Não, não posso parar

Por Beatriz Breves

Quantas pessoas, sem perceber, vivem repetindo para si mesmas os versos da canção Mundo Maluco, de David Nasser, Nelsinho e Moacyr Franco: “Não, não posso parar; se paro, eu penso; se penso, eu choro.” A frase, que à primeira vista pode soar apenas como um lamento musical, revela uma verdade profunda sobre a forma como muitos conduzem a própria vida.

Hoje, é cada vez mais comum encontrar quem se mantenha em atividade permanente, ocupando-se, distraindo-se, preenchendo cada minuto, para evitar o encontro consigo mesmo. O movimento constante funciona como uma espécie de anestesia emocional: se não paro, não penso; se não penso, não sinto; se não sinto, não sofro; se não sofro, não choro. É uma lógica compreensível, que cobra um preço alto.

Viver no automático é perder o sabor das experiências, dos encontros, das pausas que dão sentido à vida. É afastar-se de si para não encarar o espelho interno, temendo que, ao olhar para dentro, tudo desmorone. O medo costuma ser o mesmo: “Se eu me permitir sentir, vou ruir. Se eu tocar na minha dor, vou perder quem eu sou.”

O paradoxo, porém, é cruel. Ao fugir do próprio mundo interno, não evitamos o sofrimento, apenas o prolongamos. A fuga constante enfraquece a identidade, desgasta a vitalidade emocional e impede a construção de um senso de si mais sólido e verdadeiro. Aquilo que tentamos evitar é justamente o que se intensifica.

O encontro consigo mesmo pode ser desafiador, mas é também o único caminho para reconstrução, fortalecimento e autenticidade. Parar não significa desabar; significa criar espaço para construir, ou reconstruir, com mais consciência de si mesmo.

Ainda assim, muitos perguntam: “Como posso parar, se sei que não vou aguentar?” Não há uma resposta efetiva para tal questão, pois cada pessoa é única. Mas, com certeza, uma coisa pode ser dita: a força que está sendo utilizada para a fuga de si mesma não é pequena; muito pelo contrário. Essa mesma força, quando redirecionada, consegue sustentar o processo de reconstrução interna. Fugir de si mesmo exige tanto ou mais esforço do que se enfrentar.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad