Conte Sua História de São Paulo: minha paixão pelo bairro de Campos Elíseos

 

 

Por Nelmar Rocha

 

 

 

 

Há sete anos moro no bairro de Campos Elíseos, centro de São Paulo, ladeado pelos bairros de Santa Cecília, Santa Ifigênia, Bom Retiro e Barra Funda. Me mudei para o centro para ficar mais próxima do trabalho e das muitas opções de lazer que São Paulo oferece. Até então, morava em São Caetano do Sul, no ABC Paulista, onde nasci, estudei, cresci, mas nunca trabalhei.

 

 

Desde os meus 17 anos, ia para o trabalho em São Paulo e voltava pra casa Cansada de perder uma hora e meia, duas no congestionamento, resolvi mudar.

 

 

A escolha pelo bairro não foi, inicialmente, por gostar da região. Na verdade, foi amor à primeira vista pelo meu futuro lar: um apartamento antigo, amplo, arejado, com grandes janelões, onde é possível observar as ruas e o movimento local. Da janela da sala, sabe-se quando há espetáculo na Sala São Paulo, pois suas luzes são acesas logo no início da noite — uma paisagem que não canso de olhar.

 

 

Passei a explorar o Campos Elíseos e aí não teve jeito, me apaixonei por suas ruas largas e arborizadas, por seus casarões quatrocentões cheios de histórias e por seu comércio, onde encontro supermercados, padarias, farmácias, feiras e lojinhas — que eu, aliás, adoro entrar e bisbilhotar! Tem de tudo um pouco, desde um alfinete até a própria máquina de costura.

 

 

O bairro tem também várias opções de lazer, como a Sala Funarte, o Sesc Bom Retiro e o Teatro e o Centro Cultural Porto Seguro. Além disso, vários outros negócios estão chegando: galerias de artes, espaços culturais, restaurantes, botecos temáticos .… E para todos esses lugares, vou a pé.

 

 

Ao caminhar pelo bairro, me encanto com o boteco minúsculo — com cadeiras e mesas nas calçadas, onde as pessoas conversam enquanto saciam sua sede e fome — e com as frutas coloridas expostas nas carrocinhas de madeiras, estacionadas nas esquinas.

 

 

Os moradores de hoje são bem diferentes daqueles que outrora habitaram o lugar, e as residências são bem mais modestas que as do final do século 19 e início do século 20 — isso porque Campos Elíseos foi o primeiro bairro planejado da cidade, para onde vieram os abastados Barões do Café, que saíam do interior para fixar residência na região, devido a proximidade da Estação Sorocabana, atual Estação Júlio Prestes, e da Estação da Luz. Para receber tão ilustres fazendeiros, foram construídas mansões enormes, com pé direito altíssimo. Verdadeiros palácios.

 

 

O bairro também foi sede do Governo do Estado, o Palácio dos Campos Elíseos, na antiga Alameda dos Bambus, hoje Avenida Rio Branco. Depois de sofrer um incêndio, a sede foi transferida para o Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi. O Palácio dos Campos Elíseos abriga hoje uma secretaria de estado. Outros antigos casarões são agora escolas e sede de empresas, o que ajuda a revitalizar o local.

 

 

No bairro, ainda tem muito a se fazer, mas a boa vontade de seus moradores e comerciantes, por meio da associação de bairro, e o desejo de se viver num local agradável fazem dos Campos Elíseos um lugar onde é possível trabalhar por um futuro melhor, sem esquecer um passado que ajudou a construir a cidade de São Paulo.

 

 

Nelmar Rocha é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: quando cheguei de Angola ainda tinha garoa

 

Por Matilde Alexandrina Silveira Cristiano Moniz
Ouvinte da CBN

 

 

Cheguei em São Paulo, em 14 de dezembro de 1982, de uma pequenina cidade, no litoral de Angola. Na época, com apenas 17 anos e meio, desembarquei no aeroporto de Viracopos. Estava acompanhada de um irmão, um ano mais velho e, juntos, fomos para a Vila Mariana, morar com duas tias, irmãs da minha mãe.

 

Na bagagem, um mundo de expectativas, sonhos e medos.Deixávamos para trás, nossos pais, uma irmã mais velha, amigos, animais de estimação, histórias da infância.

 

Na época, São Paulo ainda era da garoa. Lembro-me bem da minha decepção ao constatar que, em pleno verão, tínhamos dias frios, cinzentos e com uma constante chuvinha. Eram dias tristes e me deixavam ainda com mais saudade da família. Mas esse era apenas um detalhe.

 

Deparei com uma cidade grande, desajeitada, porém com um enorme e acolhedor coração, que recebia com carinho e compaixão todos que aqui queriam prosperar — nordestinos, sulistas, nortistas, brancos, negros, asiáticos… e a todos oferecia inúmeras oportunidades.

 

Em São Paulo reconstrui minha vida e fui atrás dos meus sonhos: casei, estudei, trabalhei e tive filhos. Aqui, vivi momentos de alegria e tristeza. Porém, cada tijolo dessa reconstrução aumentou e fortaleceu meu encantamento e paixão pela metrópole.

 

Hoje me pergunto qual região elegeria como símbolo da cidade e chego à conclusão que seria, sem dúvida, a da Avenida Paulista, pelo significado que tem para mim, por sua presença constante em minha vida. Na Paulista, trabalhei por 23 anos, conheci meu marido e companheiro de jornada, nasceram e estudaram meus filhos, até a conclusão do ensino médio. E sempre acompanhei as grandes mudanças que nela aconteceram: da avenida glamorosa, das décadas de 1980 e 1990, à avenida das grandes manifestações e de lazer, dos dias de hoje. A Paulista é, para mim, a cara de São Paulo.

 

Matilde Alexandrina Silveira Cristiano Moniz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: amedrontado pela falsa ideia de ser engolido na Pauliceia

 

Por Alceu Costa
Ouvinte da CBN

 

 

 

Quando cheguei em São Paulo,
Eu era um jovem calado,
Discreto, comportado,
Risonho, mas assustado,
Caipira um tanto acanhado,
Amedrontado pela falsa ideia
De ser engolido na Pauliceia,
Uma imensa cidade desvairada,
Sob a lei do tudo ou nada
Da ditadura militar instalada.
Com humildade e orgulho,
Fui morar na Av. Mercúrio,
Aos poucos, comecei a trabalhar,
Na Light, até me aposentar,
Casado, residindo no Cambuci,
Meu lugar com certeza é aqui,
Próximo do Parque da Aclimação,
Porém, faço esta observação:
Aquele jovem encabulado,
Há muito tempo passado,
Aquém desta nova era,
Frequentou o Parque Ibirapuera,
Embora pouco assíduo,
Mais à noite do que de manhã,
Jamais deixou esquecido
O concorrido Tobogã.
Por isto, ó Parque Ibirapuera,
Agora, como eu, sexagenário,
Com muito Amor de atento cidadão,
Deixo-te estes versos de saudação,
Meu precioso talismã,
Do ontem, do hoje e do amanhã. 

 



Alceu Sebastião Costa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: um fusca embrulhado para presente

 

Por Célia Corbett
Ouvinte da CBN

 

 

Essa história aconteceu em maio de 1971. Éramos uma família recém-chegada ao bairro de Higienópolis, na Avenida Higienópolis esquina com a Rua Sabará, no Edifício Parque Higienópolis, um edifício pomposo de 21 andares e novinho em folha. Éramos meu pai, Helio Ferrari, três filhos, Márcia, Carlos e Célia e meus avós paternos, Anna e Francisco.

 

Meu pai já havia decidido presentear o Carlos que havia passado no vestibular para cursar a faculdade de engenharia, no Instituto Mackenzie. O Carlos sempre foi um ótimo aluno, rapaz correto e filho amoroso que merecia um bom presente, mas Sr. Ferrari era um pai prestimoso e queria que o presente fosse entregue literalmente embrulhado.

 

Sr. Ferrari poderia dizer: — “Carlos, vamos à concessionária da Rua Maria Antonia buscar seu fusca”. Mas, ele era um pai muito especial e estava presenteando um filho do qual muito se orgulhava. Foi quando me passou a missão: — “Filha, embrulhe o carro de seu irmão para presente com laço e tudo”.

 

Sr. Ferrari foi para o centro da cidade trabalhar na Rua Conselheiro Crispiniano. O Carlos foi para bem longe, uma vez que meu pai lhe deu uma tarefa deveras difícil para executar e eu meio atônita, fui providenciar um grande lote de papel celofane azul.

 

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Seu Ferrari entrega o presente para o filho Carlos em foto da família

 

Missão dada, eu, de joelhos colei uma folha à outra no chão da garagem do prédio onde morávamos e onde o fusca já estava. Ninguém entendia nada, papel para todos os lados, uma trabalheira enorme. O pessoal do prédio — porteiros e faxineiros e condôminos — olhavam incrédulos para aquele trabalho todo. Seguiu-se o cuidadoso procedimento de embrulhar o Fusca para presente. Até aí funcionou tudo bem. Mas depois veio o laço, pois um pacote de presente que se preze tem que ter um belo laço, não é mesmo? E assim foi feito, um laço bem grande com papel celofane vermelho.

 

Sr. Ferrari sentou-se na sua máquina de escrever e datilografou uma carta temática como se o Fusca fosse um “gênio do bem” que chegaria para cumprir uma missão para o seu novo “amo”.

 

Assim era a carta:

 

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Quando o Carlos voltou já estava tudo pronto, carta escrita, chaves separadas, fusca embrulhado para presente e máquina fotográfica preparada. A entrega do carro ocorreu com toda a pompa e circunstância que haviam sido meticulosamente idealizadas e preparadas por meu pai e por mim. Quem não estava esperando tudo isto era o Carlos e não é difícil imaginar a emoção que envolveu este fantástico acontecimento familiar. Tudo aconteceu no bairro de Higienópolis, precisamente no dia 2 de maio, quando o Carlos completava 19 anos.

 

Eu sou a Célia, hoje eu tenho 64 anos e o Carlos, 66. Tenham certeza que essa história está guardada no melhor lugar dos nossos corações.

 

Célia Corbett é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Venha participar desta série e envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: Cambuci, o bairro onde nunca morei

 

Por Julio Araujo
Ouvinte da CBN

 

Minha relação com o Cambuci vem desde os meus avós que habitaram no bairro entre 1915 e 1948. Minha avó nasceu e foi criada no bairro num tempo em que a cidade de São Paulo era bem provinciana, há mais de 100 anos. Meu avô, de origem italiana, argentino de nascimento, foi sempre ligado ao comércio, teve caminhão de frutas, também foi “chofer de praça” num ponto do Largo do Cambuci. Foi também sócio de um mercadinho na Avenida Lins de Vasconcelos, no coração do bairro.

 

No Cambuci também nasceu, em 1925, minha mãe, na Rua Gama Cerqueira. Foi criada no bairro e só saiu quando se casou. Ela sempre contava histórias de lá, dos carnavais passados, da vida dura. Morou com a família também em outras ruas, sempre pagando aluguel.

 

Nos anos 1920, o bairro já era bem desenvolvido, devido à sua localização próxima ao centro da cidade.

 

Na década de 1950 apresentava características de bairro aristocrático, com ótima infraestrutura, ruas asfaltadas e muitas ainda com paralelepípedos. Havia a linha do bonde para o centro da cidade.

 

A minha primeira lembrança do bairro remete quando tinha 6 ou 7 anos. Era 1957, meu avô era sócio num mercadinho da Lins de Vasconcelos, próximo à Aclimação. Minha mãe me levava para visitá-lo e lá ele servia sanduíche e guaraná sem gelo. Durante muito tempo me intrigou o porquê de aquele refrigerante ter um gosto tão diferente. E a culpa era do fato de não estar gelado!

 

Quanto eu completei 11 anos, eu ia ajudá-lo no mercadinho e pude conhecer toda a redondeza, pois realizava entregas em domicílio. Eu percorria a Avenida Lacerda Franco, a própria Lins de Vasconcelos e as travessas do entorno. Numa dessas andanças, pela primeira vez entrei num prédio de apartamentos, o Edifício Ligia Maria. Fiquei assustado ao ver as pessoas morarem tão apertadas, aquelas unidades uma colada na outra. Eu fazia a entrega e ia embora.

 

Sempre ouvi que o primeiro mercado com sistema de auto-serviço foi no Cambuci: o Peg Pag. Havia também o cine Riviera, onde hoje está a igreja Renascer. Lembro da Copa de 1962, o jogo Brasil x Espanha transmitido no rádio da Auto Escola Lins, que ficava ao lado do mercadinho, com a transmissão do locutor Pedro Luiz.

 

O jogo estava muito nervoso, Espanha ganhava de 1 a 0, parecia o fim. Eu bem moleque também sofria, mas acho que mais por causa de ver os adultos sofrerem tanto. Eles suavam, embora fizesse um frio tremendo naquele dia. Veio o segundo tempo e “Gooool de Amarildo!!”, o Brasil empatava. Que alívio! Eu olhava pros adultos e contemplava a felicidade deles. Depois veio o segundo gol. Virada! Brasil ia pra finais da Copa do Chile.

 

E todos foram pro mercadinho comemorar, beberam, comeram traziam noticiais de que a TV Record iria exibir o videotape no outro dia. Meu avô não se entusiasmava tanto, afinal ele era argentino. Enfim, todos estavam muito felizes. A Avenida Lins foi tomada à noite pelos moradores, era o mês de junho, também o mês das festas juninas.

 

Passou o tempo, me afastei do Cambuci, eu já estava na idade militar com medo de servir o Exército, em plena ditadura, e ir pra Quitaúna, ou Barueri, que eram quartéis longe à beça. Inventei de tudo pra não servir. Nada funcionou. Estava chegando o momento. No derradeiro dia, o praça que chamava os convocados já havia dito onde serviriam e muitos deles foram para longe. Chegou minha vez, ele olhou pra mim e riu ironicamente, finalmente disse: “sossegado hein?!” Pensei, estou livre. Mas ele continuou: “você vai servir no Batalhão de Saúde… no Cambuci.. só tem sossegado lá!

 

Puxa! Eu não queria servir de jeito algum, mas era no Cambuci, nos fundos do Hospital Militar. Tudo de bom. Perto de casa. Depois que eu estava lá dentro o mesmo soldado era praça velha cumprindo o período de núcleo-base
Fiquei no quartel um ano num período do auge da ditadura militar, em 1969.

 

Incorporei no dia 16 de maio. O quartel já havia passado por uma invasão com roubo de armas do corpo da guarda do hospital um ano antes. Foi um período em que, apesar das dificuldades decorrentes das constantes prontidões e do clima político tenso, eu me reencontrei com o bairro, o que me deixava muito contente.

 

No carnaval de 1970, eu estava de serviço e na quarta-feira de cinzas saí com outros soldados para ver o término dos desfiles no Anhangabaú. Ficamos bem próximos dos componentes da última escola a desfilar. O nome: Império do Cambuci. Muitas coincidências.

 

Em 1970, dei baixa do Exército e aí começou a dificuldade para encontrar emprego, eu havia parado de estudar no segundo ano colegial. Eu não sabia muito o que queria. Trabalhei um ano numa gráfica na Vila Prudente, mas não parava em emprego algum. Até que em 1972 encontrei no jornal dois anúncios para atuar em escritórios. Um era na Votorantim, no escritório da Praça Ramos de Azevedo e o outro era… adivinha onde? No Cambuci, na empresa Lastri Indústria Gráfica, que ficava na rua Independência.

 

Novamente o Cambuci entrava na minha vida. No teste na Votorantin nada deu certo, eu só pensava em terminar logo e ir para o Lastri, —sim com “o” como os gráficos diziam, embora a nova geração pronunciasse a Lastri. No Lastri fui muito bem e me contrataram.

 

O bairro também se caracterizava pelo grande número de indústrias gráficas existentes, as maiores do estado e, como o Lastri, que não existe mais, do Brasil.

 

Passou o tempo, o Cambuci envelheceu, as famílias tradicionais mudaram de lá. Muitas foram para bairros mais recentes que se formaram, como a minha família. Na década de 1990 conheci o restaurante do cantor da jovem guarda, o Ed Carlos, com o nome de Ed Carnes, na Rua Theodureto Souto, que até hoje se encontra no mesmo local. Um local muito agradável e aconchegante.

 

Vejo que atualmente o bairro está se modernizando e voltando aos poucos a ganhar importância.

 

Enfim, muita coisa ocorreu na minha vida envolvendo o bairro do Cambuci e queria um dia relatar. Por isso tenho um sentimento muito grande pelo bairro.

 

Ahh! apesar do bairro fazer parte da minha vida, nunca morei por lá e nasci na Vila Monumento. Morar não morei, mas meu coração sempre terá um lugar para o Cambuci.

 

Julio Araujo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Participe desta homenagem a nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: o passeio ao centro tinha o sabor do guaraná caçula

 

Por José Antonio Braz Sola
Ouvinte da CBN

 

 

 

Início da década de 1960. Morávamos em Pinheiros, perto do Largo. Eu tinha uns 7 anos e minha irmã, 4. Nos domingos em que meu pai — um simples comerciário — tinha folga, ele nos  levava para passear, de ônibus ou de  bonde, enquanto a mamãe ficava em casa cuidando do almoço mais caprichado da semana.

 

Íamos com frequência ao Parque da Água Branca, onde podíamos ver e tocar  os bichinhos que tanto nos encantavam — especialmente bois, vacas e cavalos. Lembro-me de que ficava particularmente feliz quando o ônibus passava em frente ao Estádio Palestra Itália, sede do clube pelo qual já era apaixonado, o Palmeiras.

 

Fazíamos passeios  também no centro, onde ficávamos maravilhados com as vitrines das lojas mais conceituadas da cidade, localizadas nas Ruas Barão de Itapetininga, 24 de Maio, do Arouche e na Praça da República. Era uma época pré-shopping centers.

 

Seguíamos, também, até a Praça do Patriarca, para admirar a vitrine da Kopenhagen, que estava sempre ornamentada maravilhosamente, sobretudo em datas especiais como Páscoa e Natal. Em dezembro, claro, era obrigatório ver e falar com o Papai Noel no Mappin, além de ir apreciar o maravilhoso presépio mecanizado, montado na Galeria Prestes Maia.

 

O dinheiro do papai era curto, mas ele dava um jeitinho de nos oferecer um lanche, sempre acompanhado do insubstituível Guaraná Caçula Antárctica. Sinto muitas saudades daqueles tempos, de todas aquelas coisas e especialmente daquela São Paulo.  

 

José Antonio Braz Sola é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: sapato e bolsa combinando para passear no centro

 

Por Elvira Pereira

 

 

Parabéns São Paulo! Cidade em que nasci e que tanto amo! Como dizia Fernando Pessoa: “o Tejo não é mais bonito do que o rio que corta a minha aldeia” Para mim, São Paulo é a mais bela cidade do mundo!

 

Filha de portugueses, nasci no Bairro do Brás, na Rua Piratininga, há 75 anos. Depois nos mudamos  para o Tatuapé, onde vivo até hoje. Todo ano, ao se aproximar as comemorações do aniversário de São Paulo, faço uma retrospectiva, uma viagem interna com direito a escala nos anos 1960.

 

Éramos de família de poucos recursos — meus pais e três filhas. Nosso sonho de consumo era ir à cidade, como se dizia na época. E ninguém que se preze ia desarrumado. Vestíamos nossa melhor roupa, que não era de grife, combinando a bolsa com o sapato. E lá íamos pegar o bonde Praça Clóvis, na Avenida Celso Garcia.

 

Descendo na praça, seguíamos a pé até a Rua Direita com destino às Lojas Americanas,  que era a apoteose do passeio. Mais precisamente, a lanchonete ao fundo da loja. Ah!… aquele cachorro quente ! Ainda sinto o aroma e o sabor do delicioso molho de tomate com pimentão e cebola. Inigualável. 

 

Dando continuidade ao nosso “tour”, seguíamos até o Mappin, com suas lojas de departamento. Ainda ouço a voz do ascensorista, parando em cada andar, abrindo a porta de grades do elevador com as mãos enluvadas, anunciando  os produtos.

 

Após o Mappin, um giro pela Praça da República, que era melhor cuidada e frequentada. Depois o retorno para casa, também de bonde com a sensação de quem fez uma viagem inesquecível.

 

Lembranças que na verdade são carícias congeladas em nossos corações.

 

Elvira Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: será que eu ainda gosto da Paulista?

 

Por Betty Boguchwal
Ouvinte da CBN

 

 

Paulista: trata-se de uma avenida tão conhecida que assim mesmo é chamada: “A Paulista”.

 

Pois é, eu retornava de uma reunião no ABC, num carro da Secretaria da Saúde e, ao chegar ali, 13h de uma 4ª. feira, cinzenta, de final de setembro, eis que Paulo, o condutor, para em meio a um grande congestionamento e exclama:
– Não sei por que tanta gente gosta disso aqui, tira foto, envia cartão postal. Eu só vejo um monte de prédio alto, é concreto por toda a parte.
– Ah, Paulo, mas a Paulista é um grande símbolo da cidade.
Mas, já que ele a vê assim, seria então um convite para repensar isso, agora que a eleição para prefeito se aproxima, e eu pronta a transferir meu título de eleitor daqui!

 

A conversa me fez pensar:
Em tempo, será que eu ainda gosto tanto assim da Paulista?

 

Ora, indo lá para trás, a minha relação com esta avenida teve início nos meados dos anos 60, quando a minha família montava apartamento aqui numa das paralelas, a Rua São Carlos do Pinhal. Nossa, era toda glamorosa, daí que me remeto aos flashes das marcas dos trilhos dos bondes que carimbavam o chão! Puxa, eu as avistava logo que a minha mãe, sob o embalo daquele fusquinha bege, 1964, terminava a subida da rampa do túnel da Nove de Julho, e desembocávamos bem ali próximo ao MASP e Parque Trianon.

 

Nem bem mudamos e passei a interagir com este pedaço da cidade. Então me lembro de que no novo colégio, digo na 1ª. série do antigo ginásio, a professora citou esta avenida como o ponto mais alto da cidade: 830m. A partir daí volto-me à janela do quarto, no 10° andar, onde morávamos e da qual avistávamos o prédio da Gazeta, ainda não ocupado. Puxa, de lá saíram três cinemas, um teatro, a Faculdade Cásper Líbero, Rádio e TV Gazeta, e mais tarde o Cursinho Pré Vestibular Objetivo, de onde derivou um colégio e uma universidade.

 

É também foi aqui que peguei ônibus, sozinha, pela primeira vez, o Lapa—Vila Mariana, da Viação Translapa, que me levava à escola. Incrível, naquela época era uma prática usual: pré-adolescentes irem sozinhos à escola de ônibus, o que dava uma puta sensação de independência. Pois ali nas esquinas com a Brigadeiro Luís Antônio e com a Rua Augusta eram e permanecem locais que concentram muitas linhas de transporte coletivo.

 

Já do terraço da frente, ao retornar das viagens, eu terminava os filmes de slides fotografando a avenida: são dados históricos das mudanças desta via, onde inclusive tinha um requintado prédio residencial que foi transformado em comercial, em cuja parte inferior foi inaugurado o primeiro Mac Donald’s da cidade, e que até hoje lá permanece.

 

Evoluindo para a adolescência, aqui eu adquiri o gosto pelo cinema: tinha o finado Luxor, na Brigadeiro, que também não vingou como Biarritz. Mais adiante, nesta mesma via, inaugurou o Paulistano com “Um convidado Trapalhão para Jantar” estrelado por Peter Sellers. Mais tarde, já na Paulista, o dois Gemine. Na sequência, no Conjunto Nacional, marco da avenida e projetado pelo arquiteto David Libeskind, estavam o Astor, onde assisti “Se meu Fusca Falasse”, e o Cine Rio. E logo em frente, no Center Três, inauguraram o Bristol e Liberty, que incendiaram e depois foram recuperados. Nossa esta lista finalizava logo atrás na virada da esquina com as Consolações no Cine Belas Artes, naquela época com três grandes salas: Aleijadinho, Portinari e Vila Lobos.

 

Além disto, havia inúmeras mansões, com destaque para a da tradicional família Matarazzo, com seus imensos jardins. Mais adiante grandes magazines com roupas e acessórios diferenciados, como a Vogue na esquina com a Peixoto Gomide e a Sloper, entre a Augusta e Hadook Lobo.

 

Já em 1974 foi inaugurada a primeira linha de metrô da cidade, a hoje Azul, outrora Santana Jabaquara, e claro que tinha a Paraíso, uma estação na continuação da Av. Paulista.

 

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Conte Sua História de São Paulo: faltavam os lírios do canteiro da Avenida Paulista

 

Por Elza Conte
Ouvinte da rádio CBN

 

 

 

A Av. Paulista é há muitos anos meu espaço de caminhadas e reflexão. Ela é sem dúvida a imagem de São Paulo. Estamos no verão, todavia a exuberância dos seus prédios faz com que a qualquer momento do dia, haja em seus quarteirões uma suave brisa e uma sombra reconfortante. Caminhar pela Paulista passa a ser refrescante.

 

Há lindas histórias que tenho gravadas em mente, presenciadas nesta importante via de São Paulo, não faz muito tempo um dos inúmeros moradores de rua que lá habitam, e que fazem parte do cenário, tinha um cartaz do seu lado:

 

-

- Eu e meu cachorro estamos com fome, você nos ajuda a almoçar?

 

Parei diante dele e indaguei:

 

— Convença-me a ajudá-lo. Por que você e seu cachorro?
Prontamente o morador disse-me:

 

— Eu prefiro morrer de fome a ver meu companheiro sofrer. O almoço será dividido com ele.

 

Eu convencida daquele amor puro e inocente, paguei a eles e desejado almoço.

 

Hoje outro morador de rua, com uma bandeja de presunto, alimentava seu cão-companheiro, fatia a fatia, delicadamente servida ao animal. Não resisti e perguntei-lhe:

 

-

- Por que você não come também o presunto?
No que ele respondeu:

 

— Eu já comi um lanche de queijo, o presunto alimenta melhor o Rei —- sim, era Rei, o nome do cachorro.

 

Comovente….

 

Outra história antiga vivida na Avenida Paulista é sobre um charmoso bêbado que vivia nos arredores. Era meu caminho para a faculdade na época. Todas as vezes que encontrava com ele, respeitosamente ele dizia:

 

— Boa noite Madame! Ao qual eu sempre retribuía com muito carinho…

 

Uma dessas noites, porque estava muito cansada, fui de ônibus para a faculdade. A Paulista sempre com o trânsito congestionado, estava estranha. Faltavam os lírios amarelos dos canteiros centrais. Para surpresa de todos, no final da Paulista o charmoso bêbado estava com um enorme maço de lírios amarelos nos braços, fazendo graça com todas as moças que passavam:

 

— Boa noite Madame! — dizia de forma agradável.

 

E a cada oferecimento, um enorme aplauso, que se ouvia de todos os transeuntes e pessoas presas no trânsito. Ao qual ele respondia com um não menos charmoso agradecimento, curvando seu corpo tênue e fraco, maltratado pela bebida. Confesso que me arrependi infinitamente por não ter ido a pé naquele dia, e ter ganhado um lírio amarelo, colhido da Av. Paulista.

 

Essa imagem, como dos moradores de rua e seus cachorros, são cenários da vida real vivida na Paulista, onde tudo é possível. Nenhum destes momentos tenho coragem de fotografar porque são de beleza rara e impossíveis de serem registrados. São mágicos e divinos. Apenas histórias de São Paulo.

 

Elza Conte é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta homenagem à nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: 

a frieza dos olhares colados em relógios e celulares

 

Por Marcelo Kassab

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto do ouvinte da CBN Marcelo Kassab, publicado originalmente no livro “Vamos falar de São Paulo”

 

É pela manhã que São Paulo mostra a sua cara. 
Pelas janelas, uma paisagem cinza e carrancuda. Os vidros acolhem as gotículas trazidas pelos frios e bons ventos. Assim, a famosa garoa paulistana convida para mais alguns minutos de sono e preguiça.

 

Com feiura imponente e autoestima  elevada, São Paulo ensina que nem todas as obras de arte são coloridas e que o cinza é só mais uma cor entre tantas outras, emolduradas pelas janelas dos arranha-céus da mais paulista das avenidas.

 

Sempre enxerguei em São Paulo e na sua escuridão um tom melancólico repleto de tristeza, onde as frequentes  garoas  pareciam lágrimas que escorriam por rostos vítreos que as observavam com o desânimo de uma segunda-feira qualquer. Talvez um olhar pessimista, visto que também se pode chorar de alegria e é no escuro que habitam e convivem harmonicamente todas as outras cores com seus pigmentos.

 

A frieza dos olhares colados em relógios e celulares, bem como a pressa cotidiana do paulistano, contrastam com o calor da sua receptividade, trazendo o mundo para casa e matizando seu cinza com as cores de outras cidades e nações, abrigando as diversas raças, castas e credos.

 

Basta um breve passeio pelas ruas e avenidas de São Paulo para aprender a conviver com a insanidade e a imprevisibilidade.

 

Do céu, surgem aviões que parecem tocar os capôs dos automóveis antes de pousos nem sempre certeiros nas pistas do Aeroporto de Congonhas. Carros, motos, pessoas e bicicletas concorrem pelo pouco espaço como em um disputado jogo de futebol numa tarde de um domingo qualquer, no Pacaembu ou em Itaquera, lotados e coloridos de preto e branco pela fiel alvinegra.

 

Apesar dos diversos tipos de poluição e da fumaça sufocante, a  cidade ainda respira e transpira. E acreditem ou não, em São Paulo há fotossíntese! Talvez mais do que o imaginado e menos do que o necessário. Que o digam as famílias que transitam pelos parques do Ibirapuera, do Carmo, da Cantareira, da Juventude ou da bela Aclimação, entre tantos outros.

 

Sem dúvida, uma cidade de clima ilusório onde a Terra parece realizar uma dança frenética ao redor do Sol, propiciando em um único dia seu movimento de translação, exibindo suas quatro estações e obrigando o paulistano, como em um afamado desfile de modas, antecipar e misturar todas as tendências e estilos, ostentando as coleções de cada temporada no mesmo dia.

 

As praias dos paulistanos são os pomposos shoppings da metrópole. Por lá é possível navegar e banhar-se com a variedade cultural que faz justiça à cidade que nasceu ao redor de um colégio; assim como uma gastronomia que não se encontra na mesma proporção nas areias de qualquer outra grande capital brasileira.

 

Nas ruas, o comércio atende a todo os gostos e classes sociais; desde um badalado e falsificado sábado na 25 de março ao nariz empinado e endinheirado da Oscar Freire.

 

E no final do dia, o céu cinza da manhã, menos carrancudo e mais generoso, abre-se para o sol poente e as mesmas janelas que emolduravam a paisagem plúmbea, agora refletem a luminosidade do Astro, guiando e acompanhando os paulistanos para suas casas após um longo dia de trabalho.

 

Descanso merecido em uma cidade que não dorme, esperando para começar tudo outra vez ao cantar da primeira buzina da manhã seguinte.

 

Marcelo Kassab é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Para conhecer o texto do Marcelo, visite agora o meu blog miltonjung.com.br Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.