Conte Sua História de São Paulo: Luizinho, o guarda do coração da cidade

Odnides Pereira

Ouvinte da CBN

Reprodução de jornal da época

Nasci na zona norte de São Paulo, em 21 de abril de 1959. 

No início dos anos de 1970, eu trabalhava como office boy e para entregar a  correspondências, às vezes, cruzava a rua Coronel Xavier de Toledo com a Praça Ramos de Azevedo,  onde havia a antiga loja Mappin, no centro. 

Uma personagem daquela época trabalhava organizando o trânsito e proporcionando segurança aos pedestres: o Guarda Luizinho, apelido que Luiz Gonzaga levou para  a vida.

Muitas vezes, eu ficava parado na calçada, em frente ao Mappin, apenas para assistir às peripécias que esse guarda de trânsito proporcionava ao público. 

Quando o motorista parava em cima da faixa de pedestre, Luizinho abria a porta e pedia que os pedestres passassem por dentro do carro, haja vista que o infrator estava bloqueando o caminho.

Ele também não deixava barato para os pedestres descuidados. Quando um de nós, impaciente, não esperava o farol fechar para os carros e ameaçava cruzar para o outro lado da via, o Guarda Luizinho também intervinha. Pegava o pedestre pelo braço e o fazia voltar à calçada da qual havia saído. Uma caminhada curta, mas suficiente para que ele desse o maior sermão. 

Às vezes, ele aproveitava essa situação para cantar. Uma de suas músicas favoritas era “Eu nasci há dez mil anos atrás”, de Raul Seixas. Naqueles tempos, fim dos anos de 1970 e início de 1980, o  Guarda Luizinho havia ficado famoso devido as reportagens publicadas nas rádios, nas emissoras de televisão e nos jornais. 

Atualmente, Luiz Gonzaga mora na minha zona norte, está com 88 anos e faz parte do Conselho de Segurança de Santana. Para ele, que segue sendo nosso Guarda Luizinho, com a função atual pode seguir ajudando as pessoas, em São Paulo

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

O Guarda Luizinho, ops, Odnides Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: vamos vestir a cidade de flores

Amaryllis Schloenbach

Ouvinte da CBN

Imagem da poetisa Colombina, a Cigarra do Planalto

O meu amor por esta encantada cidade brotou desde a mais tenra infância. Era bem pequena e ouvia meus pais enaltecerem louvores aos inúmeros atributos de São Paulo. Tenho gravado na memória a ideia de que meu pai nadava em um límpido Rio Tietê e minha mãe transportava para a tela as paisagens bucólicas que se estendiam pelo planalto.

Eu nasci no Bixiga, onde voltei a residir quando adulta, e onde moro no mesmo endereço, desde 1981. Aqui aguardo o momento de partir para o mundo das estrelas. 

Foi para essa decantada região histórica e turística que dediquei o meu poema “Postal do Bixiga”. Apesar dessa relação amorosa com o bairro e arredores, minha infância se desenvolveu, nos idos da década de 1940, em Pinheiros, lugar pelo qual tenho amáveis lembranças. 

Muitas vezes fui levada a respirar o delicioso ar do bosque de eucaliptos, a pescar com peneira os peixinhos do rio que leva seu nome. Naquela época, meninas e meninos felizes, coleguinhas do grupo escolar, brincávamos tranquilamente na rua, jogávamos bola, trocávamos figurinhas, e brigávamos, também, só pelo prazer de fazer as pazes. Ao anoitecer, as mães nos chamavam da janela das casas para o banho, imprescindível graças ao barro e aos arranhões que acumulávamos no decorrer das tardes.

Era hábito, aos domingos após o almoço, junto com os primos, sermos levados ao Parque Trianon, para a diversão de observar as árvores, os animais que lá eram mantidos bem cuidados e, acima de tudo, apreciar a incrível performance do bicho-preguiça.

Outro passeio que sempre lembro com saudades era ao Viaduto do Chá, nos fins de tardes, para acompanhar o chilrear de incontáveis pássaros, que se recolhiam nas frondosas copas das árvores, plantadas próximas as escadarias, nas imediações do Teatro Municipal.

Saudosa, também, das visitas que fazia a minha tia-avó, a consagrada poetisa Colombina, a Cigarra do Planalto, que então morava em um apartamento no Largo do Arouche, onde no espaçoso terraço escreveu vários livros, deixando versos imortalizados como os de “As Árvores da Praça da República”.

Aproveito a conclusão desse relato e faço apelo aos meus conterrâneos. 

Antes devo contar para aqueles que não conhecem o passado de nossa cidade que, no fim da década de 1950, o jornal “A Gazeta”, que gozou de grande prestígio até sua extinção, promoveu campanha com uma série de 50 reportagens sob o título “Vamos Vestir São Paulo de Flores”. A promoção foi levada a cabo pela redatora Maria Thereza Cavalheiro.

A jornalista, também poeta e ecologista de primeira hora, escreveu livros de poesia, contos e trovas. Antes de seu passamento, que ocorreu na primavera de 2018, escreveu o livro “Consciência Ecológica na Educação”, que ainda não chegou a ser editado. 

A escritora, minha saudosa prima e querida mestra, está por merecer a homenagem póstuma que espero lhe seja prestada pelos amantes do verde. Quanto a nós que aqui estamos, peço que cada um se encarregue do modo que lhe for possível, por amor à vida e à natureza, tornar realidade, o lindo sonho de “Vestir São Paulo de Flores”!

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Amaryllis Schloenbach é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: teu povo deseja andar

Marcia Lourenço

Ouvinte da CBN

Photo by Toni Ferreira on Pexels.com

Minha querida São Paulo,

Tens o porte de nação.

De grandeza, imponente!!

És o Gigante em ação.

O cintilar de tuas luzes,

Fazendo adorno ao luar,

Quando anoitece parece

Um mar imenso a brilhar.

Na tua história, firmeza,

De um povo que se supera.

O passado te fez forte.

Hoje, avança e prospera.

O descanso não conheces,

De uma jornada constante.

O trabalho te espera,

Vai sempre… segue adiante.

Tens recebido a muitos

Que respeitam esse chão,

Fazem parte integrante

Desse grande coração.

Alicerçado em justiça,

Teu povo deseja andar.

Com fé em Deus e trabalho,

Assim, essa Terra honrar.

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Márcia Lourenço é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o “chopps” do bar de Moema que refresca minha memória

Marina Zarvos

Ouvinte da CBN   

Foto de cottonbro studio

“Caminho às cegas pelos corredores

                                                           do tempo e subo e desço seus degraus,

                                                                              suas paredes toco e não me movo,  

                                                                               volto onde comecei” 

(Otávio Paz)     

 ‘Vai um chopps e dois pastel pra mesa seis! “

Assim virou folclore, na gramática dos bares e botecos, o jeito paulistano de lidar com singular e plural. Sim! O plural subtraído parece ser o usual. Adota-se o singular e ponto final.                                               

Observo o vaivém dos garçons no movimentado e conhecido bar em Moema, ponto de encontro de quem busca um espaço para a tradicional “happy-hour” ou para turistas que desejam saborear tiras de picanha na chapa, acompanhadas de acepipes e do tilintar de copos e brindes.

Vez ou outra, rendo-me ao convite inebriante dos aromas e do alegre tumulto. Fiz isso dias atrás. Com apenas alguns passos, já estava acomodada em minha mesa preferida, na calçada. Como num passe de mágica ou pelo efeito do chope, senti-me como quem entrava no túnel do tempo. 

