Conte Sua História de SP: Parelheiros, outrora um recanto encantado

 

Por José Maria Pires

 

 

 

Ano de 1956, 11 de novembro, às 14h30. Enfim o primeiro  respiro e o choro fora do útero materno.  Mãe, minha heroína.

 

Cheguei, estou aqui e… Cinquenta e oito anos depois… É só saudades. Se pudesse voltar no tempo, iria aterrissar minha nave na era verde de natureza abundante e ar puro desse meu outrora recanto encantado, e tentar salvá-lo da ganância de alguns e a ingenuidade de tantos outros.

 

Sinto saudade de um tempo onde imperava a simplicidade, a cordialidade e o respeito entre as pessoas. Pessoas que tinham orgulho de pertencer a esse recanto encantado chamado Parelheiros. Saudade dos bons e velhos tempos, tempos da escolinha de madeira à beira da estrada, do tio João Ribeiro (dentista), do Seu Abílio Christe (do mercado), do Seu Mané Queiróz (da farmácia), do Seu Gilão (grande figura!), Seu Pedrinho (da venda) e muitos outros que fizeram, outrora, desse recanto encantado, um lugar bom, divertido e feliz, mas que foi se degradando com o tempo.

 

Houve um tempo em que esse recanto deslumbrava encantos. Tempo em que esse recanto, em dias de festa, era tomado por belos enfeites, por belas moças e das barraquinhas que mostravam as delícias da culinária,  enquanto a multidão abria passagem para o desfile de carros alegóricos, para a Banda Sinfônica do colégio Prisciliana, aos cavalos com seus cavaleiros imponentes e às amazonas em suas montarias, com uma beleza descomunal.

 

Tempo em que na Igreja aos domingos pela manhã os moradores acotovelavam-se para assistir à missa com o Padre Carlos, e a fé naqueles tempos parecia ser infindável. Tempo em que depois da missa, lotava-se os barrancos à beira do campo de futebol para verem os craques do time de futebol juvenil do Parelheiros FC (Tiquinho, Rolinha, Pingo, Carlinhos), e tantos outros garotos.

 

Pois é… Quanta saudade! Saudade dos bailes de carnaval na Sede Social do Parelheiros F.C., regida pela voz e alegria contagiante do cantor Arnaldo Alves. Saudade dos bailes em que tantos namoros comecei, muitas bocas beijei, muitos foras levei, diversos amigos ganhei (Ernesto, Ricardo, Edson, Jorge, Paulo Miguel, saudoso Normando e muitos outros)… Amigos com quais vivi tantas emoções.

 

Parelheiros, meu outrora recanto encantado, não tem mais aquele encanto que tinha antigamente. Os rios não são mais os mesmos. Moradores vieram e se foram  e restou apenas esta enorme saudade plantada na alma.

 

Será que ainda há encanto em meu recanto?

 

 
 

Conte Sua História de SP: andava de bicicleta com licença da prefeitura, em Pinheiros

 

Por Silvia Maria Aleixo Araujo

 

 

Bairro de Pinheiros … aquele que a atualidade desconhece.

 

Pinheirense da gema.

 

Nasci no prédio que ainda está lá, no térreo funciona o famoso bar das Batidas, bem atrás da Igreja Nossa Senhora do Montserrat, no largo de Pinheiros. Ali no largo, o bonde que descia a rua Theodoro Sampaio fazia a volta e retornava para a rua Xavier de Toledo, no centro.

 

O grupo escolar era na rua Sumidouro. Arquitetura dos anos 40/50, naquela época sem muros, só jardins, construção que lá permanece livre das obras do metrô e da tal revitalização do bairro que o descaracterizou em nome do progresso.

 

Era um bairro tranquilo, eu andava de bicicleta – ela chegou a ter uma placa de licença da prefeitura – no largo de Pinheiros e na rua Cardeal Arcoverde, onde moravam meus avós, entre a rua Theodoro Sampaio e a avenida Eusébio Matoso, onde hoje é o Shopping Eldorado e naquela época, um campinho de futebol.

