Conte Sua História de São Paulo: os coletores de lixo e as crianças do Alto da Lapa

Ana Maria Oliva

Ouvinte da CBN

Foto Divulgação Loga

Embora seja uma cidade cosmopolita, São Paulo nos surpreende com situações prosaicas, que poderiam ser bem comuns em pequenas cidades. Ao longo de meus 37 anos nesta cidade que adotei como minha, nesse caldeirão de cultura, raças, sotaques, me tornei uma observadora do cotidiano. E é justamente sobre uma cena que se repete todas as noites na minha rua que retrato nesta crônica:

Sempre, por volta de nove da noite, o caminhão dobra a esquina e entra na rua Aibi, no alto da Lapa. O barulho, inconfundível e familiar aos ouvidos dos moradores, anuncia o serviço necessário e urgente: a coleta de lixo domiciliar. Três rapazes, usando o habitual uniforme verde com faixas reflexivas, luvas e bonés, saltam do veículo, ágeis como felinos, e seguem recolhendo sacos depositados nas calçadas e lixeiras. Tudo rápido e cronometrado. E mesmo depois de horas de trabalho árduo, no sobe e desce do caminhão, encaram com bom humor e disposição a jornada que só termina na madrugada. 

Mal entram na pequena rua, já se anunciam com gritos, acenos e buzinas. Toda essa festa não é para os porteiros dos prédios ou moradores que passeiam com seus cães. Não. A festa é para um público especial e fiel: crianças de olhos vivos e atentos, boquinhas falantes e sorridentes que se postam nas janelas de vários andares dos prédios, aguardando ansiosas a chegada dos amigos alegres e barulhentos – que mais parecem passistas de uma escola de samba. Os rapazes acenam e cumprimentam com um “olá, amiguinhos” e um “boa noite” seguido do nome das crianças. Elas respondem chamando um por um pelo nome: Michel, Paulo, Sérgio. Seguram com as mãozinhas firmes nas grades, estabelecem um diálogo de muitos sons, risos e falas, enchendo a rua de alegria. 

O motorista do caminhão, um simpático jovem de barba ruiva, alargador na orelha, também participa da festa: diminui a velocidade, coloca o braço tatuado para fora do veículo e acena para a meninada, sorrindo e buzinando o caminhão. 

No fim da rua, retornam na praça e retomam o caminho aos efusivos gritos das crianças com sonoros “tchau” e “bom trabalho”. Os rapazes respondem “boa noite” e “bons sonhos” para Paulinho, Larissa e Marina – alguns nomes que ouço enquanto assisto a esse espetáculo de humanidade da minha sacada. Passado o show, as crianças desaparecem das janelas, as luzes se apagam e o movimento da rua volta com os entregadores de aplicativos no vaivém de suas motos.

Numa noite dessas, enquanto passeava com meu cachorro, pude constatar de perto a alegria genuína dos rapazes. Perguntei se aquela festa também ocorria em outras ruas e bairros de São Paulo. Me contaram que, em algumas ruas da cidade, às vezes são recebidos por crianças acompanhadas de seus pais, com saquinhos com bala e chocolate, e que, de vez em quando, há criança pequena que cisma de dar uma volta com eles na traseira do caminhão e cai no choro quando o pai explica por que não pode. 

– Mas nada se compara com a farra das crianças daqui, elas são especiais — comenta Michel, um rapaz carioca, o mais alegre de todos. 

O motorista contou que Arthur, um garoto de 4 anos, certa noite estava com o avô na calçada acenando para eles estacionarem o caminhão. Seguravam uma embalagem de pizza, uma garrafa de refrigerante, frasco com álcool gel e guardanapos. Fizeram uma pausa rápida e compartilharam a refeição com o Arthur sentados na guia da calçada. E ao se despedirem, perceberam como os olhinhos do menino brilhavam de alegria.

Fiquei imaginando a cena e as expressões do menino e como o assunto tomaria conta da conversa com os amiguinhos da pré-escola. Que efeito teria causado sobre eles? Será que convenceram seus pais e avós a replicarem os gestos de gentileza com esses trabalhadores, muitas vezes invisíveis à população? O Arthur e as crianças que avisto da minha sacada têm muito a nos ensinar sobre acolhida e empatia. 

Só na cidade de São Paulo, de acordo com dados da prefeitura, cerca de 3,2 mil pessoas trabalham na coleta de lixo. São 12 mil toneladas retiradas diariamente por 500 caminhões da prefeitura, percorrendo ruas e bairros – não estão incluídos nesta conta os catadores de recicláveis.


Torço para que demais trabalhadores da limpeza também recebam em outras ruas da cidade sorrisos e respeito – um pequeno alento para seguirem com disposição a rotina pesada de uma atividade tão essencial para a cidade, para a população e para o meio ambiente. Aqui, eles são celebrados como os verdadeiros reis da rua!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Ana Maria Oliva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu text agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e coloque entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o dia em que a Mooca parou para ver o e elefante passar

Alceu Carreiro

Ouvinte da CBN

Foto de Regan Dsouza

Memória de elefante! Com meu novo livro de cabeceira “A viagem do elefante”, de José Saramago, me encorajei a escrever sobre  um fato curioso que, talvez, muita gente ao escutar esta narrativa, lembre do ocorrido.

Nasci no antigo hospital Leão XXIII, nove dias após o golpe militar de 1964 — tempos difíceis que nos tiram o sono até hoje. Sempre relembro minha mãe contando que, quando foi ao hospital, sentindo as dores do parto, meu pai, ao volante, cruzou com vários tanques de guerra; talvez, fazendo cumprir-se uma inaceitável GLO ( Garantia da Lei e da Ordem), nas proximidades do Museu do Ipiranga. 

[… ]

Mas isso é só um adendo. Vamos ao fato que me traz aqui: morávamos na Mooca. E eu, como um garoto que brincava nas calçadas de pique esconde, junto com os colegas, fomos surpreendidos — se não me falha a memória, em 1972 — com a passagem pela rua de um majestoso elefante. 

Todo o trânsito parou. As donas de casa se ausentaram da cozinha e abandonaram seus afazeres domésticos para ver o inusitado. Os comerciantes — o padeiro, o dono da banca de jornal, o açougueiro, enfim —, todos queriam testemunhar o inacreditável. 

A garotada seguiu em procissão acompanhando o enlace para desespero das mães. Não havia, como no livro de Saramago, um conarca no dorso do elefante, vestido em trajes indianos — o que em nada tirou o glamour e o encantamento da comitiva que anunciava um circo na região. Foi um dia histórico na Rua Chamantá. Por anos foi assunto sempre lembrado por todos nós. 

São Paulo de outrora já despontava como uma metrópole, mas os bairros ainda tinham um ar interiorano. Hoje, moro em Atibaia, fugindo da agitação e talvez procurando, no subconsciente, a Mooca daqueles tempos em que a passagem de um elefante era atração na vizinhança.

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Alceu Carreiro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a interpretação de Mílton Jung. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros episódios da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e coloque entre os seus favoritos no Spotify, o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: da quermesse no Limão aos sabores da culinária dos imigrantes

Ligia Baruque

Ouvinte da CBN

Foto: Daniel Fucs Flickr

Meus pais se conheceram em São Paulo, no bairro do Limão, numa quermesse em 1950. Estranham a palavra quermesse? Sim, naquela época festa junina era chamada de quermesse !

Meu pai, descendente de libaneses,  era  de Monte Mór, interior de São Paulo.  Veio trabalhar na capital na primeira fábrica da Ford que começava a produção de caminhões na Barra Funda. Minha mãe, nascida em Bernardino de Campos, também do interior, trabalhava como tecelã numa fábrica têxtil, no Limão

A música que embalou o namoro e o casamento deles foi Três Apitos, de Noel Rosa, que começa com o verso: 

Quando o apito 

Da fábrica de tecidos

Vem ferir os meus ouvidos 

Eu me lembro de você…

Eu nasci no Limão, na casa da minha avó, na zona norte, e fui morar na Vila Prudente, na zona leste. Era onde ficava a fábrica da Ford, que acabara de ser construída, em 1953. Atualmente, no local tem o Shopping da Mooca.

Depois mudamos para Pinheiros, na zona oeste, próximo da Cidade Universitária, onde me formei em Farmácia e Bioquímica, no ano de 1982. A USP naquela época era aberta às pessoas que, assim como os carros e ônibus, entravam e saíam sem controle pelos portões. Hoje, em todas as entradas há guaritas e o acesso é restrito, facilitado apenas a quem trabalha ou estuda na universidade — sinal dos tempos.

Independentemente disso, a USP segue sendo o centro de estudos mais importante de São Paulo, uma referência de ensino para estudantes e professores de todas as partes do mundo.

Agora moro na Vila Mariana, na zona sul. 

Como podem perceber, vivi em todas as regiões, de leste a oeste, de norte a sul. Nos meus 60 anos de vida, acompanhei a despedida dos bondes da Consolação — fiz a última viagem de bonde com a minha avó. Assisti à chegada do metrô, a abertura de avenidas, o começo da construção do Minhocão, e o aumento no número de carros. 

Apesar de a cada dia o trânsito ficar pior, amo esta cidade, construída por imigrantes, que deixaram em cada espaço um pedacinho da sua cultura mesclada com a dos paulistanos. Uma mistura servida à mesa com sabores da culinária italiana, espanhola, alemã, indiana, judaica e, claro, com aqueles pratos da comida libanesa, que vieram juntos com os parentes de meu pai.

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Lígia Baruque é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a saudosa maloca virou quadra de beach tennis

Vinicius Moura

Ouvinte da CBN

Quando São Paulo fazia 397 anos, em 1951, Adoniran Barbosa escrevia Saudosa Maloca. Muito tempo depois, foi marcante, ao comemorar meus 20 anos, arriscar-me a cantá-la num karaokê da Liberdade. Era 1985, e Sampa estava com 431 anos. Eu segurava o microfone com a responsabilidade que uma música clássica pede. Mas não imaginava do que falava a música. Curiosamente, quando a “terra da garoa” fez 460 anos, foi que o assunto veio à pauta: a maloca, a saudosa maloca, estava sendo demolida.

Não moro em uma cidade que olha para trás. Lá em 1951, éramos 2,6 milhões de pessoas. Os homens usavam chapéus e os tiravam para acenar em respeito ao funeral que passava. Quem era? O que empreendeu? Que missão teria cumprido neste seu tempo? É possível que se perguntassem em silêncio, enquanto o gesto gentil ainda se sustentava no ar. É o que ainda fazemos — não o gesto, claro, mas as perguntas. Só que nossa cidade não tem vocação para lamentar o que passou.

Seu Antenor nasceu quando São Paulo completava 391 anos — 1945. Sua casa é remanescente de uma incorporadora que lamenta não ter conseguido fechar negócio, e a casa antiga se sustenta espremida entre os muros altos de uma moderna torre de studios. Mas saiba que o Sr. Antenor não vende, contrariando a urgência dos filhos. Este aposentado com problemas de mobilidade crê não precisar de mais nada. Mantém o saudosismo da velha vila e a lembrança dos vizinhos que se foram. Era isso que eu ouvia dele em 2019. Sampa é uma cidade de muitas histórias.

Contudo, sei que, mais do que tudo, lá no fundo, o Sr. Antenor — e tantos outros — mantinha o desconforto de ter vindo do interior de Minas e de ter trabalhado na construção civil, lá nos anos 60, para essa mesma construtora que agora quer seu pequeno pedaço de chão. E foi justamente o rendimento deste trabalho que lhe permitiu comprar seu pequeno lote. Que ironia: hoje, os netos do seu antigo empregador querem que sua casa se transforme numa quadra de beach tennis e agregue valor. São Paulo é uma cidade que olha para cima.

