Conte Sua História de São Paulo: os bolinhos de polvilho da vovó

Por Waldizia Moniz

Ouvinte da CBN

A casa ainda está lá. Quando nasci em meados da década de 40, ela era muito mais bonita. Um sobradão amarelo com quatro janelas dando para a rua. As do andar superior exibiam duas pequenas jardineiras lotadas de lírios azuis, paixão de vovó. Tempos diferentes aos de hoje. Nossa porta permanecia sempre bem aberta para facilitar a entrada dos parentes e dos vizinhos. O único telefone disponível naquela rua era o nosso, exceto um outro que pertencia ao Lourenço da mercearia.

Pois é. Nasci e cresci ali, numa rua ainda sem asfaltamento e quase nenhum trânsito. De minha porta, podia perfeitamente avistar a pequena igreja de São José do Maranhão, onde fiz a primeira comunhão. Tínhamos dias comuns e bucólicos, com o verdureiro passando logo cedo com sua carroça de frutas, legumes e verduras. Sentadinha no degrau da porta da rua, eu acompanhava a cantoria das donas de casa batendo suas roupas nos tanques e seu vai e vem com bacias equilibradas nas cabeças, em direção ao gramado, onde estendiam sua fileira de roupas alvas e humildes.

Por volta do meio dia, o cheiro de frituras variadas invadia o ar. Vovó fazia uns bolinhos de polvilho sensacionais. A infância que vivi difere completamente da infância atual.

Meu local para brincar e aproveitar a vida era a rua. Com um bando de garotos, eu desaparecia por entre recantos fascinantes do meu querido bairro do Tatuapé. Gozei de uma espetacular liberdade de movimentos, onde não se cogitava ainda da presença de quaisquer perigos. 

Muito pequena, aprendi a me virar sozinha quando foi preciso estudar um pouco mais distante de casa. O velho bonde era meu meio de transporte favorito. Eu esperava por ele ali na Celso Garcia e seguia até o bairro da Penha, descendo no ponto final. O colégio religioso ficava logo atrás da igreja da Penha. Durante sete anos, fiz este percurso. Expandi minhas andanças tão logo comecei a fazer um cursinho pré-universitário na região central de São Paulo. Acho que foi nesta época que caí de amores pela minha cidade. Ao relembrar as ruas de minha São Paulo antiga, muitas vezes ainda sou tomada por uma emoção marcante e singular. 

Fui uma pequena exploradora que percorreu com amor e curiosidade todas aquelas ruas que ainda mantenho vivas na arquitetura de minha mente. Tomei o famoso chá no Mappin da Xavier de Toledo. Fazia meus lanches na Leiteria Americana. Comprei meus vestidos de baile nas butiques da rua do Arouche. E como namorei! Namoros ingênuos, regados a músicas românticas e passeios de mãos dadas. Hoje, tenho três filhos, seis netas e um casamento com o companheiro que está aqui ao meu lado há cinquenta anos.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

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Conte Sua História de São Paulo: meu casamento no Mosteiro de São Bento

Por Paulo Monteiro da Paixão

Ouvinte da CBN

Foto do site Mosteiro de São Bento

Sou paulistano e nasci no bairro do Tatuapé em 1963. Hoje estou aposentado e tenho esposa, dois filhos, uma neta e um genro. Eu e minha esposa moramos no bairro de Vila Guilhermina, na zona leste. Minha filha, genro e neta vivem na Vila Ré. O filho mora no Morumbi.

Meu depoimento, creio ser raro. Eu e minha esposa nos casamos na igreja em 30 de junho de 1984. Na época, eu, um jovem estudante, frequentava regularmente as missas diárias das sete da manhã no Mosteiro São Bento, no Largo São Bento, antes de ir para a escola — o curso preparatório para cadetes do ar, na avenida Prestes Maia.

Quando decidimos nos casar, ambos com 20 anos, resolvemos que a cerimônia seria no mosteiro. Foi um desafio agendar.

O mosteiro, naquele tempo, celebrava apenas um casamento por mês. Contudo, superamos as dificuldades com o auxílio de um monge muito atencioso que cuidava dessa questão. Fizemos o curso na igreja e notifiquei o DSV — era obrigatório na época para saber quais ruas estariam liberadas no centro, no sábado à tarde, para a celebração.

A cerimônia começou às seis horas em ponto, pois os monges tinham seus rituais religiosos marcados para as sete da noite. Não poderia haver atraso. Exatamente no horário, minha noiva adentrou a igreja sob o som dos sinos, e o órgão de tubos acompanhou toda a celebração. Quem a celebrou foi o diretor da empresa em que eu trabalhava. Ele era um padre. Às seis e meia, após o beijo na noiva, a cerimônia se encerrou.

Durante todos esses anos, nunca conheci alguém que tenha se casado naquela igreja. Fomos privilegiados por celebrar o momento mais importante de nossas vidas em um marco de São Paulo.

Na cidade, trabalhei como office boy. Conheci toda São Paulo andando de ônibus e a pé. Porém, o Largo São Bento, o Mosteiro, a Igreja e a cerimônia perpetuam em minha memória até hoje.

Paulo Monteiro da Paixão é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros episódios, visite o blog de miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a camisa 10 de Pelé no Museu do Futebol

Por Sérgio Yunes

Ouvinte da CBN

A tarde quente e ensolarada de janeiro tornou ainda mais agradável a chegada à Praça Charles Miller, onde fica o Estádio Municipal do Pacaembu. Era 2019. O estádio ainda não passava por reformas, funcionava normalmente, inclusive naquela noite receberia uma partida pela primeira fase do Paulistão: São Paulo e Guarani de Campinas.

No vasto largo, vendedores ambulantes dos mais diversos tipos já se postavam, embora ainda fosse cedo. A polícia também estava presente, com soldados a pé e viaturas. Olhando tudo isso e driblando a todos eles, como convém ao histórico local, tomei o rumo do estádio. Meu destino não era o campo de jogo ou as arquibancadas, mas sim o Museu do Futebol, um dos principais pontos turísticos da cidade.

E como sou fanático pelo esporte desde 1970, quando fui apresentado ao jogo dos 11 pelo maior time de futebol de todos os tempos, a seleção brasileira daquela Copa do México, a visita ao Museu era mais do que obrigatória, era uma necessidade. Antes, uma ótima surpresa. Mesmo em preparação para o jogo da noite, os acessos à parte interna do Estádio estavam abertos à visitação. Cruzei os portões e logo cheguei ao campo. Arquibancadas, pista e gramado mostraram-se galantes, tudo prontinho para a partida e para receber as torcidas.

O velho e histórico estádio revelava seu charme, encantamento e força. Aliás, força não só dele, mas de todo o futebol brasileiro, com placas em homenagem às conquistas da Seleção Brasileira, com os nomes de todos os jogadores.

Visto e sentido tudo isso, era hora de entrar no Museu. No caminho, a loja do Futebol. Como lembrança, um imã de geladeira com a imagem do Estádio. Ali ao lado, no café do Pacaembu, um jornalista começava a preparar os primeiros materiais para a cobertura do jogo. Ingresso na mão, comecei o passeio pelo imenso universo do esporte mais popular no mundo.

Escudos, fotos, vídeos, gravações, camisetas, arquivos históricos, listas de clubes, músicas e até uma biblioteca, talvez a mais completa para estudos sobre a modalidade. Mas foi na parte final da visita que presenciei algo impressionante, algo quase inacreditável. 

Amarelinha, incrivelmente nova e perfeita, como foi o futebol de seu dono. Lá estava ela, a camisa número 10 de Pelé. E não era qualquer 10 de Pelé, se é que é possível existir isso, era a camisa usada pelo Rei na final da Copa de 70.

Peça sem preço, de valor inestimável para toda uma nação e para o mundo, estava ali, venerada como um altar que homenageava a paixão e um dos homens mais amados do planeta. Impossível não ficar encantado ou hipnotizado ao olhar a vestimenta, imaginando os movimentos geniais, sagrados e míticos que recebeu naquele jogo contra os italianos. Impossível não devorar com os olhos cada detalhe da peça, do histórico escudo da CBD à etiqueta do fabricante, uma multinacional de material esportivo, colocada na parte interna, sem ficar à mostra. Naquele tempo não havia o marketing de hoje. Toda lisa, num amarelo dominante com gola e bordas das mangas em verde, certamente era a principal peça do Museu e alvo maior dos visitantes.

Ainda atônito por ter estado tão perto daquela peça icônica, que poderia ter tocado não fosse o vidro de proteção, encerrei o passeio pelo Museu e pelo Estádio. Ganhei novamente a praça Charles Miller, que já começava a receber os primeiros torcedores para o jogo da noite, afinal a bola, o campo e o gol precisavam continuar a prestar suas homenagens a quem os tratou com tamanha majestade.

Ouça o Conte Sua História com o gol de Pelé na final de 70

Sérgio Yunes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros episódios, visite meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.”

Conte Sua História de São Paulo: memórias da cidade que vivi e cresci

Por Ana Paterno

Ouvinte da CBN

Photo by sergio souza on Pexels.com

O meu amor por São Paulo começou em abril de 1971 quando, com oito anos, desembarquei na cidade, vinda de uma pequena aldeia da região do Douro, em Portugal. Aquele dia ficou gravado na memória como uma fotografia em preto e branco.

Vivi 30 anos na São Paulo da garoa, das chácaras cheias de árvores, que ocupavam enormes quarteirões em ruas com filas de sobrados e casas.

Vivi na São Paulo na qual se brincava sem medo com os amigos, na rua, de queimada, de esconde-esconde, de amarelinha, de tantos outros jogos. Num tempo em que havia bailes de garagem, matinê nos clubes Espéria e Tietê, carnaval com banho de seringa nas ruas. E, também, as quermesses.

Vivi a São Paulo dos ônibus elétricos nos quais íamos à escola e às compras no centro da cidade.

Vivi em uma São Paulo que era segura e na qual os vizinhos se conheciam e sentavam-se ao portão para conversar no fim do dia.

Tenho na memória a beleza das flores dos ipês amarelos, a cor do céu ao entardecer, o cheiro da terra molhada.

Cresci em uma cidade que também vi crescer. Com as construções de prédios, de shoppings, em número de habitantes, em ruas, em progresso. Em violência e problemas de infraestrutura, também.

Cresci como pessoa e como profissional. Formei-me em psicologia. Trabalhei na TV Cultura, um lugar onde já havia inclusão, igualdade e diversidade, num tempo em que mais do que falar sobre cada um, respeitava-se cada um. Lá conheci pessoas incríveis, cheias de histórias interessantes.

Em São Paulo, tenho família, tenho os meus amigos, os melhores, e para a vida toda. Pessoas que amarei para sempre. Continuarei a amar a minha cidade e todos os lugares que dela conheci. A cidade que ficará para sempre no meu coração.

Hoje, vivo no Porto, em Portugal, e amo a minha terra, mas sou feliz por ter essas memórias de uma cidade que foi e continua a ser um dos lugares mais importantes da minha vida.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Ana Paterno é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite agora o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a nobreza do jogo de bocha

Por Cibele Alvares Gardin

Ouvinte da CBN

Uma pista que dá pista sobre encontros semanais de outrora regados à amizades. Hoje, embrulhada pela vegetação do Parque da Aclimação está  a cancha do jogo da bocha a espera do desembrulho de suas memórias. 

Insisto em rodeá-la, Sra Dona Cancha, na tentativa de conquistar sua confiança a me confiar seus segredos…

Com essa licença poética faço aqui um convite ao jogo da memória, ou melhor, da bocha, ao qual faço lances com as bolas em tom de cor desbotada mas que segue com o peso da estratégia. 

Sigo pegadas e novas pistas me levaram ao bairro vizinho onde de perto revi lances na cancha do Clube Atlético do Ipiranga.  São animadas estas senhoras bem alinhadas, Donas Canchas.

Mais uma chance e, num lance mais ousado, encontrei Sr. Maurício no bairro do Cambuci pedindo cobertura ao seu jogo, sempre regado a uma velha e parceira garrafa térmica com café.  

E mais uma Sra Dona Cancha, aliada ao Balneário do Cambuci e muito bem distinta, me abriu gavetas de suas memórias para me mostrar medidas que deram vitórias por milímetros de diferença entre uma bola e outra. Ah, todas as bolas levam ao bolim!

E assim, entre um gole e outro de café, as Donas Canchas, estimadas imigrantes e nobres senhoras, nos alimentam com desembrulhos de memórias. São relatos silenciosos mas que se fazem ouvir quando lemos as marcas das bolas que seguem feito tatuagem na superfície de seus tapetes mágicos. 

O jogo da bocha não envelhece, ele  enobrece nossos percursos por resgates da história. Segue o jogo na cordialidade dos afetos intergeracion

Cibele Gardin, moradora do bairro do Cambuci, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite agora o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: minha disputa com a máquina de fliperama

Por Jose Vicente Martins

Ouvinte da CBN

Imagem criada pelo Dall-E

 – Ô Vicente! A Dona Dayse quer que você leve esse envelope lá na rua Boa Vista. Mas é pra voltar antes do almoço.

Respondi que tudo bem. Mas já eram dez horas, não daria tempo de voltar antes do almoço. O certo era almoçar no refeitório da rua Boa Vista e voltar na parte da tarde. 

Fui pro banheiro trocar de roupa. Não dava pra andar pela rua com aquele uniforme. Calça de tergal azul marinho, camisa branca com o logotipo do Banco Itaú bordado no bolso e a gravata azul marinho. Afinal, eu aceitava o trabalho pra poder comprar minhas roupas. Minha identidade Black Power era formada na calça Levi’s, tênis All Star, cinto de couro e a camiseta com o Bob Marley. Era a capa do disco Kaya estampada em Silk Screen. 

Isso era São Paulo, 1979. A camiseta achada numa das galerias da rua Augusta. Saindo da Paulista, cortando por dentro do Conjunto Nacional,  descendo sentido Alameda Lorena, do lado esquerdo. No mesmo corredor em que comprei a bolsa de couro que eu usava atravessada no peito. Um cara, com sotaque de gringo, lá no décimo quarto andar da avenida Paulista ,1948 me perguntou: 

— Quem é o habitante da sua camiseta? 

— Ô Vicente, não vai demorar! Esse menino só faz dois serviços por dia, um de manhã e outro a tarde! 

Era o Ulisses,  meu chefe. Ele não era bem um chefe, era contínuo como eu. Era mais velho e trabalhava na diretoria há muito tempo. Não queria envelhecer como Office Boy, mas adorava flanar pelas ruas da cidade. 

Desci o elevador maquinando a estratégia.

Naqueles tempos, eu andava numa disputa com uma máquina do fliperama, Space Invaders. Ficava de olho fixo na tela vendo aqueles monstrinhos descendo enquanto tentava eliminar a maioria deles. Movimento nas mãos.

Velocidade,  tempo e espaço. Eu era bom nisso… Mas aquela máquina sempre me vencia. Acho que era aquele gosto amargo que vinha na boca, o coração disparava e eu ficava perdido… game over!

Saí do prédio do Banco, desci a Frei Caneca, virei a esquerda na Luís Coelho e entrei na Augusta sentido centro. O trólebus vinha chegando no ponto, deixei passar. Apertei o passo e fui descendo a Augusta. A jogada era essa. Economizava no dinheiro da passagem e jogava Space Invaders. Eu estava melhorando meu jogo. Antônio Carlos, Peixoto Gomide e fui tocando pro centro. O envelope na pasta e a pasta bem segura na mão.  Sempre um risco. Um vacilo e algum trombadinha pode querer levar minha pasta.  

A malandragem de rua estava sempre do olho nas pastas dos Office Boys. Eu já vi um cara de terno e gravata, no apertado do trólebus mexendo e fuçando na bolsa de uma dona. Martins Fontes. Na Xavier de Toledo, olhei nas vitrines do Mappin e namorei um relógio. Era um Porsche,  preto. Eu olhava no Mappin e comprava na Galeria Pajé. Cortei o Largo do Paissandu, ganhei a rua Antonio de Godoy e atravessei o Viaduto Santa Efigênia. 

Primeiro entregar o envelope e almoçar na Boa Vista, na volta eu passava no fliperama da rua Cristóvão Colombo. Uma vez cheguei no fliperama, coloquei a pasta em cima da máquina e gastei umas quatro fichas. Um boy me cutucou nas costas e disse que enquanto eu jogava, um cara pegou minha pasta e mexeu. Como não tinha nada dentro colocou de volta e saiu. Cruzei o Largo São Bento e já estava na rua Boa Vista. Eu andava rápido. Dava tempo de entregar o envelope e jogar uma antes do almoço.   

José Vicente Martins é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também um personagem da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite agora meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: meu “escritório” é o verde da Unidade do Sesc de Interlagos

Por Giuliana Pereira Agnelli Estrella

Ouvinte da CBN

Foto de arquivo da Unidade do Sesc de Interlagos cedido pela autora do texto

Pensar a cidade é pensar o todo, a junção do cinza com o verde.

Desde pequena sempre fui muito apaixonada pela “Selva de Pedra”, identificando suas belezas mesmo nos locais onde muitos não a encontravam, o que, com certeza, me fez vir a cursar arquitetura e urbanismo. O centro da cidade – o antigo e o novo, como costumam identificar – sempre me fascinou.

Foi minha mãe Maria Amélia que instaurou o hábito de frequentar as “áreas verdes” de São Paulo, me levando quase que diariamente ao parque. Na verdade, meu primeiro contato foi com a Praça Polidoro, no bairro da Aclimação, onde ia diariamente tomar meu banho de sol, ainda no carrinho de bebê.

Depois migramos para o Parque da Aclimação, local lindo lá no fiM dos anos 70, com seu lago central e a concha acústica; e, mais tarde, na juventude, para o Parque do Ibirapuera, onde, além de ter o privilégio de um respiro verde na cidade, ainda se unia ali a possibilidade de participar de atividades culturais e de lazer.

Seja para fazer uma caminhada, socializar, ficar de bobeira mesmo, curtindo um ‘ócio criativo’, nada melhor do que uma área verde, onde nos reconectamos e nos mimetizamos (ou tentamos) com a natureza, sempre tendo em mente a importância de um convívio respeitoso e de troca.

Nos últimos 8 anos de minha vida profissional, tenho tido o privilégio de trabalhar num ‘pulmão verde’ no extremo sul da Zona Sul da Cidade – a linda Unidade do Sesc Interlagos.

A área de 500 mil metros quadrados está às margens da represa Billings, um dos maiores mananciais em área urbana do mundo. No nome Interlagos, há referência à sua localização entre dois grandes lagos artificiais, as represas Billings e Guarapiranga, importantes reservatórios de abastecimento de água da cidade, mas que enfrentam graves problemas com o despejo de lixo e esgoto. Construídas com a finalidade de geração de energia, atualmente estas duas represas são responsáveis pelo abastecimento de bairros da região Sul e Sudoeste da capital, além de municípios da região metropolitana de São Paulo.

A Unidade vem desenvolvendo um processo de recomposição das suas matas ciliares através do reflorestamento das áreas que são contornadas pela represa Billings. O objetivo é garantir a proteção das nascentes e a produção de água.

Show de Roberto Carlos na inauguração/Foto cedida pela autora do texto

O espaço, que antes era uma fazenda, nos idos de 1975 foi aberto ao público como Unidade, inaugurada com um show do Rei Roberto Carlos, em uma área verde incrível. Essa área passou por muitas mudanças, espaciais e programáticas e tem caráter de parque, além de abrigar quadras para prática físico-esportiva, piscinas, quadras de tênis, ginásio, teatro, área de exposições, carreta BiblioSesc, entre tantos outros equipamentos culturais, socioeducativos, de lazer e saúde. À época de sua inauguração, na década de 70, a cidade ainda estava longe; ao ver os registros de imagens aéreas da época é visível como a cidade veio avançando e, a certo ponto, ‘passou’ a Unidade.

E esse caráter de “Parque” que tem foi o diferencial durante a pandemia, sendo uma das primeiras unidades do Sesc a reabrir as portas ao público, justamente num momento tão delicado, em que as pessoas estavam trancafiadas em casa, sem um espaço para tomar sol, caminhar, sentir a brisa e, literalmente, respirar…

É justamente esse local que me dá o orgulho de diariamente atravessar a cidade, e ver o impacto positivo que o contato com a natureza promove na vida das pessoas, e que está no cerne do trabalho do Sesc: a promoção do bem-estar. Realmente é um privilégio aqui estar, trabalhar para o lazer e cultura do público, ver cada criança maravilhada com um espaço tão rico e encantador, com uma vasta amostra das plantas nativas da mata Atlântica.

Um lugar onde, além de curtir e apreciar a paisagem, é possível discutir os conceitos e as possibilidades para o maior contato das pessoas com a natureza, a construção de hábitos saudáveis e, principalmente, a importância da conservação e entendimento sobre as áreas verdes.

Fica aqui minha declaração de amor à cidade de São Paulo em seu aniversário, e meu convite aos queridos e queridas radialistas da CBN, que sempre me acompanham no caminho de ida e volta do trabalho, e ao público em geral – venham conhecer e respirar o ar puro em Interlagos!

Giuliana Pereira Agnelli Estrella é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Seja você também um personagem da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite agora o meu blog miltonjung.com.br

Conte Sua História de São Paulo: um beijo na elegância do aeroporto de Congonhas

Por Elizabeth Figueiredo

Ouvinte da CBN

Arquivo: Werner Haberkorn/Wikipedia

São Paulo é conhecida como capital da moda e da diversidade, prova do quanto esta cidade é acolhedora e favorável a todo tipo de liberdade com responsabilidade, respeito e criatividade, a começar pela indumentária que tanto mudou ao longo dos tempos.

Meu primeiro beijo aconteceu no Aeroporto de Congonhas. Sou mineira e apaixonada pela capital paulista e, à época conhecendo o que esta megametrópole já oferecia, meu primeiro namorado me levou ao Aeroporto de Congonhas e, acreditem, as pessoas frequentadoras daquele ambiente se vestiam como se estivessem indo para uma festa.

Outro lugar que também chamou minha atenção à época foi o  Jockey Club pela elegância com o que os frequentadores se vestiam.

E, na sequência visitei o Museu do Ipiranga, que agora preciso revisitar para certificar se está tão magnífico quanto era antes da reforma.

Parabéns Senhora São Paulo npor acumular tanta ousadia e riquezas culturais, imagino que inspiradas à partir da Semana de Arte Moderna de 1922.

Elizabeth Figueiredo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Daniel Mesquita. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outros capítulos da nossa cidade visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: minhas frutas da cidade

Por Paulo Valadares

Ouvinte da CBN

Foto de Engin Akyurt

Frequentei São Paulo desde os anos 1970. Bati pernas pelo Centrão. Corri a São Silvestres quando ainda era noturna. Os espectadores nos davam champanhe durante a virada do ano. Mesmo correndo. 

A minha São Paulo verde não tem bosques frescos; mas campos de futebol com grama natural e algumas frutas.

Explico: eu saía enfadado do escritório no fim do expediente. Descia do Paraíso e seguia até o Largo do Paissandu para comer frutas. 

Passava por jovens esperançosos que iam para o curso noturno. Pais que retornavam angustiosos para as periferias. Era o momento que a grande jiboia trocava de casca. Saia a população oficial, entravam mercadores de amores remunerados e outros marginais. 

Ao chegar ao carrinho de frutas postado, pedia uma fatia de melancia e outra de abacaxi. Despesa que cabia no bolso. Nunca perguntei de onde elas vinham, assim, como não perguntavam minha procedência. 

Para mim elas serão sempre frutas de São Paulo.

Paulo Valadares é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Daniel Mesquita. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outros capítulos da nossa cidade visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: encontros marcados no Centro Velho

Por Neide de Souza Praça

Ouvinte CBN

Foto Mílton Jung

Nasci e sempre morei em São Paulo. Cresci em Itaquera, e, em 1978, quando conclui a universidade, morava na Parada Inglesa, na zona norte. Formada, comecei a trabalhar em regime de seis horas diárias com uma folga semanal. Por se tratar de uma maternidade, a folga não era fixa, variava de acordo com a escala de serviço. 

À época, o “centro velho” tinha lojas que atraíam a população, que variavam de utensílios domésticos a vestuário. Havia o Mappin, na Xavier de Toledo, logo após o Viaduto do Chá; a loja Pitter, próxima ao Teatro Municipal, com suas vitrines que expunham roupas modernas, voltadas aos jovens. Na rua São Bento havia a Mesbla, bonita loja de departamentos, a Botica Ao Veado d’Ouro, antiga farmácia de manipulação; a Casa Fretin, de materiais cirúrgicos, e muitas outras.

O movimento de pedestres era grande também nas ruas Direita, XV de Novembro, no Pátio do Colégio e nas Praças da Sé e do Patriarca. A linha azul do Metrô já havia sido inaugurada e a Estação Sé fora aberta no início daquele ano. Era por essa estação meu acesso ao Centro Velho. Após um percurso de aproximadamente 10 minutos de ônibus desde minha casa, embarcava no metrô, na estação Santana da linha azul, e viajava por aproximadamente 15 minutos até a Sé.

Eu tinha uma amiga que concluíra a faculdade na mesma turma, e que trabalhava em uma maternidade da zona sul da cidade, atuando em regime de 12 por 36, isto é, trabalhava 12 horas e tinha outras 36 de descanso. Pelo menos uma vez ao mês, sempre que nossas folgas coincidiam, agendávamos um encontro para conversar, passear e tomar um lanche.

Nosso encontro era marcado pela manhã nas escadarias da Catedral da Sé, no “Centro Velho” de São Paulo. Aquela que chegasse primeiro ao local do encontro, aguardava a companheira, esperando no topo da escadaria. Era um momento de observação do movimento de pedestres.

Permanecíamos tranquilas, sem qualquer preocupação com a segurança. As pessoas caminhando na Praça nos pareciam trabalhadores que, apressados, iam cumprir sua tarefa diária. Minha amiga vinha de ônibus do bairro da Aclimação onde morava, e descia no ponto na própria praça.

Assim que nos encontrávamos, entrávamos na Igreja, onde rezávamos por alguns minutos e agradecíamos nossa condição. A Igreja estava sempre silenciosa aquela hora da manhã. Chamava nossa atenção o número reduzido de pessoas em seu interior, rezando ajoelhadas ou sentadas em reflexão e agradecimento. O olhar distante delas nos passava a sensação de que buscavam paz interior. No entanto, permaneciam ali, silenciosas, por pouco tempo. O movimento de entra e sai de fiéis era constante.

A Igreja era pouco iluminado. A luz externa, filtrada pelos vitrais ao alto, era difusa e não suficiente para iluminar a nave. Nem mesmo a iluminação artificial dava conta da tarefa. Nós entrávamos, agradecíamos a vida que tínhamos, e alguns minutos depois saíamos para o passo seguinte de nosso encontro, quando passeávamos pelas ruas do entorno, observando as vitrines das muitas lojas.

Há vários anos, um ponto especial e bastante frequentado na rua Direita, era o das Lojas Americanas, onde se encontravam pequenos objetos para casa, mas também brinquedos e outros produtos. Ainda que sua principal porta de entrada fosse pela rua Direita, a loja era suficientemente grande para oferecer acesso, também, pela rua José Bonifácio, paralela à anterior. Nesta rua, quase em frente à anterior, localizava-se a “Nova Lojas Americanas”, mais moderna e com produtos diferenciados. As pessoas acostumadas à loja antiga, aos poucos descobriam a nova loja e era comum frequentarem ambas, já que bastava apenas atravessar uma rua para o acesso.

Após nosso encontro e prece na Catedral da Sé, e a caminhada pelas ruas próximas, minha amiga e eu dávamos continuidade ao nosso programa, indo à “Nova Lojas Americanas”. Nela, nos dirigíamos à lanchonete, que era exclusiva e cumpria seu papel de modernidade oferecendo produtos que não eram comumente encontrados na região naquele tempo.

Sentadas no balcão, sempre fazíamos os mesmos pedidos: eu solicitava um lanche “americano” e um “sunday”, enquanto minha amiga pedia um sanduiche tipo “cheese salada” e um “banana split”. Enquanto lá permanecíamos, colocávamos as notícias em dia, e trocávamos ideias sobre situações ocorridas em nossos trabalhos. Uma vez concluído o “almoço”, nos dirigíamos à Praça da Sé, onde nos despedíamos com a certeza de novo encontro no próximo mês, exatamente igual a este. Eu me dirigia à estação do Metrô e minha amiga ao ponto de ônibus que a levaria para casa.

Mantivemos estes encontros, exatamente iguais, por vários meses, até que nossa rotina de trabalho nos absorveu totalmente, e perdemos a oportunidade de fazer coincidir nossas folgas para podermos estar juntas em nosso prazeroso passeio ao Centro Velho de São Paulo, ao final da década de 1970.

Ouça aqui este episódio do Conte Sua História de São Paulo:

Neide de Souza Praça é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Daniel Mesquisa. Seja você também personagem desta cidade, escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade e ler o texto completo da Neide, visite o meu blog miltonjung.com.br e conheça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.