De crime e castigo

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça De crime e castigo na voz e sonorizado pela autora

Por que coisas ruins acontecem a pessoas boas é o título de um livro que li há muito tempo. Do conteúdo só me lembro o título, um mistério que me fascina, levada em caríssima conta a relatividade dos adjetivos ruins e boas. Me distancio, aperto bem os olhos, olho para o mistério dos acontecimentos, tento enquadrar uma tela onde o desenho do que percebo faça algum sentido, mas o desenho muda, muda sem trégua, e não vejo sombra de definição antes que uma cena tome o lugar de outra, e outra e outra.

Quem sabe? Se é que existe resposta que não mude de feitio no mesmo ritmo em que se cria a próxima pergunta. Ontem aquela ruga não estava ali, a dor do abandono também não. O novo amor, que parecia que nunca ia chegar, chegou e já foi embora também, como todos os amores de todos os tempos, de todos os mundos. Como tudo. Tanto chega e tanto vai, o movimento é contínuo; dele é feita a vida, mas a gente não passa incólume. Se permite marcar, se permite impressionar. E o registro se modifica também, como foto velha que desbota. A dor do parto cresce para ser lembrança de alegria; uma ou outra alegria, que estava na caixinha de pronto socorro contra a tristeza, foi se perdendo pelo caminho, e quando mais a gente precisa dela, cadê?

O Deus que mora em mim, e em quem eu moro, não tem fraqueza humana; é equilíbrio puro, na essência da pureza jorrada da fonte. Lá onde ela não nasce porque sempre jorrou. Ele não mantém um diário, ou blog, onde anota cada falha tua, cada escorregão meu para depois enviar-nos a sua ira em forma de dor. Sei que ruim e bom são faces da mesma moeda que nos serve de chão; agora, o difícil é deixarmos de ser a criança mimada que sofre a cada coisa que não acontece a seu contento. Somos pirralhos batendo os pés. Por isso sofremos. Não somos santos nem bandidos.

Não sei você, mas eu tenho a tendência de melhorar o ruim e enfeitar o bom. Para esse eu tenho sempre tempo e disposição para mais um retoque. O ruim da história é que à medida que camuflo as crateras, ando em círculo e caio no mesmo buraco. Aí, dói.

Sou inteligente, dura na queda, mas aprendo a viver devagar demais. Fico tentando puxar a vida para a minha estrada, quando o indolor seria andar livremente explorando quantas alamedas pudesse. Cabeça mais rápida que o coração. Imagino uma ponte entre os dois e tento mandar o conhecimento ponte adentro, estrada a fora, para chegar ao coração, onde tudo se concretiza, porque é só quando ele entende, quando ele aprende, que teoria cresce e vira compreensão.

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung