Avalanche Tricolor: Diego Souza, o goleador

Grêmio 2×0 Cuiabá

Copa do Brasil —- Arena Grêmio

Diego Souza a caminho do gol em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O Grêmio engatou oito vitórias seguidas, dez jogos invictos, subiu na tabela do Campeonato Brasileiro e hoje se credenciou a disputar a semifinal da Copa do Brasil, mais uma vez. O melhor momento da equipe nesta temporada — na qual já foi Campeão Gaúcho e conquistou vaga às oitavas-de-final da Libertadores mesmo com um futebol irregular — passa por uma série de personagens, a começar por Renato (sim, aquele que você, torcedor ingrato, pediu a demissão), que soube como poucos ter tranquilidade para administrar toda e qualquer crise que entrou no vestiário. Jean Pyerre, renascido e talentoso, e Pepê, enlouquecido e enlouquecendo, são outros dois nomes que se destacam.

Quero, porém, hoje, dedicar esta Avalanche a um cara que muitos davam como abatido e ultrapassado: Diego Souza, o goleador. Com 35 anos, houve que não acreditasse quando o nome dele foi anunciado como novo reforço para 2020. Aproveitou bem o Campeonato Gaúcho para provar que tê-lo de volta ao time valeria a pena. Foi o artilheiro da competição com nove gols —- tendo feito o gol do título e, antes, o da vitória no clássico Gre-nal, no primeiro turno. Na Libertadores fez um e facilitou a vida de seus colegas nos demais. No Brasileiro está com cinco gols. 

Desde a retomada dos jogos, com a liberação do futebol sem torcida, Diego parecia isolado dentro da área, onde a bola raramente chegava. Esboçava alguns movimentos, mas o resultado não aparecia. Amargou uma série de partidas sem marcar, apesar de ter servido de garçom especialmente para Pepê. Os ombros caídos e os braços jogados ao longo do corpo sinalizavam o desconforto dele com sua produtividade e também com a maneira do time jogar.

Com a chegada de Churín, o Diego Gringo, houve quem apostasse que Diego, o Souza, perderia a posição de titular. Não demorou muito para ele voltar a marcar e em partidas decisivas —- como nos dois jogos destas quartas-de-final em que fez três dos quatro gols do Grêmio. Dois deles hoje: de cabeça, logo no início, e, em seguida, com os pés e com a tranquilidade do matador diante do goleiro. Diego está agora com 18 gols neste ano. 

Acreditar que foi o surgimento de um concorrente para a posição que o fez mudar de postura dentro de campo é precipitado e injusto com o time e com Diego Souza. Ele voltou a marcar não porque Churín está no banco, mas porque o time todo evoluiu após sequência de partidas com vitórias e empates sem convicção. Renato foi capaz de dar segurança a seus jogadores, teve paciência para remodelar uma equipe que sofreu perdas na temporada, seja devido a venda, a lesões ou a Covid19. O time voltou a confiar na troca de passe, com a aproximação dos jogadores, movimentação intensa, dribles e velocidade. E assim a bola voltou aos pés — e à cabeça — de Diego. E quando chega nele encontra experiência, talento e precisão; a possibilidade de parar no fundo do poço é enorme.

Avalanche Tricolor: na monarquia do futebol, o passe é o imperador e Renato …

Cuiabá 1×2 Grêmio

Copa do Brasil — Arena Pantanal, Cuiabá/MT

Jean Pyerre a caminho do gol Foto Lucas Uebel/GrêmioFBPA

 

Renato é o Rei. O passe é o Imperador. E antes que alguém pense que o escrevinhador desta Avalanche aderiu à monarquia, assumo o compromisso de me ater as coisas do futebol, apesar deste jogo que tanto admiramos ser capaz de explicar o mundo —- ao menos foi o que o jornalista americano Franklin Foer me convenceu, em livro publicado em 2010.

Quanto a realeza de Renato, se alguém duvida faça uma visita à esplanada da Arena Grêmio, no bairro do Humaitá, em Porto Alegre, e veja de perto a estátua que erguemos para ele que foi o maior jogador da história gremista. E um dos técnicos mais importantes a comandar nossa equipe. Chegou a seis vitórias consecutivas neste início de noite, algo que não havia alcançado desde que reassumiu o comando gremista. Curiosamente, resultados positivos que surgem em uma temporada na qual nunca foi tão criticado nesta última jornada, iniciada em 2016, em que foi campeão da Libertadores, da Copa Brasil e várias vezes do Campeonato Gaúcho.

Por muitas vezes nesses últimos jogos, tanto a televisão quanto os indiscretos microfones ao lado do campo flagraram nosso técnico esbravejando com seus comandados, incomodado com bolas perdidas no ataque, movimentação precipitada, chutes desperdiçados, marcação folgada e permissão para o adversário nos atacar. Reclama de Ferreirinha, critica Lucas Silva, diz impropérios para Cortez, xinga quem passar pela sua frente e tenta acertar o posicionamento de seus jogadores. Ele sabe que para recuperar o futebol que nos fez campeão é preciso melhorar muito.

O Grêmio vive uma fase de transição — e já falei sobre isso em Avalanches anteriores. Sofreu com a lesão e a Covid-19 de jogadores importantes. Obrigou o técnico a mudar a forma do time jogar e abrir mão daquele futebol que encantou o Brasil. Independentemente de todos os percalços, foi campeão Gaúcho, terminou líder de sua chave de classificação na Libertadores, subiu na tabela do Brasileiro e hoje deu mais um passo importante rumo à semifinal da Copa do Brasil, mesmo fazendo seu primeiro jogo fora de casa. 

Soma-se às seis vitórias consecutivas uma série de nove jogos sem perder, mesmo com todas as dificuldades para montar o time em meio as contusões e as competições. E dos muitos méritos de Renato está a paciência em aguardar o momento certo para lançar jogadores no time titular. O maior exemplo — e aí me encaminho ao segundo tema desta Avalanche —- é Jean Pyerre que torcedores pediam em campo há algum tempo em meio a ataques ao técnico que preferia escalar um time sem articulador.

Nosso camisa 10 —- mesmo que não carregue o número às costas, ele é o 21 do time —- é um jogador especial, diferente no toque de bola, com movimentos elegantes em campo, que se diferencia dos demais pela forma como olha o jogo do alto e de cabeça em pé, enquanto dos seus pés surgem as melhores jogadas. Seu passe é preciso —- errou apenas um em todo o primeiro tempo, três em todo o jogo. Dos muitos passes certos —- este fundamento que diferencia os craques dos mortais —, colocou Cortez em condições de cruzar a bola que levou ao pênalti, que foi cobrado por ele com a precisão que tanto esperamos em uma cobrança desta importância.

Jean Pyerre tem futebol para ser titular, mas Renato não se ilude com isso. Sabia pelo que o meio de campo passava, pelas dificuldades com sua condição física e psicológica, impactadas pela doença do pai e o sofrimento da família. O jogador falou muito no intervalo da partida sobre essa condição especial e sensível que enfrentou. E está ciente de que precisa voltar aos poucos para ser o jogador que sonhamos que seja um dia —- um novo Rei da América. Ou o Imperador do Passe.

Avalanche Tricolor: pragmático, Grêmio segue superando etapas

Juventude 0x1 Grêmio

Copa do Brasil – Alfredo Jaconi, Caxias do Sul/RS

Festa do gol em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Um antes, outro agora. Um gol em cada partida.  Um bem no início (8min do 1º), outro lá no segundo tempo (24min do 2º). E foi o suficiente para estar nas quartas de final pela sexta vez na Copa do Brasil. Se há de se clamar por um futebol mais fluido, parecido com aquele que nos levou às taças nos últimos anos, sob o comando de Renato., não há do que reclamar quanto aos resultados alcançados. 

Na Libertadores nos classificamos em primeiro da chave; na Copa do Brasil avançamos com duas vitórias; e se colocar o Campeonato Brasileiro na conta, nos últimos sete jogos vencemos cinco e empatamos dois. Resultados que driblaram a carência no futebol apresentado e de jogadores no elenco. Que superaram lesões, vírus e críticas. Que trazem confiança a um time que está sendo reconstruído pelo técnico e passa por um período difícil de transição —- sob forte pressão de torcedores impacientes.

Pedido por muitos, Jean Pierre entrou no segundo tempo e ajudou a transformar o comportamento do time. A bola que o guri joga está sintonizada com a movimentação de nossos atacantes. Rola bonita quando passa pelos pés dele e sai precisa para os pés dos companheiros. “Eu não disse”, gritam os críticos querendo vê-lo entre os titulares, sem considerarem que o treinador tem o grupo sob seu controle, conhece o potencial técnico e físico de seus jogadores, e costuma soltar os craques na hora certa e pelo tempo que puder contar com eles. 

Nesta noite em Caxias, se lá atrás Geromel  e Kannemann cumpriam com maestria seu papel de reduzir ao máximo os riscos de um gol, no pouco que se fez lá na frente, quando se fez foi pelos pés de três dos jogadores questionados neste momento pelo torcedor: Cortez, Diego Souza e Thaciano. O lateral que muitos querem ver longe do Grêmio se aproximou da  linha de fundo, trocou passe com Diego que havia saído da área para buscar a bola e colocá-la na cabeça de Thaciano — e que toque de cabeça foi aquele, seguindo à risca o manual dos bons cabeceadores.

Ninguém pense que não vejo os limites que temos e as dificuldades que enfrentamos para ser o Grêmio que nos fez o maior das Américas, mas enquanto não superamos essa fase me satisfaço com o pragmatismo dos resultados. 

Avalanche Tricolor: vamos subir a Serra

Grêmio 1×0 Juventude

Copa do Brasil — Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Isaque comemora; foto: LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA

 

Jogo de um só lance —  foi o que pensei assim que a partida se encerrou. E o lance que lembrei foi aos oito minutos do primeiro tempo em uma jogada na qual Isaque conduziu a bola com velocidade, atraiu a marcação de três adversários, passou para Pepê que em dois toques deixou Isaque no caminho do gol. O gol da vitória.

Dali para frente, nos entusiasmamos com alguns dribles de Ferreirinha, daqueles que ficam bonitos no DVD (ainda fazem isso para vender jogador para o exterior?). Um com o calcanhar quase na linha de fundo. Outro em que passou no meio de dois marcadores dentro da área com dois tapas na bola. Teve mais algumas ameaças aqui e acolá. Mas lance de gol mesmo, nem a estatística da televisão mostrou.

Se o entusiasmo foi pouco lá na frente, os riscos cá atrás também. Nossa defesa teve méritos: Geromel, Kannemann e Lucas Silva abateram a maior parte das tentativas de ataque.

Vanderlei se resumiu a cortar alguns cruzamentos a partir do escanteio; e no mais assistiu à partida. No único lance em que teve de se esforçar mais foi vencido pela bola, e o goleador adversário fez o impossível que era jogar para fora. 

Não é nada, não é nada, não é nada mesmo. Mas fechamos a primeira rodada das oitavas-de-final como o único time mandante a conquistar uma vitória. E vamos para o segundo jogo com a vantagem do empate.

Verdade que a maioria de nós preferiria logo um daqueles resultados acachapantes, que nocauteiam o adversário, deixam o cara nas cordas e quando ele acorda, a segunda partida já terminou. Mas aí, amigo, até parece que você não conhece o Grêmio. 

Com a gente costuma ser no limite, na bola na trave, no desvio da barreira, no chute errado do goleador e na defesa inacreditável. É tensão até o último minuto, risco de gol, unha carcomida pelo nervosismo e um tal de pede para  um santo, bate um bumbo para o outro e mais uma sequência de salamaleques.

Vamos buscar a classificação na Serra Gaúcha, na semana que vem, do jeito que a gente gosta: sem jogo resolvido e fora de casa. Ë assim que a gente forjou cinco Copas do Brasil. É assim que sempre encontro esperança de um futebol melhor: na história do Grêmio e na de Renato, também.

Avalanche Tricolor: vamos ter de ganhar a Libertadores, fazer o quê?!?

 

Athletico 2×0 Grêmio
Copa do Brasil — Arena da Baixada/PR

 

 

Gremio x Athletico-PR

Geromel em campo, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

Havia enorme expectativa de uma disputa regional do fim da Copa do Brasil, mas logo no início da noite o Grêmio não cumpriu a sua parte. Jogou menos do que costuma, abaixo de suas qualidades e aquém do necessário. Mesmo assim, segurou o resultado negativo possível até o fim, apesar de ter perdido um de seus principais jogadores no começo do segundo tempo. E de estar diante de um adversário competente, competitivo e empurrado por seus torcedores

 

 

Teria tido a oportunidade de mudar a história da decisão se, nos primeiros minutos de partida, o árbitro não tivesse tido sua visão embasada pela prepotência. Ao não ter visto em campo o pênalti que favoreceria o Grêmio, foi forçado a olhar a tela do VAR. E mesmo que a cena se repetisse várias vezes diante dos seus olhos, com a bola sendo desviada pelo braço do marcador dentro da área, insistiu no erro. Nenhum dos comentaristas de árbitro que ouvi na TV e no rádio foi capaz de concordar com ele.

 

 

Prejuízo anotado, temos consciência de que o futebol gremista não foi aquele que nos levou a sequência de títulos nestes últimos três anos. Mesmo assim, o destino nos ofereceu a oportunidade de mudar a história dessa semifinal na cobrança de pênaltis. Em uma série na qual os cobradores demonstraram muita qualidade. Alguém haveria de errar. Erramos nós. 

 

 

É hora de deixar a ferida secar, recolher os trapos e se concentrar no próximo desafio. Eis aí  uma vantagem de ser torcedor do Grêmio: estamos sempre prestes a mais uma decisão.

 

 

Fora da Copa do Brasil, o que vamos fazer? Ganhar a Libertadores, ué! A gente pode,.

 

Bola pra frente!

 

Avalanche Tricolor: a vitória da maturidade

 

 

Bahia 0x1 Grêmio
Copa do Brasil — Arena Fonte Nova/BA

 

Gremio x Bahia

A festa do gol em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O Grêmio de Renato voltou. Na forma de jogar. E na forma de ganhar.

 

Desde o início da decisão desta noite, o futebol gremista se expressou com o controle do jogo, a troca de passe mais rápida, a triangulação de jogadores aparecendo para receber, a mudança de lado para confundir a marcação e a defesa firme e forte reduzindo o risco de um gol fora de hora (a bem da verdade todo gol tomado é fora de hora).

 

A velocidade de nossos atacantes por um lado e por outro também esteve presente. E foi a partir dela que chegamos ao gol que nos classificou à mais uma semifinal de Copa do Brasil. O passe precioso de Matheus Henrique encontrou Alisson correndo em direção à área e ele não se fez de rogado: deu um corte no primeiro marcador, deu um corte no segundo e chutou com o pé invertido no canto que parecia mais improvável para a bola entrar. E entrou.

 

Em uma temporada na qual nem sempre apareceram essas características que nos puseram em destaque, o que mais me chama atenção é que todas —- ou quase todas —- tem dado sinais de vida quando mais precisamos.

 

Já havia sido assim na reta final da fase de grupos da Libertadores, quando muita gente já não acreditava na nossa capacidade de recuperação.

 

E foi assim na noite de hoje quando tínhamos pela frente o desafio de encarar um time muito bem organizado e batalhador diante de sua entusiasmada torcida. Aliás, desta vez também tivemos de superar o descrédito de críticos. Ainda hoje, ouvi colegas de rádio colocando em dúvida a possibilidade de seguirmos em frente na Copa do Brasil.

 

Sabemos da dificuldade em manter o mesmo ritmo vitorioso por tanto tempo, por mais que se invista na permanência do comando técnico, a começar pelo seu maior nome, Renato, e na busca de reforços para substituir jogadores e formar um elenco mais bem equilibrado. Mas para esses momentos de inconstância, aposta-se na maturidade do grupo. E foi essa maturidade que fez ressurgir o futebol gremista na noite de hoje, em Salvador, quando chegamos a marca de 100 vitórias em Copas do Brasil e nos credenciados a disputar a 14a vez uma semifinal desta competição.

 

Se não bastasse ver o Grêmio de volta com sua força e maturidade, ainda curti essa alegria ao lado de um velho companheiro de torcida,  Gregório, meu filho mais velho, que também voltou após três meses distante do Brasil. A festa foi completa.

 

Avalanche Tricolor: a primeira das últimas noites de Everton

 

Grêmio 1×1 Bahia
Copa do Brasil — Arena Grêmio

 

Gremio x Bahia

Everton comemora mais um gol em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

Empatar em casa e ter de decidir vaga à próxima fase da Copa do Brasil no campo do adversário pouco me importa nesta noite em que o Grêmio voltou a jogar, após a parada para a Copa América. Time acostumado a essas situações e maduro o suficiente para encarar a pressão de um estádio lotado, como deve encontrar na próxima quarta-feira, tem capacidade para vencer, seja no tempo normal seja na cobrança de penaltis —- especialmente porque a atual edição da Copa não tem o tal gol qualificado fora de casa. E digo isso com todo o respeito ao time montado por Roger que, sabemos muito bem, é craque em organizar equipes.