Retornei ao mesmíssimo local, no fim dos anos de 1960. 69 para ser preciso. As pessoas festejavam no 25 de janeiro, 415 anos de São Paulo, que inaugurava a monumental Avenida 23 de Maio, com previsão do trajeto centro-aeroporto de Congonhas em apenas 15 minutos. Cenário de um tempo em que a algazarra das crianças subindo e descendo os degraus da escada, ou dos adolescentes conversando na calçada, e namoricos no portão ou bailinhos na garagem, eram alaridos da liberdade.

As ruas invadidas pelo asfalto que recém-chegara em nosso bairro, anunciavam uma era de desenvolvimento: o velho bonde sendo retirado da Avenida Ibirapuera, enquanto os sinos da igreja dobravam, talvez num lamento por sua morte. O Cine Jurucê, palco para grandes romances e beijos roubados, sendo desocupado, dava lugar a uma grande loja de bolsas e malas. 

Passeio por diversas ruas do bairro: Anapurus, Jurema, Aicás. Lentamente me aproximo e revejo o conjunto de casas geminadas da Jamaris. A casa de minha infância era a de número 615. Entro pé ante pé, quero tocar as paredes da casa e não me movo, por instantes apenas, volto a ter 15 anos.

— Senhora! Senhora! Mais um “chopes”? pergunta o solícito garçom.

A magia se desfaz abruptamente. Atônita, constato que o conjunto de casas fora demolido, recentemente. Prenúncio de mais um megaempreendimento. E eu, esta senhora que já foi menina, moça, jovem senhora e agora avó, testemunhei muitas histórias de nossa cidade e do bairro de Moema.

Ao retornar para 2024 e para a casa em que brincava, hoje o bar do meu chope, compartilho uma preciosidade histórica do lugar: ali morava uma grande amiga, e sua mãe só não permitia que brincássemos no corredor lateral da casa, pois levava ao ateliê do pai. Lá era o local em que ele pintava e não deveria ser incomodado. Não podíamos caminhar nem às cegas até lá. Isso sempre me intrigava.

Só anos depois, o mistério me foi revelado: ali, onde hoje é o famoso bar, morava o pintor Nonê de Andrade. Sim! Minha amiga era neta de Oswald de Andrade, filha de Nonê. Que privilégio ter frequentado aquela casa! Histórica, incrustada em Moema e desconhecida da maioria, porém hoje muito popular como o melhor chope do bairro, na esquina da Anapurus com a Jurema.

Volto de minha viagem pelas memórias, sorvo um gole do gelado chope tento projetar um futuro no qual o plural e o singular, na gramática da vida, sejam empregados corretamente e convivam harmoniosamente. Um futuro que abrace o progresso sem deixar de cultivar a memória do passado. 

Tim-tim! Um brinde aos que nos antecederam!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Marina Zarvos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Seja você também protagonista da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias, visite o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: os caminhos que me levaram a entrar na vida adulta

Por Sergio Damião

Ouvinte da CBN

Foto de Mert Kaya

Sou profissional da área comercial há mais de 40 anos, 63 de vida. Autor do livro “Se Vira! Você não é quadrado! Surpreenda, atenda bem, venda mais”

(Livraria Books). Sou paulista de Santo André, descendente de nordestinos. Apaixonado loucamente por São Paulo.

Minhas maiores lembranças de Sampa vêm do tempo do meu início de trabalho, aos 18 anos, quando me formei em técnico em artes gráficas, na Escola Senai Theobaldo de Nigris, na rua Bresser.

Traço um paralelo direto com o clima. Como era bom saber que passaríamos três meses seguidos em um outono, com neblina — a verdadeira São Paulo da Garoa. Minha mãe, Dona Toca, acordava cedo para fazer o café e preparar minha marmita. Ela sempre recomendava:

– Serginho, não esquece da blusa, do guarda chuva. É outono!

Eu pegava o busão da CMTC azul e creme, às 5 horas, daqueles monoblocos com  motor atrás, que quando lotava dava até para sentar sobre ele, escondido do motorista e do cobrador. Fazia o trajeto  São Matheus-Praca da Sé entre cochilos e conversa com os Dinos, um grupo de amigos que conhecemos desde de 1965 e até hoje nos encontramos.

Eu atravessava da Praca da Sé, via rua Direita, viaduto do Chá, 24 de maio, cruzando o Teatro Municipal, o Mappin, a Peter, a Casa Los Angeles e aquelas vitrines bonitas. De chamar atenção. Estar com aquela gente madrugadora toda manhã era o primeiro sinal de que entrara na vida adulta.

Em um primeiro momento de estágio e depois contratado, com carteira assinada, eu seguia até o Largo Paissandu  e embarcava em outro busão, em direção a Rua do Bosque. Passava a Avenida Celestino Bourroul e a rua do Estadão, no bairro do Limão. Esse  trajeto, ida e volta, fiz durante dois anos, tempo que me fez apaixonar ainda mais pelo centro da cidade e no qual testemunhava aquela febre diária das pessoas se movimentando seja no início seja no fim do dia.

Nesse período assisti às manifestações dos bancários, à presença da Polícia Militar e seus cavalos cruzando as ruas e avenidas, aos camelôs e vendedores de calças Lee, Levis, Gledson e Soft Machine

Dar um giro no Mappin, comer um cachorro quente com salsicha viena no Largo do Café, ir no segundo MC Donalds da Libero Badaró, me deliciar com o sanduíche grego. Momentos que jamais sairão da minha memória afetiva.

Após tantos anos mudei de empresa, trabalhei com grupos de outros estados, migrei para área comercial, tive novas oportunidades para conhecer a capital e o interior. Há 20 anos, estou em uma empresa de Campo Bom, no Rio Grande do Sul, a Box Print. 

Há alguns dias, vindo fazer uma visita no centro, na Brigadeiro Luiz Antonio, cruzei a Praca Duque de Caxias, a avenida Rio Branco, a Ipiranga, a  São Luis e, com saudade e tristeza, senti o que todos devem sentir ao encontrarem essa região degradada pelo crack: um enorme pesar, além de uma nostalgia do tempo que cruzávamos esses caminhos com segurança e não como hoje vendo o “avesso do avesso”, que Caetano canta no clássico Sampa.

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Sérgio Damião é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Conte você também a sua história: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: meus passos até a Escola Municipal de Bailado

Dila Roche

Ouvinte da CBN

Foto de Vitaly Gorbachev

Aos dez anos, em 1972, consegui entrar na escola municipal de bailado, escola onde minha mãe também havia estudado. A escola hoje é conhecida como Escola de Dança de São Paulo, uma das mais tradicionais escolas existentes no país. Minha mãe, por muito tempo, meu pai e depois eu, por conta própria, sempre usei o transporte público para chegar a sede, embaixo do Viaduto do Chá.

Em fevereiro de 1978, com a inauguração da Estação Sé do metrô comecei a explorar um novo trajeto para a escola. Essa mudança ocasional de percurso me proporcionava um prazeroso passeio pelo centro. Descendo na estação Sé, vestida com o abrigo esportivo da escola, eu atravessava a agitada Praça da Sé, passando ao lado de pregadores, engraxates e vendedores de moedas antigas. Meu caminho seguia pela Rua Barão de Paranapiacaba até a Chapelaria Paulista, na Rua Quintino Bocaiuva: “quem compra aqueles chapéus?”.

Virando à direita e logo após à esquerda, contornava a loja Clóvis, chegando à Rua José Bonifácio. Ali, adentrava nas Lojas Americanas, para atravessar o quarteirão até a Rua Direita. Eu me  divertia usando a Americanas e a Lojas Brasileiras de atalho. 

Acreditava que só eu conhecia aquela passagem secreta até a rua Direita, aliás um lugar abarrotado de gente e lojas com fachadas repletas de placas.

A rua era um centro de compras vibrante, com lojas como a Garbo, a Ducal, e a Riachuelo, onde tudo, desde roupas até perfumes, estava à vista. Embora meu foco fosse a pequena Modelia, no final da Rua Direita, conhecida por suas malhas de alta qualidade e vendas promocionais arrasadoras.

No trajeto, os camelôs com suas mercadorias espalhadas pelo chão eram uma constante, sempre atentos à chegada dos fiscais. A travessia da Praça do Patriarca levava ao Viaduto do Chá, outro local de comércio efervescente, onde era possível encontrar desde meias até jogos de azar — azar mesmo, porque nunca soube de ninguém que tenha ganhado. A música andina tocada por grupos locais adicionava uma atmosfera especial ao ambiente.

Ao fim do viaduto, cruzava a Rua Xavier de Toledo para chegar ao Mappin, enfrentando o desafio de atravessar a rua sob o olhar rigoroso do Guarda Luizinho, temido por sua habilidade em repreender os apressados que se colocam em rico na travessia. O Mappin, em frente ao Teatro Municipal, era quase a última etapa antes de chegar à escola de bailado, após descer as escadarias, segurar no dedo da estátua que fica bem no pé da escada, para dar sorte. e passar por mais ou menos uns 30 gatos.

Esse percurso, que levava cerca de 15 minutos, foi uma parte significativa da minha vida por oito anos. Ao refazer o trajeto, há uns dois anos, notei uma transformação drástica: o centro já não era o mesmo, com menos vendedores ambulantes e um público reduzido, reflexo da proliferação de shoppings e do comércio online. Com o viaduto do Chá agora vazio, pude chegar perto da mureta de proteção da ponte, que antes servia de apoio para os ambulantes. Mesmo naquele silêncio, confesso que eu acreditei ser a única ali que ainda ouvia o realejo… 

E  todos os sons da cidade. Da minha cidade.

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Odila Vitoria Rocha da Costa, a Dila Roche, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: no centro que era referência dos paulistanos

Alvaro Gullo

Ouvinte da CBN

Do alto da Catedral da Sé Foto: Mílton Jung

Se minha memória não estiver falhando, aos 85 anos, era um prazer muito agradável andar pelo centro de São Paulo. 

O passeio começava na catedral da Praça da Sé com uma caminhada em direção a rua Direita. Passava na confeitaria Vienense e chegava a Praça do Patriarca onde está a igreja de Santo Antonio.

A caminhada seguia pelo Viaduto do Chá para encontrar a loja Mappin, com seu famoso chá da tarde, no topo do prédio, bem em frente ao Teatro Municipal, onde assistíamos o que havia de melhor em espetáculos teatrais.

O percurso costumava seguir pela Barão de Itapetininga tendo como destino a Praça da República com seus lagos e chafarizes. Ficava ali o Instituto de Educação Caetano de Campos, onde estudei desde o jardim da infância, passando pelo primário e o  ginásio.

Do outro lado começavam os inúmeros cinemas. Era a Cinelândia que se estendia pela São João e arredores: Cine República, Marabá, Ipiranga, Ritz, Ópera, Marrocos, Windsor, Metrópole … por eles passamos nossa juventude no cotidiano de um centro da cidade que era referência para todos os paulistanos.

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Álvaro Gullo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: dos sabiás aos antigos vizinhos, minhas lembranças do Jardim Hípico

Mário Curcio

Ouvinte da CBN

O sabiá que canta no Jardim Hípico em foto do portal Pensamento Verde

Estou de volta ao Jardim Hípico, uma pequena vila residencial encaixada entre a Granja Julieta e o Clube Hípico de Santo Amaro. Retornei para a casa de meus pais 20 anos após ter saído daqui para casar e construir uma família.

Fui obrigado a vir sozinho para cuidar de meu pai, hoje dependente de ajuda por sua dificuldade de caminhar e de enxergar. Minha mãe também é viva, mas mora numa casa de repouso por causa do Alzheimer.

Nasci aqui há 54 anos e foi no Jardim Hípico que fiz meus primeiros amigos, que aprendi a andar de bicicleta, que cresci e virei gente. Nossa casa fica na antiga Visconde de Ouro Preto, rebatizada há 30 anos como Vito Rolim de Freitas.

A vila é muito arborizada e cheia de pássaros. Sabiás, bem-te-vis, andorinhas e pardais são os mais comuns. Todas as manhãs, a gente também vê por aqui uma grande família de saguis
passeando pelos fios.

Vez ou outra aparecem saruês, que vêm do clube ou do Parque Severo Gomes. Eles se assemelham a ratões, mas têm o focinho e a cauda sem pelos e um jeito desengonçado de caminhar. São mais ágeis nas árvores do que no chão.

Dos vizinhos antigos, só a dona Ondina e a filha Cláudia continuam por aqui. Os outros já partiram dessa para uma melhor, como a dona Úrsula, a dona Suzana, dona Anita e o marido Antônio, um habilidoso ferreiro que trabalhou no clube.

Dos meus velhos amigos permanecem o José Carlos e o Arizão. O Zé é filho de um imigrante austríaco que veio para o Brasil após a Segunda Guerra. E os pais do Ari nasceram em Itapecerica da Serra.

Os meus se conheceram na cidade paulista de Rio Claro, casaram e se mudaram para Santo Amaro na metade dos anos 1950. 

É difícil não criar raízes por aqui. 

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Mário Curcio é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Gustavo Ferraz e Daniel Mesquista. Conheça outras histórias contadas pelo Mário que estão publicadas no meu blog miltonjung.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, assine, de graça, o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: o reencontro com Ramos de Azevedo

Percival Tirapeli

Ouvinte da CBN

Inauguração do Monumento a Ramos de Azevedo, em 1934. Foto: Wikipedia

Os monumentos de São Paulo sempre me fascinaram. Em especial aqueles do Vale do Anhangabau. A primeira vez que passei por baixo do Viaduto do Chá foi ainda em 1958. Tinha apenas seis anos de idade. Seguia em romaria para Aparecida em um pau de arara. Da rodovia Anhanguera para a Dutra, os carros passavam pelo Vale, não havia as marginais. De um lado o Edifício Matarazzo e do outro as imensas palmeiras imperiais emoldurando o grandioso Theatro Municipal. Pouco adiante, o edifício altíssimo, o prédio Martinelli. Tudo era novidade para um menino do interior. Era a Pauliceia Desvairada de Mário de Andrade.

Seguimos para os lados da Estação da Luz, na avenida Tiradentes. Uma garoa tornava aquele edifício uma paisagem inglesa. Em frente à Pinacoteca estava o monumento em homenagem a Ramos de Azevedo. A movimentação de trens e carros era uma surpresa para mim. Um casal, muito bem-vestido, a dama com luvas, chapéu, sequer olhou para nós. Da avenida Tiradentes, recordo as grandiosas tamareiras.

Mudei para a São Paulo em janeiro de 1970. Na então Praça Roosevelt, que seria inaugurada no aniversário da capital, meus irmãos e eu fizemos nossa primeira refeição: compramos um bolo Pullman, aquele que tinha faquinha de plástico. Era o que nosso dinheiro dava para comprar.

Logo fui trabalhar como desenhista em um escritório na esquina da São João com Ipiranga. Da janela podia observar as manifestações contra a ditadura militar. Eu, para colaborar, jogava rolhas no asfalto só para ver os cavalos e militares caírem.

Fui estudar no prédio da Pinacoteca; mal sabia que depois lá atuaria por 10 anos no Educativo. Continuando os estudos, cursei a Universidade de São Paulo.

Para minha surpresa, lá estava o monumento a Ramos de Azevedo, na Cidade Universitária, aquele que eu tanto via 20 anos antes.

Decidi então pesquisar os monumentos de São Paulo e escrevi um livro sobre eles. Vieram à minha mente aqueles do Vale do Anhangabau, iluminados naquela noite das manifestações das Diretas Já, em 1984.

O Anhangabau se transformava. Antes pagava-se pedágio para passar pela propriedade do Barão de Itapetininga para se locomover do centro antigo para o novo, onde estava a Praça dos Touros, atual República. Depois, uma estrutura de ferro que passava sobre as casas das chácaras onde se plantava o chá. Em seguida veio o elegante Viaduto do Chá dando acesso ao Theatro Municipal e à loja Mappin.

O parque do Vale, desenhado pelo famoso urbanista francês Joseh Bouvard, ia desaparecendo. Fizeram o buraco do Adhemar no cruzamento com a Avenida São João. Depois o grande túnel que já desembocava defronte ao edifício dos Correios. O centro velho teve seus momentos de glória, de recuperação.

No século 21 a grande reforma foi paralisada nos tempos sombrios da Covid-19. Acompanhei a obra por meses, pois naquele período expunha minhas pinturas, sobre os monumentos da cidade, no salão de arte do prédio central dos Correios. Via entristecido que as árvores desapareciam e até esculturas eram roubadas.

Em minha memória ficava o Vale como o centro nervoso da cidade, para onde tudo confluía, como imaginara Prestes Maia. O progresso foi afundando cada vez mais o riacho do Anhangabau e os túneis ocultando de nossas vistas a bela paisagem dos edifícios ecléticos e modernos. Quando foi inaugurado o novo visual do Vale, em 2021, nada restara para comemorar. Apenas concreto e um imenso vazio, enterrando um espaço de tantas memórias.

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Percival Tirapeli é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Daniel Mesquita. Seja você também personagem da nossa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capitulos, visite agora o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo. 

Conte Sua História de São Paulo 470: a revolução das estudantes do Maria Imaculada

Maria Elisabete Fonseca Marun

Ouvinte da CBN

Loja Sears em foto publicado no site Os Anos 50

Eu morava na rua Amâncio de Carvalho, perto do ponto final do ônibus 48, linha Paraíso-Anhangabaú. Estudava no Colégio Maria Imaculada bem perto da Praça Osvaldo Cruz.

É na praça que começa a avenida mais famosa de São Paulo: a Paulista. Alguns saudosos podem contestar porque a Avenida São João também é um local muito admirado pelos paulistanos até em música.

A Osvaldo Cruz era uma linda praça onde havia a escultura de um índio com sua lança, pronto para pescar algum peixe do pequeno lago que ali existia. Muitas vezes, após as aulas, eu e minhas colegas chegávamos até perto da água para nos refrescar.

A grande novidade naquela região foi a inauguração da loja Sears Roebuck, onde hoje funciona o Shopping Paulista. Seu slogan era impactante: “satisfação garantida ou seu dinheiro de volta”. Sensacional! Tendo chegado em 1949, a Sears revolucionou o varejo na cidade.

O acontecimento gerou uma revolução na disciplina do Colégio Maria Imaculada. As alunas cabulavam as aulas para visitarem a Sears. No térreo, o cheiro de amendoim torrado e açucarado, rescendia pela loja.  Nenhuma de nós resistia a um pacote.

No andar inferior onde se vendia discos havia uma pequena cabine na qual se ouvia as novidades do Rock and Rool. Logo, as irmãs da escola proibiram que ouvíssemos aquele ritmo. As freiras nos seguiam e éramos obrigadas a ouvir reprimendas em plena loja. Assim que elas apareciam, era um correria só para fugir da punição que seria certa.

O Maria Imaculada ainda está lá. Hoje atende meninas e meninos. A Sears, o cheirinho de amendoim, os produtos que ficavam a mostra e a música dos discos  permanecem na minha memória.

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Bete Marum é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Escreva a sua história de São Paulo e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o novo site da CBN – cbn.com.br —, o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo