De fim do mundo

 

Por Maria Lucia Solla

mundo de color

Ouça De Fim do Mundo na voz e sonorizado pela autora

O mundo que conhecemos vai chegando ao fim. Fácil de ver e de sentir em cada célula dos nossos corpos: físico, emocional, mental e espiritual. Escolhemos abandonar nossas forças, demos poder demais à sofisticada louça e às nossas mentiras loucas. Abrimos mão da luta com a mesma facilidade com que amassamos papel de salgadinho e atiramos pela janela. Criamos problemas onde só deveria existir amor, ferimos e somos feridos com facilidade e banalidade assustadoras. Fazemos de lixo rios, mares, estômagos, rins, fígados. Permitimos que nos violentem dentro e fora de casa, todo dia, dia a dia, pouco a pouco e nos deixamos subjugar e violentar, para facilitar o trabalho sujo.

Nossa civilização se acha especial. Nos consideramos melhores do que tudo o que sempre existiu, porque sofremos de escrachada megalomania galopante. Mas não tem sido sempre assim? O mundo que gregos e romanos conheciam também um dia chegou ao fim. Os homens das cavernas têm sido substituídos, paulatinamente, por homens que acreditam ter submetido o ferro, o bronze, os mares, os céus, ao seu prazer.

O mundo que nós conhecemos, não o conhecemos mais; entra dia, sai mês, escorrem-se os anos. Cada um no seu canto, vamos perdendo o encanto.

Vemos ratos-bandidos viajando de avião, escoltados ou não, acostumados a coordenarem incêndios, assassinatos, sequestros, peculatos, brancos e mulatos; e pelo menos agora, parte deles é retirada de suas celas-gabinetes, custeadas pelo teu e o meu dindim, a custo do teu e do meu mundo e do mundo do meu e do teu filho; do teu e do meu neto, e de todos os que estão na fila, ainda por vir, decerto.

Tem gente achando que faz pacto com Deus e que crê possível o monopólio dele; cada um proprietário do seu deus. Sob medida para os teus bolsos e os meus.

atenção fanático de plantão
deus não está só na tua
e nem só na minha mão
ele é cada célula do meu corpo e do teu
seja você beato ou ateu
muçulmano ou judeu

acorda irmão
abre o teu coração
com gestos precisos
nem que sejam precisos martelo e formão

Ouvi bem? não teria sido efeito dos remédios do hospital onde parte do dia eu passei? No rádio, boa companhia para o trajeto congestionado, dirigindo na volta para casa, ouvi um homem dizer a expressão que me animou: “polícia pacificadora”. Efeito do Berotec, morri e não percebi. Sua voz era suave, mansa; agradecia mais do que acusava.

não parecia mentira
por favor de mim a esperança não tira
tiras homens das armas se unem
valha-me deus que meus ouvidos continuem
a ouvir a paz fardada e a guerra enfraquecida
a ouvir cada mãe de seu filho envaidecida

valha-me deus que eu não esteja delirando
que eu veja pai e filho se abraçando
filho e mãe se respeitando
amantes se beijando e amor muito
muito amor jurando

valha-me deus que eu esteja certa
que apesar do coração que hoje aperta
apesar de vermos de perto todo dia a morte
venhamos a ter cada dia melhor sorte

valha-me deus que eu continue a cada dia
a fé no amor descrevendo
e da dor pouco a pouco esquecendo

que escorra pelo esgoto o mal
que escoe pelo ralo cada copo de boa-noite-cinderela
que príncipe e cinderela se respeitem
ela a ele ele a ela

então bom dia cinderela
que o sonho
do jeito que você sonhava
acabou.


Maria Lucia Solla é teraopeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung