Conte Sua História de SP: andava de bicicleta com licença da prefeitura, em Pinheiros

 

Por Silvia Maria Aleixo Araujo

 

 

Bairro de Pinheiros … aquele que a atualidade desconhece.

 

Pinheirense da gema.

 

Nasci no prédio que ainda está lá, no térreo funciona o famoso bar das Batidas, bem atrás da Igreja Nossa Senhora do Montserrat, no largo de Pinheiros. Ali no largo, o bonde que descia a rua Theodoro Sampaio fazia a volta e retornava para a rua Xavier de Toledo, no centro.

 

O grupo escolar era na rua Sumidouro. Arquitetura dos anos 40/50, naquela época sem muros, só jardins, construção que lá permanece livre das obras do metrô e da tal revitalização do bairro que o descaracterizou em nome do progresso.

 

Era um bairro tranquilo, eu andava de bicicleta – ela chegou a ter uma placa de licença da prefeitura – no largo de Pinheiros e na rua Cardeal Arcoverde, onde moravam meus avós, entre a rua Theodoro Sampaio e a avenida Eusébio Matoso, onde hoje é o Shopping Eldorado e naquela época, um campinho de futebol.

 

Trânsito escasso e o respeito entre as pessoas era evidente.

 

No Carnaval, a família, primos e amigos sentavam em cadeiras nas calçadas da rua Theodoro Sampaio para assistir à passagem dos blocos carnavalescos, enquanto brincávamos com lança-perfume e seringas plásticas com ‘sangue de diabo’, um corante vendido em farmácia.

 

Brincadeiras inocentes e crianças felizes.

 


O Conte Sua História de São Paulo tem narração de Mílton Jung e sonorização do Cláudio Antonio. Você pode participar enviando seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: o leite na porta de casa e o padeiro na sala, na Alameda Franca

 

Por Cristina Khouri

 

 

Sou neta de imigrantes sírios que chegaram no Brasil ainda na adolescência. Meus Avós eram irmãos e aqui construíram seus negócios e fizeram família. Meu pai, Manoel Francisco, se estabeleceu na região da 25 de Março vendendo tecidos na famosa LOJA 73 na antiga Rua Santo André.

 

Ele me contava sempre sobre as histórias da cidade, como a construção do Mercado Municipal da Cantareira e da dificuldade de fazer a fundação pelo fato do solo não ser firme, dos lampiões de gás que eram acesos com uma vareta longa nos fins de tarde e apagados no começo da manhā. Sempre lembro desse detalhe quando passo todos os dias pela Praça da Sė a caminho do trabalho e vejo aqueles postes imponentes enfeitando a Praça. Imagino a magia desta cena! Pena que nāo estāo cuidados!

 

Falava-me sempre sobre a Revoluçāo de 32 e por que as iniciais MMDC no Obelisco do Ibirapuera.

 

Na época do carnaval, ele nos levava para acompanhar o Corso, um desfile de carro, e íamos felizes, sentados no porta malas aberto da perua Dodge, participando das brincadeiras de rua, jogando confetes e serpentinas nos foliões.

 

Passeava com minha māe, Dona Emília, na rua Direita, numa casa de lanche onde ela se encontrava com amigas para um chá. Aliás, também para compras, pois o comércio se concentrava no centro da cidade.

 

Lembro-me bem da nossa casa na Alameda Franca em cuja porta o leiteiro deixava as garrafas de vidro cheias de manhā e minha mãe retornava as vazias no dia seguinte quando ele trazia o leite novamente. O padeiro, o senhor Vilarinho, trazendo na sua camionete uma variedade enorme de pães, que ele colocava numa cesta oval de vime e entrava nas casas para as pessoas escolherem. Esse ritual acontecia no café da manhã e na hora do almoço. Enquanto eu almoçava, escolhia o pāo doce que iria levar para o lanche da escola.

 

 
Que emoçāo andar naquele bonde aberto na Avenida Paulista! Era um passeio divertido! E quando saíamos de carro, eu pedia pro meu pai sempre andar nos trilhos .

 

Assim como ir no Parque Shangai, no circo do Arrelia ou no Horto Florestal! As brincadeiras de rua, onde a meninada batia figurinha, jogava bolinha de gude ou andava de carrinho rolemā! Costumávamos ir até a Igreja da Penha pois meu pai era devoto.

 

Foram tempos marcantes na minha vida e de meus irmāos. Eu amo esta cidade, ela nos acolheu e ofereceu tudo que tem de melhor.

 

Cristina Khouri é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode enviar seu texto para miltonjung@cbn.com.br e ler outras história da nossa cidade aqui no Blog.

Conte Sua História de SP: o passeio de mãos dadas com o meu pai até o Cambuci

 


Por Roberto Furtner Caldeira

 

 

A brisa suave anunciava a chegada do outono na cidade, varrendo ladeira abaixo as folhas das árvores prestes a adormecer. O toc-toc dos sapatos apressados atravessando a rua de paralelepípedos era o prenúncio de mais um entardecer.

 

Seria mais um final de dia normal naquela cidade que via seu sonho de virar metrópole se aproximar a passos largos. Mas não para mim. Então aos 6 anos de idade, as terças feiras eram especiais. O dia da semana em que voltava a pé com meu pai do centro da cidade até nossa casa no bairro do Cambuci.

 

Como fazia toda semana, ao final do expediente meu pai me apanhava na escola. Ele gostava de caminhar, hábito adquirido nos tempos em que tudo em São Paulo ficava à distância de uma caminhada, se muito uma viagem de bonde.
Segurando firme sua mão, olhando o mundo de baixo para cima, eu sentia um misto de temor e excitação. Aquela caminhada de quarenta minutos era repleta de estímulos, de aventuras.

 

De um lado o ronco dos carros nacionais em meio aos antigos e bojudos carros americanos que ainda circulavam, brilhantes, imponentes. De outro lado o bonde alaranjado, com aposentadoria já anunciada, apinhado de pessoas em busca de um lugar em seus assentos de madeira gasta. Suas rodas emitindo um guincho estridente em função do atrito contra os trilhos de metal.

 

A medida em que nos afastávamos da praça da Sé em direção à Baixada do Glicério, os prédios mais altos ficavam para trás e surgiam restaurantes, bares e luminosos de neon. Uma profusão de cheiros, sons, vozes e risadas.
Me divertia especialmente na frente dos bares que naquela época jogavam as tampinhas de garrafa na calçada. Tampinhas de refrigerante, de cerveja e de pinga. Até ensaiei uma coleção, consumida meses depois pela corrosão do metal das tampinhas.

 

Como sempre, em meio a nossa animada conversa, parávamos no meio do caminho para comer pastel. O meu sempre de queijo, o de meu pai sempre de carne.

 

Após o lanche retomávamos nossa caminhada, cruzando pela baixada do Glicério, até chegarmos à outrora famosa rua do Lava Pés, conhecida pelo riacho e por ser a última parada dos viajantes para beber água e se refrescar antes de subir para o centro da cidade, nos tempos do império.

 

A caminhada então alcançava sua reta final ao cruzarmos o largo do Cambuci, já próximos de casa. Nasci e cresci no Cambuci. Embora nunca tivesse visto de perto uma árvore da espécie, cedo soube que o nome do bairro era homenagem a uma fruta outrora abundante na região.

 

Já no último quarteirão passávamos pelo açougue do seu Jairo, padaria do seu Milton, sapataria do seu Manuel e barbearia do Antônio. Naquela pequena comunidade todos nos conheciam pelo nome e acenavam ao nos verem passar.
Antes de entrarmos em casa meu pai refazia o ritual diário: colocar uma garrafa de vidro destinada ao leite, dentro da caixa de metal ao lado do portão, para que o padeiro pudesse trocar por uma garrafa cheia quando trouxesse o pão na madrugada seguinte. Leite que seria devidamente fervido para o café da manhã.

 

Ouvíamos o som dos cascos do cavalo trotando rua abaixo, puxando a carroça do catador de sucata. A brisa continuava, de tempos em tempos. O céu, mais escuro naquela época, mostrava um negrume salpicado de estrelas por todos os lados. Pedia para meu pai me apontar o cruzeiro do sul antes de entrarmos em casa onde minha mãe nos aguardava.

 

Como um herói que voltava da guerra cheio de estórias para contar, eu entrava em casa de peito estufado, dono do mundo, contando as novidades. Minha mãe ouvia tudo com atenção e o devido ar de surpresa. O único ponto de discórdia: ela achava que pastel não era um bom jantar para uma criança.

 

O tempo passou, eu me tornei adulto, a cidade se multiplicou.

 

Hoje já não consigo chegar aos lugares com uma caminhada apenas. O bonde se foi há tempos. Não mais consigo ver as estrelas com a mesma clareza, quanto mais apontar o cruzeiro do sul para meus filhos. Só quando viajamos para fora da cidade.

 

Tampinhas de garrafa de metal quase não existem mais. Não sabemos mais o nome dos vizinhos direito. Leite entregue em casa é coisa do passado. Açougue virou seção de supermercado.

 

Aquela cidade de indivíduos cedeu lugar a uma cidade de instituições. Para o bem, e para o mal.

 

Porém ainda caminho com meu pai, pela rua arborizada que ele escolheu para viver sua aposentadoria. Já aos 80 anos, hoje é a sua mão que busca apoio em meu braço. Aquela mesma mão que me guiou pela São Paulo de outros tempos.

 

Conversamos sobre causos da vida, enquanto a brisa suave anuncia a chegada de outro outono na cidade, varrendo ladeira abaixo as folhas das árvores prestes a adormecer.

 

Conte Sua História de SP: o escocês que se apaixonou pela cidade

 

No Conte Sua História de São Paulo você ouve o depoimento de Barry Michael Wolfe ao Museu da Pessoa. Barry é escocês, nascido em Glasgow, em 1955. Criança, sonhava ser Sherlock Holmes e se divertia ao andar de terno, gravata e chapéu espiando as pessoas. Virou advogado, ainda na Escócia. Conheceu o Brasil pelo filme “Gabriela, Cravo e Canela”, e nas músicas de Vinícius de Morais. Apaixonou-se. Em Londres, chegou a tocar tamborim em uma escola de samba. Mas só conheceu o país, em 1986, a convite de um amigo que comandava grupo de investidores estrangeiros. Aqui, esteve no Rio e São Paulo, em visita que antecederia sua decisão de se mudar definitivamente para viver no Brasil:

 

 

Barry Michael Wolfe é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. O depoimento foi gravado pelo Museu da Pessoa (assista à entrevista completa aqui). Você também pode registrar a sua história, agende entrevista em audio e vídeo pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Se quiser, conte sua história por escrito e envie para o e-mail milton@cbn.com.br. Para conhecer outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br.

Conte Sua História de SP: rodei o mundo e vivo no Copan

 

Por Edyr Sabino
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Eu era pequeno quando vim à São Paulo pela primeira vez. Foi há 50 anos. Eu tinha apenas 7 anos de idade. Minha família havia comprado nosso primeiro apartamento na Capital. O termo metrópole estava começando a fazer sentido para mim. Nossa vida no interior, Penápolis, era bem mais tranquila. Eu não me lembro muito bem da viagem de lá para cá, pois dormi a maior parte do tempo. Acho que me deram algum remédio para dormir durante a viagem e não vomitar. Mas me lembro do dia quando cheguei aqui pela primeira vez na minha vida. A cidade de São Paulo era grande. Era década de 1960.

 

Atravessar a Av. Ipiranga era um desespero. Minhas tias Elmaza e Geni apertavam as minhas mãos, dizendo que era para eu não escapar. Elas não contavam que estavam com medo de atravessar a rua sem serem atropeladas. Elas eram músicas e acho que já haviam ouvido Adoniram Barbosa cantar sobre uma moça chamada Iracema, que morreu atropelada num esquina ali perto, na Av. Sao João. Eram aqueles ônibus Mercedinho, azul e creme, que passavam.

 

Eu gostava do que via. O Edifício Copan ainda tinha andaimes, ainda estava em obras, e nos já tínhamos apartamento quitinete no bloco B, 8º andar. Aquele monte de botões nos elevadores me impressionavam. Ver aquelas rampas que sobem ou descem naquele bloco e o corredor enorme e tortuoso, cheio de portas uma ao lado da outra. Parecia ter uns 20 apartamentos por andar, com muito eco. Tínhamos que caminhar em silêncio, senão poderia chamar a atenção dos outros moradores. Mas não tinham muitos moradores ainda. O prédio ainda não havia sido oficialmente inaugurado. Meus tios pisavam forte e minhas tias, bastavam chinelos. Som que gerava um eco inconfundível.

 

A cidade era cinza. Foi quando eu aprendi o termo garoa! Terra da Garoa!

 

Não nasci em São Paulo. Adoraria sair desta cidade, mas é nela que vim morar e é nela que eu vivo. Rodei o mundo, e vivo no Copan, na cidade de São Paulo até hoje

 


Edyr Sabino é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio.

Conte Sua História de SP: os valores de meu pai

 


Por Luciano Ribeiro
Ouvinte-internauta da Rádio CBN

 

 

Em 1986, éramos sócios do Clube Juventus, no Bairro da Mooca, zona leste, mas morávamos no Cangaíba, distrito da Penha, bem longe dali. Eu, no auge dos meus 14 anos, me sentia muito orgulhoso em poder ir desde a minha casa até ao clube sozinho. Pegava um ônibus na Avenida Cangaíba, descia na Penha, embarcava no Vila Limoeiro, próximo ao Cemitério. Ali seguia em uma longa viagem de quase hora e meia até descer na portaria do clube, e aproveitar o dia quente de férias nas piscinas.

 

Certo dia, ao sair do Clube, deparei-me com a seguinte situação: tinha uma nota de Cz$ 5.000,00 (na época a moeda era o cruzado) e o valor da passagem era de Cz$ 120,00. No ônibus havia uma placa que dizia: troco máximo Cz$ 1.000,00 (posso estar equivocado com os valores exatos). Bem, fui até uma Padaria na redondeza e comprei um “Freshen up”, um chiclete que tinha um recheio líquido refrescante. Cz$ 180,00. Ao fazer o troco, a mocinha do caixa cometeu um equívoco, em vez do troco de Cr$ 4.820,00, ela me entregou Cz$ 5.320,00, e pior, a minha nota de Cz$ 5.000,00 veio junto embaixo de todas. Mais que depressa dobrei aquela pequena fortuna, a coloquei no bolso e segui para minha casa.

 

No ônibus, fazia planos … estava praticamente rico, quantas fichas de fliperama eu iria comprar. Ah! Aquele tênis que eu pedi para a minha mãe, se eu quiser comprar vou poder também! Nossa! Eu estava extasiado. O fim de semana estava garantido: shopping, cinema, sanduíche naquela famosa lanchonete do M amarelo… Uau!! Ao chegar em casa, cometi o “pior erro da minha vida” (ao menos eu enxerguei assim por alguns bons anos). Coloquei a mão no bolso, saquei aquele monte de dinheiro e mostrei, orgulhosamente, ao meu pai: – “Pai, olha o que eu consegui. Estou rico!”. Meu pai, com o semblante sempre sereno fechou a cara, e um pesar imenso tomou conta do rosto dele. O tom grave da voz dizia tudo: – “Onde você conseguiu este dinheiro?”. Expliquei, já não tão orgulho assim, a minha epopeia. Meu braço franzino sentiu a enorme pressão das mãos dele me levando até o carro. Já começava a anoitecer, deviam ser próximo das 7 da noite, estava calor, e nosso carro não tinha ar condicionado. Levamos cerca de uma hora e meia até chegar a padaria. Meu Pai fazia o costumeiro sermão (ele costumava gastar horas em uma conversa, que era pior que vinte surras). Durante todo o caminho, eu o ouvi dizer sobre o que era pegar uma coisa que não era minha, que ele nunca tinha me ensinado que isto era motivo de glória, que… ahhh… Porque eu não fiquei quieto??? Por que tive que mostrar a ele? Como fui burro…

 

Ao chegar a padaria encontramos um Sr. Grande, de cabelos brancos (ele era bem maior que meu pai). O homem apontava e falava alto para a moça, com olhos vermelhos de tanto chorar… Ela tinha uma barriga enorme, estava grávida… Meu pai interrompeu a conversa e ainda com aquela pressão no meu braço, disse que eu tinha algo para dizer… Entreguei a nota de Cz$ 5.000,00, e a de Cz$ 500,00. Com a voz embargada, pedi desculpas, e meu Pai emendou: – “O pior, é que ele percebeu o engano, pegou o dinheiro, e foi embora. Eu não ensinei isto a ele. Por isso está aqui, devolvendo.” A moça não agradeceu, não olhou na minha cara. O homem grande, agradeceu ao meu Pai, e lhe apertou a mão, que então lhe pediu que não punisse a funcionário pelo engano.

 

Demorou algum tempo para eu compreender perfeitamente aquilo tudo, e hoje devo meu caráter à forma como fui criado e educado por minha família. Com uma filha de sete anos, entendo de forma tão clara qual o legado desta, e de várias outras situações, em que meu pai me passou ao longo da minha infância e adolescência.

 

Valores… Não cabem nos bolsos.

 

Luciano Ribeiro (e o pai dele) foram personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar outros capítulos da nossa cidade aqui na CBN: envie seu texto para milton@cbn.com.br. Ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Você vai lá, grava o depoimento e ainda ganha um DVD com suas memórias registradas. Se quiser outras histórias de São Paulo visite o meu blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: Itaquera, a capital do mundo

 

Por Daniel Sena Serafim
Ouvinte da rádio CBN

 

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Lembro-me como se fosse hoje, eu e minha família residíamos no bairro de Artur Alvim, em 1989 ainda criança por volta dos 7 anos caminhava de mãos dadas com minha mãe à beira da Av. Radial Leste próximo ao metrô Corinthians – Itaquera. Ela fanática por futebol, apontou para uma planície cheia de morros e mata irregular dizendo: “Olha filho, aqui um dia será construído o estádio do Corinthians, imagine como ficará grande e bonito”.
Ainda criança, tentava imaginar como seria este lugar, quando o estádio fosse construído, pequeno, porém com a imaginação fértil de uma criança imaginava um castelo, grande e bonito onde os jogos seriam realizados. Mas como a infância em uma periferia reserva particularidades adversas e estatísticas, logo tive que abandonar a imaginação e interagir com a realidade. Aos 13 anos já começaria a trabalhar e a estudar, mas o gosto pelo esporte e o afeto pelo local onde morava continuaram, como também uma espécie de lenda urbana, ouvida e reproduzida pelos populares que insistiam em dizer: “É lá em Itaquera, do lado do metrô que vai ser construído o estádio”.

 

A mídia especulava e alimentava este imaginário ao passar das décadas, eu continuava a me lembrar do que minha mãe havia dito a mim quando criança. Entre tantos encontros e desencontros da realidade de uma periferia, um belo dia, leio no jornal sobre a candidatura do Brasil para sede da Copa do Mundo de Futebol da FIFA de 2014 e a possibilidade da construção de um estádio em Itaquera para o Sport Clube Corinthians Paulista, sendo o palco do jogo de abertura da Copa do Mundo e me pergunto com um sorriso travado no canto na boca: “Será?”.

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Conte Sua História de SP: a seleção jogava e eu corria atrás do balão

 

Vagner Osmar Boneto
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Tudo acontecia na época de férias do Grupo Escolar. Eu nasci em Valinhos, interior, e até hoje estou por aqui. Porém durante as férias, e isso foi na década de 1960, eu passava férias da metade do ano na casa da minha tia Floripes, que morava no prédio “Treme Treme” ao lado do Mercadão, na rua Pagé e, também, na Paula Souza.

 

Minha tia tinha um filho, Álvaro, mas ele não gostava de andar a pé, e isso era o que eu mais fazia nas férias em São Paulo. Com idade entre oito e 12 anos cheguei a passar horas andando pelo Parque Dom Pedro sozinho e sem nenhuma preocupação. O transito para quem morava no interior era fantasticamente “pesado”. Eu andava muito pela cidade sem ao menos ter ideia onde estava, mas fazia isso sempre marcando pontos de referência para poder voltar. Me perdi várias vezes, mas bastava perguntar: onde fica o Mercadão? E já me davam todas as direções.

 

Me lembro em 1962, a seleção jogava naquele dia e eu estava pelo parque Dom Pedro seguido um balão verde e branco formato Santos Dumont que estava caindo. Me parecia logo ali e não havia ninguém por perto. Corri desesperado achando que iria pegar o balão, mas de repente o balão se escondeu por trás de um prédio e desapareceu. Hoje eu sei que a noção de distância dentro de uma cidade grande faz muita diferença.

 

Dentro do Mercadão eu passava um bom tempo, era conhecido por alguns vendedores, pois meu pai transportava figo de Valinhos direto para a Mercadão. O cheiro característico ainda está na minha memória e quando ainda hoje passo por lá, vem à tona toda uma doce lembrança.

 

Na rua Pagé, minha tia morava no décimo andar do edifício, se não me engano no número 106, e, às vezes, eu ficava só no apartamento e, claro, na janela observando todo o charme da cidade. Por vezes fazia avião de papel e jogava lá de cima. Um dia descobri uma coleção de gibis do
meu primo e comecei a fazer um avião atrás do outro e soltar para ver qual iria mais longe. Depois de algum tempo quando olhei lá embaixo a rua com muitos papéis me assustei, fechei as janelas e passei o resto da tarde com muito medo. Achava que alguém viria reclamar para minha
tia e ela não me deixaria passar mais as férias ali. Ainda bem que nada aconteceu de ruim.

 

Quando minha tia morava perto da gravadora RCA Victor, na Paula Souza, cheguei a ver os membros do conjunto The Fivers subindo a rua correndo. Nossa! Como fã da Jovem Guarda me senti super feliz. No interior ver um artista de perto nunca aconteceria. Foi um momento do qual eu fazia parte e muito gratificante. Boas lembranças sem dúvidas.

 


Vagner Osmar Boneto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Quem sabe você conta a sua história aqui na CBN. Escreva para milton@cbn.com.br. Pode, também, registrar tudo isso no Museu da Pessoa, em áudio e vídeo. Marque pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net e depois você ainda ganha um DVD com tudo gravado.

Conte Sua História de SP: o nosso apartamento da Cohab

 

Por Maria Claudia Oliveira Paiva
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Meus pais se conheceram em Minas Gerais. Se conheceram em um conservatório de música (sim, a arte os uniu), decidiram se amar e vieram tentar a vida em São Paulo. Morei primeiro em Higienópolis, por pouco tempo, era muito pequenininha, e em seguida fomos morar no bairro Alto da Mooca, zona leste. Tenho lembranças maravilhosas desse tempo. Apesar das dificuldades, da vida simples, naquela época eu e meu irmão brincávamos muito na rua, andávamos muito de bicicleta na pracinha que tinha próximo de casa. Meu pai era taxista e minha mãe, costureira.

 

Cresci ouvindo clássicos da música erudita por influência do meu pai. Foi por causa dele, também, que conheci o grande compositor e violonista Dilermando Reis, bem como o compositor e mestre do cavaquinho Waldir Azevedo.

 

Em um dia triste do mês de fevereiro, numa dessas fortes chuvas de verão, a parede da cozinha de nossa casa veio abaixo. Me lembro que estávamos todos juntos, minha mãe costurando, meu pai ouvindo música, eu e meu irmão brincando na mesa. Nos hospedamos de forma provisória na casa da dona do imóvel, que morava na frente, mas em pouco tempo nosso apartamento da Cohab foi liberado, e fomos morar em Itaquera, também na zona leste.

 

Lá vivi dos 7 aos 25 anos, no Conjunto Habitacional José Bonifácio. Foi a época mais marcante da minha vida, pois ali passei da infância para a adolescência, e desta para a idade adulta. Em nosso prédio aconteciam muitas festas para as crianças: dia das mães, dia dos pais, festa junina, Natal, ano novo. Um dos moradores tinha uma das paredes de seu apartamento tomada por caixas de som. Seu apelido era Deca. Nós ficávamos ansiosos esperando: “hoje o Deca vai descer o som!”. E a festa rolava até tarde. Os vizinhos não reclamavam, pois era um ambiente muito familiar.

 

Primeira surra (sim, apanhei em pleno ano novo por ter passado a noite inteira passeando pela Cohab com um namoradinho), primeiro namorado, primeiro emprego, faculdade. Minha formação aconteceu ali e até hoje guardo essas boas lembranças, inclusive das várias amizades que fiz.

 

Mas minha paixão mesmo é pelo centro de São Paulo. Quando comecei a trabalhar no Banco Real, primeiramente na Rua Benjamin Constant, do lado da Praça da Sé, e depois na Rua Boa Vista, eu fui apresentada a esse lugar delicioso. Me lembro que os happy hours de sexta-feira eram sagrados. Eu e minhas amigas explorávamos cada canto, cada bar, cada boteco, em busca de uma boa conversa, uma cerveja gelada e uma boa paquera.

 

Hoje, continuo explorando esse lugar, mas com um olhar diferente. Hoje eu observo mais as pessoas, seus estilos, a arquitetura dos edifícios e das casas, a arte e a manifestação cultural nas ruas….. Tanta coisa boa que muita gente deixa de conhecer, pois preferem ficar fechadas dentro de um shopping center.

 

Irei comemorar mais um aniversário de São Paulo, mas desta vez será especial. Conheci pela internet uma moça que mora em Governador Valadares/MG. Tenho parentes lá e me lembro de ter ido conhecê-los quando eu era muito pequenininha. Essa moça, chamada Dayse, me ajudou a encontrar meus parentes que havíamos perdido contato há mais de 3 anos. Ela virá conhecer São Paulo e ficará alguns dias hospedada na minha casa. Irei mostrar a ela um pouco da cultura, da beleza e das mazelas dessa nossa cidade, inclusive irei levá-la para conhecer um lugar que sempre me leva às lágrimas quando vou: a Sala São Paulo.

 


Maria Claudia Oliveira de Paiva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte a sua história aqui na CBN, escreva para milton@cbn.com.br. Melhor ainda, grave em áudio e vídeo lá no Museu da Pessoa. E só agendar pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net e já sai de lá com um DVD em mãos.

Conte Sua História de SP: poema da cidade

 


Por Dryca Lys
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Eu nasci e cresci nesta cidade maravilhosa chamada São Paulo. E com seus mistérios e sua fantástica frieza aconchegante. São Paulo é uma experiência de vida, é uma chance única de encontrar vários países em um único lugar.

 

Você pode conhecer a cultura alemã, entrar em contato com a cultura indígena, se sentir no Japão, conhecer a cultura coreana, judaica entre várias e várias culturas sem sair de São Paulo. Graças a magia que existe aqui, você pode se inspirar e difundir arte. Para o aniversário da minha São Paulo, envio este poema. É o que sinto e o que vejo nesta metrópole que chamo de lar

 


Este poema é parte integrante do livro Clube de Autores

 

São Paulo

 

Existem lugares que te fazem sonhar
outros fazem você se sentir mal
mas existe um lugar que te enfeitiça
um lugar que acende seus desejos, atiça
sua vontade de estar ali presente
um lugar único que te faz voar…

 

Mesmo caminhando nos becos escuros
as ruas brilhando como diamante
a música se espalhando e de repente
as estrelas caem e você anda pela poeira sideral
todos os cantos desse lugar parecem seguros
nem sempre… Mas um tapete brilhante

 

se estende aos seus pés, você chora
sozinho, canta em meio a multidão
nos dias de chuva, a brisa aquece
seus anseios, a noite vem, incandesce
seus desejos, a noite se esconde, vai embora
nos dias de sol você vê a sua solidão…

 

Você pode estar em vários lugares, sem sair
de dentro dela, mas não há nada
melhor do que estar lá, faça
o que for, corra, vá e volte, você pode ir
mas ela esta dentro de você, a saudade
te queimará inteiro, você sempre volta para esta cidade.

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às dez e meia da manhã, no programa CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participar deste quadro enviando seu texto para milton@cbn.com.br ou agendando entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@cbn.com.br.