Sem emoção, aos empresários!

                   

Por Augusto Licks

Foto de Foto de RF._.studio no Pexels

Ouço com tristeza que Porto Alegre, onde vivi minha juventude, está praticamente em colapso, a exemplo de outras cidades brasileiras. Um hospital já recorre a contêiner para armazenar cadáveres, e me pergunto se haverá valas coletivas em cemitérios? A que ponto chegamos. 

Ao longo de 2020, procurei escrever artigos úteis sobre a necessidade de a população exagerar medidas de proteção, e de o poder público acelerar planejamento antecipando-se a etapas mais críticas. Infelizmente muitos nunca jogaram xadrez, ficam esperando as coisas acontecerem. Tivemos tímidas campanhas de conscientização, graças a meios de comunicação, esses que alguns atacam enquanto espalham mentiras por redes sociais. 

Observei que após a comoção dos primeiros óbitos a explosão de casos acabou anestesiando a percepção popular, tornando as vítimas anônimas a cada nova estatística diária. Fiz “Lives” para estender palavra útil a confinados e confinadas. Gravei trilha musical para o poema “Canção Póstuma” de Cecília Meirelles recitado por Zezé Motta em homenagem às vitimas de uma categoria profissional, advogados(as), um esforço para resgatar do anonimato dos números a memória de seres humanos.

Constatei como aquilo que identificamos como “mal” se esconde e se banaliza na tragédia, como nos ensinou Hannah Arendt. Indaguei se crimes praticados na pandemia terão algum tribunal futuro a lhes fazer justiça, à la Nuremberg. Detalhei como e porque se desenvolveu o escândalo de Watergate para reforçar a importância de ainda termos imprensa livre e sem censura. Discerni a política entre exercício de poder e convencimento eleitoral, à luz de princípios que são éticos e universais e valores que nem sempre são. Denunciei a distorção massiva de fatos e conceitos por redes sociais que visam a confundir inocentes, levando muitos a se apegarem a crendices. 

Como orientar provou ser insuficiente, sugeri campanhas para assustar a população, como foi nos EUA contra o tabagismo, não custaria tentar. Alertei para o inevitável efeito-verão dos criminosos que “não querem nem saber”, “não estão ouvindo nada”, e mentem que se deve confiar em Deus e não na ciência, atitude  nada cristã, reprovada pontualmente pelo Cardeal Odilo Scherer.

O perspicaz Comandante do Exército, General Edson Pujol, proclamou que estamos em guerra, e que os profissionais de saúde são nossa linha de frente. O governo federal não concordou, em nada se empenhou para um plano eficaz de combate nessa guerra, pelo contrário, negou a gravidade.

Se é estratégia eleitoral, seu único efeito para 2022 será prolongar a pandemia inibindo manifestações de protesto. Mas não adianta tratar isso como questão política, é mais além, é institucional, estrutural, cultural, é urgência de guerra.

Essa subestimação negacionista foi e ainda é exemplo “que vem de cima”. Talvez explique porque para alguns a ficha só caia “quando o raio cair em casa”. Outro dia, após sobreviver à Covid-19, um moderado radialista retornou ao trabalho com um tom bem diferente: cobrou do poder público ações repressoras contra os que se aglomeram, incluindo uso de gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral, coisas que policiais às vezes utilizam em manifestações.

Fica a pergunta: por que a polícia não reprime tais atos, se representam ameaça a muitas vidas? Alguém alegou que “não adianta colocar lá meia dúzia de policiais diante de milhares”. Pois então que não se coloque meia-dúzia, e sim um contingente. Ah, mas a polícia não dispõe de suficientes soldados? Ora, que entrem então em ação as Forças Armadas, afinal elas existem para nos defender de inimigos. Assim mesmo, reprimir ajudaria mas não resolveria.

A pandemia nos ensinou que a sociedade prioriza mais a economia do que a vida humana. É compreensível a preocupação de trabalhadores e empresas com consequências do distanciamento social. Home office e serviços de entrega não são alternativas para todos. É imperioso que o poder público ofereça auxílio-socorro aos que necessitam, só que isso acaba tornando-se insustentável. 

Origina-se daí a tese de se “flexibilizar”, mas desde meados de 2020 já prevíamos seu efeito de onda: cada flexibilização causa expansão da pandemia, que obriga a retomar restrições. Agora talvez nem tenhamos escolha: se não pararmos, os hospitais seguirão lotados, gente já morre em filas de espera. Ainda assim, nem um “lockdown” resolveria, apenas retardaria as consequências. 

Esperamos meses e meses por vacinas, única esperança contra todo esse mal. Laboratórios mundiais dedicaram esforço sem precedentes, com prazo para “antes de antes”. O governo federal não se empenhou pela mesma causa, foi meramente protocolar, preferiu investir em medicamentos duvidosos, e perdeu chance de garantir doses da vacina que acabou sendo a mais eficaz de todas. Restaram os esforços heróicos do Instituto Butantã e da Fundação Oswaldo Cruz, que lamentavelmente viraram objetos de rinha eleitoral entre o Presidente da República e o Governador de São Paulo.

O Ministério da Saúde, em vez de médico tem um militar paraquedista, e da ativa. Assim mesmo, a logística conduzida por aquela pasta, convenhamos, não é nem de longe a logística de uma guerra. Falta pressa, lucidez e senso de emergência, e sobra então para a ANVISA a batata quente de ter que dar todo tipo de explicação para se esquivar diante da urgência de se acelerar a vacinação.

O Brasil precisa de socorro, S.O.S. !  Como socorrer, como atacar a causa e não apenas maquiar as consequências devastadoras ? Tecnicamente falando, talvez seja mais simples do que se imagina. Depende de entendimento para uma decisão administrativa e que não deveria ser política. Chegou a ser reivindicada mas, tímida, não prosperou. Agora, deveria ser retomada e com urgência, mesmo que demande emenda constitucional, pois é o caminho tecnicamente lógico: a aquisição de vacinas pelo setor privado

É que contra todos argumentos normalmente sensatos, a velocidade da pandemia faz da atual vacinação pública uma peneira para tapar sol. Barreiras legais existentes à aquisição empresarial não se justificam mais nessa calamidade. É semelhante à chantagem que sofrem estados e municípios quando tentam agir diante do imobilismo federal, só que é ainda mais grave pois na prática funciona como obstrução à livre iniciativa. 

É inevitável a discussão sobre estado versus iniciativa privada: economia não pode parar, estado não tem dinheiro e/ou é incompetente para vacinar. Não seria então a iniciativa privada mais eficiente ?  Ora, a economia só não vai parar se as empresas não pararem, e para isso precisam urgentemente imunizar seus funcionários, não existe mágica. 

Conclusão: na prática, Ministério da Saúde e ANVISA estão freando a economia. Deveriam autorizar, e logo, a vacinação empresarial, facilitando em vez de dificultar. Já se esperou tempo demais, e não se pode ficar à mercê dessa embromação que é o Plano Nacional de Vacinação. Alguém irá gritar “ah, mas aí os ricos vão comprar tudo e os pobres ficarão sem”. Claro que não, é só garantir estoques, questão de orçamento, matemática, cálculo, planejamento, estabelecer condições, será que nossos governantes não entendem dessas coisas ? 

Está na hora de o empresariado ser menos contemplativo e assumir seu protagonismo, saindo em defesa de seus lucros, dos empregos que proporcionam e dos salários de seus funcionários. Parar as atividades temporariamente talvez seja inevitável a essa altura, e servirá apenas para ganhar-se tempo. O caminho é um só: vacinar para poder retomar atividades, em vez de flexibilizar sem vacina. E vacina tem ! Estados e municípios empobrecidos podem ter dificuldades, mas a iniciativa privada não, outro dia pagou-se 1 milhão de reais para um jogador de futebol entrar em campo

Então, empresários, vão deixar as coisas assim como estão e assistir omissos? O que esperam ganhar com uma economia que nesse andar da carruagem continuará amarrada? O que esperam para retomar negociações com o governo? Que ao menos se associem aos esforços de vacinação dos estados e municípios.

Augusto Licks é jornalista e músico

Conte Sua História de SP: os últimos dias de minha mãe

Ione Correa

Ouvinte da CBN

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Sou a filha mais nova de uma família de seis irmãos, nascida e criada no bairro do Parque São Lucas, na Zona Leste, que faz limite com a região do ABC. Quando me casei, mudei-me para Barueri, mas, todos os sábados me voltava ao bairro de minha infância, onde ainda residia a minha mãe, Dona Ana, acompanhada de duas irmãs e um sobrinho. 

O sábado era um dia totalmente dedicado à minha mãe, e, embora eu não tivesse nenhuma habilidade para manicure e pedicure, sou advogada, cuidava das unhas dela, e de outros trabalhos estéticos. Aos 83 anos, Dona Ana era muito vaidosa e cuidava com esmero de sua saúde e higiene. Passávamos o dia conversando. Ela muito mais do que eu, pois, pense numa pessoa faladeira!

Com a pandemia, minhas visitas tiveram de parar. Nos falávamos por videochamada. Era muito engraçado, porque minha mãe movimentava o celular o tempo todo. Ríamos da inabilidade tecnológica dela. Demorou pouco para dominar o uso do aparelho, algo surreal para uma mulher, que, não conseguiu ser alfabetizada por ter que trabalhar na roça desde criança. 

No Dia das Mães, eu e minha irmão enviamos uma cesta de café da manhã. Assim que o presente foi entregue, mais uma vez o momento foi compartilhado pela tela do celular.

Em junho uma notícia nos abalou: minha irmã que trabalha em hospital foi contaminada pela Covid-19. Em seguida, minha mãe passou a ter sintomas da doença e teve de ser internada. As visitas eram proibidas. Nos restava esperar os relatos médicos. Foram dias terríveis, nos quais o suspense de saber como teria sido a noite dela, nos consumia. Um alívio neste tempo de internação foi quando a psicóloga do hospital a colocou em contato com a família por videochamada. Nosso coração se aqueceu! Ela ainda estava abatida, mas, forte, e perguntou de todos, e disse que estava bem.

O aniversário de Dona Ana, 24 de junho, foi comemorado dentro do hospital. A equipe médica e de enfermagem cantou ‘parabéns a você’ e assistimos a tudo pelo celular. Ela estava muito feliz! Super animada! Cinco dias depois foi para o quarto e pudemos estar com ela. Como as condições pulmonar e cardíaca ainda estavma comprometidas, acabou voltando para a UTI — antes de deixar o quarto, minha irmã fez uma videochamada e ela pode conversar com todos os seus filhos. Foi nosso último contato com a mamãe. Ela morreu no dia três de Julho.  

A tecnologia jamais substituirá o contato físico, mas imagino o como teria sido mais difícil esses dias se não fossem esses recursos que estão disponíveis. Talvez o sentimento de frustração fosse muito maior. Foi a tecnologia que permitiu a mim e aos meus irmãos de estarem junto com minha mãe em seu derradeiro momento, e que nos traz algum alento, como tenho certeza que igualmente acalmou o coração dessa mulher intrépida, que felizmente, pude chamar de mãe. 

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Ione Correa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, viste meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Festa de Lira é uma metáfora do Brasil

Reprodução Twitter

Covidão Parlamentar, Covidfesta ou o Regabofe dos Desmascarados. Deem o nome que quiserem para o evento que comemorou, na madrugada de terça, em Brasília, a vitória de Arthur Lira para a presidência da Câmara dos Deputados —- deputado-réu por peculato e lavagem de dinheiro e investigado por sonegação fiscal —-, promovida na casa do empresário Marcelo Perboni, acusado de fraude tributária por ter se apropriado indevidamente de R$ 3,8 milhões. Com mais de 300 convidados, amigos e inimigos políticos rebolando no mesmo palco, ao som de forró (a música não tem culpa de nada), e desfilando sorrisos sem máscara, todos foram protagonista de uma festa que se transformou em metáfora do Brasil. Para onde você olhar, vamos enxergar um pouquinho do que é o país em que vivemos.

Com quase 227 mil mortos por Covid-19, parcela dessas pessoas vítima, direta ou indireta, do descaso com a doença; do desrespeito a regras sanitárias; de gente que nega a pandemia. Uma gente que não usa máscara e está pouco se lixando para as aglomerações —- lá estavam os 300, representando os brasileiros que assim agem.

Eram 300, coincidência, os picaretas que Lula, em 1993, acusou existirem no Congresso Nacional. O mesmo Lula que agora é defendido com unhas e dentes pelo líder do Governo Bolsonaro, Ricardo Barros —- como ouvimos, ontem, no Jornal da CBN. Sim, o líder de Bolsonaro fala como advogado de defesa de Lula. Vá entender !?! Eu entendo. Acho que você, também. Estão todos na mesma festa.

A festa ainda nos remete a ideia de que caiu a máscara do Governo Bolsonaro e seus defensores, que chafurdaram no lodo político — e comemoraram  — ao negociar emendas parlamentares, abertamente, para comprar aquilo que o ex-governador Antonio Britto chamou de “seguro-mandato” — em entrevista também no Jornal da CBN. Diga-se: negociação que não é privilégio deste governo; é da “velha política” que pauta este governo.

A inexistência de máscaras também é simbólica quando se percebe que a turma Anti-Lavajista circula no parlamento e no noticiário falando descaradamente contra o combate à corrupção. Um pessoal que diante dos descalabros e falcatruas, cochicha nos gabinetes e planeja conchavos para se proteger. E fala grosso contra quem investiga —- ouça a entrevista de ontem. Registre-se, motivos não faltam para reclamações de abusos e erros cometidos durante os processos, mas nada que esteja a altura do roubo coletivo que o Brasil foi vítima nos últimos anos. 

(Não acredita no que eu disse no parágrafo acima? Leia o livro A Organização, de Malu Gaspar. É muito rico).

No balanço das cadeiras, com rebolados sem jeito nem constrangimento, a festa de Lira, por fim, teve cenas de hipocrisia explícita. O celebrado havia encerrado, horas antes, seu discurso da vitória no parlamento, de máscara — porque em público — e chamando a atenção do Brasil para o momento mais devastador da nossa história provocado pelo vírus da Covid-19 e alertando: “temos que vacinar, vacinar, vacinar o nosso povo”.

O momento é realmente devastador — na política, inclusive.

Lágrimas pela vacina

Enfermeira é primeira brasileira vacinada. FOTO: Paulo Guereta/Photo Premium/Agência O Globo
FOTO: Paulo Guereta/Photo Premium/Agência O Globo

Morei em um sobrado, na Saldanha, em Porto Alegre. Em cima, ficávamos nós. Na parte de baixo, Seu Juvenal e Dona Mulata. Eles estavam lá desde antes de a minha família se mudar para o Menino Deus, assim que nasci. Eram os padrinhos do meu irmão mais novo; ele era um senhor com ar divertido, ela, enfermeira. Atendia em um hospital e nas horas vagas, acudia a gente, especialmente quando tínhamos de tomar injeção.

Apesar de serem vizinhos de teto, a mãe nos levava pela mão, pois sabia que se tivéssemos oportunidade sairíamos em disparada —- você haverá de concordar comigo que injeção nunca foi do agrado das crianças. Ficou na memória o cheiro do álcool e da água fervendo, usados para esterilizar a seringa e a agulha em um caixa de metal. Naquela época, era comum as famílias terem um equipamento próprio, que passava de pai para filho, de um irmão para outro. Aplicada a injeção, lavava-se, esterilizava-se e … próximo. Fazia o máximo para ficar por último na fila, sob a ilusão de que pudesse adiar a sessão para outro dia. Não tinha como escapar, era cerrar os dentes, sentir a lágrima escorrendo no rosto e aguentar a picada da agulha.

Como a família segue morando na mesma casa, em Porto Alegre, quando vou visitá-la e entro no corredor do andar de baixo, onde viviam Seu Juvenal e a Dona Mulata, o cheiro característico da injeção exala da minha memória. O mesmo cheiro que transpassou minhas narinas na tarde desse domingo, enquanto assistia à cena mais desejada desde o início dessa tragédia que vivemos. A agulha aplicada no braço esquerdo de Mônica Calazans, enfermeira, como Dona Mulata, negra e voluntária nos testes da Coronavac,  abria uma célula de esperança em cada um de nós que sonhamos em nos ver livre dessa desgraça que se transformou o Sars-Cov-2.

As vacinas de agora não são mais aplicadas em seringas e agulhas reaproveitáveis; a caixinha de alumínio foi substituída pelo plástico e virou peça de antiquário; o cheiro de álcool e água fervendo é dispensável; e a tecnologia disponível nos laboratórios para produzir remédios injetáveis está centenas de vezes mais desenvolvida do que na minha infância. Se naqueles anos havia negacionistas, não circulavam na minha casa. Meus pais sempre tiveram a preocupação de nos oferecer o que havia de mais apropriado para proteger nossa saúde —- doesse a quem doesse. 

Lembro porém de anúncios na televisão para convencer às famílias a participarem das campanhas de vacinação. Sujismundo, o moço de cara simpática e maus hábitos dos comerciais produzidos pelo Regime Militar, era o protagonista e aparecia na tela dizendo que “não quero tomar espetadas inúteis, afinal não estou doente”. Era convencido pelo filho, pelas palavras do médico e pela lei imposta pelo Governo que suspendia o salário-família se as crianças não fossem vacinadas. Isso mesmo, os militares daquela época —- mesmo diante de todas as atrocidades cometidas e de crimes contra os direitos humanos —- eram a favor da vacinação, faziam campanha publicitária e obrigavam as pessoas a tomar a injeção.

Com um mês de atraso, em relação aos principais países do Mundo, o Brasil iniciou hoje a vacinação contra a Covid-19 —- ainda temos poucas doses e apenas um tipo de vacina, apesar de a Anvisa também ter aprovado o uso do imunizante de Oxford/AstraZeneca. Como você, caro e raro leitor deste blog, já deve saber, o Governo Federal —- leia-se Jair Bolsonaro e General Pazuello —  foi incompetente para colocar a vacina à disposição dos brasileiros e mesmo com acesso a Coronavac, importada pelo Instituto Butantan, vai guardar os frascos para iniciar seu programa de vacinação na quarta-feira, nas capitais brasileiras. “Não entendo essa ansiedade”, deve pensar com os botões de seu pijama o General da Banda.

Perdão, não quero incomodar você neste momento com um discurso contra a insensatez, por mais relevante que seja. Quero reservar este domingo para agradecer a quem construiu essa história, pesquisou no laboratório, aprofundou seus estudos, compartilhou conhecimento e nos proporcionou uma vacina que reduzirá o risco de continuarmos diante desta mortandade que já nos levou cerca de 210 mil pessoas, apenas no Brasil. Quero guardar na memória — assim como o cheiro do álcool e da água fervendo — esse dia em que a vacina me levou mais algumas lágrimas — diferentes daquelas de uma criança medrosa, na casa da Dona Mulata. Lágrimas de alegria por ver que a riqueza e inteligência do ser humano ainda podem nos salvar; e de saudades por aqueles que se foram sem ter tido essa oportunidade.

Liguem suas câmeras, desliguem seus microfones, vamos dar início à solenidade e sejam bem-vindos ao novo mundo

Por Christian Müller Jung

Evento virtual do Governo do Estado do Rio Grande do Sul
Pelo celular, cerimônia oficial é transmitida pela internet, respeitando protocolos de saúde (foto: Christian M. Jung)


Em Atenção ao protocolo, desta vez é o Respiratório”, artigo que escrevi em 11 de março de 2020 — data em que a pandemia foi decretada pela Organização Mundial da Saúde —- já abordava as regras que impactariam nosso cotidiano e viriam a se transformar em uma obrigação para quem vive em sociedade. As autoridades de saúde alertavam para a  maneira correta com que deveríamos agir para reduzir o impacto do que chamávamos de novo coronavírus — que agora, mais íntimo, a ponto de entrar em nossas casas e contaminar nossa família, atende pelo nome de Covid-19.


Passados um ano desde a primeira morte registrada na China e dez meses desde aquele artigo, os protocolos não mudaram, foram reafirmados: limpeza frequente das mãos, uso  constante de máscaras, distanciamento social —- aglomeração é crime, festas devem ser evitadas e preservar a vida é obrigação, protegendo especialmente os idosos e com saúde fragilizada.


Ainda que estejamos assistindo ao aumento na velocidade com que o vírus se dissemina e o registro de mortes se assemelhe ao pico alcançado em agosto do ano passado, a notícia de que vacinas estão prestes a serem aprovadas no Brasil é muito bem-vinda —- isso não muda a necessidade de mantermos os protocolos. Fora brigas políticas e birras infantis que colocam em xeque a capacidade da sociedade científica, ainda teremos de assistir à discussão que nos inclui e não nos cabe. Aliás só nos atinge. 


Questionar quem trabalha com a ciência é como discordar do diagnóstico do seu médico. É decidir que comer tomate à exaustão vai aplacar o impacto do seu câncer de próstata, em lugar de se submeter à quimioterapia. É tomar decisões que atendam as suas crenças, a despeito do que dizem pesquisadores e doutores que dedicaram a vida e a carreira aos estudos com a intenção de prolongar o seu tempo de existência no planeta Terra —- que não é plano, registre-se.


Tem muita gente tocando tambor pra louco —- como dizem aqui nos meus costados — e proferindo teorias negacionistas que em nada ajudam a reduzir a sobrecarga que tem esgotado os profissionais de saúde. E dê-lhe praia e dê-lhe festas, como se nada do que assistimos no mundo fosse verdade.


Ainda bem que em meio a esta pandemia, quando imaginamos que a humanidade vai se afundar e se esforça para sextavar uma roda que girava livre e solta, temos bons exemplos: seres humanos que estão mais preocupados em realmente achar uma solução, sem temer que a vacina vai transformá-los em jacaré.


Dito isso, voltemos aos protocolos e aos eventos que fazem parte do mercado ao qual estamos inseridos, nós mestres de cerimônia e produtores. E vamos pensar no que podemos aprender em meio a essa onda negativa que fez com que muitos profissionais tivessem de encerrar suas atividades, fechar as portas e, com muita tristeza, até suas próprias vidas —- sim,  infelizmente tivemos pessoas que chegaram a esse ponto. \


Em meio ao caos estabelecido, nos vimos obrigados a destravar sistemas tecnológicos que, convenhamos, já estavam à nossa disposição, mas que  ainda não tinham sido incorporados ao nosso cotidiano. Aprendemos a desvendar os protocolos da área de forma empírica — testando, errando e acertando —- porque a comunicação é necessária e a disseminação da informação imprescindível.


Em uma função na qual o respeito ao protocolo do cerimonial é primordial, logo absorvemos os protocolos de higiene ou respiratórios, como caracterizei em artigo anterior. Em seguida, os profissionais do setor tiveram de desvendar os protocolos de rede —- dessa teia que nos interliga.

Como ensina o Wikipedia:

“…. o protocolo (em ciência da computação) é uma convenção que controla e possibilita uma conexão, comunicação, transferência de dados entre dois sistemas computacionais. De maneira simples, um protocolo pode ser definido como “as regras que governam” a sintaxe, semântica e sincronização da comunicação”

Nesse ponto que queria chegar.

Empurrados pelo caos, descobrimos em lives, videoconferências, cerimônias online tanto quanto em plataformas como o Zoom, Google Meet e Skype que, mesmo impedidos da mantermos a presença física, teríamos como acessar as pessoas de forma virtual. Entendemos o que é ter qualidade na conexão de internet, em casa ou no trabalho; que, independentemente da infraestrutura oferecida, o “delay” (prefiro chamar mesmo de atraso) faz parte do diálogo; que ao nos conectarmos de casa ou de nossos escritórios com o mundo devemos nos esforçar para criar um ambiente harmônico; que nosso olhar tem de mirar a lente da webcam e não a tela do computador; que nosso equipamento —- computador, notebook, celular ou câmera —- deve estar na mesma altura do nosso rosto, evitando que pescoço, nariz ou testa fale mais alto do que nosso conteúdo.


São detalhes e informações que já estavam à disposição, muitos até conheciam, mas que por falta de necessidade e diante de tantas outras preocupações pertinentes à época, preferimos deixar para depois  aprender —- “quando precisar, meu filho me explica”, pensamos .


Fomos empurrados em direção a um penhasco não para nos espatifarmos pela falta de oportunidade, mas pela necessidade de continuarmos, de seguirmos trilhando esse universo das solenidades, dos eventos, do aprendizado com o outro e da necessidade que temos de nos enxergarmos como cidadãos do mundo.

Enquanto ainda enfrentamos esse período triste que não nos permite o contato físico e o olhar instigante dos que participam de cerimônias, congressos e convenções, agregamos essas tecnologias que a partir de agora estarão presentes em praticamente todos os eventos, aproximando ainda mais as pessoas, mesmo que elas permaneçam em seus locais de origem, distantes umas das outras.

Apesar da expectativa —- e desejo —- de que voltaremos a nos encontrar e nos reunirmos em um mesmo espaço, essa infraestrutura que foi agregada às atividades permanecerá, facilitando o comparecimento daqueles que têm dificuldades para se deslocar, seja pelo acúmulo de compromissos na agenda seja pela carência de recursos financeiros.


Sendo assim, o que antes se iniciava com um “senhoras e senhores, bom dia …” agora se transformou em “senhoras e senhores, liguem suas câmeras, desliguem seus microfones, vamos dar início à solenidade e sejam bem-vindos ao novo mundo”. 

Christian Müller Jung é publicitário, cerimonialista, Mestre de Cerimônia do Palácio do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, colaborador do Blog do Mílton Jung, gremista e meu irmão.

Da H1N1 à Covid-19, o risco de confisco saiu do campo da imaginação à estratégia bélica de um governo sem rumo

Imagem de enriquelopezgarre por Pixabay
Imagem de enriquelopezgarre por Pixabay 

A mensagem do governador Ronaldo Caiado, de Goiás, soou como ameaça ao escrever no Twitter que o Governo Federal publicará medida provisória para requerer toda e qualquer vacina contra Covid-19 que estiver sendo produzida no Brasil. Requerer no vocabulário político é sinônimo de confiscar. Anúncio feito, repercussão em curso e, em seguida, surgem o “desmente daqui”, o “lustra dali” e o “desvia o assunto” —- típico deste campo em que a batalha pela vacina está sendo travada. Como neste jogo tem gado mas não tem bobo, o recado foi recebido com preocupação, especialmente em São Paulo, o principal alvo das pretensões bélicas do presidente Jair Bolsonaro e seu exército de ministros mambembes.

O Palácio dos Bandeirantes já montou sua sala de guerra para impedir que “tropas federais” invadam o Instituto Butantã — em lugar de fuzis e matracas, advogados e políticos planejam estratégias para impedir que alguma medida legal imponha a entrega do lote da Coronavac, produzida pela chinesa Sinovac. Talvez seja o caso de montar trincheira no STF que tem sido um dos cenários desta guerra vacinal e política que assistimos enquanto contamos mortos e feridos pelo verdadeiro inimigo: o vírus.

O risco de confisco da vacina, por mais absurdo que possa soar, não deve ser desdenhado. Lembre-se que à frente do Ministério da Saúde está um cidadão muito mais afeito a guerras do que a ciência; que tem como lema: “um manda e o outro obedece”. E quem manda é quem está na cadeira de presidente, atualmente ocupada por um ignóbil.

A tese do confisco federal já havia rondado os laboratórios farmacêuticos, com fábricas no Brasil, durante a pandemia do H1N1, em 2009 e 2010, que em 16 meses contaminou 493 mil pessoas e matou cerca de 18,6 mil pessoas, segundo a OMS —- em três meses, a Covid-19 já havia superado essas marcas. O vírus se espalhava em menor velocidade e era menos mortal do que o SarsCov-2. Tínhamos uma população de idosos que havia sido “imunizada” nas gripes asiática, de 1957, e de Hong Kong, de 1968, também causadas por outros vírus influenza. Soma-se a isso a existência de dois antivirais com potencial para conter os casos mais graves e amenizar os efeitos da H1N1: o principal deles era o Oseltamivir, que costumamos chamar de Tamiflu, aprovado pela primeira vez, nos Estados Unidos, em 1999, e produzido pelo laboratório Roche; o outro, usado em menor escala era o Zanamivir, descoberto em 1989 —- batizado Relenza pela Glaxo Smith Kine, fabricante da droga.

Os primeiros casos de H1N1 surgiram no México, em março de 2009; no Brasil, tivemos registros do vírus em abril; em junho, a OMS decretou situação de pandemia. Os países mais organizados passaram a fazer estoque principalmente de Tamiflu, como forma de garantir atendimento a sua população. No Brasil, o medicamento sumiu das farmácias, comprado por pessoas assustadas com o risco da doença. Nos estoques oficiais, segundo reportagem do Correio Brasiliense, de 8 de setembro de 2009, o governo tinha remédio suficiente para apenas 5% da população, quando a recomendação da OMS era de que o alcance fosse de 25%. 

Já no princípio da crise, a Roche traçava todos os cenários possíveis diante da que foi a primeira pandemia do século 21 —- desde uma situação sob controle, com pacientes contaminados pelo H1N1 tendo atendimento médico regular até uma tragédia humanitária, na qual faltariam leitos e remédios, com imagens que lembravam a Gripe Espanhola. De acordo com um dos executivos com quem conversei na época, o que mais preocupava era a inexistência de um plano de ação federal. O temor do fabricante —- por mais improvável que lhe parecesse: sem um planejamento, o governo poderia de uma hora para outra encomendar uma quantidade de remédio que excedesse a capacidade de produção; sem condições de entregar, a farmacêutica se transformaria em bode expiatório, acusada de segurar estoques para vender na rede privada e seria alvo de um confisco federal.

Não foi o que aconteceu. Mesmo com o crescimento do número de pessoas mortas e contaminadas, o sistema público de saúde e a rede privada de hospitais, com as adaptações necessárias e as restrições conhecidas, atenderam os pacientes de H1N1. Toda a produção de Oseltamivir foi canalizada para o setor público e distribuída para estados e municípios. No primeiro ano, foram mais de 28 mil casos e 1.632 mortes, no Brasil. Em 2010, houve uma redução drástica graças a campanha de vacinação contra a doença: 727 pessoas contaminadas e 91 mortes.

Pode-se traçar paralelos entre a pandemia de 2009 e a de 2020 porque sempre há lições a aprender do que fizemos no passado. Não há dúvida, porém, que a Covid-19 é única. É devastadora. As ações de combate a doença são muito mais necessárias e complexas — sequer temos um antiviral para amenizar seus impactos;  o planejamento precisa ser feito com o uso de inteligência e baseado na ciência; e o Brasil não tem um ministro da Saúde nem um Presidente da República com estatura para administrar essa crise. O confisco seria apenas mais um absurdo nesta sequência de erros que já nos levou a 181 mil mortes.

Alecir, um cidadão que reclamava por amor

Lá se foi nosso Alecir. Companheiro de primeira hora no Adote um Vereador, perdeu a batalha contra Covid-19. O coração sempre apaixonado pela mulher Virgínia e pela sobrinha Amanda tanto quanto pelas lutas em favor da cidadania não resistiu o esforço para respirar e o tempo de internação. Nesta madrugada, morreu aos 62 anos, em São Paulo.

Alecir Macedo esteve na primeira reunião do Adote, mais ou menos nesta mesma época do ano, em 2008, quando sentamos juntos em torno das mesa do Centro Cultural São Paulo. Eram lá os encontros presenciais que surgiram por iniciativa daqueles que aceitaram o convite para que atuássemos no controle do trabalho dos vereadores da nossa cidade. 

Depois fomos para o Pateo do Collegio. E o Alecir foi junto com a gente. Muitos ficaram pelo caminho. Desistiram da luta, mudaram o foco de atuação, desacreditaram no nosso trabalho ou tinham mais o que fazer na vida. O Alecir, não. Todo segundo sábado do mês costumava ser o primeiro a chegar depois de uma longa jornada de ônibus e metrô que se iniciava na Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo, onde morou por mais de 40 anos —- na época em que desembarcou na Cachoeirinha ainda existia a água correndo que dava nome ao bairro, me contou uma vez.

Alecir é de Jaguariaíva, interior do Paraná, onde também existem  cachoeiras. Chegou a São Paulo, em 1978. Sem dinheiro nem conhecimento e apenas com o convite de um cunhado, deixou a mulher e o filho pequeno na casa da mãe e se bandeou para a capital paulista. Aqui tinha apenas a indicação do parente: “desce perto do hospital da Vila Nova Cachoeirinha, atravessa a avenida e pergunta por mim no bar do outro lado”. Eram seis da manhã. O bar estava fechado. Sorte que o cunhado havia comentado que para chegar no endereço dele, bastava atravessar a avenida nova — a Inajar de Souza —- e procurar a casa verde, no alto de um barranco: “é a quarta casa”. Na divisa com a favela da Divineia.

O instinto de sobrevivência o fez encontrar o lugar, e do lugar arrumou emprego de auxiliar do departamento pessoal em uma transportadora, na avenida Marques de São Vicente. Lá trabalhou por 12 anos até chegar ao cargo de gerente de filial. Nem enchente nem todo tipo de encrenca que encontrou pelo caminho — e desde novo fazia questão de denunciá-las —, atrapalhou a construção de uma relação que se transformou em paixão pelo bairro.

Nosso amigo era um tipo curioso: poucos reclamavam tanto quanto ele; mas sempre reclamou por amor. Pelo verde da praça que os “nóias” ocupavam na frente de casa; pelo meio ambiente que os carros poluíam e as pessoas desrespeitavam; pela calçada que as concessionárias tornavam irregular; pelo céu que os prédios encobriram; pela cidade, que os políticos não cuidavam.

Ah, os políticos! 

Controlá-los e cobrá-los era seu esporte preferido. Enquanto pode, foi a Câmara para assistir às sessões, fuçou nas reuniões de comissões e tomava a palavra nas audiências públicas. De casa, monitorava os parlamentares pelo computador, gravava as imagens geradas pela TV Câmara na internet, editava vídeos, denunciava abusos e absurdos ditos em plenário, reproduzia brigas e publicava tudo no blog que levava o nome da Vila Nova Cachoeirinha. Quando percebia a ausência de algum vereador no trabalho, mandava e-mails e cobrava a resposta.  Na rua, fotografava a falta de semáforo, de luz, de cuidado e de respeito — enviava para jornais e vereadores.

Por amor, esteve com a gente até quanto pode. Até ser superado pelo desânimo há cerca de um ano. Mesmo assim, nos falávamos por telefone e trocávamos mensagens. Ele me ajudava a manter o site do Adote um Vereador que criou lá no início da nossa história. Até recentemente dava seus pitacos. Dia desses li e me ri: “político fazendo campanha de máscara economiza óleo de peroba…”, escreveu em uma rede social. Foi na rede que encontrei, também, como ele se definia: “cidadão brasileiro, com muito orgulho, cansado de sofrer nas mãos de políticos inescrupulosos”. 

Alecir se foi. Era um amigo. Sincero como devem ser os amigos. Engraçado de tanto que reclamava. Um daqueles caras que deixará saudade eterna pelo abraço que me dava, pelo carinho que sempre demonstrou e pelos puxões de orelha diante da minha desatenção a algo dito no rádio —- sim, além de tudo era um ouvinte frequente dos meus programas, desde os tempos do CBN São Paulo.

Se o Adote perdeu uma referência e São Paulo, um cidadão, posso lhe garantir que Deus arrumou sarna para se coçar. Mas não se incomode, Senhor: quando ele reclamar vai ser por amor!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo, escrito por Alecir Macedo, que foi ao ar em abril de 2013

Marcas que respeitam à pandemia conquistam a confiança do consumidor, mostra pesquisa global

Por Carlos Magno Gibrail

Ilustração: Pixabay

 

Desde que a pandemia teve início, surgiram lideranças negando os riscos sanitários, sociais e econômicos evidentes, principalmente no poder público, embora algumas empresas privadas, representadas por proprietários e executivos receosos de possíveis paralizações comerciais, também menosprezassem os riscos.  

Felizmente, a maioria das autoridades mundiais e dos líderes empresariais incorporaram a necessidade dos cuidados com a Covid-19, identificados pelas medidas preventivas tomadas.  Restava saber o que os consumidores pensavam e agiam em relação aos políticos e às marcas.

O voto responderia aos agentes públicos, e as pesquisas informariam às marcas.

O Grupo Edelman, agência global de comunicação, alinhada aos ODS-Objetivos de Sustentabilidade da ONU e interessada nas mudanças de comportamento do consumidor durante a pandemia produziu o Edelman Trust Barometer 2020 – Marcas em meio à Crise.

A pesquisa alcançou 8 mil pessoas na última semana de outubro na Alemanha, Brasil, Canadá, China, Estados Unidos, França, Índia, e Reino Unido.

De forma geral o estudo mostra que há um medo dos consumidores em relação ao vírus e reforça as necessidades dos cuidados em relação ao   comportamento social relacionado ao distanciamento e ao uso de máscara. Informa também a valorização da segurança e o propósito das marcas.

Especificamente, os brasileiros estão preocupados com a pobreza, o trabalho, as mudanças climáticas, o racismo cultural, e desejam que as marcas atuem neste sentido — inclusive na comunicação, em tom mais otimista, e ao mesmo tempo protecionista para os que sofrem com a crise. 

Pedimos para a porta voz da Pesquisa, Ana Julião, Gerente Geral da Edelman do Brasil, uma  conclusão sobre o trabalho realizado:

“O medo alterou as prioridades das pessoas e isso se reflete tanto no momento da compra quanto no que elas consideram responsabilidade das marcas e esperam das empresas. No lugar de imagem e status, os consumidores estão valorizando mais a segurança, além dos valores e propósitos das marcas, desejando que elas atuem para minimizar problemas sociais e pessoais. Nesse novo cenário, as marcas precisam saber como agir e como se comunicar. Nossas recomendações são reconhecer que os valores se voltaram para segurança pessoal, segurança econômica e qualidade de vida; redefinir abordagens de marketing, centrando-as na ação; mudar tom e mensagem para refletir o momento e atenuar medos por meio da voz de especialistas, de pessoas comuns e de canais que tenham credibilidade”, diz Ana Julião.

Ao que tudo indica, sob o aspecto político, valem as confirmações da corrente científica se sobrepondo ao negacionismo, vide resultado na eleição americana e também na brasileira.

 Quanto às marcas, deverão atender a seus consumidores com foco social e ambiental.  A pesquisa da Edelman é um indicador específico, e os ODS um guia geral.

Ilustração: Edelman

 

Para quem se interessar por uma relação dos tópicos para aplicação, veja os 11 itens apresentados pela divulgação da pesquisa: 


TOP 11 Da Pesquisa   

O MEDO AUMENTOU – Os brasileiros estão mais preocupados com o futuro de suas famílias, educação dos filhos e saúde física da família.  

