Conte Sua História de São Paulo: sem se ver e juntas, desde os tempos da escola

Rosiléne da Costa Ferreira

Ouvinte da CBN

Cena do filme São Paulo Sociedade Anônima de 1965

Ainda no ano dourado de 1965, éramos 17 adolescentes cursando o terceiro ano clássico (TAC) num tradicional colégio para meninas, em São Paulo. Unidas nos sonhos, brincadeiras, projeções para o futuro, com muito estudo, disciplina e severa vigilância das freiras — o que não nos impediu de paquerar os rapazes da faculdade em frente.

Formadas, cada uma seguiu seu caminho. Tornamo-nos profissionais de respeito, esposas, mães e, mais tarde, avós e aposentadas. Algumas mantiveram contato entre si através de encontros casuais e cartas mas não nos vimos mais.

Em agosto de 2019, uma delas, com um esforço digno de detetive profissional, investigou o paradeiro de cada uma e conseguiu reunir onze através do celular: São Paulo, Ubatuba, Recife , Rio de Janeiro, até Nova Zelândia!

Com a pandemia ficamos mais unidas, numa comunicação diária sempre ansiada, preocupadas umas com as outras, dando força na tristeza, risos nas conquistas, flores virtuais, receitas, fotos de família e pequenos mimos guardados com cheiro de lembranças.

Hoje, somos senhoras de 73 anos ou mais. Nos apelidamos de “joaninhas”. Nos unimos numa folha para salvar aquela que está em perigo. Rimos e choramos juntas, sem perspectiva de nos encontrarmos novamente, ao menos por enquanto.

É um alento nesses tempos de reclusão e solidão contarmos umas com as outras todos os dias graças ao meio virtual, sem nos vermos há 55 anos, com muitas saudades. É muito tempo. 

Quem sabe um dia?

Que delícia viver e reviver!

Rosiléne da Costa Ferreira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

De caminho

 

Por Maria Lucia Solla

Hoje assisti a Colegas. Quinta-feira à tarde, cinema e Shopping praticamente vazios, boa companhia, bom chocolate, a receita ideal para eu ir ao cinema hoje em dia. Já fui rato de cinemateca quando ainda era no centro da cidade, se não me engano, na 7 de abril, Não tinha tempo ruim que me segurasse em casa, nem esperava ter companhia. Ia atrás da Nouvelle Vague, Godard, Fellini e outros gênios da Nova Onda, arte contestadora e transgressora.

 

Hoje quase não há mais o que transgredir. A minha geração alcançou vitória na maioria de seus anseios. Lutamos bravamente, encaramos preconceito de homens que não gostavam nem um pouco que ‘suas’ mulheres se relacionassem com uma divorciada, e havia mulheres que simplesmente se esqueciam de convidar a divorciada para as festas em que os maridos estivessem presentes. Almoçavam com a divorciada, mas a mantinham a distância segura. Usamos mini-saia, fumamos, bebemos, fomos à luta quando foi preciso manter a família.

 

Tinha luta, eu estava envolvida a meu modo, mas hoje, quando finalmente aceitei que não sou imortal, que não posso tudo, que luto diariamente para poder conviver comigo mesma, dentro de mim, em momentos favoráveis ou não, continuo, percebendo a urgência em entendermos a mensagem do filme Colegas. Cada um do seu jeito, que é só como se pode ser.

 

De todo modo, qualquer caminho na vida passa pelo esvaziar-se, cada um no seu ritmo, e deixar-se completar cada vez em novo formato, com diferente capacidade de percepção do que realmente é a vida e de como somos diferentes entre diferentes. Todos. Ou será que você pensa que só os outros são diferentes.

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung