Mundo Corporativo: Dimas Covas, da Sinovac, ensina que a ciência é uma grande repetição de erros consertados

Dimas Covas, Sinovac
Dimas Covas em entrevista no estúdio de podcast da CBN Foto: Priscila Gubiotti CBN


“Hoje, a economia mundial é uma economia de disputa tecnológica.”


A pandemia de Covid-19 expôs uma fragilidade do Brasil: a dependência de medicamentos e vacinas produzidos no exterior. Ao mesmo tempo, revelou a capacidade científica do país em participar de pesquisas e testes clínicos em escala internacional. Esse cenário ajuda a explicar o interesse de empresas globais em ampliar suas operações por aqui. O tema foi discutido pelo cientista Dimas Covas, chefe de pesquisa, desenvolvimento e inovação da Sinovac, em entrevista ao programa Mundo Corporativo, da CBN.


Covas construiu carreira na universidade, na gestão pública e agora atua em uma empresa privada de biotecnologia. Ele conta que decidiu trabalhar na fronteira entre ciência e aplicação prática ainda no início da sua carreira. “Desde muito cedo, eu falei: ‘Olha, a minha área de pesquisa vai ser com desenvolvimento de produtos biotecnológicos’.”


A motivação veio da própria experiência médica. No início da carreira, ele percebeu que muitos pacientes dependiam de tratamentos que ainda não existiam ou não estavam disponíveis. A pesquisa passou a ser o caminho para ampliar essas possibilidades.

A trajetória de Covas inclui a direção de centros públicos de pesquisa e produção, como o Instituto Butantan. Para ele, a gestão pública foi uma escola de administração e de enfrentamento de limites estruturais. “É muito mais difícil você ser gestor público do que você ser um gestor privado”, afirma.

No ambiente empresarial, a lógica muda porque os recursos e as equipes podem ser organizados com mais rapidez. “A iniciativa privada é um paraíso. Para quem trabalhou na iniciativa pública durante tanto tempo, é um paraíso.” Mesmo assim, ele afirma que o objetivo permanece o mesmo: desenvolver soluções de saúde que tenham impacto direto na vida das pessoas.


Por que o Brasil entrou no radar da Sinovac

A relação da Sinovac com o Brasil se fortaleceu durante a pandemia, quando a CoronaVac foi testada e produzida em parceria com o Instituto Butantan. A experiência abriu caminho para projetos mais amplos. Segundo Covas, o país reúne características importantes para a pesquisa biomédica: população numerosa, universidades com tradição científica e capacidade para conduzir estudos clínicos.

A empresa pretende criar uma estrutura permanente de pesquisa, desenvolvimento e produção, inicialmente no interior de São Paulo. O plano inclui novas tecnologias, como vacinas de RNA e terapias celulares. Uma enorme oportunidade para pesquisadores e cientistas brasileiros.

Na avaliação do cientista-chefe da Sinovac no Brasil, o país precisa definir prioridades claras para avançar em inovação. “O Brasil precisa dizer assim: ‘Olha, eu quero ir nesse caminho, nesse caminho e nesse caminho. E vou dar condições para que isso aconteça’.”

Ele lembra que a competição global mudou de natureza. O diferencial agora está na capacidade tecnológica.

“Hoje, a economia mundial é uma economia de disputa tecnológica.”

Para Covas, o Brasil tem universidades capazes de formar bons pesquisadores. O problema aparece depois da formação, quando muitos profissionais não encontram oportunidades para aplicar o conhecimento. Projetos de pesquisa ligados à indústria podem ajudar a reduzir essa distância entre universidade e mercado.

Otimista em relação aos avanços que as pesquisas da Sinovac podem ter no Brasil, Covas ressalta que quem trabalha com ciência precisa aceitar que os resultados surgem após várias tentativas. “O erro é a parte mais importante do aprendizado. Quer dizer, se a gente não erra, a gente não aprende.” Ele descreve a pesquisa científica como um processo contínuo de correção e aprimoramento. “Na realidade, a ciência é uma grande repetição de erros consertados.”

Esse método também pode orientar decisões em empresas privadas de diversos setores da economia. Covas defende que gestores usem dados e evidências para decidir, da mesma forma que pesquisadores fazem em laboratório.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

Dona Olívia e a flauta de Hohle Fels

Dr Renan Domingues

@renandominguesneurologia

@o_cerebro_musical

“Sem a música, a vida seria um erro.”
— Friedrich Nietzsche

Em uma caverna chamada Hohle Fels (tradução: “rocha oca”), no sul da Alemanha, arqueólogos descobriram os mais antigos instrumentos musicais conhecidos até hoje: flautas esculpidas em ossos de pássaros e em presas de mamute, datadas de cerca de 35 mil a 40 mil anos atrás. Esses instrumentos são uma evidência concreta de que os seres humanos já elaboravam música muito antes do surgimento da escrita ou da agricultura. A descoberta sugere que a música já ocupava um papel importante na vida social e cultural dos primeiros Homo sapiens na Europa, possivelmente ligada a rituais e vínculos comunitários. Postula-se que tais vínculos tenham representado uma vantagem evolutiva em relação a outras populações humanas, como os neandertais, que eram mais conservadores e demograficamente mais isolados em suas comunidades.

Apesar disso, a pergunta “por que os humanos fazem e ouvem música?” ainda não tem uma resposta definitiva ou consensual. No livro Como a Mente Funciona (How the Mind Works, 1997), o psicólogo cognitivo Steven Pinker propõe que a música não teria um valor adaptativo direto para a sobrevivência ou reprodução — como têm, por exemplo, a linguagem ou a visão, e a define como uma espécie de “sobremesa auditiva” (auditory cheesecake). Segundo Pinker, a música se aproveita de circuitos cerebrais que evoluíram para outras funções, como a percepção da linguagem, a detecção de padrões e a sensibilidade a ritmos motores, mas não teria surgido por pressão seletiva própria.

Ele compara o fenômeno à sobremesa: nossos cérebros não evoluíram especificamente para desejar cheesecakes, mas esses alimentos ativam intensamente os sistemas de recompensa por combinarem gordura e açúcar, elementos valorizados pela evolução. Da mesma forma, a música seria apenas um subproduto prazeroso — e não uma adaptação evolutiva em si.

Em contraste, outros cientistas destacam evidências de vantagens concretas associadas aos vínculos promovidos pela música. Experimentos mostram que cantar e tocar em grupo aumenta a cooperação e o desempenho coletivo. As interações musicais entre mães e bebês auxiliam na regulação da excitação, induzem o sono e fortalecem os vínculos emocionais, favorecendo o cuidado parental, essencial para a preservação da espécie.

Dona Olívia tem 87 anos e é portadora de Doença de Alzheimer. Ela quase não se comunica mais verbalmente, nem mesmo com a filha. No entanto, ao ouvir as músicas de Cartola, consegue cantar as letras na íntegra, lembrando-se delas com nitidez. A filha frequentemente se une a ela nesse repertório, que a Dona Alzira se lembra melhor do que ela, criando momentos de rara conexão. Neurologicamente, isso é possível porque as áreas cerebrais responsáveis pela memória musical são distintas daquelas ligadas à memória verbal e visual, e estão entre as últimas a serem afetadas pela doença. Isso explica a preservação da memória musical de longo prazo.

Além do evidente benefício para o humor da Dona Olívia, esses momentos são resgates emocionais profundos, como ecos do vínculo musical que a mãe estabelece com o bebê, desde a gestação.

Dona Olívia seria uma evidência de que Steven Pinker está enganado? Talvez. Ela é uma prova viva de que o cérebro reserva um espaço específico da sua memória para a música, e dificilmente esse espaço seria preservado para algo irrelevante. Pinker talvez alegasse que, embora significativa para o indivíduo, a música não seria determinante para a sobrevivência da espécie. Ainda assim, o exemplo da Dona Olívia desmonta ao menos a comparação que ele escolheu: por mais saboroso que seja, o cheesecake não dá sentido à vida e pode ser substituído por outros alimentos doces.

Há 40 mil anos, os humanos buscavam esse estímulo gustativo nas frutas que colhiam da natureza. Mas a música, essa nós inventamos e dela extraímos um pouco do sentido que nossa espécie encontra na existência. Afinal, como Dona Olívia nos mostra, sem a música, a vida seria um erro.

Renan Domingues é neurologista e Doutor pela Universidade de São Paulo (USP), com doutorado pela Universidade do Alabama em Birmingham, EUA e pós-doutorado pela Universidade de Lille, França. É músico e estudioso da neurociência da música. Escreve a convite do blog do Mílton Jung