Quintanares: O cisne

 

 

Poesia de Mário Quintana
Interpretação de Milton Ferretti Jung

 

O cisne que estava imóvel sobre o piano
desliza agora sobre as águas negras
ao som da valsa
que eu tocava a quatro mão
uma menina Gertrudes
se fosse ao menos uma Gertrudes Stein

 

o nome da valsa não me lembro
seria o cúmulo se fosse aquela sobre as ondas
que se tocava tanto no fim do mundo
e o pior de tudo
é que as visitas aplaudiam sinceramente
que menino inteligente

 

oh, tempos
oh, gente
a menina Gertrudes era enjoada e pretensiosa
como suas calças de babado.
e olhava-me com ares de quem sabia coisas
de que eu não entendia nada
é que as meninas sabem mais do que sabem

 

e havia um velho
que me parecia mais velho do que todos os retratos da sala
e que dizia sempre naquela sua voz de molas de relógio
ai, que Catitas,
ai, que catitas

 

e com as palmas das visitas
nem se ouvia o rumor das águas infinitas
que vinham subindo, subindo

 

 

Quintanares foi ao ar, originalmente, na rádio Guaíba de Porto Alegre

Foto-ouvinte: Estão desnorteados, em São Paulo

 

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Por Luis F. Gallo
Ouvinte-internauta

“Situação inédita em nossa cidade,os dilúvios diários tem deixado também os patos e cisnes do parque Ibirapuera ‘desnorteados’. Me deparei com eles logo após uma tormenta dessas sob a Rosa dos Ventos, como que se procurando um rumo, um caminho. Estão ali se perguntando, o que fizeram por aqui ? Pra onde a gente vai ? Esse lugar tá muito louco ! Que medo … Serão só eles, com essas dúvidas?”