 

Trânsito escasso e o respeito entre as pessoas era evidente.

 

No Carnaval, a família, primos e amigos sentavam em cadeiras nas calçadas da rua Theodoro Sampaio para assistir à passagem dos blocos carnavalescos, enquanto brincávamos com lança-perfume e seringas plásticas com ‘sangue de diabo’, um corante vendido em farmácia.

 

Brincadeiras inocentes e crianças felizes.

 


O Conte Sua História de São Paulo tem narração de Mílton Jung e sonorização do Cláudio Antonio. Você pode participar enviando seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: fui recebido na cidade pelo Henfil

 

Por Alejandro Rosas Vera

 


 

 

Morava no Chile quando surgiu a possibilidade de uma viagem para Belo Horizonte. Era janeiro. Eu deveria estar lá em março. Por tanto, e para fazer hora, fui pelo Norte: –Assim aproveito e conheço a Amazônia–, disse aos meus pais. – É só dar a volta por cima, descer pelo litoral, e do Rio a Minas, um pulinho.  Os mapas mentem descaradamente. Passei mais de um ano viajando pelo Brasil e meu compromisso em BH foi para as cucuias.
 

 

São Paulo me chamou mais forte com seus cantos de sereia, e acabei fixando como destino final da minha viagem essa cidade da qual ouvia falar em cada estradinha da Amazônia, casinha do Nordeste ou bar dalgum morro carioca.
 

 

Aprendi português na viagem, e quando cheguei na Rodoviária do Tietê,  carregava todos os sotaques possíveis do Brasil e a mochila suja do pó da estrada. Olhei um mapa e assustado pelo tamanho da cidade e da minha solidão decidi buscar alguém em quem pudesse confiar para me dar uma aula de sobrevivência neste mundo por descobrir. Como não conhecia ninguém e ninguém  sabia de mim, era livre de escolher a qualquer um dos milhões de habitantes para pedir um glosário paulistano, mapa prático, diagnóstico emocional ou um simples cafezinho para me dar as boas vindas. Fui até a banca de jornal, pedi uma Veja, anotei um telefone e liguei. 
 

 

–Oi, bom dia, acabo de chegar e busco o Henfil
 

 

Era o ano 1983, e a doce voz do outro lado, sem perguntar nada, me passou um número. Agradecido, desliguei e respirei fundo.
 

 

No dia seguinte passei cinco horas com o maestro Henfil, que depois de me chamar de cara de pau, me recebeu no seu apartamento perto de Higienópolis e me deu dicas preciosas, me contou do desastre que foi sua estadia nos Estados Unidos pois seus desenhos escandalizaram a sociedade. Disse-me que as viagens de avião são violentas porque não dão tempo de se adaptar ao novo destino, e que para chegar a um lugar como se deve é necessário o mesmo tempo que demoraria se você fosse caminhando.
 

 

Pensava ficar uns meses em São Paulo, mas demorei 20 anos em conhecê-la e me apaixonar. Talvez o tempo que teria demorado em percorrer todas as suas ruas caminhando.

 

Hoje, moro na Espanha, e de São Paulo trouxe comigo o melhor: a saudade, o sentimento de ser parte daquela loucura, e uma paulista que conheci uns dias depois que ao Henfil, que ama a Graúna e cujo celular toca Sampa cada vez que liga alguma de minhas três filhas, paulistas, obviamente.

 

Conte Sua História de SP: a cidade que conheci pelas pessoas e pela arte de cada uma delas

 

Por Jorge Anunciação
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Caro Milton,

 

somos próximos por sermos do sul, eu de Cruz Alta-Passo Fundo, você portoalegrense; ligados ao esporte porque ouvia e admirava teu pai na Rádio Guaíba; também porque sou tão paulista quanto você, pelas lembranças e pelos encantos que São Paulo me mostrou desde muito cedo, por Adoniran e Jaçanã, por Hebe, cujas histórias eram trazidas pela minha tia Suely que morava em Osvaldo Cruz e por Moacyr Franco que, em Cruz Alta – terra de Érico e Justino Martins -, falavam que era o maior cantor do mundo. Depois vieram Dudu-Ademir, Gerson-Pedro Rocha, Rivelino-Paulo Borges, Pelé-Coutinho, a Rua Bariri, o Canindé de Xaxá-Enéias-Cabinho. Encantei-me também pelas músicas Lindóia, Saudade de Matão, Aurora, pelo Rio de Piracicaba e dos jeito brejeiro de um interior paulista que ainda não conheço. Um dia conheci Rolando Boldrin, um dia conheci a São Paulo italiana de Nino, o italianinho, conheci Plínio Marcos e Guarnieri. São Paulo era e é tudo, interior-capital, brasileira-portuguesa-italiana-japonesa, entre outros, entre tudo.

 

Em janeiro de 1973 descobri, ao acaso, percorrendo o rádio de válvulas de meu pai, Hélio Ribeiro, da Bandeirantes. Hélio, de São Paulo, do mundo, que todos ouviam e refletiam com ele. E São Paulo cresceu ainda mais.

 

Finalmente, em 1989, fui conhecê-la quando participei de um congresso médico, minha profissão, e fiquei pateticamente parado no cruzamento da Ipiranga com a São João procurando Caetano e Gil. Avenida São João onde dizem que o Capitão Blue teria morrido atropelado segundo o cantor Leno (de Leno e Lilian) o mesmo que cantaria em Flores Mortas, uma São Paulo em que as árvores cortadas deram lugar ao asfalto das avenidas.

 

Em razão da medicina visitei essa cidade outras tantas vezes; Ibirapuera, aeroportos, Bixiga, Brigadeiro, Consolação, Jardins, Anhembi e até o túmulo de Airton Senna. Fui até o Joelma ver o que restou daquilo que assisti pela TV em fevereiro de 1974.

 

Hoje, caro Milton, minha filha Georgia estuda Relações Internacionais na FAAP e mora na Albuquerque Lins e visito-a regularmente. Ouço você todas as manhãs junto com sua turma, Bel-Márcio-Juca-Arnaldo-Max-Carlos-Xexéo-Cony, com exceção das sextas quando amanheço de plantão no hospital. Vocês me aproximam de minha filha, de Hélio Ribeiro, dos jogadores dos meus times de botão, de Rita Lee a mais completa tradução. Amo São Paulo, agradeço por você fazer parte dessa liga que me aproxima da maior cidade do mundo, cidade pulsante e elétrica.

 

Perceba, finalmente, caro Milton (gol-gol-gol do Grêmio) que conheci a cidade pelas pessoas, pela arte de cada uma delas. Conheci pela velocidade das coisas todas, pelo árduo trabalho cotidiano. Tenho extremo respeito às pessoas que labutam. Por isso, gosto de vocês, das informações, dos debates, amo até as regiões de São Paulo que não conheço, tenho saudades das ruas por onde nunca andei, como dizia Mario Quintana, o poetinha.

 

Abraço, cara.

 


Jorge Anunciação é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você participa enviando seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: o cinema foi a minha moradia

 

Por José Carlos Valle
Ouvinte da Rádio CBN

 

 

Nasci no Brás em 1946.

 

O inicio da minha infância, foi ter morado dentro de um cinema. O Cine Iris, na Av Celso Garcia, 1558. Desde pequeno já gostava muito de assistir aos filmes na matinê de domingo. A fila virava a esquina. Na época era esta a única diversão. Assistir aos seriados que todo domingo tinham continuidade: o Zorro, cujo parceiro era o Tonto; o Super Homem, o Cavaleiro Negro, entre outros. 

 

Na época não tinha geladeira, então todos os dias entregavam o gelo com a carrocinha puxada a cavalos. Os filmes vinham em rolo de latas de 35 mm bem pesados que o Rafael entregava com sua carroça puxada por ele mesmo.

 

Ah, os bondes! Eram o “must” da época. Eles iam para o Parque São Jorge, bem frente ao estádio. E para a Penha. Ao lado do cinema tinha um jornaleiro que se chamava Caieira, que me deixava ver as histórias em quadrinhos sem pagar.

 

Depois de alguns anos, o cinema  fechou. E hoje ele tem 400 familias morando lá dentro. O Belenzinho de hoje dá dó. Praticamente todos amigos já se foram.

 

Depois fui morar mais longe, na Ponte Rasa. Passei dois anos da minha vida bem legais. Jogava pião, bola de gude, empinava pipas, carrinho de rolimã, mãe da rua, box, esconde-esconde. Na época não tinha maldade, drogas, era uma pureza.

 

Depois voltei a morar no Belenzinho, no Largo São José. O Grupo Escolar Amadeu Amaral existe até hoje; a Igreja; o cine Teatro São José era antigamente o charme da praça. 

 

Foi uma época boa. Eu lembro que um dia fui com minha mãe ao Hospital da Beneficência Portuguesa. Para ir ao hospital tinha uma ponte de madeira entre a rua Vergueiro e o hospital, tudo rodeado de mata e com o riacho embaixo.

 

Tinham vários cinemas na época: o cine São Luiz, na Celso Garcia, o Brás Politeama, o cine Universo, que o teto abria nos dias de calor. Ali assisti ao filme Lawrence da Arábia. O Cine Piratininga, que era considerado o maior do Brasil. Perto do lago da Concórdia.

 

Andar de bonde era muito gostoso.

 

Eu sou muito feliz por ter tido uma infância gostosa, e curto cada momento que lembro.

 

Bom tenho muito que contar, mas, hoje, tirei este temp para falar um pouco da minha vida em São Paulo.

 

José Carlos Valle é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você participa deste quadro enviando textos sobre a cidade de São Paulo para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: à Avenida Paulista, com amor!

 


Por Samuel Leonardo
Ouvinte-internauta da Rádio CBN

 

 

Avenida Paulista, também poderia ser Avenida Baiana, Avenida Mineira, Avenida Gaúcha, ou simplesmente Avenida Brasileira. Avenida de todos, generosa que bem conhece a arte de acolher de toda maneira.

 

Um dia reduto do senhor do café e dos barões dos magníficos casarões, hoje tem o senhor dos valores, o senhor anônimo, tem os doutores, tem até senhoras da reza, em um ponto a Catarina Santa, em outro o Luís que é no colégio um santo que se preza.

 

E se queres ir mais longe ainda, em busca de milagres, ela nos direciona para São Judas santo de fé e de Nossa Senhora de Fátima, lá no Sumaré.

 

Avenida da vida, avenida da diva, da exuberância. Passarela de moças bonitas e de rapazes elegantes, da mulher bela e do homem sério que transborda em importância.
Corredor da corrida do ouro, da corrida diária, da corrida de São Silvestre e também da corrida de todas as cores, das cores de todos os arco-íris.

 

Templo da festa de ano bom e da festa dos campeões. Campo de protestos legítimos e de infundadas manifestações De um lado Cerqueira César, o Trianon e os Jardins, do outro tem o MASP e que Bela Vista tem o centro ao longe lá nos confins.

 

Avenida musa esguia, desejada mesmo sem as curvas insinuantes, causa inveja às mulheres, se duvidas pergunte então à Mariana ou a Angélica que ao longe só observam essa dama tão admirada. Tem ainda a Ana Rosa que só tem prosa, mas sequer da sua beleza se aproxima, e a Madalena está distante, é bonita apenas.

 

Avenida que a Augusta o caminho cruzou, mas não a abalou e que o Brigadeiro com despeito só o fez por abuso de poder, já que patente merece prudência e respeito.
Avenida símbolo dos paulistanos, dos edifícios inteligentes, das torres e das antenas, dos teatros, das finanças. Espigão com seu trânsito e muita gente em andanças, segue o seu destino com altivez, absoluto, embaixo circula o metrô em sua pujança, enquanto em cima pode ver, não se rende a nenhum viaduto.

 

Avenida de aparência moderna, corpo estrutural e de alma terna. Tem uma magia, que ampara e que conforta o coração como que querendo dizer: se não atingires o Paraíso, com certeza terás a Consolação.

 

Avenida Paulista, quando eu a vi pela primeira vez confesso que enamorado fiquei, agora que eu a conheço, não por inteira, porque assim como toda mulher carrega um ar de mistério que ninguém vê, permita essa homenagem de um admirador do grande ABC.

 


Samuel de Leonardo é o personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você participa com histórias enviadas para o e-mail milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: a solidariedade que marcou minha chegada de Santa Fé

 

Osvaldo Seguel

 

 

 

1975, Brasil,fim do governo Geisel, em São Paulo ainda funcionava a rodoviária da Luz, onde afluíam e do seu interior saiam a grande maioria dos ônibus vindos e indo para o interior do Estado e do Brasil todo. Foi nessa rodoviária, febril e estreita, pois de teto baixo (onde ônibus quase riscavam no topo),e,por isso,permanentemente poluída pela fumaça dos escapamentos … que desembarquei em São Paulo, numa manha de março, há quase quarenta anos..e .doente !

 

Vindo da cidade de Santa Fé, num dos ônibus da empresa argentina General Urquizar, onde e após 72 horas de viagem contrai intoxicação alimentar …. chegando a São Paulo com vômitos convulsivos e quase não parando em pé. E aqui tive que descer pois era fim de linha.

 

A generosa solidariedade dos dois motoristas e da rodomoça foi inesquecível. A cada momento desse mau-passar, estavam acompanhando-me nas idas e vidas do banheiro do ônibus, enquanto o mesmo escalava a serra do cafezal, próximo à cidade de Registro, já no Estado de São Paulo. Relembro agora a elegância dos mesmos no trajar e até terem me fornecido cruzeiros que devia exibir, se indagado na alfândega, da fronteira argentino-brasileira, de Foz do Iguaçu.

 

Também devo assinalar aqui a solidariedade de alguns passageiros, dentre eles destaco uma casal de irmãos da minha idade (17 anos), brasileiros, porém que falavam o espanhol e me deram as primeiras aulas de português, ensinando como “cambiar diñero” “pedir una bebida” “preguntar por una calle”…eram filhos de um dono de uma agêcia de viagens e apesar de muito jovens viajavam sozinhos…veio-me agora seus rostos de traços europeus, alegres e solidários…

 

Porém, não guardo o rosto solidário e oportuno do passageiro chileno: era um jovem mais velho do que eu e que já morava no Brasil há vários anos, foi ele quem me ajudou a descer do ônibus nesse estado febril, com as minhas malas. Com elas permaneceu na rodoviária enquanto eu saía a procura de uma farmácia para tratar da minha intoxicação. A única coisa que encontrava chamavam de drogarias.
Um jovem de aspecto indígena dentro de seu avental branco me atendeu, após ser chamado pelas outras funcionárias da tal drogaria. Devem ter-lhe dito, que havia um jovem doente que não falava português mas aparentava estar passando mal.

 

Que fue lo que comistes ?…y há cuanto tiempo ?….

 

Contei que comecei a passar mal nessa madrugada após ter comido um pedaço de bolo com café com leite, numa das paradas daquela noite… e aí veio o milagre …o jovem farmacêutico preparou um coquetel líquido e após ter-me injetado esse misterioso elixir químico, como por passo e mágica, melhorei….e mui agradecido, fui pagando … ele afinal alertou-me de que iria sentir muito sono… ele não soube mas eu já não dormia praticamente desde que saíra do Chile…há quatro dias!

 

Voltei à rodoviária a procura de minhas coisas que ficaram com aquele passageiro desconhecido. Lá estava ele e minhas coisas .. graças a Deus! E sentindo-me agora melhor nesse país de nomes tão estranhos, e, certamente, enorme, populoso, febril e barulhento, onde as vulcanizadoras na estrada chamam-se borracharias que, em espanhol significam bêbados e as fármacias são drogarias, onde lá na Argentina é onde se vende drogas.

 

Coisas desta nova linguagem tropical..!

 

Osvaldo Seguel é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: a Revolução de 1932 e a Nona

 

Por Elza Conte
ouvinte-internauta da CBN

 

 

Eu sempre discursei muito a vida toda, sobre a importância para os paulistas do dia 9 de Julho. Quando o governador Covas decretou este feriado, foi uma emoção muito grande para mim. Sempre que converso sobre o assunto, lembro de minha Nona, Dona Marieta. Todos conheciam bem a história dela, viúva com 32 anos (1928) e, segundo conta-se, quase morreu ao perder seu grande amor. Com quatro filhos pequenos para criar, a maior com sete anos e a menor com oito meses, trabalhou e lutou muito para sobreviver.

 

Convivi pouco com essa adorável criatura, mas o suficiente para lembrar as homenagens, ainda após 30 anos do falecimento do vovô Vicente, nas datas referentes. Todos precisavam fazer muito silêncio. Varrer o chão jamais. No dia anterior a essas datas, os alimentos eram cozidos, para que o fogão não fosse utilizado. No máximo, apenas esquentar a comida. Tudo estava direcionado ao silêncio. O fósforo sendo riscado, já poderia ser uma forma de sair do estado de concentração. E nós netos, seguíamos a Nona sempre com muito interesse e respeito.

 

Bem, toda esta descrição é para mostrar-lhes o quanto de amor eterno nossa amadinha Nona tinha pela lembrança do vovô Vicente. Ainda assim ela não tinha sua aliança de casamento original, porque havia sido doada no movimento da Revolução Constitucionalista de 1932. Imaginem a importância dessa doação.

 

Este fato por si só, sempre me fez prestar muita atenção nas lindas histórias românticas que ouvi sobre esse episódio em São Paulo. A revolução de 1932 liderada por São Paulo tem precedentes desde 1920 e que faz caminhar até os anos do Estado Novo e aos 15 anos de Ditadura, no Brasil.

 

 

Alguns aspectos muito importantes gostaria de destacar, que ainda fazem parte das mentes dos nossos patrícios. Muitas vezes eu ouvi:

 

– Ah, se a revolução de 32 tivesse dado certo, hoje estaríamos separados do Brasil.

 

Esta propaganda inteligente, porém destrutiva, foi uma das principais armas do governo da República, para motivar os soldados a combater os paulistas, e fazer muitos Estados, que inicialmente iriam aderir ao movimento, desistir.

 

Fundamentalmente, a Revolução Constitucionalista de 1932 combatia o governo provisório de Getúlio Vargas, instaurado em 1930. Os revolucionários exigiam uma nova Constituição e eleições presidenciais para o Brasil. Nunca foi intenção do movimento separar São Paulo do Brasil. Foram três meses de conflito. O movimento congregou toda a sociedade paulista e paulistana, que atingiu o emocional da população quando da morte, em 23 de maio, do mesmo ano, de quatro jovens: Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo, o MMDC. Houve uma organização exemplar para confecção de uniformes, compra de material bélico, suporte aos soldados. Foi onde entrou a aliança de minha avó. Sinônimo de amor sem precedentes para mim.

 

Além da propaganda enganosa sobre as intenções dos paulistas, o suposto erro foi a falta de estratégia dos nossos soldados, muito mais alimentados de sonhos do que de metas. A suposta aliança entre Minas Gerais e Rio Grande do Sul acabou voltando-se contra São Paulo, seduzidos pelo populismo de Getúlio Vargas.

 

“E São Paulo, sozinho, descobriu que de nada valeriam seus 25 mil voluntários animados e idealistas, sem armas e munição. Os dois meses de luta que se seguiram foram pródigos em criatividade e heroísmo. A eloqüência dos tribunos, as histórias guardadas nas sagas familiares paulistas – em cujas casas as sucessivas gerações preservaram as relíquias constitucionalistas, capacetes, granadas e cartuchos, e esconderam a “bandeira das 13 listas” cantada pelo poeta Guilherme de Almeida e queimada e proibida por Getúlio – formariam acervo precioso de que hoje ainda bebem historiadores.” (Cecilia Prada)

 

Aqui cabe uma explicação muito interessante sobre a velocidade das informações na época. Nos últimos dias de setembro de 1932, o governo republicano já considerava terminada a revolta. Enquanto os comandantes trocavam consultas e protocolos de um possível armistício, as tropas decidiam em vários pontos prosseguir a luta. Inconformados, oficiais e praças fogem para tentar continuar a campanha em Mato Grosso. Somente em três de outubro foi considerada terminada uma revolução que na verdade, já havia se encerrado há um mês. Um ex-combatente, que fez certa vez uma palestra na faculdade que eu estudava, disse que não havia como eles saberem que a Revolução havia terminado. Hoje se sabe destas informações, quase ao mesmo tempo de seu acontecimento.

 

As histórias envolvendo Getúlio Vargas são surpreendentes. O seu poder de persuasão era muito forte. A minha avó, que deu sua aliança para o “bem de São Paulo”, nunca admitiu que o Pai dos Pobres, como conhecido, pudesse trair seus vizinhos. Em 1955, quando Getúlio Vargas morreu, ela chorou copiosamente, repetindo o que ouvia no velho rádio: Estamos órfãos….

 

Elza Conte é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade, envie um texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa no e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.

Conte Sua História de SP: vai plantar batata!

 

Por Mário Cúrcio e Onéia Rodrigues

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, nós vamos conhecer história escrita por Dona Oneia Rodrigues, que nos chegou através de seu sobrinho e afilhado Mário Curcio. Dona Oneia morreu em 2011, mas antes deixou esta lembrança para nós:

 

Meu nome é Onéia Rodrigues. Sou de Rio Claro, interior de São Paulo, cidade do ilustre Ulysses Guimarães. Fui a segunda de oito filhos e nasci em 1930. Naquele tempo, Rio Claro ainda era pequena, mas já cortada por ferrovias. Andei muito de trem porque também tinha parentes na vizinha Limeira. Casei em 1952 e tive três meninas, todas nascidas naquela cidade a 163 quilômetros de São Paulo. Trabalhei como professora em diferentes escolas no interior.

 

Na primeira metade dos anos 70 eu me separei. Poucos anos depois, acho que em 1976, vim sozinha a São Paulo para trabalhar como bibliotecária na assembleia legislativa. As meninas, já crescidas, ficaram em Rio Claro num primeiro momento, morando em nossa casa na Rua 3. Ficar longe delas deixou meu coração apertado, mas foi uma decisão acertada.

 

O primeiro bairro em que morei aqui foi Santo Amaro, na casa de minha irmã, onde dividi o quarto com meu sobrinho e afilhado Mário Augusto, na época um menino com dez anos, muito falante. Uma vez por semana eu comprava para ele um saquinho daquelas balas de leite de uma loja famosa por seus chocolates e percebia que ele comia cada uma como se fosse a última. O pai dele, meu cunhado João, sempre fazia piadas sobre meu ex-marido e a falta que eu sentiria dele. “Ah, João, vai plantar batata!” Era só o que eu podia dizer.

 

Um ano depois de chegar a São Paulo, eu consegui alugar um apartamento e pude trazer de Rio Claro as três filhas. Ficamos alguns anos ali na Rua Abílio Soares, bem em frente ao quartel. Vira e mexe, os soldados, com seus 18 ou 19 anos, acabavam se distraindo ao ver as meninas na sacada. O lugar era agradável e bem próximo ao meu trabalho.

 

Dali nos mudamos para um apartamento no Largo do Arouche. O prédio ficava bem ao lado de um cinema decadente mas de uma boa padaria. Quando minha irmã e meu cunhado me visitavam com aquele sobrinho, descíamos para comprar frios e doces, tudo sempre muito fresquinho.

 

Nunca fui de muito luxo, mas adorava meus móveis, objetos e mantinha minha casa sempre arrumada. Já os meus discos do Ray Conniff e do Paul Mauriat eu empilhava no prato da vitrola. Não me dava ao trabalho de tirar um e por o outro. “Besame Mucho” estava quase sempre na ponta da agulha. Aquele apartamento de paredes grossas me dava segurança, mas precisávamos de mais espaço. E como gostava do Arouche, saí daquele para outro apê um pouco maior, também no Arouche.

 

Bem de frente para a nova sacada ficava uma igreja no largo Santa Cecília. Com um bom binóculo dava para espiar até mesmo o altar. Já aposentada, gostava de descer e almoçar por ali nos fins de semana. Com menor frequência, minha irmã vez ou outra aparecia para conversar. Minhas filhas sempre estiveram perto de mim nos últimos anos e foram muito companheiras.

 

O tempo passou e a saúde não permitiu que eu continuasse no Arouche. Por causa disso acabei voltando para Rio Claro. Estou aqui desde 2011, mas sempre lembro com saudade do velho centro de São Paulo, do comércio, das minhas meninas e do corre-corre de quem vive aí.

 


Dona Onéia Rodrigues foi personagem do Conte Sua História de São Paulo. O texto foi enviado por Mário Curcio. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participar com textos enviados para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: a advogada negra que a cidade escolheu para ficar

 

Por Graça Barbosa
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

É até difícil de começar… porque quando no Nordeste estava, só ouvia falar de São Paulo como uma cidade de assaltos, violência, … confesso que muito temia, mas a minha euforia de conhecer acabou sendo maior que o medo!

 

Meu pai me trouxe dizendo que lá em Pernambuco, em um município de nome Mariana ou Manari, não tinha futuro pra mim. Eu já nem morava lá! Coisas de pai.

 

São Paulo me aguardava com muitas alegrias e também dores e, com certeza, tive alguns amores, uns felizes outros não… mas aqui estou desde 26 de Janeiro 1996.

 

O primeiro acontecimento foi a morte trágica dos Mamonas Assassinas e os temporais de verão, que naquele janeiro destelhou o barraco da minha irmã. Isso, sim, foi um grande trauma. Queria voltar no dia seguinte para o nordeste, pois lá eu tinha uma casa segura para dormir, mas meu pai não deixou. Bendito seja o meu pai por não me deixar voltar!

 

Acabei me apaixonando por tudo aqui. Vivi momentos de muitas alegrias por onde passei e, também, muitas tristezas, mas aqui estou.

 

Já trabalhei de tudo desde que cheguei: empregada doméstica; lojas de CD, onde conheci meu segundo pai que me ajudou muito aqui em São Paulo e agora está em outro plano: viva, João Gordo!

 

Há dois anos fui até despejada, mas como um milagre fui admitida para trabalhar em uma universidade e ganhei 100% de bolsa de estudo. Hoje estou matriculada e daqui cinco anos São Paulo terá a advogada negra que ela escolheu para ficar.

 

Graça Barbosa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história de São Paulo. Escreva para milton@cbn.com.br e leia outros capítulos da nossa cidade no meu blog miltonjung.com.br