O improviso quando o locutor esquece os óculos e o editor, as notícias

 

 

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Foto de Milton Ferretti Jung


 

 

Gosto de rádio ao vivo. Gravar entrevistas, me incomoda. Tira o foco. Provavelmente é a resposta do corpo e da mente a uma dose menor de cortisol, que é um dos hormônios do estresse. Quando acende a luz da placa “No Ar”, coloco-me em posição de alerta. O texto improvisado flui melhor, a pergunta é mais direta e o ponto de corte na resposta do entrevistado tende a ser mais preciso. O erro faz parte do jogo que é jogado ao vivo. Conserta-se a frase. Refaz-se a pergunta. Pede-se desculpa quando a palavra não era a mais apropriada e quando se troca o nome ou cargo do entrevistado —- hoje mesmo isso aconteceu comigo.
 

 

O certo é que ao vivo tudo pode acontecer. E acontece com os melhores, tenha certeza.
 

 

Semana passada, enquanto escrevia sobre uma das gafes que cometi, lá no início da carreira, descobri nos meus arquivos textos escritos por meu pai. É bem provável que estejam publicados no livro em que a jornalista Katia Hoffman conta a história dos 60 anos que ele dedicou ao rádio: “Milton Ferretti Jung; gol, gol, gol, um grito inesquecível na voz do rádio”. Mesmo assim, compartilho duas delas com você — caro e raro leitor deste blog. Ambas ocorridas durante a apresentação do Correspondente Renner, na época a mais importante síntese noticiosa do rádio gaúcho.
 

 

As esquecidas “Últimas Notícias”

O Correspondente, que apresento, na Guaíba, há 39 anos, ao contrário do que os ouvintes imaginam, só me é entregue em cima da hora de ir para o ar e, às vezes ,ainda sem as “últimas notícias”. Alguns erros cometidos pelos redatores e que escapam da revisão, ainda consigo corrigir no ar. Já enfrentei, porém, problema mais sério. Não foi uma nem duas vezes que, depois de ler a ficha anunciando a parte mais importante da síntese, descobri que o editor havia esquecido de encaixar as “últimas notícias”. Sempre que isso ocorreu, não me restou outra alternativa: fiz de conta que a rádio tinha saído do ar e, quando o editor, apavorado, apareceu com as notícias, depois de desculpar-me dizendo que a transmissão fora interrompida por “problema técnico”, dei  seqüência à leitura.

Óculos Errados



Quando usamos óculos apenas para enxergar de perto, é comum esquecermos deles. Sempre que isso ocorria comigo, algum companheiro, cujas lentes tinham grau semelhante às usadas por mim, me socorria, possibilitando-me apresentar o Correspondente Renner. Certa vez ,no entanto, pedi emprestado os óculos do Idalino, um dos editores do noticiário. Testei-os lendo o texto de abertura do Renner ,redigido em negrito e com tipos maiores dos que eram utilizados na confecção das notícias. Só no momento em que entrei no ar, me dei conta de que os óculos não serviam para que eu enxergasse com a necessária clareza. Li a primeira notícia aos trancos e barrancos, tentei fazer o mesmo com a seguinte, mas fui obrigado a parar e gesticular para que o locutor de plantão me substituísse. Muitos ouvintes, percebendo a troca súbita de apresentador, telefonaram para a Guaíba a fim de saber o que havia acontecido. Houve até quem pensasse que eu tivesse sofrido um mal súbito.

Palavras no rádio e na TV que não consigo digerir

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Olho para trás e me dou conta de que passei a maior parte da minha vida trabalhando como radialista. Exerci várias funções,pasmem,atuando em apenas duas emissoras:a Rádio Canoas (que mudou de nome e virou Rádio Clube Metrópole ao receber concessão para funcionar em FM) e na Rádio Guaíba. Essa,inaugurada em 1957. Era um sonho dos locutores,na época,ser contratado pela rádio que se firmou no ano seguinte,1958,por ter transmitido a Copa do Mundo da Suécia com equipe própria:Mendes Ribeiro,Flávio Álcaraz Gomes e Francisco Antônio Caldas. De lá para cá,a Guaíba só não se fez presente na deste ano que os brasileiros preferem não lembrar por motivos para lá de óbvios. Além de locutor comercial,comecei a narrar futebol e,em 1964,passei a apresentar o Correspondente Renner que,modéstia à parte, foi durante muitos anos a principal síntese informativa da Guaíba.

 

O leitor – se é que tenho algum,especialmente fora do Rio Grande do Sul – não pode imaginar o que o Correspondente Renner representou,em uma época que o radiozinho de pilha era companheiro sempre presente dos agricultores. Até hoje,encontro quem diga que os pais de família não permitiam que os filhos falassem enquanto o Correspondente Renner estivesse no ar. Fiz esse intróito para dar ao leitor – insisto,se existir algum – uma ideia sobre este que lhes escreve e que vai,daqui para a frente,digitar algumas coisinha que,tanto no rádio quanto na TV atuais,não consegue digerir.

 

A grande maioria,sempre que se refere ao juiz de uma partida,diz que a arbitragem acertou ou errou. Ocorre que não é arbitragem que faz isso ou aquilo.O jogo é arbitrado só pelo juiz. Os seus auxiliares,por mais importantes que sejam,a rigor,não passam disso. O árbitro – e repito – apenas ele, é o indivíduo responsável, por fazer cumpriras regras,o regulamento e o espírito do jogo. A arbitragem é,digamos assim,o conjunto da obra. Quem manda,porém,insisto,é o que chamam,quando não fazem direito o seu trabalho,de “sopradores de apito”. Creio que os chefes desses moços que não sabem a diferença entre árbitro e arbitragem bem que poderiam ser alertados pelos seus superiores.

 

Outro erro, que já estou cansado de ouvir, é informar que “o estádio está completamente lotado”. Trata-se de um pleonasmo,isto é,repetição,na mesma frase,das mesmas ideias por meio de palavras. Narradores,comentaristas,repórteres e assemelhados,cometem os tipos de erros que citei. O pior é quando vejo que a mídia brasileirsa,com raríssims exceções,até agora não se decidiu entre chamar a maravilhosa Nova Iorque de Nova York. Que se use o nome em completamente em inglês ou todinho aportuguesado. Não pode,na minha modesta opinião,grafar o nome de maneira híbrida:Nova York.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)