Por Maria Lucia Solla
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Não acreditei quando encarei o voraz condicionamento que domina meu comportamento. Aí me perguntei: como pode?! eu que vivo furungando os modos de não mofar, não embolorar por dentro e por fora, me percebo contaminada desse jeito!
Esta semana, quem me deu a cutucada foi a geladeira, que de fria, pelo jeito, só tem o interior
Ela morava, originalmente, na cozinha – como manda o figurino. Acontece que sou avessa a figurinos, e a minha saiu de lá para morar no quartinho dos fundos, que faço de despensa. Para chegar nela eu saía da cozinha, dava seis passos atravessando a área de serviço, entrava na despensa e ela ficava ali, do meu lado direito.
Saiu da cozinha para que eu pudesse instalar, no seu lugar, uma bancada para amassar a massa de pão.
Detalho o trajeto dela para demonstrar a gravidade do caso.
Aqui em casa as coisas se movimentam bastante. Meu quarto já foi na sala de cima porque eu queria curtir o amanhecer, o sol, a lua, o céu, as estrelas. Já foi no quarto de hóspedes e agora se instalou onde deveria ter se instalado desde o começo. Importante dizer que quando o quarto desceu, a sala de jantar subiu. E vou parar por aqui.
Toda essa informação faz parte do dossiê que compõe a minha defesa. Vem ajudar a provar que não sou apegada a hábitos. Gosto da mudança e vivo, há muito, aninhada em seus braços.
Faz quinze dias, pouco mais, pouco menos, que tirei as máquinas de lavar e de secar, da área de serviço e instalei as ditas cujas no banheiro da despensa. Na realidade negociei com a pia do banheiro, tipo o Chaves da Venezuela: as máquinas entraram e ela dançou!
Isso feito, a geladeira ocupou o lugar das máquinas.
Não se estresse que eu chego lá. A geladeira, as máquinas, a despensa, a pia e a bancada para amassar a massa do pão vêm explicar meu comportamento de cachorro de Pavlov.
Durante esses quinze dias eu saía da pia, passava batido pela geladeira, entrava na despensa e me surpreendia com a falta dela. Ene vezes por dia. Tudo bem que quando cozinho fico mergulhada nos mistérios da alquimia, mas não tinha noção de que eu podia funcionar assim no piloto automático!
eu me pensava livre, senhora da própria vida
que nada!
sou toda condicionada
de pura decisão não tenho nada
e é bom que eu perceba isso logo
para não sair por aí
cheia de pompa e circunstância
dando e vendendo arrogância
eu pensava ter as rédeas
em toda situação.
que nada!
quando penso ser cabeça
me percebo inteira coração
até o ortopedista se enreda
e o raio X então lhe segreda
que osso que nada
você procura na porção errada
olho para trás, para os lados
e o que vejo da minha vida
é um colar de situações
de drama, humor e paixões
que tem um pingo ou outro
das minha próprias decisões
Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e organiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung com a intenção de tirar nossos móveis do lugar