OS VALORES SÃO OUTROS – O que mais importa agora para o brasileiro é se proteger e proteger sua família, e tomar decisões de compra inteligentes. O que menos importa é aproveitar o luxo e as chamadas “melhores coisas da vida”


MARCAS VISTAS COMO SALVADORAS — No Brasil, espera-se que as marcas resolvam tanto problemas sociais quanto pessoais. Isso se relaciona à pobreza, questões trabalhistas, mudança climática, racismo estrutural, além de bem-estar/otimismo e segurança. 

MARCAS MAIS CRIATIVAS E EFICAZES DO QUE O GOVERNO – Globalmente, 55% dos entrevistados acreditam que as marcas podem fazer mais para resolver problemas sociais do que o governo. A mesma porcentagem de entrevistados afirma que as empresas são mais responsáveis ​​e mais rápidas na hora de agir para mudar as coisas para melhor. 

CONFIANÇA É CRITÉRIO DE COMPRA – Os cinco P’s do Marketing ganham um T, de “TRUST” (confiança). Apenas preço e qualidade estão à frente da confiança na lista de critérios de compra. No Brasil, confiar na marca é importante ou essencial para 90% dos entrevistados.   

CONFIANÇA GERA FIDELIDADE – Globalmente, os consumidores com alta confiança na marca são mais engajados (60%), o que inclui o compartilhamento de dados pessoais; mais fiéis (75%) e dispostos a defender a marca (78%). No entanto, entre os brasileiros, apenas 37% afirmam que as marcas que usam estão fazendo um excelente trabalho em ajudar o país e o povo a enfrentarem os desafios de hoje — gerando grande oportunidade para as empresas em atuar para promover mudanças positivas.  

O PODER DAS AÇÕES – A confiança no negócio aumenta quando suas ações vão além do discurso. No Brasil, para 72% das pessoas é mais efetivo para uma marca gerar confiança quando ela toma medidas para ajudar trabalhadores e comunidades locais em tempos de crise, contra 28% que acreditam que é mais efetivo quando ela assume o compromisso publicamente. 


NÃO É O MOMENTO PARA AGRESSIVIDADE NAS VENDAS – 64% dos entrevistados no Brasil dizem que as marcas devem pensar primeiro na segurança do público, tendo cuidado ao encorajar pessoas a voltarem a lojas, restaurantes e outros locais públicos; enquanto 36% dizem que as marcas devem ajudar a estimular a recuperação econômica, encorajando as pessoas a voltar a lojas, restaurantes e outros locais públicos. ​

MENOS É MAIS’ NAS CAMPANHAS DE FIM DE ANO – Para a maioria das pessoas, não é o momento certo para grandes celebrações. No Brasil, 68% das pessoas dizem que querem que as marcas reduzam as festas de fim de ano, adotando um tom mais contido e moderado devido às dificuldades pelas quais muitos estão passando


MÍDIA CONQUISTADA E EXPERIÊNCIA PESSOAL SÃO CAMPOS DE BATALHA – Mídia paga aparece em último lugar entre os canais (23%), enquanto a experiência pessoal (de alguém sobre um produto) é a mais importante (59%), seguida pela mídia conquistada (44%) e conversa entre pares (39%). 


PARES E ESPECIALISTAS COMO FONTES MAIS CONFIÁVEIS – Usuários regulares (58%) e especialistas técnicos (50%) estão muito à frente das celebridades nacionais (35%) ou influenciadores (35%) como fontes confiáveis ​​de informação sobre o que uma marca está fazendo para dissipar as preocupações. (dados globais).

Aqui você acessa a pesquisa Edelman Trust Barometer 2020 – Marcas em meio à Crise.

Carlos Magno Gibrail é consultor, autor do livro “Arquitetura do Varejo”, mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.     

As mulheres e a pandemia: desafios que ultrapassam a luta contra o vírus

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

 

Foto: Pixabay

 

Em março de 2020, após a Organização Mundial de Saúde declarar como pandemia a doença causada pelo SARS-COV-2, a COVID-19, diversos países determinaram o isolamento social ou o “lockdown” como forma de reduzir a transmissão do vírus.

Isso causou uma modificação significativa na vida cotidiana, como restrições à mobilidade, impossibilidade de sair de casa para estudar ou trabalhar, perdas financeiras e redução do convívio social mais amplo. Possivelmente em decorrência desses fatores, as preocupações com a saúde física foram somadas à crise psicossocial, causada em grande parte pelo aumento dos transtornos mentais e da violência contra a mulher.

Relatórios policiais indicam que durante a pandemia as ligações para solicitar ajuda em decorrência da violência doméstica aumentaram em diferentes países, como na Argentina, Canadá, França, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos. Além disso, diversos estudos apontam que muitas vezes a mulher não solicita ou não reporta o ocorrido, especialmente quando a violência sofrida é psicológica. Como fator de agravamento, o controle do uso de redes sociais ou de acesso aos telefones e celulares também dificulta o pedido de ajuda, caracterizando a violência tecnológica.

Dados da província de Hubei na China, epicentro inicial da epidemia de coronavírus, mostraram que a violência doméstica havia triplicado em fevereiro de 2020, durante o lockdown. 

Na França, o período de isolamento social iniciou-se em 17 de março e em menos de um mês as denúncias feitas à polícia já mostravam um aumento de 30% nos índices de violência doméstica.

No Brasil, dados do 14º Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostraram um aumento de 3,8% no número de ligações efetuadas para o telefone de emergência da Polícia Militar relacionadas à violência doméstica e um aumento de 1,9% dos casos de feminicídio no primeiro semestre de 2020. Entretanto, houve uma redução no registro de outros crimes, como lesão corporal dolosa ou ameaça contra vítimas do sexo feminino, possivelmente pela dificuldade enfrentada pela mulher, durante o isolamento social,  para registrar o ocorrido, corroborando os dados encontrados em outros países. 

Um estudo realizado com 751 mulheres na Tunísia, durante o lockdown, identificou um aumento na violência contra a mulher de 4,4% para 14,8%, sendo o abuso psicológico o tipo de violência mais frequente, presente em 96% dos casos relatados. As mulheres que já tinham um histórico de doenças mentais e sofreram violência durante o lockdown apresentaram sintomas mais graves de depressão, ansiedade e estresse.

Dados sobre prevalência de transtornos mentais indicam que a ansiedade e a depressão acontecem com maior frequência nas mulheres do que nos homens. As causas dessa diferença não são totalmente conhecidas, mas acredita-se que isso resulte da interação entre fatores biológicos, como alterações hormonais, e fatores psicossociais.

Se por um lado existem fatores biológicos que aumentam a vulnerabilidade da mulher para os transtornos mentais, por outro, mulheres que são vítimas de abuso e violência apresentam um risco maior para depressão e suicídio, alertando sobre os efeitos nocivos de estressores ambientais para a saúde mental. 

A literatura sobre violência contra a mulher aponta que em todas as situações de crise, como guerras, desastres naturais ou epidemias graves, independentemente do país, a violência doméstica tende a aumentar. Na época do furacão Katrina, que atingiu os Estados Unidos em 2009, a ocorrência de violência física sofrida pelas mulheres quase dobrou (passando de 4,2% para 8,3%). Na Nova Zelândia, durante o fim de semana após o terremoto de 2010, a polícia relatou um aumento de 50% nas ligações sobre violência doméstica. Após o desastre de Fukushima, a violência física contra mulheres grávidas foi quatro vezes maior do que em outras regiões japonesas durante o mesmo período. 

O desemprego, problemas financeiros, dificuldades da vítima para buscar ajuda e o uso de álcool e drogas são apontados como fatores de risco para aumento da violência doméstica.

Um estudo realizado em 2014 por pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo em parceria com a Universidade Federal de Pelotas, com 938 mulheres na cidade de Vitória (ES), mostrou que quando seus parceiros usavam drogas ou álcool, elas ficavam mais vulneráveis à violência doméstica.

Com ou sem álcool, a violência masculina muitas vezes é aceita como um comportamento “normal” em situações de crise, como se a resposta agressiva contra a mulher fosse consequência natural de um momento de raiva ou sofrimento pessoal. Por outro lado, nessas situações, as mulheres são acusadas de reações exageradas ou o seu pedido de ajuda é simplesmente ignorado.

A violência contra a mulher é um fenômeno social complexo cuja questão central se concentra na desigualdade de poder nas relações, caracterizadas por subordinação, medo, dependência e intimidação para a mulher. Os comportamentos agressivos dirigidos à mulher têm a intenção de dominar o seu corpo, mente, vontade e liberdade, provocando danos físicos, morais e psicológicos.

Não se pode afirmar que a violência contra a mulher seja consequência direta da pandemia de COVID-19, mas há uma consequência da pandemia na saúde pública, causada pela intensificação desse tipo de violência, historicamente estruturada e muitas vezes silenciada, agravada pelo distanciamento social.

A violência contra a mulher não escolhe cultura, etnia, religião, classe ou escolaridade, mas a possibilidade de acesso à justiça e aos serviços de saúde pode ser diferente e promover desfechos também diferentes de uma mulher para outra. Triste realidade.  A impunidade aumenta o risco de feminicídio. A impunidade do agressor aumenta o sofrimento psicológico na vítima, com graves consequências para a sua saúde mental.

Enquanto alguns países se preparam para o fim do isolamento social, outros reiniciam o processo de lockdown pelo aumento de novos casos. A pandemia de COVID-19 continua exigindo medidas de prevenção: contra o vírus invisível, imperceptível; mas também contra comportamentos que não podem mais ser aceitos, que causam danos terríveis às vítimas.  A violência contra a mulher faz adoecer e pode ser fatal,  porém medidas de prevenção também podem ser adotadas e, assim como na pandemia, exigem atitudes de todos, numa ação conjunta, que se mostre capaz de promover o respeito e a igualdade de direitos.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento: inscreva-se no canal 10porcentomais no Youtube.

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

O cérebro na pandemia: mulheres têm até 3 vezes mais chances de apresentar transtornos mentais

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagem: Pixabay

 

Diversos estudos têm mostrado o potencial do coronavírus (SARS- COV-2) de invadir o sistema nervoso central, promovendo alterações estruturais e funcionais no cérebro de pacientes com COVID-19. Apesar de não haver precisão no número de pessoas afetadas e no tempo de duração das alterações neurológicas e psicológicas causadas pela COVID-19, pesquisas realizadas em diferentes países sugerem que uma parcela significativa da população mundial experimentará as consequências dessa pandemia na saúde mental.

Um estudo realizado na Espanha sobre os prejuízos psicológicos causados pelo COVID-19 revelou aumento de 7% dos casos de depressão, com maior vulnerabilidade para pessoas de baixo nível socioeconômico, mulheres e pessoas com rede de apoio fragilizada. 

Na China, país no qual surgiram os primeiros casos, os resultados dos estudos mostraram aumento no índice de ansiedade, depressão e uso nocivo de álcool, quando comparados com os índices populacionais anteriores à pandemia.

Um estudo conduzido pelo Instituto de Psicologia da UFRGS avaliou os indicadores de sintomas de transtornos mentais e identificou que ter a renda familiar reduzida, causada pelos impactos econômicos da pandemia, fazer parte do grupo de risco e estar mais exposto a informações negativas, como o número de mortos e infectados, são fatores que podem provocar maior prejuízo para a saúde mental. 

No Brasil, semelhante aos dados do estudo espanhol, as mulheres têm quase 3 vezes mais chances de apresentar transtornos mentais durante a pandemia. A violência doméstica sofrida durante o isolamento social é um dos fatores que contribui para essa estatística.

Além dos impactos emocionais relacionados à pandemia, prejuízos nas funções cognitivas, como atenção, memória e processamento de informações também estão sendo reportados em diversos estudos, como consequência de alterações no cérebro, mesmo em pacientes que tiveram a forma leve da doença.

As medicações usadas no tratamento da COVID-19 podem também promover alterações neuropsiquiátricas como amnésia, delírio, alucinações, mudanças de humor, comprometimento cognitivo leve e psicoses.

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Com base em dados obtidos em epidemias anteriores, como a síndrome respiratória aguda grave, ocorrida em 2003, e a síndrome respiratória do Oriente Médio, em 2012, 78% das pessoas apresentaram problemas cognitivos até um ano após a alta hospitalar.

Falhas de memória para situações cotidianas, como esquecer de tomar medicamentos ou compromissos, foram persistentes até cinco anos após a alta. Naquela época, foram identificados prejuízos cognitivos semelhantes aos que pesquisadores estão observando na pandemia atual, com falhas na atenção, memória, processamento de informações e funções executivas — habilidades cognitivas que envolvem planejamento e realização de tarefas.

Do mesmo modo que não é possível saber o número exato de pessoas que já foram contaminadas pelo coronavírus, possivelmente o número de pessoas impactadas por alterações neuropsiquiátricas também não está bem dimensionado. Assim, tão importante quanto as medidas de prevenção adotadas inicialmente, propostas terapêuticas e de reabilitação devem ser planejadas para atingir as necessidades específicas de cada pessoa, reduzindo as sequelas causadas pela doença, oferecendo ganhos no estado mental e na qualidade de vida do paciente e de seus familiares. 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung