A lição do gari

 

Por Devanir Amâncio
ONG Educa SP

Sujeira em bueiro
   

Garis ficaram impressionados com a quantidade de sacolinhas plásticas que encontraram ao fazer a limpeza  de bueiros na rua  25 de Março, na região do Parque D.Pedro, centro de São Paulo. Como grandes observadores das ruas, eles recomendam humildade ao prefeito Gilberto Kassab ao falar sobre  enchentes. Segundo os garis, a cidade resolveria significativamente o problema  das enchentes se instalasse ‘telões’ ( grades em ferro fundido) em todas as  bocas-de-lobo da cidade. Ainda prevêem enchentes devastadoras no futuro se a prefeitura não modernizar a construção de bocas-de-lobo e adotar equipamentos eficientes (modernos) na limpeza de galerias pluviais.

“Uma equipe de três pessoas limpa apenas 10 bocas-de-lobo por dia, às vezes uma”, diz um gari, que desistiu ao fazer a conta do tempo que demoraria para desentupir a cidade.

Nem sempre deve-se avaliar a competência de uma pessoa pelo salário que recebe. Os limpadores de esgoto e varredores de rua ganham cerca de 800 reais e têm ideias simples e inovadoras para  os problemas urbanos . Os salários desses humildes trabalhadores são insignificantes se comparar com a fortuna salarial de um subprefeito que chega a 35 mil reais 

Quais são as projetos  de cidade do segundo escalão da Prefeitura de São Paulo, que teve um reajuste salarial de mais de 200 por cento ? Não é um exagero? Por que a oposição, se é que existe, ficou calada? E o décimo terceiro dos vereadores?  Esses últimos acontecimentos envolvendo dinheiro público, uma espécie de êxtase lesa-cidadão, poderiam  ser colocados na lista das grandes injustiças sociais de nossa cidade. E muitos desses ‘servidores do povo’ ainda dizem com a boca cheia:” Eu amo São Paulo.” 

Enquanto isso as subprefeituras, e o Serviço Funerário – o maior cabide de emprego municipal do Brasil – estão sucateados[…]. São agora tubarões da administração pública, perderam o sentido ético, desprezam o senso-comum, menosprezam os valores sublimes que têm os mais humildes cidadãos que vivem com dignidade a sua pobreza. Os mesmos cidadãos,  vítimas das dezenas de milhares de cartinhas escárnio de vereadores desejando-lhes  “Feliz Natal e um Próspero Ano Novo!” . 

Qual dos vereadores e demais funcionários de vida abastada dos ricos teria a coragem de devolver aos cofres públicos parte do que ganham ou, para contestar, distribuir aos pobres em praça pública suas moedas?

A eles,  votos  que aprendam o valor social dos garis e limpadores,  coveiros, sem-teto  quilombolas e inúmeras minorias. Que pensem  na prática  a  sustentabilidade, e projetos de saúde para a legião de viciados em crack que fecha ruas em São Paulo; votos que encontrem uma solução para as milhares de crianças sem creche.

Votos que os políticos vençam todos os  tipos de sujeiras e extravagâncias. Só assim, o “amor ” que tanto se ouve falar em ano eleitoral, terá  sentido.

                                         

Que São Paulo você quer em 2022?

 

Outono em São Paulo

Faz dois anos estava com 30 pessoas em volta de uma mesa e três perguntas em cima dela. Tínhamos um dia inteiro para responder ao desafio que havia sido apresentado por cinco organizações e movimentos sociais de forte atuação na capital paulista:

1. Qual sua visão para integrar utopia e realidade para São Paulo em 2022?
2. O que projetar e priorizar para 2022?
3. Como construir os caminhos para a concretização das propostas?

Antes de seguir em frente, uma explicação para a data citada: em 2022 comemora-se o bicentenário da Independência e o centenário da Semana de Arte Moderna, e se encerra a vigência do Plano Diretor Estratégico que a cidade esqueceu de implantar e rediscutir nestes anos todos. Bons motivos para provocar a reflexão sobre a São Paulo que queremos ou a que podemos ter.

Lembrei-me do encontro agora porque no fim do mês – dia 23 de novembro – será lançado o Projeto São Paulo 2022, com a intenção de oferecer ao cidadão e ao setor público informações sobre a Capital e, assim, levar adiante a construção de uma cidade que contemple uma agenda de desenvolvimento justo e sustentável.

Naquela oportunidade me coube o papel de provocador. Estava lá para gerar reações dos demais participantes da mesa de discussão e fazê-los imaginar como seria esta cidade melhor que todos buscamos. Antes deles falarem, porém, apresentei o que considero ser fundamental para que se possa planejar. E repito neste artigo. Nossas ideias – sejam quais forem – têm de estar calçadas em três dimensões: custo, acesso e qualidade. Nenhuma se sobrepõe a outra, todas precisam ser medidas com a mesma régua. No Brasil, costuma-se por as questões do custo em primeiro lugar e o resultado tende a ser o aumento do gasto no setor público e a redução no privado, sem que haja efeito no acesso aos serviços e na qualidade oferecida.

Leia o texto completo no Blog Adote São Paulo

As cidades: problema ou solução

 

Artigo do venezuelano Moisés Naím, publicado no jornal Folha de São Paulo, na sexta-feira, 26/08, fala das maiores cidades latino-americanas que perdem a oportunidade de se transformar em motor de desenvolvimento. A foto é do Marcos Paulo Dias e faz parte do álbum digital do Blog do Mílton Jung:

Favela horizontal

Dentro de alguns meses vai nascer um bebê histórico. Será o 7.000.000.000º habitante do planeta. E provavelmente nascerá em uma cidade, já que hoje mais de metade da população mundial vive em cidades, algo que também é novo.

Em 2008 o número de habitantes urbanos superou a população rural pela primeira vez.

Esse processo de urbanização vem sendo muito rápido. De acordo com a ONU, a população urbana passou de 13% do total mundial em 1900 (220 milhões de pessoas) para 29% (732 milhões) em 1950, saltando em seguida para 49% (3,2 bilhões) em 2005. Até 2030, estima-se que alcance 60% (4,9 bilhões).

A América Latina é campeã do mundo nesse quesito: com 80% de sua população vivendo em cidades, é a região mais urbanizada do planeta. Esta realidade tem implicações econômicas e políticas enormes. O Instituto Global McKinsey (MGI) acaba de publicar um excelente estudo sobre esse tema. Sua conclusão principal é que as maiores cidades da América Latina poderiam ser um potente motor de desenvolvimento e prosperidade.

Poderiam. Mas não o são, e seu desempenho econômico e social está abaixo do de seus países e de outras cidades do mundo. As cifras do relatório do MGI são impressionantes. Na América Latina há 198 cidades com mais de 200 mil habitantes, em que vivem 260 milhões de pessoas e nas quais se geram 60% de toda a atividade econômica da região, o que equivale ao PIB de Índia e Polônia juntos. Estima-se que em 2025 essas 198 urbes vão gerar um PIB igual ao da Espanha hoje.

Como sabemos, contudo, as grandes cidades latino-americanas estão repletas de problemas: tráfico, criminalidade, deficits, corrupção e o eterno atraso da oferta de serviços públicos, em relação às necessidades de transportes, água, saúde, eletricidade, habitação, etc.

Esses problemas crônicos explicam por que o índice de crescimento econômico das dez cidades maiores vem sendo menor que o de seus países. De acordo com o MGI, desde 1970 os índices de crescimento econômico de São Paulo e Rio de Janeiro vêm caindo, estando hoje inferiores ao crescimento do Brasil.

A Cidade do México também vem apresentando desempenho pior que o das 45 cidades mais populosas do país. Das dez maiores cidades da América Latina, apenas Lima e Monterrey vêm tendo desempenho melhor que seu país.

Em vista da velocidade com que se movem as variáveis associadas à urbanização, é urgente agir para que as grandes cidades não se transformem em uma carga pesada que afunde seus países.

Os desafios são muitos, e o MGI agrupa as soluções em quatro grandes categorias: elevar o desempenho econômico das grandes cidades, melhorar a qualidade de vida de seus habitantes, utilizar recursos naturais de maneira sustentável e melhorar suas finanças e a maneira como são governadas.
É fácil sorrir cinicamente e pensar que nada disso será possível. Quem sabe. Mas, se não tentarmos, a catástrofe urbana da América Latina poderá anular a possibilidade de os latino-americanos terem um futuro melhor que seu passado.

De céu e sol aprisionados

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De aprisionados” na voz e sonorizado pela autora

Senhor Prefeito,

é com o respeito de quem não tem a mínima ideia de como se administra uma cidade inteira, particularmente uma cidade como São Paulo, que venho tomar do seu tempo uns minutos para fazer uma pergunta que tem perturbado muita gente.

Preciso saber como é que o senhor faz para decidir se um prédio pode ser erguido numa região, ou se não pode. Toda edificação precisa da permissão dos administradores da cidade, certo? Seja ela uma padaria, banca de jornal, casa, edifício ou condomínio.

Pois bem, na verdade, quero saber quais são os critérios que determinam autorização ou rejeição ao pedido de construção. Essa é a minha pergunta, mas sinto que devo dar ao senhor ao menos um motivo pelo qual a estou fazendo.

Em 2001 escolhi o bairro onde moro desde então, e vou lhe dizer quais foram os meus critérios: a área tinha muito verde, poucos prédios, casas, três boas padarias e três acessos de entrada e de saída para outros bairros da cidade. Ando de carro, não uso o transporte público, portanto, era muito importante me certificar de que eu poderia me deslocar com relativa facilidade. Nessa época, ainda não tínhamos a ponte estaiada.

Dois anos depois, uma ciranda de prédios começou a cercar o meu, os outros, e as casas. Altos e truculentos. Famintos, engoliram famílias que também escolheram este bairro pelas vias dos critérios delas. Outros dois anos se passaram e os prédios continuaram a se multiplicar, feito praga, sem planejamento, uns se metendo na frente dos outros, sem o mínimo respeito, como fazem os humanos. Temos hoje, em vez de três, seis excelentes padarias, mas onde era possível sentar, no final de semana para um café da manhã relaxado, na companhia de um bom jornal ou de amigos, a gente enfrenta fila.

Mais quatro anos se passaram e hoje é quase impossível circular dentro do bairro. Tem fila para sair da garagem e entrar na outra fila nervosa que desde o nascer do sol serpenteia desordenada, regendo um coro desafinado de buzina. Olho em volta e o que vejo? Vejo muitos outros prédios em construção. Bate estaca daqui, bate estaca de lá; é a paisagem e a melodia que nos restam. Lembrando que esses prédios engolirão mais e mais famílias que vão trazer seus carros e esperam entrar e sair da região, como quem já está aqui.

Sei que esse desconforto não é privilégio deste bairro, mas se o senhor disser quais são os ditos critérios – que imagino envolvam o número de habitantes da região, as artérias que bombeiam gente que vai e que vem, capacidade de esgoto, transporte público, água, gás – a gente pode tentar se conformar, se for isso o que o senhor espera de nós. Se o senhor, mexendo na papelada, encontrar desmandos nas pastas, que tal acabar com eles e se transformar no nosso prefeito-herói?

Vou parando por aqui para não tomar o seu tempo. Há que administrar, eu sei. Agradeço por sua atenção ao meu relato e aguardo, ansiosa, pela resposta.

Atenciosamente,

Maria Lucia Solla

PS: Moro na Vila Andrade, também chamada de Panamby, Jardim Sul ou Morumbi.

Maria Lucia Solla é terapueta, professora de língua estrangeira, promove curso de comunicação e expressão e, aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

Clique aqui e veja álbum sobre ocupação do bairro por prédios

Jornalista vai caçar boas idéias para sua cidade

 

Cidades para Pessoas from Natália Garcia on Vimeo.

Viajar por 12 cidades à caça de boas ideias de planejamento urbano e contribuir para que São Paulo e outros municípios brasileiros se desenvolvam oferecendo qualidade de vida aos seus moradores. É a pretensão da jornalista Natália Garcia com o projeto Cidade para Pessoas, inspirado no trabalho do planejador urbano Jan Gehl, dinamarquês que há 50 anos redesenha cidades e bairros como em Melbourbe e Perth (Austrália), Estocolmo (Suécia), Lyon (França) e Copenhaguen (Dinamarca), onde tudo começou. Foi lá que ele convenceu os moradores e autoridades de que o espaço público não pode ser privilégio de automóveis.

A etapa mais complicada da viagem talvez seja aquela que Natália está encarando agora, antes mesmo de botar o pé na estrada ou no pedal – já que pretende andar de bicicleta e a pé pelos roteiros escolhidos. O projeto que vai durar um ano custará R$ 25 mil e o dinheiro está sendo arrecado pelo sistema de crowdfunding – uma ação colaborativa em que todo o cidadão pode contribuir com pequenas quantias, através da internet. Até aqui, Natália conseguiu arrecadar pouco mais de R$ 11 mil e tem mais sete dias para chegar ao total necessário.

Cada um das cidades visitadas por Natália (conheça a lista aqui) será traduzida em quatro grandes reportagens, vídeos e posts publicados no blog Cidade para Pessoas. Todo o material coletado será licenciado em Creative Commons by-sharealike com restrições comerciais – ou seja poderão ser reproduzidos e citados em redes, blogs e material de prestação de serviço, e usados por universidades e pelo poder público desde que não haja exploração comercial.

O projeto é apenas uma etapa para chegar ao que Natália realmente sonha que é colaborar para a construção de uma cidade para as pessoas:

Eu sei o que você vai dizer: não somos a Europa. E foi essa a reação que os jornais dinamarqueses tiveram quando o Jan Gehl quis transformar uma importante avenida de carros em um calçadão para pedestres. “Não somos italianos”, dizia o jornal, “nosso clima escandinavo não convida à vida nas ruas”. Segundo as publicações, ninguém toparia andar de bicicleta em Copenhagen e tirar os carros daquela avenida faria as casas de comércio falir. Elas não só não faliram como lucraram o dobro. E hoje Copenhagem é a cidade com o maior número de usuários de bicicletas no mundo.
Dá para fazer o mesmo por São Paulo. Mas vai ser preciso colocar as pessoas à frente dos carros (trecho do Blog Cidade para Pessoas).

A colaboração para o projeto pode ser a partir de R$ 20 e deve ser feita através do site Catarse, especializado neste sistema de arrecadação.

Soluções simples para cidades complexas, diz Lerner

 

Jaime Lerner é ex-prefeito de Curitiba, ex-governador do Paraná e ex-político do Brasil. Há oito anos, preferiu se dedicar as carreiras de arquiteto, urbanista e sonhador nas quais tem alcançado resultados impressionantes. Apesar disso, a lembrança da maioria dos brasileiros ainda é do início de sua vida política quando transformou a capital paranaense em referência internacional.

Convidado pelo programa Roda Viva, da Tv Cultura, tive oportunidade de conversar com ele, na tarde dessa segunda-feira, no ar e no bastidores. Tanto em um lugar como no outro é o mesmo otimista de sempre. Acredita na capacidade do homem, por mais que este tenha a tendência de complicar as coisas simples. E na possibilidade de as grandes cidades se transformarem em ambientes de convivência e qualidade de vida, mesmo que identifique em nossa realidade a existência de uma guerra urbana.

“Sou otimista por que já vivi isto, já fiz isto, tenho legitimidade porque fiz algumas coisas, eu sei fazer isto”, ressalta para que este sentimento não se confunda com ilusão.

Lerner fala pausado, parece cansado, mas é extremamente dinâmico nas suas ideias. Desenha uma rua móvel, que se constrói à noite e se desmonta de dia, ou vice-versa. Projeta um carro elétrico para curtas distâncias e para ser usado de maneira coletiva. Desenha soluções para ilhas, cidades e prefeituras. Para São Paulo, também, apesar de a prefeitura ter dado de ombros à sua proposta para a Cracolândia.

Acredita que com a política de acumputura urbana consegue melhorar a qualidade de vida em qualquer ambiente em três anos.

Para resolver catástrofes como a que assola a serra fluminense, entende que precisamos primeiro dar solução às tragédias do dia-a-dia. Lembra que o trânsito e a falta de planejamento urbano matam tanto como as guerras. Na capital paulista, morrem em média 1.400 pessoas por ano. No Rio, já são mais de 600 os enterrados pelas enchentes e deslizamentos de terra.

Não se assusta com a dimensão da capital paulista. Critica autoridades e especialistas que a usam para justificar a falta de ação. Para ele, o tamanho não é desculpa. E diz, fora do ar, que a Cidade do México com seus quase 9 milhões de moradores hoje é bem melhor do que São Paulo, que tem pouco mais de 11 milhões. “Não é a escala, é a visão que interessa”, destaca.

Para falar de solução para as tragédias, fala de habitação e mobilidade. E defende que as cidades copiem a tartaruga – abrigo, trabalho e locomoção no mesmo lugar. “O casco lembra a tessitura urbana, se quebrarmos este casco, a tartaruga morre”, completa a analogia.

Não gosta da ideia adotada pelos Governo e prefeitura de São Paulo que ampliaram a Marginal Tietê e apostam todas suas fichas no metrô. “Em São Paulo, 84% das pessoas se deslocam na superfície, para o metrô funcionar bem a superfície precisa funcionar bem”. Lerner não está no time dos que defendem o fim do automóvel, entende que todos os modais têm sua função. É necessário metrô esperto, ônibus esperto e carro esperto, reforça.

E o que fazer para resolver o problema de agora, quando centenas de pessoas morreram e milhares perderam as casas ?

Quer abrigo imediato para as pessoas, seguro para as casas que serão abandonadas e correm o risco de serem saqueadas, proibição de moradias nas áreas de risco e a criação de uma zona franca que isente de impostos quem se comprometer a criar empregos nas regiões que sofreram os desabamentos.

E para as cidades brasileiras ?

Mobilidade, sustentabilidade e sociodiversidade são a solução, explica de maneira simples.

Ouvir Lerner por uma hora e meia, mais o tempo extra antes e após o programa, nos faz acreditar que as grandes cidades são possíveis, as soluções estão na simplicidade e os homens é que complicam a coisa. E nos dá esperança de que é possível mudar a qualidade de vida no ambiente urbano.

Mas para isso é preciso sonhar: “Você tem de ter um sonho e propor um cenário que seja desejável para as pessoas. Quando as pessoas veem um sonho realizável, elas se transformam”. Não se fruste se o sonho não se realizar, pois se você se dedicar, um dia este sonho vai te cutucar e perguntar: lembra de mim ? – ensina.

De estrada

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De estrada” na voz e sonorizado pela autora

Sabe quando a gente pega a estrada errada e continua, e continua, e continua tanto, e vai tão longe que fica difícil voltar?

a gente acaba parando
por um tempo
no lugar onde foi parar

Aí dá aquela vontade de conhecer outro lugar, acaba se encantando com o próximo, e fica literalmente hipnotizado pela beleza e pela riqueza de mais um. Acaba se perdendo.
Pois foi o que aconteceu com a gente. Foi o que aconteceu com todos nós.

Não adianta apontar o dedo para a turma do lado de lá, para o parente, para o ex ou o pretendente, o mandante ou o obediente. Não dá mais tempo. É tempo de abrir bem os olhos, de criar vergonha na cara, cada um fazendo o que sabe fazer. Fazendo direito, fazendo às claras, sem segundas, terceiras ou quartas intenções. Sem vender a alma. Do gari à presidente. Nós. Todos nós: os bonitinhos, os feios, as marombadas, as gordinhas. Nós. Os burros, os inteligentes, descolados e condenados. Nós. Espertalhões e bobalhões.

Fomos longe demais pela estrada errada, e depois de tanto tempo, tanto dinheiro, tanta energia gasta, da enorme distância do verdadeiro ponto de origem e do verdadeiro destino, a gente se dá conta de que ficou igual a todo mundo, como queria, vestindo igual, tendo carro igual, usando joia igual, falando igual, sofrendo mais e curtindo menos; a gente se dá conta de que vendeu a alma e, com ela, a graça.

Isso que tem acontecido em volta, no meio, dos lados, em cima e embaixo, é a prova de que este é o lugar errado; onde chegamos, todos. O que a gente vê é a paisagem errada!

Foi isso que nos hipnotizou? É difícil de acreditar! É isso que continua nos fazendo destruir o verdadeiro e a água do terreiro; o bosque, o pássaro, a borboleta? É essa ganância desmesurada, esse egoísmo generalizado e banalizado que deixa um amargo na boca, essa tristeza que sempre sobra no coração, esse medo e esse desalento que se mostram no olhar, que incluídos em letrinhas minúsculas no final do contrato vieram no pacote e levaram em troca o bom-humor, e transformaram tudo em dor, em desgraceira, em resgate onde acaba cabendo saque, num palco de lágrimas e horrores onde cabem boatos criminosos?

Em que lugar do caminho se perdeu o prazer de dirigir na estrada, sem rumo, à noite, só para ouvir no silêncio, com o corpo inteiro, as músicas favoritas, no rádio do carro? Onde se perdeu o prazer de acampar; de dormir no embalo dos pingos da chuva? De nadar na cachoeira sem medo de verminose, de virose ou de cirrose? Onde está nossa cidade antiga, nosso berço, cercado, protegido, fotografado e cuidado diariamente para que ninguém o destrua, para que ninguém o desfigure, para que a gente se lembre de onde veio e para onde estava indo?

O que nos cerca nos escoa por entre os dedos e não ecoa o prazer esperado, porque traz consigo a desgraça, a tristeza, o isolamento, a solidão, a armadilha que nos atraiu até aqui, até agora.

Está tudo sossobrando porque nem o Planeta nos aguenta mais. Não aguenta tanto desrespeito, tanta prepotência de quem se julga dono dele. Se não pararmos agora e não assumirmos, cada um, o seu latifúndio de responsabilidade, criaremos filhos apenas para que ajudem a suportar, nas costas, a custo das próprias vidas, até o último segundo, os pilares da Terra.

Não custa lembrar que, hoje e sempre, não é dado apenas a um ou a poucos, entender e traduzir a magnitude da Vida. É preciso que haja quorum, que estejamos juntos, todos, porque só o todo pode compreender O Todo.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

De problemas da cidade

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De problemas na cidade” na voz da autora

Olá

Com certeza, isto não é novidade.
O vai-e-vem é frenético, nas ruas da cidade.
O mais forte acotovela, e o não tão forte, acotovelado, resmunga injuriado.

Diversidade surpreende no meio da multidão.
Circula, pelas vias, gente das mais diversas etnias.
Ouvem-se gritos de vizinhos que brigam, e passos de transeuntes que nem ligam.
Os sons, que sem pedir licença penetram os ouvidos, são tecidos por murmúrios de amor, aqui, e por gemidos de dor, ali.

Livres, circulam, por todo lado, o perfume da dama e o odor nauseabundo da lama,
enquanto a pobreza caminha assim, pari passu com a riqueza.

Veem-se prédios de apartamento, de construção interessante,
mas alguns deles, irregulares, são feitos sem cuidado bastante.

Leis são promulgadas para serem seguidas por todos, sem exceção,
mas fica evidente, ao olhar inteligente, que isso não é bem assim,
em tempos de corrupção.

Veem-se, ao longo da caminhada, construções erguidas no terreno da irregularidade,
criando um desenho estranho, no corpo da cidade.

Novos ricos, exercitam a vaidade, babando por mais poder,
enquanto políticos, exercitam a ganância,
babando por dinheiro e cada vez maior abundância.

Nos becos mal-iluminados, mata-se por um anel,
enquanto nos gabinetes bem-frequentados,
se a gente não se cuida, se lhes tira o couro e, se bobear, levam-lhe também o chapéu.

No quesito moradia, a situação é covardia;
paga-se o olho da cara e, se bobear acaba-se na sarjeta, levada pela carestia.

Feriados abundam no calendário local. Num deles o povo perde a fronteira.
Escravos se tornam reis e rainhas, e se comete muita besteira.

Se você se questiona: “sobre que cidade ela fala?”
Eu garanto, se você acertar antes de ler o final, ganha de mim uma bala

Veja as queixas da população e me diga se há aqui algo de anormal

Queixam-se do tráfego, do ruído e do caos exagerado
do tempo necessário para o deslocamento e da sujeira por todo lado
Dos preços exagerados, da invasão de imigrantes e, principalmente, daquela dos meliantes.

Não me refiro a São Paulo, nem ao Rio ou Piratininga,
Falo de Roma, meu amigo, falo da Roma Antiga.

Ah, é preciso acrescentar que não deduzo ou imagino.
Não me refiro ao brasileiro e nem ao povo americano.
Estas são queixas comprovadas pela história, nos tempos do Imperador Trajano.

Há dezenove séculos, era o que acontecia.
E você, o que quer, o que queria?
O tempo não resolve nada sozinho;
o que é mesmo preciso é que o homem resolva assumir que é Homem, e deixar de ser homenzinho.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira, aos domingos descreve no Blog do Mílton Jung o mundo sem eira nem beira

Conte Sua História: O leiteiro e a vacaria

Ouça o texto O Leiteiro

Por Antonio Quadrado
Ouvinte-internauta do CBN SP

Ao olhar do moleque, o estribo da velha carroça parece inalcançável. A mão forte do carroceiro, de um só empuxo, alça o garoto como se fora uma pluma.

–    “Bom dia Seu Manolo.”
–    “Bom dia garoto, usted ainda tá dormindo?”

Não era pra menos; seis horas do quase-escuro da manhã só não se tornava sacrifício, pelos trocados recebidos do trabalho e pelas histórias que, sem dúvida, o dia ainda iria render.

E mais, depois de tanto tempo na fila do rodízio, a oportunidade era como que uma vitória. O astuto leiteiro devia saber disso.

O friozinho da manhã, o balanço da carroça no piso de terra, o másculo relinchar do “puro-sangre”, os engradados superpostos dos litros do leite ainda quente; o direito a beber o quarto-de-litro do “mais puro leite do Brasil”; tudo soava a aventura, para cada um dos garotos que disputavam a oportunidade de entregar o leite nas casas da redondeza.

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