Conte Sua História de São Paulo: o dia em que os nossos cientistas foram recebidos como heróis na cidade

 

Mayana Zata
Ouvinte da CBN

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto da ouvinte Mayana Zatz:

 

Sou geneticista e dirijo o Centro de Pesquisas em Genoma Humano e células-tronco na Universidade de São Paulo. A história sobre São Paulo que vou relatar não é tão antiga mas acho que vale a pena ser contada.

 

Ela teve início há cerca de 20 anos, quando a FAPESP — Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de S. Paulo reuniu vários líderes de pesquisas para discutir um assunto muito preocupante. Enquanto os países do primeiro mundo avançavam rapidamente no domínio da tecnologia do sequenciamento do DNA — isto é, como analisar as informações contidas no DNA — no Brasil poucos laboratórios dominavam essa tecnologia. Como reverter essa situação, como capacitar mais laboratórios e cientistas na tecnologia de sequenciamento de DNA? .

 

Depois de muitas discussões, decidiu-se formar uma rede de 30 laboratórios, que iriam ser treinados nessa tecnologia de ponta. Era um projeto totalmente inovador. Nosso laboratório, no Centro de Pesquisas do Genoma Humano iria ser um dos 30. Decidiu-se sequenciar um organismo com um DNA pequeno, que não levasse anos para ser sequenciado. Lembrando que hoje você consegue sequenciar um genoma humano em algumas horas mas naquela época ainda estava em curso o projeto genoma humano que levou 13 anos para sequenciar o primeiro genoma de um ser humano — a um custo de 3 bilhões de dólare). Também teria que ser um organismo que tivesse algum interesse comercial. Depois de muitas discussões, decidiu-se pela bactéria Xylella que é um patógeno que ataca os laranjais causando grandes prejuízos à citricultura.

 

Cada laboratório recebeu da FAPESP um sequenciador — um equipamento para sequenciar — e os reagentes necessários para sequenciar um trecho do  DNA da bactéria. A ideia era que depois iriam se juntar os pedaços sequenciados por cada laboratório como se fosse um quebra-cabeças. O objetivo era terminar em dois anos. E aí começou a corrida, com trocas de informações pela internet entre os 30 laboratórios.

 

Em 2.000, conseguiu-se terminar o sequenciamento da Xyllela e foi um sucesso acima de qualquer expectativa. O que pretendia ser principalmente um treinamento de tecnologia gerou uma publicação científica que foi capa da revista Nature, uma das revistas científicas mais prestigiosas que existe. O Brasil não era mais notícia por causa do futebol e do carnaval mas também pelos seus feitos científicos. Era a primeira vez que se sequenciava no mundo o DNA de uma bactéria que era um patógeno de uma planta.

 

O governador de São Paulo na época era o Mário Covas e ele decidiu fazer uma homenagem na sala São Paulo para todos os cientistas que tinham participado do projeto. Mas foi muito mais do que uma homenagem. No caminho inteiro havia faixas dizendo: São Paulo tem orgulho dos seus cientistas. Foi uma emoção indescritível. Inesquecível. Uma homenagem aos cientistas? Isso nunca havia acontecido antes.

 

Cheguei a Sala São Paulo com os olhos marejados de lágrimas. Brinco sempre que eu me senti como um jogador de futebol voltando de uma copa internacional vitoriosa.

 

Será que teremos investimentos que permitam que a ciência brasileira volte a ter esse prestígio e reconhecimento?

 

Dra Mayana Zatz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha contar mais um capítulo da sua cidade, na CBN. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br Se quiser conhecer outras histórias, visite agora o meu blog miltonjung.com.br

Exercício para o cérebro e inspiração para desenvolver senso crítico

 

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Colocar o relógio de cabeça para baixo, escovar os dentes com a mão invertida e tomar banho de olhos fechados. Pode parecer meio estranho — e é mesmo —, mas são exercícios que cientistas propõem para reduzirmos a incidência de Alzheimer e outras formas de demência.

 

A proposta, apresentada pelo Dr Luis Fernando Correia, no quadro Saúde em Foco, dessa quarta-feira, no Jornal da CBN, é desenvolvermos atividades do cotidiano de forma diversa das que estamos acostumados e, por consequência, estimularmos regiões e circuitos cerebrais diferentes do cérebro. Ou seja, conseguiremos manter as conexões entre essas áreas de neurônios —- que não costumam ser exercitadas — funcionando a pleno vapor.

 

 

Veja outras mudanças sugeridas:

 

— Modifique sua rotina matinal; comece por trocar a ordem das atividades que realiza assim que acorda, como tomar banho, vestir a roupa, tomar café e arrumar a bolsa ou mala de trabalho.

 

— Quando reunir a família para uma refeição, troque as posições na mesa; isso mudará seu ponto de vista daquele ambiente.

 

— Procure ler em voz alta ou mesmo escutar alguém lendo para você, isso faz com que circuitos cerebrais diferentes sejam ativados.

 

Correia conseguiu com essas sugestões ao menos estimular os ouvintes do Jornal da CBN, que compartilharam algumas mudanças que já fizeram nos seus hábitos. Tem quem trocou o mouse de lado; tem quem passou a tocar instrumentos musicais com a mão invertida; tem quem goste de caminhar ou correr de costas; tem de tudo um pouco.

 

Diante da intolerância que registramos em comentários e discussões políticas, penso que poderíamos ampliar esse exercício para o campo do pensamento.

 

Por exemplo, antes de elogiar a fala ou a atitude de algum politico que você admira, imagine o que você pensaria se aquilo fosse feito por um adversário político. Da mesma maneira, antes de criticar o comportamento de um adversário político, imagine como você reagiria se fosse do político que você admira.

 

Se feito com honestidade, esse exercício aumentaria nosso senso crítico e tolerância com os que pensam e agem diferentes de nós. Vamos tentar?

Entrevista: na ciência, respostas geram novas perguntas, diz médico sobre mutações no vírus da febre amarela

 

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O vírus da febre amarela que infectou e matou pessoas em Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro, é diferente daqueles que andavam antes no Brasil e mesmo em outros países. Pesquisadores da Fiocruz conseguiram identificar ao menos oito mutações no vírus atual, a partir do sequenciamento completo do genoma do micro-organismo, obtido em dois macacos bugios.

 

Maurício Nogueira, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, disse, em entrevista ao Jornal da CBN, que as informações sobre a mutação são essenciais para entendermos o surto recente da doença, no Brasil.  Porém, ainda não é possível dizer se foram essas mutações as responsáveis por trazer de volta ao país o medo em relação a febre amarela.

 

Para ele o próximo passo é aumentar o estudo com amostras do Brasil inteiro para entender o que cada uma dessas mutações causou ao vírus. Nogueira lembra que na ciência cada nova informação gera novas perguntas.

 

No entanto, é taxativo: a vacina aplicada na população das regiões que sofrem o surto de febre amarela  segue sendo eficiente e a melhor maneira de impedir que outras pessoas sejam infectadas e até mesmo morram.

 

Conte Sua História de SP: Vanzolini, da música à ciência

 

Paulo Vanzolini

Mestre da música brasileira e dos mais respeitados cientistas ligados à zoologia no mundo, Paulo Vanzolini é o personagem do Conte Sua História de São Paulo. Ele nasceu em 1924 na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, filho de pai engenheiro e professor da Poli-USP e mãe dona de casa. Cresceu entre a Alameda Tietê e a rua Atlântica, nos Jardins, um bairro bem diferente nos anos30. Este e outros momentos foram registrados no depoimento de Vanzolini, gravado pelo Museu da Pessoa:

Ouça o depoimento de Paulo Vanzolini, ao Conte Sua História de São Paulo, sonorizado por Cláudio Antônio.

Conte você, também, mais um capítulo da nossa cidade. Envie um texto ou agende uma entrevista em áudio e vídeo no site do Museu da Pessoa. O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às dez e meia da manhã, no CBN SP.

A conversa esquentou com meu sogro

 

Por Rosana Jatobá

http://www.flickr.com/photos/mikaelmiettinen/

Ele quer uma neta. E deseja que chegue logo, com a cara da mãe.
– Já tem muito homem nesta família. Precisamos de mais beleza, graça e sensibilidade.

Sem cerimônias, elenca as recomendações para a futura criança :
– Ela vai crescer ouvindo os clássicos da música e da literatura internacional. Vai falar línguas desde cedo e frequentar museus e galerias de arte.

As sábias palavras são do meu sogro: homem de bem, de bom gosto e de personalidade forte. Com inteligência de sobra, comanda a conversa, discorda de tudo e dita as próprias verdades.

A bola da vez é o aquecimento global.

-Esses ambientalistas que você defende são uns imbecis! Ignoram a história da humanidade, os ciclos naturais da Terra, e se apossam de teorias fajutas de oportunistas, como Al Gore. Quem disse que o suposto aquecimento global é resultado da ação humana?

Como não resisto a uma provocação, exponho meus humildes conhecimentos.

– Esta foi a conclusão a que chegou um dos maiores economistas do mundo, Nicholas Stern, em outubro de 2006, antes mesmo de Al Gore surgir na cena ambiental com o seu panfletário filme: ” Uma verdade inconveniente” . Stern, ex-economista -chefe do Banco Mundial, demonstrou, por meio de um relatório de 700 páginas, que o acúmulo de gás carbônico é a principal causa do aquecimento terrrestre. Mais tarde, em 2007, cerca de 3 mil cientistas corroboraram a tese e publicaram o mais extenso e completo documento sobre as mudanças climáticas provocadas pelos gases de efeito estufa, o IPCC.

– Relatório manipulado para atender a grupos interessados nas polpudas quantias destinadas às pesquisas do clima!

– Nem todos os dados estão sob suspeita. E o relatório foi ratificado por quase toda a comunidade cientifica.

-Quem ousa desafiar a postura oficial é relegado ao ostracismo. Tem muito climatologista contrário à doutrina do aquecimento global sendo boicotado e impedido de publicar seus próprios trabalhos.

-Mas a meteorologia já aponta para um cenário devastador, que tende a piorar nas próximas décadas, caso não haja uma redução das emissões.

-Como eu posso acreditar que os modelos climáticos acertarão as previsões para daqui a 50 ou 100 anos, se eles não conseguem dar conta de eventos de curto prazo?

Para uma moça do tempo, essa crítica é como uma facada….Mas tomo fôlego e continuo o debate.

-Em que dados você se baseia para contestar o relatório?

-Na “mea culpa” feita por cientistas do próprio IPCC, como o climatologista Phill Jones. Ele reconheceu que parte das informacões do relatório não passa de especulação sem base científica. E o pior: que nos últimos 15 anos o mundo não teve aquecimento algum. Mojib Latif, outro cientista da mesma cepa , acaba de desmentir a doutrina que defendeu por anos. Ao invés de aquecimento global, vamos ter resfriamento global causado por alterações cíclicas naturais nas correntes oceânicas e nas temperaturas do Atlântico Norte.

-Você acha que toneladas de CO2 lançadas todos os dias na atmosfera sobem impunemente? Tanta poluição não vai cobrar um preço? É natural retirar materia orgânica das profundezas da terra, sedimentada em forma de petroleo, queimá-la e lançá-la pelos ares? Já temos 375 partes por milhão de CO2 na atmosfera.

– Em meados do século dezenove, quando mal se ouvia o barulho do motor, a concentração de CO2 chegou a superar 500 ppm. E há cerca de 35 milhões de anos, esse nível passou de 1000 ppm !!!!. E nós estamos aqui pra contar a história….Você, jornalista, não pode acreditar neste “catastrofismo climático” de projeções alarmistas!

É claro que uma fera como meu sogro, Mestre pela FGV, com especialização em Standford, iria esgotar meus argumentos. O silêncio veio como um soco no estômago, seguido da inevitável dúvida:

-Será que fui ingênua o bastante pra me deixar envolver pelo discurso da moda?

Relembrei o dia em que comecei a estudar com mais afinco as mudanças climáticas, inspirada pela palestra do Al Gore na Oca do Ibirapuera; os congressos que frequentei, as entrevistas a que assisti; os fins de semana debruçada sobre livros e apostilas do curso de gestão ambiental….. Será que fui iludida, que é tudo uma farsa? Um lobby perfeito da indústria verde?

A inquietação me acompanhou por dias e dias. E só perdeu sentido quando subi ao palco de um importante auditório em São Paulo para apresentar um evento da maior rede varejista do mundo. O Wal Mart anunciava o seu Pacto de Sustentabilidade. A rede, que até pouco tempo era conhecida pela falta de preocupação com o meio ambiente e com as condições de trabalho de seus funcionários, agora exibia uma ampla plataforma de projetos de responsabilidade econômica, social e ambiental.

Na esteira do Wal Mart, milhares de empresas dão o exemplo. E ainda que a motivação seja puramente capitalista, para obter vantagens competitivas, o fato é que a estratégia de negócios está reduzindo a sobrecarga sobre o planeta.

Essas companhias não esperaram para ver se há mesmo aquecimento global ou não; ou se o fenômeno decorre dos caprichos da natureza ou dos desmandos do ser humano….

A questão ficou pequena diante da maior urgência, que é a de preservar os recursos naturais para garantir a nossa sobrevivência e a das futuras gerações. Se mantido o ritmo atual de consumo, vamos precisar de dois planetas no ano de 2050, calcula o grupo conservacionista WWF.

Desejo que a neta do meu sogro frequente as aulas de balé e os concertos de música clássica, sem precisar usar máscaras de oxigênio no percurso até as academias. Que ela caminhe pela faixa de areia fina e branca da praia, não invadida pelo mar. Que ela tenha o prazer de admirar Ipês, Paus-ferro, Pinheiros e Jatobás.

E que seja tão inteligente quanto o avô para perceber que “há que se cuidar do broto, pra que a vida nos dê flor e fruto”!!

Vai contestar, meu querido sogro?


Rosana Jatobá é jornalista da TV Globo, advogada e mestranda em gestão e tecnologias ambientais da USP. Toda sexta, conversa com os leitores do Blog do Mílton Jung sobre sustentabilidade – e de família, também