FGV calcula que R$ 0,50 na gasolina reduziriam ônibus para R$ 1,80

 

Texto escrito originalmente para o Blog Adote São Paulo

 

 

“Nossa Senhora” balbuciou o prefeito Fernando Haddad ao ouvir que de cada dez pacientes que estão em leitos hospitalares, em São Paulo, quatro são vítimas de acidentes de trânsito. A estatística fez parte da apresentação do coordenador da Rede Nossa São Paulo, Oded Grajew, que organizou, em parceria com a Frente Nacional dos Prefeitos, o evento “Alternativas para o financiamento do transporte público”, na manhã desta terça-feira, no Sesc Consolação, na capital. Coube a mim, no papel de mediador, sentar ao lado de Haddad, em uma mesa da qual participaram economistas, médicos, ambientalistas e gestores públicos. Pela posição em que estava me transformei em interlocutor do prefeito sempre que ele era surpreendido com um novo dado sobre os impactos da mobilidade urbana na qualidade de vida do cidadão.

 

Também provocou expressões de espanto por parte do prefeito, o resultado parcial de estudo desenvolvido pela Fundação Getúlio Vargas/SP que ofereceu fortes argumentos para a defesa da mudança na cobrança e distribuicão da CIDE-Combustíveis (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico incidente sobre as operações realizadas com combustíveis). De acordo com Samuel Abreu Pessoa, do Centro de Crescimento Econômico do Instituto Brasileiro de Economia, R$0,50 a mais no litro da gasolina podem representar até R$1,20 a menos na passagem de ônibus e uma redução de 0,03 ponto percentual na inflação. Ou seja, se o Governo Federal aceitar a ideia de transferir o que for recolhido pela CIDE para os municípios investirem no transporte de passageiros, a tarifa na capital paulista cairia dos atuais R$3,00 para R$1,80. “Pelo Amor de Deus”, deve ter pensado você ao ver esta conta.

 

Haddad, mesmo parecendo satisfeito com os números que sustentam a tese que será defendida nacionalmente, sabe e falou ao pé do ouvido: “não vai ser fácil”. Apesar dos benefícios que poderiam gerar nem todos são a favor da ideia. Hoje mesmo entrevistei o presidente da Frente Nacional de Prefeitos, José Fortunatti, que comanda a cidade de Porto Alegre, a primeira a assistir aos protestos contra o aumento no preço da passagem de ônibus, este ano. Assim que se encerrou a conversa, na qual Fortunatti defendeu o aumento e a municipalização da CIDE – atualmente, com alíquota zero -, uma sequência de mensagens chegou no meu e-mail e Twitter. Eram cidadãos incomodados com a possibilidade de ter mais tributo a pagar, além daquela quantia enorme que o Governo já saca da nossa conta todos os dias. Eram, principalmente, motoristas de carros que passariam a subsidiar o transporte público com a mudança proposta. Muitos pedindo que antes de aumentar imposto, os gestores segurassem os gastos públicos, controlassem a ineficiência do sistema e acabassem com a corrupção.

 

Para os motoristas preocupados com o peso da gasolina no bolso, prefeitos e defensores da mudança dizem que o incentivo para o transporte coletivo vai ter impactos positivos para toda economia, aumentando a circulação das pessoas, diminuindo os congestionamentos, reduzindo o custo de vida, melhorando a qualidade do ar e levando menos pessoas aos hospitais. Mas além de parcela da opinião pública terão de convencer, principalmente, o Governo Federal que, até agora, tem preferido incentivos ao transporte individual, com retenção do preço da gasolina, isenção de impostos às montadoras e incentivo para a compra de carro. A diferença de tratamento é tão absurda que análise feita por Carlos Henrique Carvalho, do IPEA, mostrou que nos últimos 12 anos, o preço da gasolina reajustou em menos de 100% enquanto o das tarifas de ônibus quase bateu a casa dos 200%. Sobre isso Haddad nada disse, pois já havia ido embora para encontro com o presidente do Tribunal de Contas do Município, na sede da prefeitura. Estava atrasado para o compromisso, como sempre estão os paulistanos.