Em 2025, São Paulo fez 471 anos, e eu acabo de me mudar para o vigésimo terceiro andar de um desses prédios que esmagou algumas das antigas casinhas. Me enche de orgulho enxergar tão, tão distante através da grande vidraça. É festa aos olhos observar o céu alaranjado no fim de tarde, contrastando com o fundo escuro das árvores no Ibirapuera. Quantos podem pagar por essa vista? A terra da garoa cobra caro.

Por mais incômodo que pareça, Adoniran falava disso: vamos colocar quem não pode pagar num lugar um pouco mais afastado. Foi esse o motivo da demolição da Saudosa Maloca — e é o motivo pelo qual ela continua sendo demolida até hoje. São Paulo sempre olha para o retorno do investimento futuro.

Quando São Paulo fez 420 anos, fui com meu pai conhecer o metrô, em sua inauguração. Era a promessa sendo cumprida para quem tivesse ido morar longe: o metrô traria com rapidez. São Paulo sempre tem pressa. São Paulo não é unanimidade: é feia para uns — para quem está nas periferias, principalmente. E é bonita para outros — para quem está nos bairros bacanas, principalmente. É a cidade que permite executar novos sonhos ao mesmo tempo em que asfalta suas antigas histórias. São Paulo não tem tempo a perder.

Tenho certeza de que, assim como eu, o Sr. João Rubinato amava de paixão esta cidade de muitas tradições e enormes contradições. Quem é João Rubinato? Sabe não? É o nome de batismo de Adoniran. Já o Sr. Antenor era Antenor mesmo, um vizinho que morreu de Covid. Seu imóvel é hoje uma quadra de beach tennis. Será que os filhos do Sr. Antenor estão mais felizes?

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Vinicius Moura é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio.
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Conte Sua História de São Paulo: mais do que uma cidade, é uma experiência de vida

Nelson Sganzerla

Ouvinte da CBN

É impossível falar de São Paulo sem destacar sua essência vibrante, marcada pela diversidade cultural, pela inovação e pelo espírito acolhedor que abraça a todos que chegam com sonhos e esperança.

Ao longo dos séculos, São Paulo transformou-se no coração pulsante do Brasil, uma metrópole que dita tendências e inspira o país.

Seus arranha-céus — como o próprio nome diz — tocam o céu, simbolizando a determinação e o trabalho incansável de milhões que fazem da cidade um lugar único e dinâmico.

Cada bairro conta uma história, desde as tradições do centro histórico até a modernidade da Avenida Paulista; cada rua respira história e inovação.

A gastronomia é um capítulo à parte, oferecendo uma viagem ao redor do mundo sem sair da cidade. De feiras de rua a restaurantes premiados, São Paulo é um banquete de sabores e culturas que representa o espírito cosmopolita que define essa metrópole.

Além disso, São Paulo é um celeiro de arte e cultura. Seus museus, teatros e galerias são palcos de expressões artísticas que encantam e provocam reflexões. A cidade respira arte urbana, música e literatura, sendo um farol cultural que ilumina não só o Brasil, mas o mundo.

São Paulo é mais do que uma cidade; é uma experiência de vida. Com seus 471 anos, continua sendo uma terra de oportunidades, onde as histórias se encontram, sonhos são realizados e o futuro é constantemente reinventado.

Com toda sua grandeza e complexidade, segue sendo um símbolo de força, resiliência e esperança, inspirando todos que têm o privilégio de chamá-la de lar.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Nelson Sganzerla é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva gora a sua história e envie para contesuahistoria@cbn.com.br  Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog, miltonjung.com.br, ou acesse o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: a adolescência nos Jardins

Fabio Lemmi

Ouvinte da CBN

Photo by C. Cagnin on Pexels.com

Nasci na Pró Matre paulista há 75 anos. Meus pais moravam na tranquila avenida Nove de Julho, quase na Lorena. Com a morte de minha mãe em 1956, fui morar com meus avós na Peixoto Gomide, esquina da Tatuí. Foi lá que vivi o fim da infância e o início da adolescência – um tempo feliz.

Nos anos 50 e 60, o bairro era feito de casas, vilas e ruas calmas. A Tatuí, com seu único quarteirão asfaltado, virou nosso campinho: jogávamos taco, pingue-pongue, patinávamos, soltávamos bombinhas e, claro, jogávamos futebol. Era o nosso forte.

O time da Tatuí enfrentava, com frequência, os meninos da José Maria Lisboa. O clássico virou rotina e, aos poucos, a rivalidade virou amizade. Da Tatuí: Paulo Carioca, Paulo André, Gui, Garaude, Carlinhos, Augusto, Osvaldo, Dandado. Da Zé Maria: Cido, Tabela, Alex, Wilson, Bubi, Frederico e Antonio. Ainda nos encontramos, de vez em quando.

Tinha também o Boris, mais velho, apresentador na rádio Santo Amaro, que organizava partidas em campos improváveis: Pacaembu, Hebraica, Santa Cruz… Sempre jogávamos, quase sempre perdíamos. Dali saíram dois nomes da imprensa: Guilherme Ivo Cunha Pinto, o jovem Gui, editor no Jornal da Tarde e na revista Playboy, e o próprio Boris, Casoy de sobrenome.

Entre travessuras, lembro de uma coleção de 400 garrafinhas de bebida que ficou pra trás após um divórcio. Aos poucos, “degustamos” todas. Criamos habilidades em repor os líquidos sem levantar suspeitas. Ninguém virou alcoólatra. Até onde sei.

Outra figura: João Grandão, magro, alto, com um Fusca, que adorava seguir balões juninos. Virou, dizem, um personagem exótico e loiro que exibe sua excentricidade sobre um conversível em avenidas paulistanas.

E teve a Bic, minha primeira paixão. Dorothèe, uma francesa vizinha. Quando ela terminou o namoro após férias na França, repeti de ano. Três meses depois, a moça estava na capa da revista Realidade e desfilando para Denner. Eu? Tinha de vê-la todos os dias nas bancas, nas fotos gigantes do Center 3. Adolescente sofre.

Entre os vizinhos: os irmãos italianos Marco e Fabio, que ouviram o assassinato de Kennedy em rádios de bolso; e Bruce, filho de diplomata americano, frustrado por nunca conseguirmos construir o carrinho de rolimã. Mais tarde virou diplomata no Caribe.

E mais: o rotundo guarda noturno Seu Antonio; o carteiro João e suas frases para o diabo; Ataliba, o vendedor de biju que jogava bola; o padeiro das cavacas anotadas em caderneta; o verdureiro empurrando a carroça; o tintureiro japonês; o milionário garoto do Aero Willys; e o eterno comprador de roupas usadas, gritando: “compá ropá”.

Os Jardins de 60 anos atrás. Ainda sem prédios. Ainda cheios de histórias.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Fabio Lemmi é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Para ler o texto completo do Fabio, visite agora o meu blog miltonjung.com.br. Você pode enviar as suas lembraças para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, vá agora para o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: fui office-boy com pastinha de plástico na mão

Carlos Assis

Ouvinte da CBN

Foto: Ouvinte da CBN Ricardo Biserra

Meu pai tinha uma firma de material industrial na rua dos Andradas. E minha mãe ajudava fazendo os pagamentos nos bancos. Antigamente, um título do Bradesco — título, era assim que chamávamos os boletos — só podia ser pago no Bradesco. O do Banco do Brasil só no Banco do Brasil. E havia bancos em São Paulo com apenas uma ou duas agências. Então, a gente tinha de ir ao centro velho, na rua Boa Vista, na São Bento, na Quinze de Novembro … E fazia tudo a pé. Não tinha metrô. Desse modo, conheci bem a cidade. 

Passei dezenas e dezenas de vezes no viaduto Santa Ifigênia, no viaduto do Chá, no Largo Paissandu. A agência do Citybank era na avenida São João com a Ipiranga, em frente ao Bar Brahma — bar que nunca visitei, apesar de passar pela frente uma centena de vezes. 

Minha mãe era uma pessoa simples e católica, o que me fez conhecer as igrejas do centro: o Mosteiro de São Bento, a Sé, a de São Francisco, a do Rosário, a de Santo Antônio.

Lembro quando fui com ela pagar um título no Unibanco, na Praça do Patriarca. Assim que entramos havia uma escada rolante. Precisávamos subir no primeiro pavimento. Minha mãe tinha medo da escada rolante, que era algo novo na cidade. O segurança teve de desligar a escada para a gente subir e depois descer. 

Com uns 13 anos, já era office-boy e andava com aquela pastinha de plástico na mão. Mas não me atrevia a fazer malabarismos como os garotos maiores. Minha diversão era entrar por uma rua e sair em outra, passando por dentro de prédios. Adorava andar na galeria da Avenida São João, passar pelas lanchonetes, sentir aquele cheiro de comida no ar, e sair na 24 de Maio. 

Entrava nas Lojas Americanas e Brasileiras, na rua Direita, e saia na rua José Bonifácio, do outro lado. Entrava no Banco de Boston, no Vale do Anhangabaú, e alcançava a Libero Badaró — essa agência foi a primeira a ter porta automática e era m luxo ver a porta se abrindo sozinha. Outro atalho que usava era entrar no prédio da Telefônica, na Sete de Abril, e sair na Basílio da Gama. Ou entrar na Galeria Metrópole para chegar na praça da Biblioteca Municipal.

Além de pagar contas, eu fazia entregas de documentos, cartas e cotações. Frequentava os Correios para passar telegramas e despachar cartas. Os Correios tinham máquinas automáticas que selavam as cartas. Eu levava centenas de cartas em uma mochila. E lá era o único lugar em que se podia fazer isso. Entregava cotações paras as empresas. 

A CSN Companhia Siderúrgica Nacional ficava na avenida Senador Queirós; a Petrobras na Barão de Itapetininga; a Petrobras Distribuidora ficava no Edifício Andraus. Sim, eu estive no vigésimo-segundo andar do mesmo prédio que pegou fogo. Dei sorte. E algumas vezes, ia na avenida Paulista entregar cotação na Liquigás, no Conjunto Nacional. Fui dezenas de vezes nas Indústrias Matarazzo, na Água Branca, e a na Companhia Antártica, na Borges de Figueiredo. Uma vez fui na Bayer, em Santo Amaro. Acho que demorei quase duas horas para chegar lá. 

Certa vez, passando o farol fechado —- office-boy não esperava o farol abrir —, na rua Xavier Toledo, em frente ao Mappin, levei um apitaço do Guarda Luizinho. Meus ouvidos ficaram zunindo. Nem entendi o que ele disse. Só vi as pessoas rindo. Daquele dia em diante, aprendi a usar a passagem subterrânea que tinha do lado do prédio da Light — acho que por pura vergonha. 

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Carlos Assis é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias como essa, vá no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: minha ruinha da Vila Mariana

Por Flávia Benyunes

Ouvinte da CBN

Imagem criada no Dall-E

Tornei-me uma saudosista. Nasci em São Paulo, na década de 50, e cresci em meio a uma família bastante numerosa. Vivíamos numa bela casa em Vila Mariana numa rua que ocupava apenas um quarteirão, alojado entre quatro ruas principais. Sua localização propiciava liberdade e segurança aos moradores. 

Na ruinha, como era conhecida nas redondezas, passamos nossa adolescência entre amigos, vizinhos e primos. A via de paralelepípedos era estreita e quando estendíamos uma rede de uma casa a outra, aquele pedaço se transformava numa quadra de vôlei de dar inveja: era onde improvisávamos jogos que faziam o tempo voar. 

Brincar de esconde-esconde virou mania quando já não éramos mais assim tão crianças. Nas noites de sábado, organizávamos torneios de tranca e um festival de panos verdes cobria as mesas dos vizinhos, cujas portas ficavam sempre abertas. Fomos amadurecendo, mas a movimentação continuou. As manhãs exalavam o cheiro do pão fresco da padaria Astral, do Sr. Manoel, bem ali na esquina da Borges Lagoa com a Coronel Lisboa.

Tenho certeza de que se algum de nós estiver sintonizado na CBN nesse momento, irá se derreter de saudade daquele reduto que nos acolheu durante nossa adolescência. Essas memórias, construídas em uma época em que o mundo era bem mais simples, moldaram quem eu sou e me ensinaram a valorizar a diversidade.

Os anos foram passando e os amigos que antes se escondiam atrás dos postes e nos jardins das poucas casas, agora se dedicavam aos estudos, sonhando com suas profissões. Alguns de nós partiram para outros estados, outros se casaram e a vida seguiu como deveria ter sido.

A ruinha passou a ser um outro espaço. Enquanto nossos pais envelheciam, formávamos novas gerações para quem nosso cenário já não se aplicava mais.

O tempo trouxe mudanças. A Vila Mariana se transformou: prédios altos surgiram onde antes havia nossas casas; a padaria Astral, a doceira Duomo, a Droga Kleber e o Armarinho do Seu Salim foram substituídos por supermercados, salões de beleza sofisticados, e o nosso quarteirão agora dá lugar à saída de carros dos moradores dos edifícios que ali foram erguidos. Mas, mesmo assim, a essência daquela ruinha permanece viva no meu coração.

Hoje, quando passo por ali, sinto uma mistura de saudade e gratidão. A ruinha ressoa com as risadas de um passado que não volta mais, mas que permanece guardado com carinho imenso em meu peito já meio envelhecido. A nostalgia é uma parte importante de quem sou, e, apesar das mudanças, a conexão com a ruinha é algo que carrego comigo para sempre, não importa o peso dessa carga!

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Flavia Benyunes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade você visita agora o meu blog miltonjung.com.br ou vai lá no Spotify e coloca entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo. 

Conte Sua História de São Paulo: na cidade e na arte, encontrei acolhimento e inclusão

Márcia de Castro Sá

Concerto do Bem Foto: Instituo Olga Kos

Nasci prematuramente, em 7 de outubro de 1984, no Brooklin, em São Paulo— (minha mãe deu à luz quando completou sete meses de gestação. O meu pai, que trabalhava como assessor econômico em uma fabricante de automóveis; minha mãe, totalmente empenhada com os cuidados do lar e da família, assim como os meus irmãos mais velhos, acolheram-me com muito carinho. 

Nos anos 1980, durante um passeio em um clube paulistano, acompanhada de meus pais, uma prima paterna, fisioterapeuta, notou que eu não reagia a determinados movimentos como normalmente ocorrem em bebês. Logo, fui encaminhada para uma consulta médica, onde foi constatado o diagnóstico de paralisia cerebral.

Em um primeiro momento, aquela notícia surpreendeu a todos. Os cuidados para comigo passaram a ser redobrados. Adiante, recebi mais um diagnóstico: o de baixa visão no olho esquerdo; e miopia no olho direito, o único ainda com capacidade de visão. Digo isso, pois recentemente fui diagnosticada com catarata no olho direito e terei que me submeter a uma cirurgia. Isso sem contar que há mais de 20 anos aguardo uma vaga de uma cirurgia para sanar uma escoliose severa.

Empenhada em superar barreiras em função de minhas deficiências e contando com o apoio familiar total, segui e sigo adiante, em busca de encontrar vias que ajudem a me motivar.

Em 2009, entre minhas sessões de reabilitação, uma fisioterapeuta me apresentou o Instituto Olga Kos. Um momento marcante, pois me abriu portas e ajudou a ressignificar o meu cotidiano, fazendo aflorar algumas aptidões artísticas, como a minha identificação com música, canto e pintura sobre telas.

