Avalanche Tricolor: casca dura, esperança viva

Mirassol 1×1 Grêmio
Copa do Brasil – Maião, Mirassol (SP)

Gremio x Mirassol

Amuzu comemora com equipe o gol de empate. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O hino do Grêmio soou na caixa de som instalada na Praça Miguel Torda, no Jardim Londrina, na zona oeste de São Paulo. Foi um carinho da associação de moradores, que havia me convidado, ao lado de minha esposa, para participar de uma cerimônia cujo objetivo era inspirar as pessoas a plantarem árvores. Plantamos um ipê-rosa, árvore nativa do Brasil que se adapta bem ao clima tropical. Ipê vem do tupi-guarani e significa “casca dura”, enquanto sua versão em rosa nos remete à ideia de renovação.

No ato de encobrir as raízes do ipê com terra adubada e bem preparada para fortalecê-lo e torná-lo resistente às intempéries da natureza, ouvi algumas vozes que alertavam para o momento de dificuldade que o Grêmio atravessa. Eram amigos, ouvintes e vizinhos comentando os maus resultados do Tricolor. Preferi não contrapô-los. Não havia por quê. Estou consciente do momento difícil que estamos vivendo. O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche é testemunha do que penso sobre os problemas atuais.

Apesar da lucidez em relação ao momento que vivemos, sou casca dura como o ipê que plantei. Resisto ao desalento, por mais que ele tenha tomado conta de mim. Estou sempre à procura de um sinal de que algo pode mudar nosso destino. Agarro-me à esperança de que aquilo que nunca foi um dia venha a ser. De forma concreta: o time sem organização se entenderá; a movimentação desajeitada dos jogadores encontrará seu rumo; os passes imprecisos serão trabalhados com esmero; e os chutes fortuitos passarão a ter direção.

Um dia depois de plantar a árvore na praça da vizinhança e comemorar mais um ano de vida — já se foram 63 —, lá estava eu prestes a acreditar que seríamos capazes de superar um adversário para o qual havíamos perdido todos os jogos disputados nesta curta história de confrontos, iniciada em 2022. Imaginei a possibilidade de surpreendermos no interior paulista e vencermos a primeira partida das oitavas de final da Copa do Brasil. Quem sabe ganhar um respiro para que Luís Castro fizesse os arranjos necessários contando com os novos reforços — e a pressão sobre ele e o time arrefecesse.

Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno. Conseguimos um inédito empate contra o Mirassol, ainda mais valorizado pelo fato de termos saído atrás no placar. Tomamos o gol logo depois de chegarmos ao ataque adversário, desperdiçarmos a oportunidade e sermos incapazes de recompor a defesa a tempo de evitar o revés. Não fizemos nada muito especial para empatar. Resistimos na defesa o quanto foi possível, pressionamos minimamente à frente e, em uma roubada de bola, entramos na área adversária e concluímos nas redes, após cruzamento de Tetê e finalização de Amuzu.

Considerados os últimos desastres, ficou de bom tamanho. Levamos a decisão para a Arena, na quarta-feira, e temos chances de passar às quartas de final da Copa do Brasil. Luís Castro ganha sobrevida e terá mais uma oportunidade para ajustar o time e encontrar a escalação ideal diante do elenco que tem à disposição.

Quero crer que, assim como o ipê-rosa sinaliza um período de renovação, o resultado deste domingo tenha o mesmo significado para o Grêmio nesta temporada.

Por via das dúvidas, amanhã vou passar na praça para regar a minha árvore.

Avalanche Tricolor: boa notícia

Confiança 0x3 Grêmio
Copa do Brasil — Batistão, Aracaju/SE

Gremio x Confianca
Braithwaite marcou duas vezes Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Foram necessários poucos minutos e uma boa jogada de ataque para o Grêmio confirmar sua classificação à próxima fase da Copa do Brasil. Em lance que surgiu de um cruzamento de Enamorado pela direita, Gabriel Mec apareceu dentro da área para receber e bater forte para o gol. A defesa parcial do goleiro fez com que a bola encontrasse Amuzu pela esquerda. Nosso atacante driblou para dentro e provocou o pênalti. Braithwaite bateu forte, no meio do gol, e converteu.


Com 13 minutos de jogo o Grêmio ampliou a vantagem que havia sido construída na primeira partida na Arena. Depois do gol até houve uma tentativa de reação do adversário, mas havia pouca qualidade técnica para gerar algum perigo. 

O Grêmio ficou confortável em campo e sequer precisou pressionar mais para chegar aos outros dois gols. No segundo tempo, Braithwaite concluiu de cabeça o cruzamento de William, fazendo 2 a 0. Mais tarde, o próprio William completou o placar ao converter o pênalti sofrido por ele.

Nossa atuação, talvez também influenciada pela facilidade com que se chegou à vitória, foi protocolar. Nada que nos ofereça mais confiança para a sequência da temporada. No fim de semana, já estaremos novamente diante da obrigação de conquistar três pontos fora de casa para tentar nos livrar da incômoda posição em que estamos no Campeonato Brasileiro.

Porém, considerando as trapalhadas e os sofrimentos enfrentados na edição passada da Copa do Brasil, a vitória por cinco a zero no placar agregado, nesta fase da competição, foi uma boa notícia. Assim como ver Braithwaite se reencontrando com os gols depois de longo período de lesão.

Avalanche Tricolor: em busca de confiança

Grêmio 2×0 Confiança-SE
Copa do Brasil – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Copa do Brasil - Grêmio x Confiança-SE - 21/04/2026
Carlos Vinícius, Braithwaite e Amuzu comemoram vitória Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Vencer era obrigação. Levar uma vantagem maior para o segundo jogo seria o ideal. O placar desta noite ficou no meio do caminho. Dentro do tolerável para um time que busca ajustes e precisava aliviar a tensão provocada pelo desempenho irregular no Campeonato Brasileiro e na Copa Sul-Americana.

A presença de Gabriel Mec como meia mais avançado e livre para criar era um pedido do torcedor desde o bom desempenho dele no clássico Gre-Nal. Luis Castro tem preferido atuar com meias que voltam mais na marcação, mas percebeu que, na partida de hoje, não haveria essa necessidade. O jovem de apenas 18 anos arriscou jogadas de categoria, tentou o drible e acabou provocando a expulsão do adversário ainda no primeiro tempo.

Enamorado e Amuzu seguem sendo as melhores opções pelos lados do campo. Ambos têm o cacoete do drible, o que sempre pode ser uma alternativa, sobretudo diante de um time que joga muito fechado, como o adversário desta noite.

Dos dois, o belga, pela ponta esquerda, costuma ser o mais ofensivo quando acerta o corte para dentro, se aproxima da área e arrisca o chute. Foi assim que chegou a mais um gol e se mantém isolado como vice-artilheiro do Grêmio na temporada.

A vitória começou pelos pés de Carlos Vinícius, que precisou apenas escorar a bola chutada por Braithwaite. O goleador gremista está sempre bem posicionado e prestes a marcar. Nas partidas anteriores, não encontrou companheiros que lhe servissem em condição de gol. Hoje, porém, contou com a parceria do dinamarquês, que vem retornando aos poucos ao time, depois de seis meses lesionado.

A presença de Braithwaite jogando sem precisar ficar fixo dentro da área — função de Carlos Vinícius — foi opção de Luis Castro para o segundo tempo. E funcionou. Deu mais agilidade às jogadas de frente. Talvez valha pensar na possibilidade de usar essa formação ofensiva, nem que seja apenas em parte do jogo. Para isso, é preciso reorganizar o meio de campo, que tem Arthur como titular absoluto e ainda busca os companheiros ideais. Noriega e Nardoni não têm conseguido aparecer com o destaque desejado.

Era desejável um placar mais elástico, principalmente em função da expulsão do adversário. Ao Grêmio, porém, não cabe, neste momento, querer mais do que vitórias. É preciso ganhar jogo após jogo, retomar esse caminho enquanto Luis Castro busca o time ideal para dar consistência aos desempenhos que ainda oscilam.

Hoje, o Grêmio ganhou do Confiança. Agora precisa reconquistar a confiança.

Avalanche Tricolor: nem a Imortalidade salva!

Grêmio 0x0 CSA

Copa do Brasil – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

É difícil até escolher por onde começar diante de um fracasso tão retumbante. Cair na Copa do Brasil na terceira fase não foi a primeira vez, mas é raro. Agora, ser eliminado sem vencer nenhum dos adversários é algo para não esquecer tão cedo. E todos os três times que enfrentamos eram, no máximo, da Série C.

Faço um mea culpa: me deixei levar pelo entusiasmo quando conquistamos as vagas nas duas primeiras fases com gols heróicos, marcados nos últimos minutos ou nos acréscimos, e, em seguida, superando os adversários nos pênaltis. Me iludi com a ideia de que aquelas classificações expressavam a Imortalidade que nos consagrou. Errei. Não eram sinais da nossa resiliência, mas da nossa fragilidade.

A derrota para um time da Série C, em casa, depois de termos sofrido a virada no jogo de ida, escancara mais um episódio da temporada deprimente. No Campeonato Gaúcho, desperdiçamos o Octa. No Brasileiro, estamos na 17a. posição da tabela, naquela zona que você sabe qual é. Na Sul-Americana, mesmo enfrentando equipes de pouca expressão em seus países, só conseguiremos avançar disputando os play-offs — uma espécie de repescagem.

Em campo, os ajustes recentes no posicionamento dos jogadores deram alguma esperança de que alcançaríamos maior consistência defensiva, mas seguimos sofrendo gols desnecessários. Falta criatividade no meio-campo, e os atacantes seguem à míngua, esperando por uma chance que quase nunca chega.

Como se não bastasse toda essa fragilidade, ainda somos obrigados a assistir aos descalabros cometidos pela arbitragem. Ontem, mais uma vez, fomos claramente prejudicados com a anulação do gol que nos daria a chance de decidir nos pênaltis. Nos foi roubado até o direito a mais uma classificação no estilo “me engana que eu gosto”.

Já disse — e escrevi — que me recuso a decretar a falência da esperança, mas está cada vez mais difícil preservá-la. Que venha logo a parada para o Mundial de Clubes, e que Mano Menezes tenha tempo para colocar a cabeça dos jogadores no lugar. A cabeça — e o pé, é claro.

Avalanche Tricolor: o desafio de Mano e Felipão

CSA 3×2 Grêmio
Copa do Brasil – Rei Pelé, Maceió (AL)

Foto: Lucas Uebel / Grêmio FBPA

Mano Menezes e Luiz Felipe Scolari terão muito trabalho pela frente. A tarefa da dupla de velhos conhecidos do torcedor gremista vai além do posicionamento tático em campo. A impressão é que os jogadores perderam completamente a autoestima — e isso impacta de forma contundente a confiança nas decisões tomadas durante as partidas.

Na noite de hoje, mesmo considerando que jogamos fora de casa e diante de uma torcida ensandecida, é impossível ignorar que enfrentamos um time da Série C. Nas fases anteriores da Copa do Brasil, nossas classificações também foram sofridas contra adversários distantes da elite do futebol brasileiro.

É preciso reconhecer que vivemos um novo momento. Mano chegou há pouco mais de uma semana. Felipão desembarcou de madrugada em Maceió para iniciar seu trabalho na coordenação técnica. O elenco mal teve tempo para treinar e assimilar as ideias do treinador. O ajuste acontece durante os jogos.

Com boa vontade, é possível identificar mudanças de comportamento e posicionamento em campo, em comparação ao que víamos sob o comando de Quinteros. Ainda assim, seguem evidentes — e fatais — as falhas de marcação e a dificuldade de afastar a bola da nossa área. A todo momento, o adversário ameaça nosso gol. E, de tanto insistir, acaba sendo recompensado. Desta vez, nem o empate conseguimos manter, mesmo após termos virado o placar.

Alguns jogadores parecem receosos ao receber a bola. Têm medo de arriscar jogadas mais ousadas e hesitam na escolha dos passes que podem levar ao ataque. Quando pressionados, sofrem para afastar o perigo e cometem faltas desnecessárias, como se esse fosse o único recurso para frear o adversário.

Resgatar a confiança do elenco e dar um mínimo de organização tática ao time são os grandes desafios de Mano e Felipão. Resta-nos, mais uma vez, acreditar que a história e a experiência de ambos sejam suficientes para superar as limitações que o Grêmio tem apresentado nesta temporada.

Avalanche Tricolor: de sofrência em sofrência, lá se vão as férias

Athletic-MG 3 (7) x (8) 3 Grêmio
Copa do Brasil – São João del-Rei (MG)

Gandro defende a última cobrança. FOTO: LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA

Torcer para o Grêmio é não viver um dia de sossego. Nem nas férias. A semana de descanso, aqui pelo litoral de Alagoas, tem sido uma sofrência só — considerando que nossa conversa nesta Avalanche é sobre futebol, claro. Depois do sábado em que vimos o caminho para o octacampeonato ficar mais distante, fomos a São João del-Rei, a 1.600 quilômetros de Porto Alegre, e por pouco não nos despedimos precocemente de nossas viagens na Copa do Brasil.

O jogo desta noite, que assisti na tela do computador, aproveitando a luz de uma lua cheia que brilhava no céu alagoano, foi completamente maluco. Tomamos um gol muito cedo, em um lance que tem se tornado rotineiro na vida do gremista. O empate veio no cabeceio de Braithwaite, que já havia sinalizado problemas físicos e aguardava a substituição. A virada surgiu de um improvável lance de gol, no qual a falha do goleiro adversário foi de dar dó. Quando imaginávamos coisa melhor, tivemos mais um jogador expulso ainda no primeiro tempo. Desta vez, o autor da atabalhoada foi Luan Cândido.

A volta do intervalo nos reservaria mais uma dose de sofrimento. Sob forte pressão, cedemos o empate muito cedo, quase sofremos a virada e passamos o restante da partida tentando manter a bola o mais distante possível do nosso gol. Foi numa dessas tentativas que Arezo soube aproveitar a escapada entre os zagueiros, encobriu o goleiro e concluiu para as redes, nos dando uma improvável (e parcial) vitória. Quando os locutores (e nós, torcedores) já se empolgavam com narrativas e hipérboles sobre a imortalidade tricolor, fomos surpreendidos com um gol contra de João Lucas, que levou a decisão da vaga para os pênaltis.

É verdade que, nesta temporada, já havíamos conquistado duas classificações — no Gauchão e na Copa do Brasil — vencendo nos pênaltis. O drama é que Thiago Volpi, o goleiro que nos proporcionou essas vitórias, defendendo cobranças adversárias e marcando seus gols, estava assistindo a tudo do banco. Caberia a Gabriel Gandro repetir o feito. Foram necessárias oito cobranças de cada lado até que, finalmente, ele se destacasse com a defesa final que nos levou à terceira fase da Copa do Brasil.

A melhor notícia da noite — além da classificação, lógico — foi que o Grêmio finalmente voltou a ter bons cobradores de pênaltis. Quem sabe não nos serão úteis no sábado, quando precisaremos, mais uma vez, que o mito da Imortalidade se expresse. Sim, porque antes de minhas férias se encerrarem vem mais sofrência por aí.

Avalanche Tricolor: no limite do desespero

São Raimundo 1 (1) x (4) 1 Grêmio
Copa do Brasil – Canarinho, Boa Vista, RR

Volpi, o protagonista. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A partida era contra o vice-campeão estadual de Roraima. O estádio acanhado, de gramado irregular, tinha espaço para cerca de 5 mil torcedores — lembrava mais um campo de várzea do que um palco para um gigante do futebol brasileiro. Em campo, o desequilíbrio era evidente no papel: qualquer jogador gremista que pisou no gramado ganha, ao fim de um ano, mais do que toda a folha salarial do adversário. Mas isso não bastou para dar ao Grêmio superioridade enquanto a bola rolava.

O time produziu pouco no ataque, sofreu com a falta de entrosamento e saiu atrás no placar, castigado por um contra-ataque no segundo tempo. Por muito pouco, não voltou para Porto Alegre com um vexame na bagagem, após cruzar quase 10 mil quilômetros de distância. Uma eliminação precoce na primeira rodada da Copa do Brasil seria um golpe duro para a autoestima do torcedor e para as expectativas na temporada de 2025.

Foi só nos acréscimos, aos 47 do segundo tempo, já com um jogador a menos depois da expulsão de Edmilson, que o Grêmio conseguiu acertar o gol. E a bola entrou. Cristian Oliveira, o uruguaio recém-chegado, matou no peito após a sobra de um escanteio, bateu firme e colocou no ângulo, sem chances para o goleiro. Mesmo considerando as diferenças técnicas, financeiras e estruturais entre os dois times, arrisco dizer que a mística da imortalidade se insinuava ali.

Mas a classificação ainda exigiria mais um teste para os nervos. O novo regulamento da Copa do Brasil determina que, nas fases iniciais, um empate leva a decisão para os pênaltis. Foi quando, enfim, a superioridade gremista apareceu.

Braithwaite, Jemerson e Arezo converteram com segurança. O São Raimundo desperdiçou a primeira cobrança chutando para fora. Depois, Thiago Volpi brilhou: defendeu a terceira batida e assumiu a responsabilidade na última cobrança. Bateu com categoria, definiu a classificação e evitou um fiasco.

Diante do que se desenhava ao longo da partida, a se comemorar o fato de o Grêmio não ter desistido em nenhum momento. Teve jogadores com frieza para converter os pênaltis e um goleiro que não apenas defendeu, mas decidiu. Foi mais sofrido do que deveria, mas o alívio final lembrou que, no futebol, por vezes, a glória nasce no limite do desespero. “É a Copa do Brasil”, disse Volpi com um sorriso no rosto.

Avalanche Tricolor: uma ‘dushi’ vitória na Copa do Brasil

Grêmio 3×1 Operário PR

Copa do Brasil – Centenário, Caxias do Sul-RS

O azul do mar em Curaçao para lembrar do Grêmio Foto: Mílton Jung

Às vezes, parece português. Em outras, espanhol. Se o ouvido for sensível perceberá a leve sonoridade francesa e a forte influência holandesa. Essa mistura de sotaques e origens forma a língua local de Curaçao, onde passo parte de minhas férias. O papiamento é o idioma oficial e resultado desse caldeirão cultural que se transformou a ilha autônoma que faz parte do Reino dos Países Baixos. Dizem os estudiosos que o “papear” se iniciou nas conversas dos escravizados que foram forçados a passar por aqui. 

Foi em meio a um papo e outro que acompanhei a vitória do Grêmio, na Copa do Brasil. Infelizmente, meu calendário de férias não estava sintonizado com o da CBF que trouxe esse jogo atrasado da competição para a manhã de um domingo. Assim, o azul que me havia sido reservado era o do mar do Caribe que é estonteante. No caso, os vários azuis, porque se expressam em uma variedade de tonalidades, conforme a profundidade, a região e a luz do sol. Quando todos esses fatores jogam em conjunto, o resultado é incrível.

Do azul que nos cabe nesta Avalanche, o do Grêmio, soube pela descrição e pelos comentários que, mesmo diante do susto do empate, ainda no primeiro tempo, e alguns lances arriscados, dominou a partida e impôs sua autoridade. Fiquei com a impressão de que, além de nos classificar à próxima etapa da Copa do Brasil, o jogo serviu para desanuviar o ambiente ruim gerado pelos maus resultados do Campeonato Brasileiro. Ao menos é o que espero.

Os gols de Pavón e Galdino foram importantes para melhorar a imagem dos dois atacantes diante da torcida. Enquanto o de Gustavo Nunes, para reafirmar a relevância do jovem que tem se transformado no principal jogador do Grêmio na temporada. A partida valeu, também, para conter a pressão sobre Soteldo, criticado pelo atraso no retorno da Copa América. O venezuelano deu assistência e ajudou bastante nas jogadas ofensivas.

’Dushi’ foi a palavra que encontrei no dicionário do papiamento que melhor define o resultado desta disputa de vaga às oitavas de final. Não tem uma tradução muito clara. Pode ser sobre algo bom ou doce. É usada em diversas situações sempre com caráter positivo. Haja vista que o apelido de Curaçao é Dushi Korsou. E o que poderia ser mais positivo para nós tricolores do que uma vitória nesta altura do campeonato (no caso, da Copa do Brasil).

Avalanche Tricolor: vaga adiada para a Arena

Operário-PR 0x0 Grêmio

Copa do Brasil – Germano Krüger, Ponta Grossa/PR

Galdino tenta mais um ataque em foto de Dido/GrêmioFBPA

Em jogo de futebol escasso, as palavras escasseiam, também. Pouco se tem a dizer de uma partida em que o placar ficou em zero a zero. E a perfomance foi apenas a suficiente para deixar a decisão da vaga para a  Arena, em 22 de maio. 

Nesta estreia de Copa do Brasil, que tanto gostamos, assistimos a raros rompantes de futebol. Um tentativa aqui, outra acolá. De gol desperdiçado quase nada a lamentar. Talvez naquele ataque ao fim do primeiro tempo em que Diego Costa serviu Cristaldo dentro da área. De resto, pouca inspiração.

A boa da noite foi ver o esforço de Galdino pela direita. Mesmo que contestado, jogou acima do esperado. Já havia demonstrado sua utilidade no esquema gremista na vitória pela Libertadores. Hoje, foi além. Aproveitou o espaço que tinha, fez boas jogadas, driblou e tentou tabelar com seus companheiros. 

Os torcedores gostaríamos de sair de Ponta Grossa com a vitória tranquilizadora, sem dúvida. Especialmente aqueles que tiveram de pagar R$ 350,00 para assistir ao jogo no estádio. Mas a impressão que ficou é que havia um contentamento do time em fazer um jogo seguro e ciente de que a decisão da vaga à próxima fase da Copa será mesmo diante da torcida, na Arena.

Avalanche Tricolor: a culpa é do Grêmio

Flamengo 1×0 Grêmio

Copa do Brasil – Maracanã, RJ/RJ

Suárez em destaque na foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O ano era para ser mediano. No Brasileiro, estar no meio da tabela, no máximo na primeira página como costumamos nos referir aos que aparecem entre os dez primeiros classificados, seria suficiente. Na Copa do Brasil, cada etapa vencida seria bem-vinda — no mínimo, um pouco mais de dinheiro para pagar as contas. 

Foi então que o Grêmio decidiu trazer Luis Suárez — o terceiro maior goleador do mundo em atividade. O cara fez três na primeira partida. E a cada jogo revelava uma qualidade técnica para a qual não estávamos preparados — e entre nós muitos dos nossos jogadores. Seguiu marcando gols, dando assistência para os seus companheiros, e proporcionando jogadas de uma inteligência acima do normal. Sua camisa 9 virou orgulho imortal!

Bastaria Suárez para o ano já ser considerado acima da média. Mas teimamos em vencer o Campeonato Gaúcho — o que, convenhamos, “virou goleada”. Novos jogadores se juntaram ao grupo. Os “abominados” foram embora a conta gotas, sem muito trauma. O elenco ganhou qualidade apesar de restrito. Nem mesmo uma sequência de lesões que nos tirou alguns dos melhores, impediu que o time encontrasse soluções para superar seus adversários.

Na Copa do Brasil, vencemos jogos nos minutos finais. Viramos resultados fora de casa. Tiramos da cartola gols que nos permitiram ir para o tira-teima dos pênaltis. E chegamos à semifinal, a despeito dos prognósticos.

Em paralelo, os favoritos marcavam passo e nós, passo a passo, nos aproximamos do G4 do Campeonato Brasileiro. Entramos no seleto grupo da elite do Brasileiro e por lá ficamos. Mesmo com um jogo a menos do que os principais adversários, estamos agora em terceiro e disputando a vice-liderança. 

Nem sempre o jogo foi bonito. Nem sempre jogamos bem. Nem sempre havia espetáculo. Às vezes, uma derrota ou um empate azedo tentavam nos empurrar a crueza da realidade, como se questionando nossa condição no campeonato. Os demais resultados mesmo assim teimavam em nos iludir. Nos fazer acreditar. 

A partida dessa noite de quarta foi a síntese da temporada até aqui. 

A postura do nosso time no lotado Maracanã e contra uma equipe milionária e protegida deu a entender que havia chances de uma virada histórica. Suárez e seus companheiros estavam mais próximos e mais intensos do que no primeiro jogo da semifinal. Chegou-se à frente do gol. Reduziu-se parte dos riscos do ataque adversário. E quando não se tinha sucesso na marcação, Grando foi grande novamente com defesas importantes. 

O Grêmio nos fazia acreditar mais uma vez. Até que a bola bateu na mão de nosso zagueiro e o árbitro entendeu que era pênalti —- apesar de termos tido lances semelhantes a nosso favor, nesta mesma Copa do Brasil, e o VAR e o juiz terem interpretado de forma contrária. Contrária ao Grêmio. 

Era a realidade se impondo. Não bastava jogar acima do esperado, não bastava superar seus próprios limites. Precisava ser maior do que tudo e de todos. Não conseguimos. Sentimo-nos frustrados. E a culpa deste sentimento é, única e exclusivamente, do Grêmio. Porque o Grêmio sempre nos faz acreditar. Sempre tenta ser mais. Sempre está no jogo. 

Independentemente do que a realidade queira escancarar para nós, Grêmio, eu sempre acreditarei!