 

Esta noite tinha algo muito mais especial a fazermos na Arena ou diante da televisão —- como foi o meu caso, exilado aqui em São Paulo e distante do meu time há muitos anos. Tínhamos Everton a assistir em campo. Jogador que o Brasil pediu em sua seleção, consagrou-se como goleador e o melhor da final da Copa América. Um cara que nos fez acreditar que futebol-arte não é coisa de nostálgicos. Joga a moda antiga. Encara o marcador — aliás, os marcadores, pois ninguém mais se atreve a deixá-lo no mano a mano. Tem sempre um ou dois na sobra com o olhar de quem está prestes a tomar um drible.

 

Everton tem um elenco de dribles à disposição. Na velocidade ou no gingado do corpo, deixa a turma para trás. Se encostam demais, ele trança as pernas e faz a bola se esgueirar no pouco espaço que sobra. Se recuam para não sofrer o drible, bate de fora na busca do gol. É um raro jogador que não tem medo de arriscar e quanto mais arrisca mais ganha a admiração do torcedor.

 

Aqui em casa, nos apaixonamos por ele naquela noite em que disputávamos vaga à final do Mundial, contra o Pachuca do México, no estádio de Al Ain, em dezembro de 2017. Sim, naquela vez eu estava no estádio. Eu e meus meninos estávamos na arquibancada, próximos do gramado, ao lado da área em que o Grêmio atacava. Área que Everton invadiu, desvencilhou-se dos marcadores e com um chute de curva colocou seu nome na história do tricolor.

 

Se para Everton aquele chute foi o pontapé inicial para uma fase incrível que vivencia até hoje com a camisa gremista, para mim foi um momento inesquecível em que comemorei um gol abraçado com meus dois filhos em uma arquibancada de futebol —- como fazia antigamente ao lado de meu pai. Pulamos como crianças, nos abraçamos, choramos —- sim, eu juro que vi os olhos deles cheio de lágrimas, repetindo o que fiz muitas vezes quando guri e assistia aos jogos no estádio Olímpico.

 

É essa alegria marcante que Everton me faz relembrar todas as vezes que entra em campo e parte em disparada na direção do gol. Fez isso quando estava na seleção —- e vibrei cada um dos seus gols na Copa América como se fosse do Grêmio. Fez isso na noite de hoje, em Porto Alegre. E o fará não sei mais por quanto tempo.

 

Tudo leva a crer que esses momentos estão chegando ao fim. Everton é objeto de desejo da maioria dos grandes clubes no exterior, contra os quais o futebol brasileiro não consegue mais competir. Assim como nesta noite, todas as demais se encerrarão com a mesma pergunta: quando Everton vai embora? E o fim desse roteiro conhecemos muito bem. Por isso, como disse no início desta Avalanche, pouco me importa se empatamos em casa. Tudo o que eu quero aproveitar, até o minuto final, até o instante do adeus, é Everton correndo, driblando e beijando a camisa do Grêmio a cada gol marcado.

 

Hoje, vivenciei a primeira das últimas noites de Everton no Grêmio.

Avalanche Tricolor: vitória da maturidade

 

Grêmio 3×0 Juventude
Copa do Brasil — Arena Grêmio

 

Gremio x Juventude

Vizeu marcou duas vezes, foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O diabo sabe mais por velho do que por diabo — foi o que sempre ouvi da boca de meu pai. E não me canso de confirmar tal ditado, que nos faz pensar sobre o quanto relevante é a experiência que adquirimos na vida. O quanto a vivência diante dos desafios forja nossa personalidade. E nos oferece maturidade —- uma condição que é fundamental para se superar dificuldades, encarar crises e driblar percalços.

 

Nesta noite de Copa do Brasil, maturidade foi a marca do Grêmio.

 

Na primeira partida disputada ainda sob o impacto do mau desempenho no Campeonato Brasileiro, o time fez um jogo seguro, mas sem gols. Sabia que a classificação às quartas-de-final dependeria dos 180 minutos —- nada se resolveria nos primeiros 90, ainda mais jogando fora de casa.

 

Foi para a decisão, em plena Arena, com o time mais bem estruturado, cabeça no lugar, sabendo de sua capacidade e superioridade em relação ao adversário — e aqui não vai nenhum desdém ao adversário, apenas a constatação de que as estatísticas são amplamente favoráveis ao Grêmio. Jogou, também, mais solto, tocando a bola com a qualidade que conhecemos e movimentando-se com a velocidade que assusta os marcadores. Mas, principalmente, jogou sério, sabendo da responsabilidade que tinha.

 

Da mesma maneira, já havíamos assistido ao time recuperar-se dos maus resultados na Libertadores. Quando os momentos mais difíceis pareciam se sobrepor ao nosso talento, o Grêmio botou a bola no chão, acreditou na sua competência e disputou cada partida como se fosse uma final. Driblou o descrédito e só espera a retomada da competição, em julho, para iniciar-se na fase de mata-mata.

 

No Campeonato Brasileiro, quando já tinha gente fazendo contas devido a incomoda posição na zona de rebaixamento e enxergava uma crise no grupo, no vestiário, no gabinete e no raio que os parta, o Grêmio voltou a jogar bem e no fim de semana, venceu sua primeira partida enviando um recado aos adversários: a gente está de volta.

 

Hoje à noite, chegamos a perder um pênalti — mais um pênalti —, mas com a experiência que só o tempo e a sabedoria são capazes de nos oferecer nossos jogadores mais maduros — é o caso de Geromel, Maicon e Everton — transmitiram tranquilidade para que os jovens fizessem a sua parte. Foi assim que Felipe Vizeu apareceu duas vezes dentro da área para cabecear e marcar. Foi assim que  Junior Capixaba e Thaciano encontraram espaço para se movimentar,  driblar e dar assistência a seus companheiros. Foi assim que Pepê sacudiu a marcação adversária com muita habilidade e velocidade. Foi assim que Rodriguez ganhou aplauso do torcedor ao demonstrar seriedade e humildade na função de zagueiro. Foi, também, assim que Diego Tardelli voltou a marcar — apesar de que este já faz parte do time dos maduros pela carreira que construiu até aqui.

 

Avalanche Tricolor: faltou-me inspiração, também

 

Juventude 0x0 Grêmio
Copa do Brasil — Alfredo Jaconi/Caxias do Sul-RS

 

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Alisson vai ao ataque em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

Peço desculpa ao caro e raro leitor. E na carona dessa desculpa, peço também que não me abandone pela falta de inspiração. Já são tão poucos aqueles que dedicam alguns minutos do seu dia para ler esta Avalanche ou mesmo os posts nos quais falo de gestão, carreira, cidadania e outro assunto qualquer que me der na telha. Seria triste saber que você também vai me abandonar e só porque não consegui ter um só insight — é assim que a turma mais moderna costuma chamar aquele estalo ou aquela luz que surge na nossa mente e nos ajuda a resolver alguns problemas. 

 

Se servir de consolo, registro que penso em você desde que a bola começa a rolar no gramado. É assim, pensando em você, que costumo encontrar uma pegada para escrever esta Avalanche. Foi assim também quando se iniciou a partida desta noite, em Caxias do Sul. Estava certo que ao longo do jogo surgiria uma ideia. Minha mente seria iluminada por um lance bacana, daqueles que merecem parágrafos e mais parágrafos para serem descritos. Talvez um gol — mesmo que de chiripa, daqueles que a bola bate na canela, sobra para o atacante e desvia no marcador antes de chegar às redes.

 

Os minutos se passaram no cronômetro em destaque na tela da televisão e nada de surgir uma inspiração. Nem um grande drible nem uma defesa memorável. Menos ainda um gol — que baita saudades de um, dois, três gols em uma só partida. Lembra? 

 

Cheguei a pensar nos fatos do cotidiano — se bem que ultimamente a coisa ainda dura no noticiário, também. Quem sabe uma letra de Chico Buarque, vencedor do Prêmio Camões, o mais importante da literatura em língua portuguesa? Letrista de mão cheia, tanto quanto cantor e escritor, nem em Chico encontrei saída para esta Avalanche.

 

Sempre dá para apelar para o sentimental. Escrever aquela carta emocionada para o guri que está longe, costuma tocar o coração do leitor — e apaziguar a saudade que enxágua o meu peito. Achei que seria um pouco de mais. Por mais que queira escrever minhas cartas ao guri, pouca coisa teria a dizer para ele desta noite na Copa do Brasil.

 

O árbitro até que esticou um pouquinho mais a partida, me dando uma chance de encontrar emoção e inspiração. Mas sou obrigado a confessar: hoje, nada foi suficiente para render uma Avalanche a altura do merecimento do caro e raro leitor. Por isso, só me resta pedir desculpas, dizer que me esforcei até onde pude e garantir que se faltou talento sobrou vontade. Lutei até o fim para retribuir seu carinho. 

 

Que na próxima partida, eu esteja um pouco mais inspirado para escrever esta Avalanche — e o Grêmio, também.