienense. Também adorávamos encontrar um bailinho de domingos à tarde e pegar um cineminha à noite.

 

Estudamos, concluímos a faculdade e fomos ganhar a vida. Todos constituíram família, cada um saiu um caminho, mas, acredite, essa amizade que dura pra lá de 60 anos está mais viva do que nunca. Estamos sempre em contato, agora pelo WhatsApp, e, em novembro de 2016, promovemos um encontro de dois dias em São Paulo já que apenas cinco de nós seguem por aqui, o restante mora fora — Rio de Janeiro, Brasília, Fortaleza, Bauru e Avaré.

 

Somos muito gratos e apaixonados por São Paulo que amamos de coração. Neste ano teremos o nosso segundo encontro em setembro, na cidade de Avaré, onde tudo começou. Estão todos confirmados e ao lado de suas esposas. Será o que já estamos chamando de um festa de arromba.

 

Em tempo, somos todos viciados em rádio e sempre que a data de aniversário de São Paulo se aproxima adoramos ouvir a comemoração desta data pela CBN.

 

Antonio Carlos Nogueira, o Toninho, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a interpretação de Mílton Jung. Envie seu texto para milton@cbn.com.br

O patrimônio de Paraty vai além da arquitetura: saiba por quê?

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Paraty concorre agora a Patrimônio da Humanidade, cuja candidatura foi aceita pela UNESCO na categoria de sítio misto, paisagem cultural e natural.

 

Se vencer a eleição datada para 2019, terá seu segundo reconhecimento cultural, pois, em 2017, obteve o título internacional de Cidade Criativa para a Gastronomia.

 

A cidade de Paraty apresenta perfil histórico com múltiplas facetas, através de nuances culturais, econômicas e sociais. Paraty foi o maior porto exportador de ouro no período colonial – 1530 a 1815 – condição que contribuiu para a sua formação urbana e rural.

 

O romance biográfico “Ana em Veneza” de João Silvério Trevisan dá ideia da riqueza cultural da região ao descrever a estada da família alemã de Julia da Silva Bruhns Mann, nascida em Paraty e mãe do escritor Thomas Mann.

 

O patriarca da família Luiz Bruhns, de Lubeck, bem relacionado com D. Pedro II, pelo prazer do imperador em treinar o alemão, estendia sua avançada visão social e cultural a sociedade paratiense. O jantar de despedida em Paraty, quando decidiu voltar para a Alemanha, deixou os ilustres convidados extasiados diante da gastronomia local:

Salada de palmito, salada de lagosta, pimenta cumari, pimenta malagueta, batata doce, arroz ao molho de tomate, feijão preto, angu, moqueca de peixe, galinha ao molho pardo, pernil de porco assado. Compotas de caju, banana e goiaba, melado, baba de moça, manuê de bacia feito de farinha de trigo, melado e ovos, chuvisco, bolinho de massapão, broa de mãe benta, cocada, bala de ovos, pão de ló.

 

Deixou-os, também, assustados com as benesses sociais, pois Bruhns não só alforriou seus escravos como doou suas terras a eles. E alertou a todos que não havia futuro para a escravidão.

 

 

A força da passagem do ouro ficou marcada também na cidade de forma original ao desenhar as construções com o propósito comercial. As edificações tem sempre a função de loja. Ou a loja fica na frente e a residência atrás ou o térreo é para a loja e o sobrado para a família.

 

O longo e duro período de ostracismo da região redundou positivamente em preservar o antigo. Mas não foi fácil para a população. Houve até um momento em que a carência de recursos básicos urbanos como eletricidade e água foi tão grande que surgiu movimento separatista do estado do Rio de Janeiro, buscando guarida em São Paulo. Se de direito não conseguiram, hoje o afluxo de turistas paulistas é compensador à economia de Paraty.

 

Se, caro leitor, visitar Paraty, consulte o extenso calendário turístico e intelectual da cidade. Recomendo também buscar o cardápio que a mãe de Thomas Mann presenciou ainda criança quando da despedida da cidade.

