Nasci em 1974 na maternidade do Brás — na época ainda se escrevia com Z — e sou apaixonada por São Paulo. Morei em vários bairros da zona leste, principalmente Belenzinho e Tatuapé, o que não me impediu de conhecer tantos outros.
Da minha infância, lembro com muito carinho do ônibus elétrico que saía da Praça Silvio Romero rumo ao centro; das compras no Mappin e na Mesbla; do Largo do Anhangabaú e suas fontes; da Catedral da Sé com suas iguanas escondidas na arquitetura; dos curiosos edifícios com os vidros para fora das persianas; dos belos jardins escondidos da Liberdade; do Centro Cultural onde tantas vezes fui fazer trabalhos de escola.
Tenho lembranças ótimas do Jardim Vila Formosa onde moravam meus avós; da Vila Santa Isabel com seus tradicionais tapetes de serragem nas ruas para o Corpus Christi; da Igreja São Paulo onde eram encomendadas as missas para os parentes falecidos; e de jogar taco e basquete, e andar de skate pela Rua Cantagalo, no Tatuapé.
Lembro também do Museu do Ipiranga com suas ânforas de cristal; do Parque do Tietê onde fazíamos piquenique; do CERET onde aprendi a nadar; dos peixes no Aquário de Itaquera, na Jacu-Pêssego, e do caminho saindo de São Paulo com destino a Bertioga.
São tantas lembranças que precisaria de muitas linhas para narrar todas, então me concentrei apenas nas da infância, pois são elas as mais importantes na memória afetiva que tenho da nossa maravilhosa São Paulo!
Arlete Bačić é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também uma personagem da cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, viste o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua Historia de São Paulo.
Foto aérea do estádio do Canindé; autor: Will Lusa
A primeira vez que fui a São Paulo, vindo de Belo Horizonte, desci no terminal rodoviário Tietê cheio de curiosidades. Logo de cara, esperando o táxi, vislumbrei o campo da Portuguesa, time da minha maior admiração na capital Paulista — Félix, Ivair, o Príncipe, Leivinha, Lorico. Só com isso aí já fiquei satisfeito. Lembrei também do livro Quarto de Despejo, em que autora Carolina Maria de Jesus falava da favela do Canindé, onde passa parte de sua obra , aí então o astral melhorou mais ainda.
No táxi, pedi para que fosse para o Alto de Pinheiros e o taxista me perguntou se era para passar pela Cerro Corá. Como eu não conhecia nada da cidade e achei o nome muito lindo, disse que sim.
Quando passávamos por uma rua, próximo ainda a rodoviária, vi uma frase no muro que me encantou sobremaneira: “Kdê o Salvador daqui?”.
Cheguei ao endereço que me esperava e apaguei! Acordei no dia seguinte, para conhecer a Ipiranga com a São João, uma bela história que me ronda até hoje. No passeio, puxei da memória o que havia visto no dia anterior, após deixar a rodoviária: lembrava de ter ficado deslumbrado ao passar pelas marginais Tietê e Pinheiros, encontrado s ruas arborizadas e floridas; e a criançada pulando de um trampolim imaginário e — “tibum” — nadando de braçada naquelas águas límpidas dos rios que cortavam a grande metrópole.
Somente no dia seguinte, quando voltei a cruzar as marginais é que percebi que aquelas cenas eram apenas imaginação, resultado do sonho que sonhei enquanto descansava. O que era real, porque voltei a encontrá-la, no dia que retornei a Belo Horizonte, era a frase no muro: “Kdê o Salvador daqui?“
José Emilio Guedes Lages é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é da Débora Gonçalves. Seja você também personagem da nossa cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua Historia de São Paulo.
Mil anos atrás, mesmo não sendo próximo a minha casa, costumava correr na Pista de Cooper do Parque do Ibirapuera. Estacionava o carro em uma travessa da 4º Centenário e caminhava um pouco.
Dois dias seguidos, um menino de uns três, quatro anos, que estava com a empregada no jardim de casa puxou conversa:
– Quem é você?
– Sou o corredor do Parque.
Parei e continuamos o bate-papo.
Na semana seguinte, ao me ver, chamou o irmão, um pouco maior, para me apresentar.
Meu já amigo, o Pefeli, e o novo, o Nirani.*
E assim foi indo. Com frequência, eles estavam por ali e conversávamos.
Então, no começo de dezembro, fiz uma fita K7 com a História do Pedro e o Lobo do músico russo ProKofiev, narrada por Roberto Carlos, no início do início da carreira do ídolo.
A ideia do autor era introduzir, de maneira lúdica, crianças no mundo da música erudita. Assim, cada personagem da história era representada por um instrumento de orquestra.
Em um envelope natalino, além da fita, o histórico, que xeroquei da contracapa, e um cartão meu de Feliz Natal. Eles não estavam em casa. Deixei com a empregada, já minha conhecida.
Dia 25 de dezembro, por volta de meio dia, antes de ir para o Almoço da família, passei por lá. Toquei a campainha. A avó, pelo interfone, perguntou quem era. Disse que havia deixado uma fita K7 para as crianças.
Ela:
– Não vai embora, não vai embora.
E veio correndo para o portão.
Novamente, os meninos não estavam. Ela contou que todos haviam se encantado comigo; e insistiu para eu tomar uma bebida com eles. Agradeci, mas não aceitei.
Hoje Pefeli e Nirani são homens feitos e talvez tenham um toca-fitas de museu só para, de vez em quando, ouvir com chiados a lembrança que o Corredor do Parque lhes deu.
Paulo Mayr Cerqueira e seus amigos, Pefeli e Nirani, são personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também um personagem da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Meu nome é Olga Pereira Pinto da Silva. Tenho 78 anos. Morei, dos sete aos 15 anos na Vila Jafet, no Ipiranga. Todas as casas dessa vila eram destinadas aos trabalhadores da tecelagem e estamparia Jafet. Em todas as residências havia crianças e adolescentes — amiguinhos que até hoje guardo na lembrança. Meu pai era funcionário da fábrica.
Minha infância foi marcada por personagens interessantes. O Sr. Armando vinha com seu veículo cheio de pães de todos os tipos e as nossas mães, todo dia, compravam os deliciosos produtos. O que eu mais gostava eram os pães doces. Maravilhosos! O padeiro atendia a todas com muita educação e sempre bem humorado.
O Sr. Paco, um simpático espanhol, era o verdureiro. Chegava com sua carroça lotada de frutas, verduras e legumes. Minha mãe era sua freguesa assídua. Mas ela reclamava, pois ele chegava bem na hora do almoço, quando ela estava servindo à mesa e tinha que largar tudo para fazer a compra…. porém, minha mãe o elogiava pelos produtos frescos e de boa qualidade.
O mais esperado e o mais querido de todas as crianças era, sem dúvida, o sorveteiro, sr. Jean. Ele era um senhor belga, falando um português com sotaque francês, o que lhe dava um charme especial. Seus sorvetes de massa eram divinos. A gente tinha que levar um copo de vidro, no qual ele punha as bolas do que, para mim, eram verdadeiros manás dos céus.
Às vezes, fico pensando que todas estas personagens da minha infância já estejam em outro plano quem sabe saboreando as alegrias que nos ofereceram aqui na terra.
Olguita Maria é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Num sábado qualquer, decidi passear pelo centro de São Paulo. Não tinha ideia por quais ruas ou lugares passaria. O meu destino era incerto. Me entregaria ao acaso, sem hora para chegar a qualquer lugar. Sem itinerário fixo, e nem horário para retornar. A única fixação que tomava conta de mim era sair e perambular pelos locais que um dia fizeram parte da minha vida, que me transformaram na pessoa que sou hoje.
Queria fazer algo diferente daquilo que fazia desde 1981, quando tinha 14 anos, e saía de Ferraz de Vasconcelos para trabalhar no centro de São Paulo, como office boy. Naquela época, o meu tempo era cronometrado. O olho sempre fixo nos ponteiros do relógio para não me atrasar. Aliás, o tempo não era meu, ele não me pertencia. Fui engolido por ele, que mastigou a minha infância e cuspiu o resto que juntei ao longo da minha juventude. Só me restou a opção de buscar a sobrevivência por meio dos estudos e do trabalho prematuro.
São Paulo transforma, tanto para o bem quanto pro mal. Dá mas também nos tira muitas coisas. Quem vive aqui, se choca com os contrastes construídos por misturas de vidas, histórias, horrores, tragédias e belezas.
Caminhei pelos calçadões de pedras portuguesas da Praça da Sé até o local onde fui apresentado a ela: Praça Antônio Prado, número 33. Aqui foi um divisor de águas. Tudo foi diferente depois desse trabalho. Não foi o meu primeiro, mas foi onde encontrei alternativas que poderiam converter a vida pacata em novas oportunidades.
Parado na frente do prédio lembrava da minha chegada acanhada no primeiro dia. O olhar sempre em direção ao chão. Tudo era muito estranho. Eu tinha medo de não me adaptar. Pensei em desistir ao fim da primeira semana. Queria voltar para a minha cidade e me ocupar com o serviço de antes: engraxar sapatos na Praça Independência, em frente a estação de trem.
O meu gerente percebeu que eu estava deslocado naquele ambiente, quando me convidou à sua sala e me disse: “não desista garoto, você tem capacidade para enfrentar os novos desafios. Siga em frente…”. Foi o que fiz!
Hoje estou aqui de volta. Muita coisa mudou. Parado no meio da praça, observava as pessoas caminhando, de um lado para o outro, os prédios, as loja. Contudo, eu só conseguia ver o meu passado. A cidade se esvaziou. Não mudou para mim, porque há mais lembranças guardadas na memória. As áreas públicas tem menos verde, e muita sujeira espalhadas pelas vias públicas.
Enquanto me refrescava na sombra que vinha do antigo prédio do Banespa, olhava para o relógio instalado no ponto inicial da Avenida São João, sem funcionar, enferrujado e com a sua estrutura de mármore toda empoeirada. Não estava lá o coreto, local onde populares e apoiadores do movimento Diretas Já, costumavam se aquecer, antes de se dirigirem ao Largo do Anhangabaú e Praça da Sé. Os engraxates profissionais também desapareceram. A banca de revistas e periódicos, onde comprei o meu primeiro jornal: O Estado de São Paulo já não ocupava o seu lugar.
Atravessei a praça e Fui até a esquina com a Rua São Bento. Neste lugar funcionava a loja de roupas masculinas Ducal, onde comprei minhas primeiras calças e camisas sociais, com a gratificação que ganhei, por ter alcançado em primeiro lugar, as metas estabelecidas pelo meu gerente. A alegria tomava conta de mim.
Me lembro da felicidade da minha mãe quando, no portão de casa, me viu chegar com as sacolas cheias de roupas novas. Ela cuidava com tanto carinho, que até passou a engomar as golas das camisas.
Caminhei pela São João. A minha direita estava o prédio antigo do Correio, ao seu lado o Viaduto do Chá, por onde eu atravessava todos os dias, com a minha pasta de plástico cheia de documentos que deveriam ser entregues em alguma escritório, empresa, banco ou cartórios. A esquerda o Vale do Anhangabaú, que passou por reformas. Mais a frente, o Largo do Paissandu, e a sua volta várias tendas improvisadas para abrigar moradores de rua.
Encontrei-me com o prédio do SPCine, que dava sinais de total abandono. Continuei minha andança e cheguei nas esquinas da São João com a Ipiranga, e, para a minha tristeza, notei que os cines Marabá e o República também estavam com suas atividades encerradas. Estes cinemas foram palcos de grandes exibições de filmes e atraiam pessoas de vários pontos do Estado. Recordo do dia em que eu e o meu irmão fomos ao Marabá assistir ao lançamento do filme “Rambo – programado para matar”. Era uma tarde de domingo, ensolarada. Nas mãos pipocas e refrigerantes. Os olhos atentos na sequência de imagens vindas do videoteipe projetadas no telão.
O passeio e as lembranças pareciam não ter fim, mas agora já era noite e o cenário não era mais o mesmo daquela época. As ruas com iluminação precária, e vários comércios com suas portas fechadas, em total abandono e degradação. Retornei às minhas lembranças em que São Paulo era mais linda.
Adair Loredo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem de São Paulo. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Igreja na praça da Sé, foto de Claudinéia Regina/Flickr CBNSP
Era o ano de 1983. Eu havia ingressado no Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da Unesp, em São José do Rio Preto. Bacharelado de Letras-Tradução. Com 18 anos, nascida e criada em uma pequena cidade do interior paulista, sentia-me um peixe fora d’água naquele ambiente tão politizado, com colegas super descolados.
Nem imaginava que, em breve e, justamente, com eles, pisaria em São Paulo, pela primeira vez. A abertura política se fazia lenta, mas progressivamente. Nesse contexto, a comunidade universitária da UNESP, em sintonia com o movimento Diretas-já, propunha um processo de eleição para a indicação do candidato ao cargo de reitor da universidade.
No início de 1984, realizou-se a consulta à comunidade, num ato democrático extraordinário, para a época. Mas o Conselho Universitário e o governador Franco Montoro não acataram a nossa vontade expressa pelo voto. Isso gerou profunda revolta, motivando uma prolongada greve e a ocupação da reitoria e das diretorias de várias unidades.
Naqueles dias, embarcou no trem RioPreto-São Paulo um grupo de destemidos, do qual eu fazia parte. Uma noite inteira, não só de café com pão, café com pão… mas, também, de pão com mortadela, mortadela com pão. Na manhã seguinte, chegamos em São Paulo para revezar com os colegas que estavam ocupando a reitoria há vários dias.
Eu fingia naturalidade no metrô, fingia saber onde estávamos ou para onde íamos. A ninguém eu havia dito que jamais estivera na capital. Imagina! Na Praça da Sé, olhei deslumbrada a Catedral, os prédios do Tribunal de Justiça e da própria reitoria. Notei que faltavam árvores e sobrava gente.
Dado o risco de estarmos sendo vigiados, entramos rapidamente na reitoria, de onde só saí oito dias mais tarde com todos os companheiros, expulsos por Michel Temer, então Secretário de Segurança Pública de São Paulo.
Seguidos à distância pela força policial, fomos em passeata pelo entorno, gritando palavras de ordem, cantando o hino da época: ”para não dizer que não falei das flores”. Ouvia aplausos de alguns, palavras de apoio de outros, e chuva de papel picado a nos receber.
Lá se vão 38 anos de muitas outras histórias de manifestações, comícios, protestos, passeatas, quase sempre em São Paulo. Mas é essa passagem que divido com você, na Praça da Sé, o marco zero da minha história de lutas e paixão por essa cidade.
Janice de Paulo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também um personagem de São Paulo. Escreva seu texto e envie para o email contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo
Nasci em São Paulo e passei minha infância e adolescência na pequena Tambaú, no interior do estado. Voltei à capital, em 1978, quando passei no vestibular para cursar biblioteconomia, na Escola de Comunicações e Artes da USP. Durante o curso, estagiei em uma das bibliotecas universitárias do campus do Butantã e não sai mais daqui.
Venho todos os dias para a USP, desde 1978, ora trabalhando em bibliotecas, ora em arquivos; e é sempre uma alegria adentrar ao campus pela avenida principal e observar as árvores majestosas que ladeiam a passagem e, muitas vezes, escondem os prédios das diversas faculdades.
Trabalhar no campus tem essa magia de estar vivendo dentro de um parque. As sibipirunas, árvores enormes que estão por toda a Cidade Universitária, com seus troncos cobertos de hera, sustentam em seus galhos bromélias onde bandos de periquitos fazem ninhos. Em agosto, cobrem-se de flores amarelas, avisando que a primavera vai chegar e depois fazem um tapete no asfalto, quando suas flores caem. Das árvores que dão flores temos também o flamboyant, a quaresmeira, o ipê , a cerejeira japonesa…
Temos também pés de jaca, goiaba, pitanga, amora e, cada uma a seu tempo, dá frutos que fazem a festa, tanto daqueles que circulam pelas avenidas, como dos papagaios, periquitos, carcarás, tucanos, quero-queros, canarinhos, corujas, saguis e teiús que convivem livremente por toda parte.
Na avenida dos bancos, próximo ao prédio da Matemática e da FAU, temos diversas árvores da mata Atlântica. Nessas árvores foram colocadas placas que identificam as espécies: ipê-rosa, pinheiro bravo; aroeira mansa; canela–amarela; sambacu e muitas outras, que vamos conhecendo e aprendendo o nome à medida que caminhamos.
Além das árvores espalhadas pelo campus, temos também alguns parques internos como o Bosque da Física com sua pista de caminhada; o Jardim Japonês, próximo do Instituto de Biociências; o Bosque da Biologia, na rua do Matão; e a Raia Olímpica, que além das árvores abriga uma família de capivaras.
A USP é famosa pela qualidade do ensino, das pesquisas que produz, de suas bibliotecas e seus acervos documentais e de artes, mas para mim o que mais me encanta é poder, morando em São Paulo, conviver com essa natureza exuberante todos os dias.
Dina Elisabete Uliana é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também um personagem de São Paulo. Escreva seu texto e envie para o email contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo
Parque da Independência em foto de arquivo da cidade
Nos meus tempos de criança, ouvia muito os meios de comunicação dizerem: “São Paulo, a cidade que mais cresce no mundo”. O presidente dos Estados Unidos, Dwight D. Eisenhower, quando veio em visita ao Brasil, estava ansioso para conhecer a cidade, principalmente para conferir esse slogan. Foi em fevereiro de 1960, eu tinha nove anos mas não atinava esse progresso, já que eu morava num bairro pacato da zona leste que nem ruas asfaltadas tinha.
De fato, muitas empresas internacionais, atraídas pelo mercado que a cidade e o país propiciaria, vieram para São Paulo, principalmente a indústria automobilística, notadamente a Ford, que se instalou no bairro do Ipiranga. Os laboratórios farmacêuticos também seriam outra atividade de muita importância na cidade com várias industrias que se instalaram na zona sul. Incluía, talvez, o efeito da frase de Juscelino Kubitschek que em campanha à presidência da República, em 1955, prometeu “Crescer 50 anos em 5 anos”
O centro da cidade erguia edifícios que futuramente seriam sedes de bancos, nacionais e internacionais, cartórios, estabelecimentos comerciais…. Com isso, outro setor que crescia bastante era o da construção civil, atraindo a migração, principalmente de nordestinos para a cidade. Na maioria, os migrantes vinham do interior da Bahia, e logo os baianos foram conquistando a cidade, de tal forma que qualquer outro migrante do nordeste que chegava seria logo chamado de baiano. Até migrante de outros estados do nordeste, ou mesmo de outra região, para os paulistanos era baiano.
Sem dúvida, o progresso desta cidade se deve muito aos migrantes que, em busca de oportunidades de trabalho para melhoria de vida, a tornaram essa potência. Outra região da cidade, a Avenida Paulista começava a se modernizar, encerrando o ciclo dos casarões, hoje com vários edifícios .
Nos anos 50, a cidade teve a sua população aumentada de 2 milhões para 3 milhões e meio de habitantes, matematicamente um aumento de 75%. E, nos anos 60, já contava com quase 4 milhões de habitantes.
Tudo isso estou dizendo para tentar explicar como a cidade de concreto, infelizmente, deixou muito pouco para a preservação da natureza. Muitos lugares da cidade, onde hoje estão situados muitos edifícios, museus e outros ícones, como se diz popularmente: “era tudo mato”
Eu vivi em meio ao crescimento da cidade. Tudo acontecia e não cheguei a conhecer locais cuja preservação da natureza estava estabelecida. Já havia o Parque Ibirapuera mas, pelo que sei foi uma obra planejada para os festejos do Quarto Centenário de são Paulo.
Embora eu já tenha ouvido reivindicações de estudo do parque atribuído a outros paisagistas, oficialmente o projeto e concepção das áreas verdes é de Roberto Burle Marx, que teve também participação de Otávio Augusto Teixeira Mendes.
Temos o Parque da Aclimação , com suas garças maravilhosas, Parque do Carmo, Parque Buenos Aires, Praça da República (que já foi até local de touradas), mais recentemente Parque Augusta e outros, que são excelentes mas não me trazem a sensação de estar em contato com a natureza em seu estado mais puro. A revitalização do Rio Pinheiros, bem recente, está trazendo algo positivo em termos de local que se pode usufruir da natureza em São Paulo.
Porém, e sempre existe um porém, como dizia o dramaturgo Plinio Marcos, na verdade, um local que tem algum tempo que descobri e que frequento com certa assiduidade, acredito que trás o objetivo da narrativa ao encontro do tema proposto. Está localizado no bairro do Ipiranga, mais precisamente nos fundos do prédio do Museu, o Bosque, ou Bosque do Museu do Ipiranga, reconhecido pela importância enciclopédica da Wikipédia .
É fantástico apreciar a quantidade de vegetação do bosque formada por araucárias, pau-ferro (que os índios na língua tupi chamavam de Ubiratã) paineiras, árvore de borracha, amendoim acácia (essas que pesquisei) e árvores de frutos comestíveis, e muitas outras que me rendo pela minha total falta de conhecimento de botânica
Em pesquisa que realizei na internet, para se ter uma ideia, das 160 espécies localizadas no museu, 91 aparecem no Bosque. Algumas, mais precisamente 18, estão registradas em lista da União Internacional para a Conservação da Natureza na categoria de espécies ameaçadas de extinção (triste). Parece pouco, como o texto descreve, mas indica a falta de comprometimento do homem em preservar a natureza. Além desse aspecto, o texto denuncia que o bosque vem sofrendo com a perda de sua vegetação original muitas vezes pela interferência depredatória do homem, que não observa os limites de descarte de plásticos e embalagens que agridem a natureza. Os fatores climáticos também influenciam nessas perdas
Outra impressão que tenho do bosque é a de que, na sua essência, nunca foi modificado em seu acervo natural. Não houve modificação no seu fulcro apenas adaptações com determinação de trilha para os frequentadores correrem ou caminharem, bem como colocação de bancos e aparelhos de ginástica na beira da trilha.
Logo na entrada principal, antes de adentrar o núcleo do bosque, bem pertinho do prédio do museu, há espaço para crianças, com playground, e algumas mesas para convescote. Os sanitários para o público também ficam nessa área.
Há outra entrada próxima do Museu de Zoologia da USP, que, aliás, por muito tempo foi dirigido pelo professor, zoólogo e compositor musical de muito sucesso , Paulo Vanzolini.
O Museu de Zoologia está localizado numa área oposta que, de imediato , apresenta ao visitante sua exuberante vegetação. Nos dias mais quentes, as árvores frondosas propiciam aquelas sombras refrescantes tornando o Bosque um lugar ainda mais aconchegante. Sou suspeito, pois sempre que vou pra caminhada no museu, não deixo de fazer o circuito do bosque que, como eu disse, frequento há muitos anos desde quando morava no bairro de Vila Prudente (não tão distante, uns 3 a 4 km, mas eu vinha de carro)
Quando me mudei de Vila Prudente, um dos fatores decisivos na escolha de novo imóvel seria encontrar um local que eu pudesse praticar atividades físicas ao ar livre. Há 18 ano,s me mudei para o bairro do Ipiranga e distante apenas 400 metros do Bosque, que ,praticamente, é o quintal do edifício onde moro… agora, venho a pé!
Era sonho meu estar tão perto do bosque?
-“Sim , e …. foi realizado.
Julio Araujo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também um personagem de São Paulo. Escreva seu texto e envie para o email contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo
Toda feita de madeira nobre e trabalhada, enfeitava a sala..
A Menininha. Curiosa.
Na pontinha dos pés, como bailarina, ensaiava os primeiros passos e tentava desvendar o mistério da caixa que falava.
Foi assim anos a fio e todas as noites. A caixa falava (com chiado, é verdade!) e a menininha adormecia, embalada pelas ondas do rádio. Transcorria a década de 50.
A família reunia-se em torno dela (a caixa) para ouvir os intermináveis discursos do pai dela(da menininha), então presidente da Câmara Municipal de Lins.
E, ao som das ”ondas” do rádio que proseava sem parar, a menina adormecia.
O tempo voou e a caixinha mágica ficou menor, libertou-se dos fios e acompanhou a adolescente que ouvia os Beatles e os Rolling Stones, sem imaginar fazer parte de uma geração icônica.
Geração que libertava a jovem mulher de amarras seculares. Década de 60.
No embalo da Jovem Guarda, ouvia atentamente programas que ofereciam música aos apaixonados. Suspiros, fantasias e muitos sonhos surfavam nas ondas do rádio.
Ah! A lua da jovem apaixonada ficava mais perto. Sempre ele, o rádio, a nos informar.
“Um pequeno passo para um
homem, um grande salto para a Humanidade.”
A jovem dá um grande passo na década seguinte: universidade, casamento, filhos… anos 70, 80, 90…
Ganhos, perdas e algumas conquistas.
Avizinhava-se o novo século, novas tecnologias, infinitas possibilidades se descortinavam. A fiel caixinha mágica, de onde as palavras saltavam e bailavam, acompanhava a jovem mãe nas noites intermináveis, em claro, ninando as crianças com músicas para relaxar.
Virada do século, o velho amigo, agora guardado como recordação, fora substituído por outro que cabia na palma da mão. A mãe torna-se “mãe de sua mãe” já muito idosa e frágil.
Noites e dias em que os sonhos misturavam-se aos pesadelos da dura realidade. Novamente o rádio, companheiro inseparável, aplacava a angústia e informava. Era a rádio que tocava a notícia, no sem-tempo para leituras.
E foi num desses dias, na segunda década do novo século, que a menina-jovem-mulher-e já avó ouve o chamado para enviar um texto para o programa “Conte sua história de São Paulo”. Já corria a década de 2010.
A emoção de ouvir um texto, sonorizado com esmero, lido com a voz inconfundível do âncora, Milton Jung, foi mágica! Acontecia o inusitado encontro da caixinha proseadora com a prosa literária daquela que ama conversar com o leitor e ouvinte.
Nascia a escritora que havia engavetado suas escritas ao longo de muitas décadas.
As ondas do rádio, agora saídas também da palma da mão que carrega o celular, inundaram e fertilizaram a criatividade da vovó. 2022.
Incentivada pelos textos acolhidos e divulgados, a avó ainda surfa nas ondas do rádio. Ondas que a levaram além mar… Escreve nas nuvens, literalmente, a caminho de Lisboa. Vai lançar seu livro na maior feira lusófona do mundo: a 92a Feira do Livro de Lisboa. Ensaia os primeiros passos no mundo literário… mas precisa escrever sua história com o rádio!
Gratidão ao rádio e a Rádio CBN, que toca notícias, corações, e proporcionou à menininha do passado navegar por ondas e “mares nunca dantes navegados”.
Marina Zarvos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também mais um personagem dessa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
O carteiro da minha rua chamava-se Valter Alito. Durante toda a minha infância, eu o vi diariamente subindo ou descendo a rua de terra em que morávamos, no bairro do Jaçanã. As rajadas de vento faziam levantar nuvens escuras de um pó fino e pegajoso, que travava a garganta; e quando chovia, a rua desaparecia em um imenso lamaçal.
Ele fazia parte da rua, pois com chuva ou sol, lá vinha ele assobiando, vestindo sua farda surrada, com passos decididos e uma pesada bolsa de lona nos ombros. Tinha a habilidade de transformar aquele trabalho aparentemente ruim em algo bom e divertido. Penso que o Valter nasceu para ser carteiro.
Eu olhava com admiração para aquele homem franzino, rosto minúsculo, nariz fino, olhos da cor da distância e olhar amigo, afinal ele usava quepe; que eu era louco para colocar na minha cabeça.
Não foram poucas as vezes que, para o delírio da molecada, ele se meteu em nossas peladas de futebol. Dois ou três dribles, um chute certeiro, e lá ia o Valter, agora com os sapatos sujos, para cumprir o resto de sua jornada.
O Valter era responsável por encurtar distâncias e construir pontes entre pessoas, trazendo notícias de parentes e amigos. Conhecia os moradores pelo nome, e não raras vezes parava para um dedo de prosa com o meu pai. Falavam de política, comentavam sobre a carestia ou algum acontecimento no bairro. Todos o respeitavam e o tratavam como autoridade. E o era, pois nem os cachorros da rua ladravam com ele.
Foi o Valter Alito que trouxe o telegrama avisando da morte da minha avó, em um sete de setembro cinzento. Também era ele que entregava as cartas de parentes, que às vezes deixava a minha mãe triste e preocupada. Eu não entendia bem por que, mas sabia que aquelas cartas sempre traziam más notícias. Mas o Valter também trazia agradecimentos, afetos, conselhos, pedidos, sentimentos e saudades, dentro de envelopes.
O tempo passou, o carteiro deixou de ter a mesma importância para as pessoas, e eu não sei onde foi parar o Valter, mas jamais esquecerei a forma como ele tratava as pessoas. Com certeza, ele já não entrega cartas e cartões de Natal. Pena porque me restou uma pergunta não feita: o que será que o Valter pensava de nós?
Luiz Alves e o carteiro Valter são personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também mais um personagem de São Paulo. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, viste o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.