De saudade

 


Por Maria Lucia Solla



Ouça “De Saudade” na voz e sonorizado pela autora

Minha comadre me escreveu. A gente se gosta muito, mas dá para contar nos dedos as vezes que nos vimos nos últimos muitos anos. Moramos a mais de mil quilômetros uma da outra, e temos nossas vidas. Ela queria saber mais sobre mim. Tem saudade. Eu também.

então foquei
olhei para mim com mais atenção
no embalo da energia forte
que está por toda parte
da esperança e vontade de ser melhor
que dá para sentir no ar

em menos de um segundo
encontrei em mim o mundo
você ele ela eles elas

tateando meu rosto
longe do espelho
reconheci pai mãe filho irmão
parente amigo
o que sonhei viver
os sonhos que vivi
e nos meandros da lembrança
me perdi

Vi meus erros que brotavam, acredite!, da mesma fonte de onde jorram os erros de todos; de afetos e desafetos, de povos de todas as terras. Cheguei o mais perto que pude da fonte de onde jorravam alegrias. A multidão se apinhava de tal modo que morria por um punhado, no afã de viver delas. Em volta dos meus acertos havia poucos; matavam a sede e o calor lá, onde apodreciam erros velhos, decadentes, que eu já descartara, e os que ainda estão estampados na minha cara.

chorar
escolhi sorrir
dizer
preferi calar

foi quando senti que as fontes eram interligadas
a que te faz chorar e a que te deixa contente
a que te faz olhar para trás
e aquela que ilumina o caminho à frente

senti impulso de gritar, bradar, alardear
quando percebi o brilho brincalhão de uma estrela
que me mostrava um caminho
confiante e curiosa segui
e foi então que vi
claramente
que a água de todas as fontes tem uma só origem

saí então da terra da lembrança
e voltei ao presente
de onde
por muito tempo
eu estive ausente

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung.