Teoria da conspiração perdeu a graça

 

Antes de entrar no ar no Jornal da CBN sou provocado pela Ceci Mello, âncora do CBN Primeiras Notícias, a opinar sobre algum tema que ela considere relevante ou interessante. Hoje, motivada por reportagem de primeira página de O Globo (Agentes da ditadura criam rede de arapongas), trouxe o tema da teoria da conspiração que move grupos e pessoas no decorrer da história.

Houve uma época em que nossa imaginação era rica e ao vermos (não, eu não havia nascido ainda) Yuri Gagari no espaço teimávamos em dizer que ele não era o primeiro a chegar lá. Teria sido o primeiro a voltar vivo, pois a Agência Espacial russa teria enviado outros tantos que morreram no meio do caminho, em histórias que somente seriam encontradas em documentos ultra-secretos.

A mesma desconfiança levou milhares a imaginar exatamente o contrário quando a televisão mostrou Neil Armstrong pisar a lua. Até hoje é possível ler na internet textos que põem em dúvida esta façanha, alegando que teria sido apenas uma estratégia americana para tentar superar o feito da inimiga Rússia e justificar os milhões de dólares gastos pela Nasa.

Por estes devaneios, muitos mataram e muitos morreram. Encontraram inimigos onde eles não existiam. Sofreram uma espécie de esquizofrenia enrustida. Indivíduos deixaram de aproveitar a vida com medo de armadilhas que estariam sendo colocadas em seu caminho e destruíram relações pela falta de confiança.

Atualmente, nossas caixas de correio eletrônico têm sido alvo de muitas dessas teorias.

Há quem diga que a “casa caiu” após se descobrir manipulação no sorteio da Mega-Sena conforme reportagem publicada na televisão; fala-se da morte de empresário, pai de famosa modelo, após pegar grave doença em lata de cerveja contaminada; escreve-se sobre isenção fiscal que beneficia empresa de comunicação que promove arrecadação para organização internacional; e mais um monte de baboseira que não se sustenta no primeiro Google.

Mesmo que perca meu tempo respondendo às mensagens, há quem prefira acreditar nestas fantasias. Sinal claro da falta de confiança em instituições e em nós mesmos. Ou do tamanho da loucura que toma a sociedade.

Ao menos, no passado, as teorias eram mais bem elaboradas, criativas. Hoje nem isso acontece. Perdemos até a riqueza de nossas alucinações.