 

Não deixe de incluir o camarão casadinho e a cachaça.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

Barulhos urbanos e o silêncio do sabiá

 

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Os barulhos urbanos podem ser diversos dependendo a região na qual você mora. Aqui perto de casa, tem vizinho barulhento, que ouve rádio mais alto do que necessário. Só não reclamo porque ele ainda ouve rádio. Pior é o outro que educa os filhos aos berros e é correspondido por eles, que respondem até perderem a voz.

 

O de melhor lembrança é o do grito das crianças na escola que fica logo na esquina de casa. Na hora da saída, uma outra melodia se destaca: a medida que os pais chegam, a funcionária chama o nome dos alunos no alto-falante. E esse som vem até aqui e teimo em ouvi-la chamando o nome dos meus dois meninos, que estudaram lá até o fim do ensino médio.

 

O som da Igreja no fim da rua também é marcante. Todas às vezes que, ao meio-dia e às seis da tarde, o sino replica, tenho a impressão que vivo em uma pequena cidade. Gosto, também, de ouvir ao fundo o som da Ave Maria cantada pelos fiéis nos horários da missa.

 

Assustador é o som da sirene do carro fúnebre que insiste em me avisar que a morte está passando. O cemitério, que anda movimentando nos últimos dias, está a algumas quadras daqui e a sirene mais se parece com um lamento interminável.

 

Na madrugada, além do rapaz que mora perto e estaciona o carro ouvindo suas músicas preferidas em alto e bom som, só me incomoda mesmo a chegada das caçambas. Sei lá que tanta obra e reforma fazem meus vizinhos. Mais difícil de entender é como a tecnologia desenvolvida do jeito que está não inventaram caminhões, caçambas e correntes menos barulhentas. O badalar do ferro em outro ferro tira o sono de qualquer um. A consolar apenas o fato que a maioria das entregas ocorre quando já estou praticamente levantando da cama para trabalhar na madrugada.

 

Nenhum barulho, porém, é mais desconfortável do que o da serra elétrica. Nem tanto pela frequência com que o som atinge nossos ouvidos, mas pelo que representa. Sexta passada, minha casa foi invadida por este barulho e logo percebi que era obra de uma equipe contratada para “limpar” o que restava de terreno arborizado na minha rua.

 

Eles chegaram rápido e com a mesma rapidez fizeram as serras soarem nos meus ouvidos. Enquanto isso, levantavam uma placa anunciando que estava em processo uma operação de “manejo de vegetação arbórea” – que, se realizada de verdade, nada mais é do que cortar árvores aqui e plantar outras em sei lá qual lugar.

 

Será que se eu perguntasse, eles me diriam em que endereço poderei respirar o ar puro das árvores que não farão parte mais da minha vizinhança? Onde será que poderia visitar as falecidas?

 

A serra elétrica já parou de gritar nos meus ouvidos, mas assim que se calou percebi, no rastro das árvores derrubadas, que levou junto o canto do sabiá. Daquelas dezenas de sabiás que batiam asa na frente de casa e assoviavam ainda de madrugada em busca de uma namorada.

 

E esse provavelmente será o barulho urbano que me perseguirá para o resto dos tempos na casa em que moro: o silêncio dos sabiás.

Zoneamento: prefeitura propõe desconto de 30% ao mercado imobiliário

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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A Prefeitura está retomando a Lei de Zoneamento que é balizada pelo Plano Diretor com o intuito “oficial” de adequá-la ao momento atual.

 

Ontem foi realizada a primeira das cinco audiências públicas previstas para discutir a proposta da Prefeitura. E, no “Mais São Paulo” da CBN, Américo Sampaio, numa conta simples, exemplificou que se aprovada a proposição da Prefeitura a cidade vai perder R$ 150 milhões anuais, o que em 15 anos dará dois bilhões de reais, suficientes para construir 10 hospitais.

 

Equívocos e contradições afloram nessa posição da Prefeitura de São Paulo. A prematura ação de ajuste em uma lei aprovada há apenas dois anos, a redução da outorga onerosa em 30%, diminuindo a receita em momento de aperto financeiro, a inversão do princípio da transferência de recursos às regiões carentes, não sustentam a convocação da Prefeitura balizada pela atualização à cidade de hoje.

 

A reação de urbanistas e ambientalistas, foi imediata, após a apresentação do vereador Gilberto Natalini na Câmara, no dia sete.

 

O urbanista Ivan Maglio ressaltou que as modificações sugeridas entram nos bairros com permissão de densidades construtivas que os descaracterizarão. E desconstruirão as bases do Plano Diretor.

 

A advogada Renata Esteves ressalta que as ZERs com pressupostos unifamiliares serão desconsideradas.

 

O Professor Cândido Malta ressalta que ao invés de restringir o adensamento aos eixos, a atual proposta amplia ao interior das áreas. Ela irá comer as ZERs pelas bordas.

 

Sergio Reze, Conselheiro Municipal de Politica Urbana, nos relatou a grande preocupação e estranhamento que essa medida tem gerado em todos os especialistas. Pois, diferentemente do que se apresentam, as propostas atingem não só a Lei de Zoneamento como também os pilares do Plano Diretor, com o específico objetivo de beneficiar e intensificar as operações imobiliárias. Como se a arrecadação pudesse entrar num processo de liquidação de produtos.

 

Depois de quatro anos de exaustivos debates na revisão do Plano Diretor, caberia uma análise, por exemplo, da capacidade de suporte do sistema viário e das condições ambientais aprovadas, ao invés de modificar as proposições chamando-as de ajustes.

 

Esse cenário típico do mercado é salutar desde que os agentes cumpram seu papéis. Cabe ao Estado preservar o interesse maior que neste caso não pode pender para o interesse privado como apontam os especialistas.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

Conte Sua História de São Paulo: um passeio no futuro da minha cidade

 

Por Marcos Ferreira

 

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, o ouvinte-internauta Marcos Ferreira comemora os 464 anos da nossa cidade, exercitando sua imaginação. Ele apresenta a capital paulista ao seu neto, no ano de 2047:

 

Como me faz bem chegar a São Paulo! Amo esta cidade onde trabalhei por mais de 50 anos… Segue sendo a grande força deste país, e sempre me surpreende pela capacidade de transformação.

 

Peguei o trem em Campinas, não aquele trem bala que foi sonhado por décadas, mas um trem rápido, moderno e eficiente, cujos trilhos seguem paralelos a Rodovia dos Bandeirantes até chegar na grande Estação Bandeirantes, construída no fim da rodovia às margens do Tietê.

 

Meu neto quer saber onde vamos. Disse que encontraria uma grande amiga.Mal sabe ele que essa amiga é a nossa cidade.

 

São Paulo já não é mais cinza, está mais verde, mais jovem, mais bonita e, incrivelmente, mais silenciosa. Imensos edifícios envidraçados espelham o céu azul e o verde das árvores. Do alto da estação enxergamos o Rio Tietê e seus barcos. Ninguém acreditava, mas o Tietê está cada dia mais limpo e navegável. Foram algumas eclusas aqui e ali, mais de uma dúzia de estações de tratamento, e os barcos apareceram espontaneamente, como pequenos brinquedos a se multiplicaram. Ficou turístico. Em duas décadas o rio morto, mudou de cor… Até no Tamanduatei os peixes estão voltando…

 

Passamos para o monotrilho, vamos na direção de Congonhas, gosto dessa linha, é elevada, dá para ver a paisagem… A Marginal Pinheiros é um grande cinturão verde, de cima mal vemos os veículos que circulam.  No geral, grandes coletivos ou veículos de carga… Todos elétricos, todos fluindo sem congestionamento, sem buzina, e raros acidentes… Agora as motos elétricas e as bicicletas compartilham vias próprias, não se misturam com os grandes veículos…

 

Trocamos o monotrilho aéreo para o coletivo sobre trilhos de solo, e seguimos pela Avenida 23 de Maio. Meu neto reclama que escolhi a linha com mais paradas: a expressa seria mais rápida. Mas quem está com pressa?

 

Os prédios cresceram, são altos. A população aumentou. Como os veículos são autônomos, as pessoas estão livres para ler, conversar e trabalhar.

 

Meu neto está entediado com o percurso que ele acha lento. Não sabe o que eram milhares de carros com motores a combustão parados num congestionamento no horário de rush. Os tempos de rodízios, de garagens, de zona azul, de radares se foram… São Paulo ganhou mobilidade. Os pedestres recuperaram seus espaços. O progresso flui por toda São Paulo do século 21.

 

No centro, descemos no Viaduto Santa Efigênia. Quero almoçar num dos pequenos restaurantes com mesas na calçada que funcionam dia e noite.

 

O centro opera 24 horas, e fervilha de turistas… Gosto de ver o movimento, ver os grupos de turistas ouvindo os guias repetirem as mesmas histórias que já conheço de cor, uma história que se iniciou em 1554.

 

Marcos Ferreira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Comemora com a gente os 464 anos da nossa cidade. Escreva a sua história para milton@cbn.com.br.

Um canal para exercer o seu papel de cidadão

 

Por Ricardo Ojeda Marins

 

 

 

Cada vez mais cobramos o papel do Estado perante a sociedade que, obviamente, tem suas obrigações e leis a seguir. Mas convido você, leitor do Blog do Mílton Jung, a questionar a si próprio:

 

“estou cumprindo o meu papel de cidadão?”

 

Boa parte do que nos deparamos no cotidiano é fruto de nosso comportamento. Temos o dever de seguir as leis e nos desvincular do famoso “jeitinho brasileiro” em pequenas ações, por exemplo: estacionar em local proibido, parar em vaga especial para idoso … quantas vezes ouvimos as pessoas dizendo “são apenas 5 minutinhos”? A lista vai à frente: cobrar por fora, pagar um dinheiro extra para que seu serviço saia antes, furar a fila e mais um monte de coisa que você sabe do que estou falando.

 

Na capital de São Paulo, o cidadão tem canais digitais que podem ajudá-lo a exercer o papel de guardião da cidadania. A prefeitura paulistana desenvolveu, há algum tempo, um site e também um aplicativo para celular – o SP156, disponível para download na AppStore e Google Play – nos quais os contribuintes podem denunciar reserva irregular de vaga (aqueles famosos cones que pessoas e estabelecimentos comerciais colocam na rua para “guardar” estacionamento) e veículos estacionados em local proibido; solicitar de poda de árvore, inclusão ou atualização de placas e sinalizações de trânsito na rua, consertos no asfalto, entre outros.

 

É possível também denunciar veículos abandonados em via pública. Esse último, chega a ser assustador se lembrarmos da Teoria das Janelas Quebradas (Broken Windows Theory) – modeloamericano de política de segurança pública no enfrentamento e combate ao crime, cuja visão fundamental é que a desordem é fator de elevação dos índices da criminalidade.

 

O nosso papel cada vez mais será fundamental para a construção de um bairro, uma cidade, um país melhor… não apenas porque estamos desesperançosos com nossos governos, mas principalmente porque é gratificante termos o poder de fazer o bem por nós, pelo próximo e para as gerações futuras.

 

E você, o que está fazendo pela sua cidade?

 

Ricardo Ojeda Marins é Coach de Vida e Carreira, especialista em Gestão do Luxo pela FAAP, Administrador de Empresas pela FMU-SP e possui MBA em Marketing pela PUC-SP. É também autor do Blog Infinite Luxury e escreve no Blog do Mílton Jung.

As cidades e as práticas de cidadania

 

Jaime Pinsky não cabe em uma ou duas linhas de apresentação: dentre tantas coisas boas é historiador e editor, doutor e livre docente da USP e professor titular da Unicamp. Conheci-o, porém, pelo trabalho que realiza na Editora Contexto, que criou e dirige. Foi a editora quem me ofereceu a oportunidade de escrever o primeiro livro, “Jornalismo de Rádio”, em 2004, e reincidiu com a publicação de “Comunicar para liderar”, em 2016, escrito com minha colega Leny Kyrillos. O artigo que você lerá a seguir foi escrito por ele e publicado, originalmente, no site que leva seu nome, no qual você encontrará mais de uma centena de bons textos. E se o reproduzo por aqui, lógico, é porque tive a autorização do autor, a quem agradeço pela gentileza:

 

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Vista da Av.Paulista, em foto de Mariana Tarkany (Flickr/CBNSP)

 

 

Em algumas décadas o Brasil transformou-se de país rural em país urbano. É verdade que a produção agrícola não diminuiu, pelo contrário, mas a maior parte da população vive agora nas cidades. Cidades grandes tornaram-se gigantescas e cidades médias são hoje cidades grandes. Cerca de 20 municípios possuem mais de 1 milhão de habitantes e acima de 200 contam com mais de 150 mil habitantes! Administrá-los tornou-se tarefa dificílima, mesmo desconsiderando eventuais (e não raros) traços de incompetência e desonestidade por parte de muitos prefeitos e vereadores.

 

Secretários municipais não ficam próximos dos cidadãos, isto seria impossível em cidades mais populosas. As pessoas, por seu lado, não se sentem donas da cidade. Edifícios com guaritas, vigilantes guardando a entrada de condomínios, muros altos tentando isolar os cidadãos de outros cidadãos, por medo, fazem dos habitantes das cidades prisioneiros que respiram aliviados ao voltar para trás das grades no final do dia, seja para conviver com sua família, seja para simplesmente esparramar-se em uma poltrona para assistir à TV (cada membro da família na sua, se possível), ou ainda para navegar pelas mídias sociais, onde poderá ofender quem quiser sem risco…

 

As pessoas desenvolveram também o hábito de ir ao shopping. Lá elas até fazem compras, mas utilizam-no mais para passear, ir ao cinema, lanchar, levar os filhotes, encontrar amigos. O shopping é uma instituição curiosamente classista. Depende do bairro em que se instalou a “categoria” das lojas que abriga, o preço do estacionamento, os restaurantes e cinemas e até a música que toca. Esta área, aliás, é interessante: o volume do som de fundo dos shoppings é inversamente proporcional ao poder aquisitivo do público a que se destina. Os de classe A são tranquilos e silentes, os C, muito barulhentos. Com raras exceções, as pessoas encontram centros de venda adequados à sua renda, aspirações, etc. Cada um na sua tribo, como se vivêssemos em uma sociedade estamental. Vivemos?

 

Rua é um conceito estranho. Quem passa por bairros residenciais sofisticados (como o Jardim Paulista, o Alto de Pinheiros, em São Paulo, vai encontrar vigilantes de quarteirão e empregadas domésticas usufruindo daquela rua agradável, sob a sombra das tipuanas e das sibipirunas (ambas com flores amarelas, se for primavera), enquanto os patrões entram e saem da casa velozmente e nem sabem, por vezes, que aquelas lindas árvores abrigam sabiás, sanhaços e outros belos pássaros. Nem mesmo notam quando o caroço de uma manga vingou e se transformou em uma enorme mangueira, que por conta das chuvas e do calor oferece suas frutas para os passantes, que podem também escolher amoras, mamões e até bananas que não têm vergonha em se oferecer a quem os desejar.

 

Claro que as ruas das cidades sempre têm os que fazem uso delas, e às vezes, até abusam. São os que emporcalham as paredes pichando qualquer espaço limpo. Não falo dos artistas que, bem ou mal (é questão de gosto apenas) dão cores ao cinza, mas dos porcalhões que dão um ar lúgubre à cidade. Mobilizar os cidadãos para coibir atividades desses indivíduos é importante. Como importante é transformar as pessoas em colaboradoras da cidade, não de um governo deste ou daquele partido. Todas as cidades têm gente com espírito público. Gente que toma para si a responsabilidade de manter um pequeno espaço verde, plantando, podando, aparando a grama, dando um jeito de irrigar o verde no tempo da seca. Que tal potencializar esse comportamento? Há quem se ofereça a apoiar creches, doando alimentos, ou equipamentos. Há editoras que podem dotar bibliotecas de livros, particularmente as infantis.

 

O cidadão pode e deve zelar para que as leis de cidade limpa sejam cumpridas. Já tem gente tratando de arrancar faixas colocadas ilegalmente, assim como cartazes que sujam os postes. Outros tentam impedir a distribuição de panfletos de propaganda enfiados às dezenas nos para-brisas dos carros estacionados ou entregues em faróis de trânsito. Aos poucos os cidadãos se dão conta do que é cidadania ativa: não simplesmente uma série de direitos civis, políticos e sociais (que são indispensáveis e devem ser preservados e ampliados), mas também um conjunto de obrigações que implicam a busca do bem comum.

 

Cabe às prefeituras abrir espaço e oferecer condições para que essas práticas cidadãs se espalhem pelas nossas cidades.

 

Jaime Pinsky é historiador e editor, doutor e livre docente da USP, professor titular da Unicamp.