Conte Sua História de SP/460: Itaquerão, no olho d’água da Pontinha Preta

 


Por Marcos Falcon
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 


 

 

Ao passar por áreas reurbanizadas da nossa São Paulo, por edifícios importantes e marcantes de nossa cidade, sempre me pergunto: como deveriam ser esses lugares antes? Quem morava nessa região? Como era a topografia, a vegetação…? Enfim, o que existia por aqui?
 

 

Tendo o privilégio de nascer em Itaquera, na zona Leste, e ter vivenciado toda a transformação do local onde hoje está sendo construído o Itaquerão, julguei por bem deixar registradas aqui respostas às perguntas acima, para que um dia algum curioso ou pesquisador possa usá-las.
 

 

Vamos lá… Na década de 50, havia uma grande área que se estendia da Vila Corberi, em Itaquera, até as proximidades da estação da Central do Brasil, em Artur Alvim. Do lado direito, fazia fronteira com a linha do trem, e do esquerdo, com o bairro Cidade Líder. Uma área de aproximadamente 25 mil metros quadrados, que pertencia ao IAPTEC (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Estivadores e Transporte de Carga). Toda a sua extensão era plantada com eucaliptos, e por isto ficou popularmente conhecida como “Calipal”.
 

 

Calipal… quanta saudade guardo desse espaço… Para nós, crianças, parecia tão imenso que seria impossível atravessá-lo de um lado a outro sem se perder, ou sem correr o risco de ser vitimado por uma onça, um leão, que os pais garantiam existir ali, só para que não nos aventurássemos em suas profundezas.
 

 

O Calipal sempre foi o campo de batalhas das turmas de garotos de diferentes vilas, pois nenhum moleque ousava entrar lá sozinho – de modo que as peregrinações eram feitas em bando. Quando as turmas se encontravam, a maior tratava logo de fazer correr a menor, e ali eram ocorriam grandes disputas de estilingue entre os garotos do Falcão do Morro, do Serrana e da AE Carvalho.
 

 

Dois córregos cortavam nossa floresta: o Areião e o Pequeno. Areião tinha esse nome porque sua formação era muito diferente dos demais córregos. Ele tinha pouca profundidade, algo em torno de 15 centímetros, mas uma largura de mais de 5 metros. Seu fundo era formado por uma espessa camada de areia amarela. Alguns moradores retiravam, diariamente, dezenas de caminhões de areia apenas na base da pá. Entre eles, destacava-se o Dodô. Negro forte, corpo de halterofilista, corintiano roxo e o melhor tocador de contra-surdo da Escola de Samba do Falcão do Morro.

 

Embora menor, o Córrego Pequeno é mais importante para esta narrativa, principalmente sua nascente: a Pontinha Preta, um local mágico, que marcaria a vida de todos os garotos de Itaquera e região. Tratava-se de um pequeno lago de águas cristalinas, e foi nosso clube privado, onde todos nós aprendemos a mergulhar e a nadar, exatamente nesta ordem. O nome Pontinha Preta foi dado em função do fundo do lago ser formado por argila negra – ao primeiro mergulho, suas águas cristalinas tornavam-se turvas, da cor do carvão. Era uma delícia nadar por ali e, após alguns mergulhos, deitar no gramado que a margeava, curtir o sol batendo papo, contando vantagem entre os garotos.
 

 

Em certa oportunidade, fomos até ali numa turma de uns cinco garotos. Lembro que lá estavam o Giba, o Clóvis, o Alemão, eu e mais alguém, de quem agora não me recordo. Era fim de semana, provavelmente domingo. Todos nós tomávamos banho pelados, pois não poderíamos chegar em casa com roupa molhada ou suja, para não denunciar nossa façanha. Meu pai sorrateiramente nos descobriu lá e tratou de apanhar todas as nossas roupas, levando-as embora. Os garotos imploraram para o seu Antônio devolver, não teve jeito. Já que havíamos sido descobertos e estávamos sem roupa, só nos restava continuar nadando até o fim do dia.

 

Mas chegou a hora de ir para casa. Como passar pelado por toda a Vila Corberi? Logo iria escurecer, e não tínhamos coragem de atravessar o Calipal no escuro, pois os leões e onças atacavam durante à noite. A salvação foram as bananeiras do brejo e suas belas e grandes folhas espalmadas. Cada moleque arrancou duas ou três folhas de banana e com elas tapando a frente e a traseira, fomos embora sendo alvo de gozação por onde passávamos.
 

 

Ali pesquei o meu primeiro lambari, com uma vara de galho de eucalipto, linha de costura e anzol feito de alfinete de cabeça. Muitas cobras habitavam a região para se alimentarem das rãs que lá viviam. Num fim de tarde, muitos anos depois, fui lá com meu sobrinho Rafael, caçar borboletas para a coleção que ele estava preparando, para a feira de ciências do Liceu Camilo Castelo Branco. Distraídos e olhando apenas para o alto à procura das borboletas, fomos surpreendidos pelo guizo de uma enorme cascavel, que estava de espreita no trilho, no meio do sapezal. Foi um baita susto, quase pisamos na cobra. Quando ela ergueu a cabeça para dar o bote no Rafael, sem pestanejar enfiei o cabo do coador de borboleta no meio da víbora. Rafael não levou borboleta para a feira de ciências, e sim a cobra exposta em um grande vidro com formol. Foi o maior sucesso daquela exposição.
 

 

No início da década de 70, teve início a construção da primeira Cohab em Itaquera, e nossa floresta encantada foi derrubada para a construção dos apartamentos populares entre Artur Alvim e Itaquera. Toda a área foi alvo de terraplanagem, sem a preservação dos pequenos córregos e da Pontinha Preta.
 

 

Para atender ao crescimento da população de Itaquera com transporte de qualidade, surgiu a Radial Leste, e foi construída a Estação Corinthians do Metrô. Em seguida, Itaquera ganharia seu grande shopping, que também foi edificado ali. A pedreira de Itaquera, que deu nome ao bairro (pedra dura em tupi-guarani) e que forneceu as pedras para a construção da Catedral da Sé, foi desativada e soterrada na mesma época.
 

 

Nos dias atuais, tenho passado pelo local rodando sobre as pistas da Radial Leste. Fica claro para mim que a área não era tão grande assim. Que seus limites não eram tão distantes e inalcançáveis. Pude perceber como é florida a imaginação das crianças. Como foi bom ser criança ali e desfrutar daquele lugar.
 

 

Na semana passada, parei bem em frente à obra do Itaquerão e me permiti meditar sobre como era o lugar antes. Olhei o entorno, a linha do trem, o Morro do Falcão, consultei o meu “Google Maps” imaginário e tive certeza absoluta: o centro do gramado do Itaquerão é exatamente no olho d’água da Pontinha Preta.
 

 

Agora por ali irão desfilar muitas cobras, peixes, gaviões, vindos de todas as partes do mundo, para brincar com o que mais gostamos: jogar futebol nos gramados da Pontinha Preta… quero dizer, do Itaquerão.
 

 

Marcos Falcon é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. O texto completo você lê no meu blog, o Blog do Mílton Jung. Conte mais um capítulo da nossa cidade: mande seu texto para milton@cbn.com.br. Ou marque uma entrevista em áudio e vídeo pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.
 

Conte Sua História de SP/460: lembre-se de onde você nasceu

 

Por João Victor Correa de Almeida Salles

 

 

São Paulo, como eu desejei e desejo te ver transformada.
Eu te conheço São Paulo.
Já peguei metrô às seis, conheço seu vai e vem.
Já fiquei te observando, conheço seus meandros.
Conheço seu coração São Paulo, tenho visto seu agir, sua transformação não virá da mão de homens que só buscam te iludir.

 

São Paulo olhe pra si mesma, busque refletir, por mais que esteja errada, não deixe de assumir.
São Paulo, eu te conheço, eu vejo catadores de lata,
Ó relógio egoísta, essa cultura é que te mata.

 

São Paulo, São Paulo,
tem cultura da garoa,
do “primeiro eu”,
Terra onde as motos cantam como passarinhos, onde as motos não tem freios,
Terra onde existem “vagas reservadas para os mais espertos”,
Onde é melhor trocar de faixa sem dar seta,
Terra onde admitimos o “rouba mas faz”,
Até ouvi, “pior que tá não fica”,
E eu sei, essa é a cultura da terra, cultura de um povo cansado, cultura deste reino.

 

Por isso sou Paulistano Peregrino.

 

Lembre-se São Paulo de onde você nasceu,
Lá no Pátio do Colégio sobre o Reino aprendeu,
Lembra, lá no Reino não é assim, na cidade Celestial a cultura é outra,
Lá praticamos o amor ao próximo como a si mesmo,
Lá praticamos o confiar que o Senhor fará justiça,
Lá o homem que deseja ser o primeiro, este sirva a todos,
Lá o respeito é sincero e genuíno, não acontece apenas por convenção social,
Lá o que tem menos honra, a este damos honra, pois entendemos que somos um só.

 

São Paulo, São Paulo, pare um pouco, pense no que diz, que mudança você quer, a real ou só verniz?
Se São Paulo é você, vou perguntar de novo, que cultura você quer, a do Reino ou a do Povo?

 

João Victor Correa de Almeida Salles é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP/460: o Aparador de Sonhos

 

Por Gabriel Fernandes
Ouvinte-internauta do Jornal da CBN

 

 

A parda palidez da poltrona de vime já estava oculta, desde cedo, pela Hercília, a velha e prestativa babá, sob um oleado esbranquiçado reservado para essas ocasiões. Aquele era um dia especial, mas o estado de espírito da garotada não era o mesmo. O caçula comprovadamente não gostava daquilo; os dois do meio se submetiam sem criar grandes dificuldades; como primogênito, eu tinha direito a algumas regalias.

 

O colorido tapete redondo de ráfia, que contrastava com a sobriedade geométrica do piso de ladrilhos hidráulicos da varanda, jazia enrolado em um canto, prudentemente afastado pela Hercília. A criançada espreitava do corredor enquanto o papai falava no telefone. Aquela conversa, que se repetia a cada dois meses em alguma manhã de sábado, já era esperada e temida. Não tínhamos como escapar do que viria a seguir. Revezávamos na vigia da porta da sala de visitas à espera do convidado indesejável. A estridência metálica da campainha não tardaria a romper o silêncio apreensivo da sala.

 

Priiiiim! Priiiiim! Priiiiim

 

Todos correm para a maçaneta da porta, mas é a Hercília quem a abre e anuncia para o papai: “Seu Eduardo, o Seu Ubaldo chegou!”. O papai deixa a sala. Seu Ubaldo sobe a escada que serve o jardim, atravessa a aspereza cinzenta do curto caminho cimentado que leva à casa. Sua silhueta obesa é recortada na tela luminosa de um dos arcos da varanda. Para nós, ele é um homem velho, de mais de 40 anos, pele morena de árabe, bigode fininho como linha de lã sob o nariz pontudo, voz estridente de trompete. Sempre traja o mesmo sovado jaleco branco, com cheiro de Aqua Velva misturado a um odor ardido de suor, que tem o condão de cobrir-lhe o arco convexo da volumosa barriga. Hálito de salsinha, a gente prendia a respiração até não poder mais.

 

As crianças não gostavam dele, eu acho. Ninguém gosta de tomar remédio amargo ou de ser picado por uma agulha de injeção, mas Seu Ubaldo fazia coisa pior. Como de costume, ele traz sua surrada maletinha marrom e seu cabelo crespo emplastado de brilhantina.

 

“Bom dia seu Eduardo, a criançada está crescendo, deveras!”. E passa a mão na cabeça da gente, despenteando nosso cabelo. Carrega, infalivelmente, uma tábua forrada com um desgastado couro sem cor e um sorriso sarcástico, talvez: “Quem é o primeiro?”

 

O Dario é sempre o primeiro. Caçula não tem direito a nada, não tem escolha. Ameaça abrir um berreiro, mas Seu Ubaldo já vem prevenido. De sua maleta de couro marrom, saca um pirulito e lhe oferece a vermelhidão açucarada da guloseima em forma de chupeta. A propina sempre funciona. Seu Ubaldo coloca a tábua estofada sobre os braços da poltrona de vime e senta o menino ali. Cobre o pequeno com um desbotado pano azul, deixando-lhe de fora apenas a cabeça. O inocente chupa o pirulito enquanto o barbeiro destrói seu cabelo com a infernal máquina manual: “Escovinha, né, seu Eduardo?” O caçula é o que mais sofre. Fica com a cabeça raspada como a bacia de comida do Lippy, nosso cachorro. Só resta um chumacinho de pelos curtinhos nos arrabaldes da testa, menor do que o do Cascão.

 

Vez ou outra, a voraz máquina de cortar cabelo mordia um pescoço inocente. Aí, as desculpas eram poucas e a choradeira profusa. Os dois do meio, o Eliseu e o Davi, já não se deixam seduzir pelo vermelhão adocicado da guloseima. Negociam com o papai não se sentar na tabuinha estofada e permissão para um corte mais civilizado. Condescendente, o papai cede quanto ao corte, mas eles ainda não têm estatura para se livrarem da tal tábua. Os pobrezinhos passam a exibir um vistoso corte americano: máquina um nas laterais até bem acima das têmporas e uma faixinha de cabelos curtinhos que se estende da testa até o cocuruto. Os bobinhos se dão por satisfeito.

 

Como o mais velho, eu tinha meus privilégios. Nada de pirulito vermelho de chupetinha, nada de tabuinha. Meu sonho de um cabelo como o do Elvis, cruzado na nuca com Gumex e um belo topete, porém, desfaz-se na geometria intrincada do chão de ladrilhos. Tudo que eu consigo é um corte meio-americano: uma raspadinha com a máquina dois logo acima das orelhas e um pouquinho mais de pelos no alto da cabeça.

 

Quando cortei meus cabelos, despedindo-me de minha vida de solteiro, foi o Ubaldo a quem procurei. Seu salão ficava na Rua Santa Cruz, na Vila Mariana, bem defronte à chácara dos irmãos maristas, do Colégio Arquidiocesano, onde, em dias de ócio, junto com meus irmãos, costumava surrupiar algumas frutas. Ele foi meu barbeiro desde os tempos da varanda de ladrilhos geométricos. Eu não sabia, ainda, que aquele seria um corte de despedida. Seu Ubaldo morreria alguns dias depois.

 

Por irresistível pressão familiar, me resignei a ir ao meu cabeleireiro habitual em uma galeria na Avenida Paulista. Teria preferido entrar na Martins Fontes que, do outro lado do corredor, tenta seduzir os frequentadores do salão com caos irresistível de suas vitrines coloridas. Deixei que o Antônio me tosasse a cabeleira, como costumava fazer o Ubaldo. Enquanto ele cometia seu desatino, o salão me pareceu, como num sonho, se transformar na velha varanda de casa. Pude rever meus irmãos, ainda crianças, e o rosto benevolente de meu saudoso pai. O Ubaldo confirmava com papai se, realmente, o meu poderia ser um corte meio-americano…

 

A lembrança me apertou o peito e a saudade quase se desprende de meus olhos como uma solitária lágrima. Se eu a deixasse cair, fundir-se-ia aos meus cabelos que, como sonhos aparados, jaziam no chão.

 

Gabriel Fernandes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP/460 anos: construímos nossa vida na Zona Leste

Por Cláudia Elisabete da Silva
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 


             

 

                                                                         
Às sete horas anunciei que estava para chegar, mas minha mãe não entendeu que meu dia havia chegado. Às sete horas os trabalhadores já estavam na luta, de trem, de ônibus, sonhando nos “enlatados” com o metrô em construção que, um dia, iria encurtar as distâncias para todos – ou para alguns privilegiados lá da zona sul. Só o tempo diria, já que até hoje o metrô não atende a toda a cidade. Meu pai e nosso tio já haviam saído para seus respectivos empregos. Minha mãe, no entanto, não quis incomodar ninguém, e ficou ali, sofrendo sozinha, achando que eu poderia esperar mais um pouco. A coisa foi ficando apertada e em pouco tempo não foi mais possível segurar. Ela chamou minha tia, que morava no mesmo terreno, na casa da frente. A tia, recém-chegada na Paulicéia, não sabia nem por onde começar.

 

“Um táxi, tia, chame um táxi lá na Itinguçu”, minha mãe pedia. Morando na Vila Ré, cujas ruas ainda estavam sendo asfaltadas, essa era a única forma de tentar chegar a um hospital em tempo suficiente para que eu não viesse ao mundo no meio da rua, em meio a essa gente apressada, correndo para o que der e vier, como diria a canção de tom entusiástico e em ritmo acelerado – “vambora, vambora, olha a hora”…

 

São Paulo não podia parar: este era o mote lá no início da década de 1970, quando vi a luz, só por volta das cinco da tarde – na hora do “rush”, da volta para a casa, tinha que ser! O hospital ficava na Avenida Celso Garcia, a alguns metros do Parque São Jorge – o destino já estava traçado: mais uma corintiana na face da Terra!

 

Aprendi a ler antes de frequentar a escola, decifrando os outdoors do corredor Radial Leste-23 de Maio-Rubem Berta, que percorríamos semanalmente, eu, minha mãe e meu pai, para visitarmos os parentes no Jabaquara. Tentamos morar nesse bairro em 1979, mas não aguentamos mais do que nove meses, por causa do barulho dos aviões que decolavam e aterrissavam em Congonhas. Voltamos para a zona leste, onde construímos nossas vidas ali, na região da Penha, um dos bairros mais antigos da capital, antigo lugar de peregrinação à igreja do século XVII que abrigava a santa padroeira da cidade. A Penha era o centro comercial para toda aquela gente que, quando era preciso “ir à cidade” (o Centro Velho), dependia exclusivamente dos ônibus que seguiam, demoradamente, pelas avenidas Amador Bueno da Veiga, Celso Garcia e Rangel Pestana.

 

Nos anos 1980 veio o metrô, que facilitou a vida dos trabalhadores e estudantes da região. Fui fazer o 2º grau no Tatuapé, e foi então que a cidade começou a se descortinar diante dos meus olhos.  Centro velho, República, Anhangabau, 24 de Maio e Barão de Itapetininga, com suas livrarias e lojas de discos, as galerias Barão e “do Rock”, os cinemas, as lojas de pedras brasileiras, os prédios da virada do século XIX para o XX.

 

Entrei na USP para estudar História e venho testemunhando da janela do ônibus as transformações da rua Augusta ao longo dos últimos 20 anos; trabalhei no Museu Paulista (vulgo Museu do Ipiranga), onde pisei pela primeira vez ainda criança, levada pelo meu pai; fiz alguns freelancers na região da Santa Cecília, Higienópolis, Perdizes e Lapa. Pesquisei nas bibliotecas da São Francisco, na Mário de Andrade, nos arquivos Municipal e do Estado, e tornei-me uma professora absolutamente apaixonada por São Paulo e sua história. Hoje, e já há alguns anos, tenho a sensação de que São Paulo precisa parar de crescer, para que a verdadeira cidadania seja conquistada por todos. Apesar de tudo, posso dizer que não saberia viver noutro lugar.

 


Cláudia Elisabete da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você mais um capítulo da nossa cidade. Mande seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa, pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Conheça outras histórias de São Paulo no meu blog, o blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP/460 anos: o casarão mal-assombrado

 

Por Clarindo Oliveira
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Cada um ao seu estilo, meus pais eram excelentes contadores de histórias. Meu pai, senhor José Américo de Oliveira, falava da sua infância na roça em Minas Gerais e da batalha diária pela sobrevivência na cidade grande na década de 1950. Ele, inclusive, já teve um episódio imortalizado no “Conte Sua história de São Paulo”, da CBN.

 

Minha mãe tinha nome de cantora: Dalva de Oliveira. E também uma linda voz! Vivia cantando as músicas da xará, da Cláudia Barroso e da Angela Maria. Era fã número 1 do Agnaldo Rayol. Quando acabava a energia em casa, ela acendia o lampião a querosene, reunia os filhos na sala e contava fábulas infantis. Eu adorava aquela da Dona Baratinha que não parava de chorar porque o Dom Ratão caiu na panela de feijão.

 

Eu já não tenho esse dom. Trabalho na área de informática, onde a lógica predomina. Ingressei na área na década de 1980, no CPD de um tradicional banco paulista, o Mercantil de São Paulo, na Freguesia do Ó. Foram tempos corridos para mim. Cruzava a cidade todos os dias. Saía da Vila Joaniza, na zona Sul, para trabalhar na zona Norte e à noite estudava na PUC em Perdizes, na zona Oeste.

 

Foi nessa época que conheci o Vasquinho, um sujeito que tinha dois empregos. À noite ele trabalhava num prédio na avenida Rio Branco. Ficava praticamente sozinho nesse local, operando os computadores. Dizia que atrás do prédio existia um casarão com fama de mal assombrado. As pessoas comentavam que o fantasma de uma freira aparecia de vez em quando e que se ouviam barulhos estranhos por lá. Lembro-me de ter comentado que nunca trabalharia num lugar desses!

 

Alguns anos depois, fui trabalhar na Porto Seguro, nos Campos Elíseos. Era um casarão antigo da rua Guaianases, tombado pelo Condephaat e belissimamente restaurado pela empresa.  Havia um jardim enorme, que hoje deu lugar a um prédio muito moderno. Era o tal casarão da história do meu amigo do banco. Estive lá muitas madrugadas, corrigindo erros dos programas, nunca presenciei o fantasma. Calejado pela exatidão dos bits e bytes, acho que os barulhos estranhos seriam de ratos que viviam em tantas construções antigas da região. Já a visão da freira talvez fosse apenas a estátua de um cisne que havia no jardim, envolto pela névoa que baixava. 

 

Mas vai saber…

 

Clarindo Oliveira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você também pode contar mais um capítulo da nossa cidade. Mande seu texto para milton@cbn.com.br ou marque entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistória@museudapessoa.net. Para ouvir outras histórias de São Paulo, visite o meu blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: coisas que não existiam no Egito

 

Por Nadine Vogel
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Dia 17 de setembro de 1957.

 

Chegamos em Santos, após uma viagem de 25 dias. Eu tinha 2 anos. Ficamos atordoados com a quantidade de gente no cais: homens, mulheres, crianças, brancos, negros. Isso não havia no Egito. País que por questões políticas havia nos expulsado.

 

Viemos para cá porque minha tia, irmã mais velha de minha mãe, estava aqui. Ela nos havia jurado que São Paulo era uma cidade grande, cheia de oportunidades. Meus pai vieram muito ressabiado, trouxeram uma bagagem enorme e dentro delas latas de óleo, louça, máquina de costura. Nunca havíamos ouvido falar de Brasil e muito menos de São Paulo.

 

Meus tios foram nos pegar em Santos, mas tivemos que deixar nossas 25 malas num guarda malas, pois não cabiam no ônibus. Pegamos a estrada e depois o bonde e chegamos na Vila Mariana, onde minha tia morava, lá no Edifício Amarante.

 

Meu pai disse em árabe:
-Essa cidade é grande!

 

No dia seguinte saiu de casa para procurar emprego. Saiu apenas com o número dos ônibus que deveria tomar e com o endereço do edifício Amarante. Número de telefone? Apesar da pujança da cidade, telefone era só para pessoas muito ricas.

 

Estávamos assustados, era noite, e meu pai não havia chegado. Até que a campainha tocou e seus alhos azuis brilhavam muito. Não era um brilho só de agradecimento, era de surpresa. Ele nos contou que havia tomado o ônibus errado e se desesperou. Um padre franciscano ofereceu-se para ajudá-lo. E o acompanhou até a porta.

 

Meu pai gritava, em árabe:
– Essa cidade é maravilhosa!

 

As coisas melhoraram. Conseguimos alugar um pequeno apartamento na 9 de julho. Era demais morar próximo do Viaduto do Chá, do Vale do Anhangabaú – afinal era lá que todos faziam suas compras. O bairro era ótimo. Íamos as festa na Rua Avanhandava, Manuel Dutra, Rocha e voltámos de madrugada a pé. A cidade era segura, apesar da iluminação amarelada da avenida. Um dia alguém entrou em nosso apartamento enquanto estávamos passeando na Praça 14 bis, mas isso não abalou nossa confiança.

 

Minha irmã começou a trabalhar, minha mãe, também, como balconista na Augusta, uma rua super luxuosa. Meu pai vendia canetas tinteiro. Mais tarde, passou a vender esferográficas. Em época de férias, eu saia com ele pelo centro e visitava todos os caneteiros, seus clientes. Era divertido, aquele centro apinhado de gente num vai e vem que atordoava a todos. Olhava as mulheres chiques chegando de carro para tomar o chá no Mappin; a variedade de mercadorias nas lojas If, Modélia, Americanas e no Esportes Moura, me enlouquecia.

 

Quando eu me mostrava assombrada diante da vitrine, meu pai dizia, em árabe:
-A cidade é grande e maravilhosa!

 

Eu andava de mãos dadas com ele, com medo, mas segura; eu fazia parte dessa grandeza.

 

O fim de semana era demais. Ia aos Sábados na feira. Lá na Praça Roosvelt. Tinha de tudo; frutas, verduras, roupas, sandálias, mas as bijuterias eram irresistíveis.

 

– Que cidade! Tem tudo que precisamos!
Cada vez mais tinha a certeza que éramos muito felizes aqui.

 

O domingo era meu dia preferido. Minha mãe e minha irmã ficavam em casa preparando comida e costurando nossas roupas na máquina Singer, que veio conosco do Egito. E eu me aprontava logo cedo. Era dia de visitar a TV Excelsior e assistir ao programa de auditório “Jardim Encantado” apresentado por Clarice Amaral e Vicente Leporace. Andava feliz na rua com meu vestido novo, cheio de babados, e o sapato comprado nas lojas do centro. O trajeto era longo, e longa era a fila que deveríamos enfrentar para assistir ao programa, mas isso não importava, afinal estávamos em São Paulo.

 

Nadine Vogel é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra aqui no Blog.

Conte Sua História de SP: as carroças da Visconde de Parnaíba

 

Por Darcy Gersosimo
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Durante oito anos de minha vida, de 1942 a 1950, moramos na Rua Visconde de Parnaíba, no Brás. Naquela época, São Paulo era tão diferente … A Visconde de Parnaíba era tida como muito movimentada devido ao tráfego de automóveis, caminhões, carroças puxadas a burros ou cavalos de padeiros, leiteiros, verdureiros, que trabalhavam nas empresas Matarazzo e Souza Cruz. Além da linha de ônibus Belém, número 24, cujo ponto era na Praça Clóvis Bevilaqua, defronte ao Palácio da Justiça.

 

Era uma alegria quando mamãe, por algum motivo nos levava para as avenidas Celso Garcia e Rangel Pestana, andando para ver as vitrines das lojas que estavam em toda sua extensão. Eram de calçados, tecidos, armarinhos, presentes, vestidos de noiva, chapéus para senhoras e senhores, flores de seda. Tinha a Pirani -a Gigante do Brás -, as Americanas … Passávamos pela Igreja de São João Batista, em cujo Largo havia um bebedouro para cavalos. Na esquina da Rua Bresser, no bar “O Garoto”, comíamos um pedaço de pizza feita na hora. Que delícia…

 

Nessas avenidas existiam cinemas famosos como o Universo, Roxi, Brás Politeama, Piratininga. Havia também a Escola Normal Padre Anchieta, com as normalistas vestidas de azul e branco, como cantava Nelson Gonçalves, e o Grupo Escolar Romão Puiggari, com seus alunos uniformizados. Os “studios” fotográficos registravam nosso desenvolvimento físico, anualmente. Tenho diversas fotos do “Foto Stúdio Progresso”, na rua de mesmo nome. Às vezes, chegávamos até o Largo da Concórdia, onde as quermesses eram realizadas com barracas de jogos de argolas e do coelhinho que entrava na casinha (ou não). Ali ficava o Teatro Colombo e bem próximo o tristemente famoso Cine Teatro Babilônia. Eu admirava um lindo palacete na Celso Garcia onde estava instalada a 8a. Delegacia de Polícia. Hoje, o imóvel está em completo abandono, que pena! Antes de ir para casa, fazíamos uma rápida visita à Tia Izabel que morava no número 900, da mesma avenida. Nesse imóvel, na frente da casa, meu tio montara uma loja de venda de discos e conserto de rádios (aqueles de válvulas). Ainda não existiam LPs, nem TVs.

 

Depois do cafezinho, voltávamos para casa.

 

Darcy Gersosimo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você também pode contar mais um capítulo da nossa cidade. Mande seu texto para milton@cbn.com.br ou marque entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistória@museudapessoa.net. Ouça outras histórias de São Paulo aqui no Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: e o chuveiro, que novidade era aquela?

 

Por Norma Suely Silva Souza Pires
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Moro em São Paulo há 45 anos. Não posso deixar de lembrar  de quando cheguei a São Paulo vindo do sertão da Bahia. Não de pau de arara, mas em uma Kombi com mais 11 pessoas. Primeiro foi o êxtase ao ver a Rodovia Dutra cheia de carros. Eu chegava de uma cidade que nem carros havia. Que espanto com tantos faróis à minha frente. Em São Paulo fiquei deslumbrada com a televisão e com os ônibus. Tinha o Tietê, também, por onde os bandeirantes passaram. Tratei logo de escrever para os meus amigos e contar sobre o rio. Havia uma só nota de tristeza: o rio aqui não era limpo como os da Bahia.

 

Chamavam-me atenção os supermercados ao meu ver gigantes, as feiras com tantas verduras e frutas, já que eu só conhecia laranja e banana. Quase morri de tanto comer maçã pois só conhecia da história da Branca de Neve. Meu Deus do céu, e o chuveiro, que novidade era aquela? Pias com torneiras jorrando água. Nem precisava dos jegues para buscar água, como estava acostumada na minha terra.

 

Como não tinha vaga na escola pública fui estudar em um colégio particular, onde me deparei com tantas outras novidades e fiz muitos amigos, de quem ouvi muita gozação também. Não podia abrir a boca que lá vinha: eta, baianada! Não podia  falar o alfabeto que lá vinha gargalhadas. Hoje, me vejo na música do saudoso Luis Gonzaga: …. a,e,i,o. u… Bullying não conhecia, tirava de letra, já que baiano é escrachado mesmo. O que eu mais gostava era de fazer trabalhos na casa dos meus amigos para tomar café com leite (naqueles litros maravilhosos) e comer mortadela que eu também não conhecia. Pensando bem, eu não conhecia era nada da civilização… 

 

Norma Pires é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br. Ou marque uma entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você ouve e lê aqui no meu blog.

Conte Sua História de SP: os Paulos de Paulo e o ensino de São Paulo

 

No Conte Sua História de São Paulo trago, hoje, dois personagens:

 

 

Começo com Paulo Henrique que quer conhecer alguém mais paulistano do que ele. Filho de mineira e de baiano, dona Irias e seu Claudemiro, Paulo nasceu em São Paulo, no dia de São Paulo, e no Hospital São Paulo. Para dar sequência à história, torce para o São Paulo e já morou na Vila São Paulo. Como se tudo não bastasse, teve um filho no mesmo dia de São Paulo, que só não se chama Paulo porque aí a mãe já estava achando coincidências de mais.

 

Nosso outro personagem é Alci Cortezi que não nasceu em São Paulo, mas declara todo seu amor pela cidade que, pelo visto, foi à primeira vista, pois diz que começou, em 1971, quando chegou com toda a família: os pais e os irmãos,Alfredo, o mais velho, e Terezinha, a do meio. Veio da mineira Capiniópolis, onde trabalhava tirando leite de vaca e na lavoura. Os tios que já estavam por aqui, vendo as dificuldades na roça, mandaram carta convidando o pai dele para vir à São Paulo. Os irmãos ficaram na casa de uma família, na Capital. Enquanto o pai, a mãe e ele, o caçula, foram morar em São Roque. Alci chegou com apenas o quarto ano primário e assim que pode voltou à cidade grande, fez Madureza, curso técnico, faculdade, tem um escritório contábil, três filhos e está casado pela segunda vez.

 

Alci e Paulo Henrique são personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade. Mande o texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista em áudio e vídieo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias da nossa cidade, você ouve e lê aqui no meu blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: pequenos medos na grande cidade

 

No Conte Sua História de São Paulo, pequenas histórias de grandes lembranças dos nossos ouvintes-internautas:

 

 

A história de Rinaldo em São Paulo se iniciou em 1971, embarcando e desembarcando na rodoviária, ao lado da Estação da Luz. Ele conta que tinha muito medo, na época, não da cidade, mas da escada rolante. Aos 14 anos, começou sua vida profissional, no trigésimo-primeiro andar do Edifício Zarzur, no Vale do Anhangabau. E aí sim, lá do alto do Mirante do Vale, diante da vista maravilhosa da cidade, Rinaldo sentiu medo de enfrentar aquela selva. Os medos ficaram para trás, e, hoje, totalmente inserido, vê São Paulo, com sua imponência durante o dia e as luzes da noite, acolhendo e encantando a todos que chegam.

 

A segunda lembrança é de Maria Antonia Araújo. De Piracicaba, no interior, chegou há cerca de quatro anos e com ela trouxe o medo de dirigir na Capital. Com uma vizinha expôs a preocupação que sentia por ter de um dia guiar um automóvel pelas avenidas. “Não se preocupe – disse a conselheira – em São Paulo você vai andar tão devagar que não tem como ter problema”. Mesmo assim, Maria Antonia, ainda prefere o metrô.

 

Maria Antonia e Rinaldo são personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade, mande seu texto para milton@cbn.com.br. Ou agende uma entrevista em aúdio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ouça e leia outras histórias de São Paulo aqui no Blog do Mílton Jung.