Recordo que por meio do Instituto, participei de projetos como o “Pintou a Síndrome do Respeito”, que abriu a oportunidade de eu produzir releituras de artistas renomados da pintura nacional.

Desde então, fui sendo inserida em outros projetos, como o “Cor e Ritmo – Arte Inclusiva”, que, além das artes, fez-me notar como música e canto regam minha vida positivamente.

Mais recentemente, outros registros inclusivos são as minhas participações no “Concerto do Bem”, que já teve três edições, sendo a última no Memorial da América Latina, um dos cartões postais de São Paulo, com recorde de público.

Faço questão de observar que todas as atividades que participo ocorrem em locações na cidade de São Paulo, um berço cultural. Não consigo imaginar viver em outra cidade.

Quanto ao Instituto Olga Kos, agradeço pelo acolhimento e por todas as oportunidades que me deram e, certamente, darão. O Olga, como é carinhosamente chamado, desenvolve projetos artísticos e esportivos, além de pesquisas pela inclusão de pessoas com deficiência e em situação de vulnerabilidade social. A minha história espelha, inclusive, a alma desse instituto, que é trabalhar por um mundo mais inclusivo.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Márcia de Castro Sá é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade você visita agora o meu blog miltonjung.com.br ou vai lá no Spotify e coloca entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo. 

Conte Sua História de São Paulo: trabalhei na banca de revista em troca da leitura de gibis

Marcelo Bailão Silva

Ouvinte da CBN

Foto de João Saplak

Corria o ano de 1967 e minha família – eu, papai, mamãe e minhas duas irmãs – mudávamos de Santos para São Paulo. Na capital, papai recomeçaria a vida depois de momentos profissionais difíceis em Santos.

Viemos para o Itaim, na época um bairro de classe média baixa, recortado pelo Córrego do Sapateiro, que ligava o Ibirapuera à Marginal do Pinheiros e era circundado por uma enorme favela. Morávamos praticamente ao lado dessa favela. E estudávamos na escola pública, boa na época, Ludovina Credidio Peixoto, que existe até hoje. Meus amigos eram a turma favela, que frequentava minha cara e por quem sempre tive carinho e amizade. Alguns morreram, outro foi assassinado, houve os que se  perderam na vida e os que venceram as dificuldades e saíram da miséria.

Sempre amei ler, desde aquela época. Lia o que caía em mãos, principalmente gibis de heróis — (Homem-Aranha, Conan, .. ) — eram raros e caros.

Na minha esquina havia a banca do Seu José. Ele vendia revistas e jornais. Eu era conhecido dele porque vivia folheando os gibis. Com o apoio de minha mãe, fiz um acordo com Seu José: enquanto ele dava uma pausa para almoçar, eu tomava conta da banca e poderia ler as revistinhas. Maravilha! Melhor “salário”, impossível!

Durou pouco tempo – um tempo inesquecível. Alguns meses depois, papai começou a trabalhar na Editora Abril e voltava para casa com um caixote cheio de publicações da editora. Aí é que me afundei na leitura de vez.

Essa paixão perdura até hoje e consegui transmiti-la aos meus filhos Júlia e Vitor, ávidos leitores. Durante a infância deles, sempre frequentamos livrarias como a Cultura e a Martins Fontes. Eles sempre me ouviram falar:“escolham um livro, eu nunca vou negar um livro a vocês”.

Acredito que ler é viver. Fico triste sempre que uma livraria ou editora fecha e, se pudesse, acabaria com impostos sobre livros. Recuperar o prazer da leitura, seja em papel ou no digital, devia ser foco do ensino básico. Pobre país que se esquece do seu povo e de sua cultura. Se pudesse dar um presente à nossa cidade, daria um livro de para cada um que aqui vive.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Marcelo Bailão Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade você visita agora o meu blog miltonjung.com.br ou vai lá no Spotify e coloca entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo.