Avalanche Tricolor: a tentação de uma crônica

Foto de Dominika Roseclay no Pexels

Toda vez que penso em escrever, me imagino cronista — autor desse estilo de escrita que nos aproxima do cotidiano, que surgiu com a intenção de oferecer um relato cronológico dos fatos. Ao longo do tempo mudou, sua intenção e formato. Ficou a ideia de textos inspirados nos acontecimentos diários, que tiveram seu auge nos anos 50 e 60, publicados nos jornais brasileiros, atiçando o interesse do leitor que via o comezinho do seu entorno ganhar contornos de literatura, tornando-se ele também personagem do fato. 

Imediatamente à imagem que surge no meu pensamento, sou instado a encarar a realidade e minha limitação. Logo lembro de história contada por um dos bons cronistas deste tempo —- que por privilégio da profissão, posso conversar toda sexta-feira, ao vivo, na rádio. Em um dos comentários, ainda na época do Liberdade de Expressão, Artur Xexeo contou que, ao ser chamado para o palco onde receberia um prêmio de melhor cronista, iniciou sua fala de agradecimento com um ato de humildade: “eu nunca me vi cronista ….”. O que levou um dos que se viam como tal que estavam lá para prestigiar o evento, cochichar em alto e bom som:  “e não é mesmo!”. 

Registre-se: a despeito da arrogância do colega de palco, Xexeo é sim um excelente cronista na palavra escrita e falada —- e para quem ainda tem dúvidas, ligue o rádio às sextas-feiras, sete e pouco da manhã, ou abra O Globo aos domingos. 

Se o Xexeo pode ser questionado pelos cronistas de plantão, imagine então o tamanho de meu atrevimento pensar em fazer crônicas toda vez que começo a escrever neste blog. Para evitar constrangimento ao Xexeo, ao Rubem Alves, a Martha Medeiros, o Otto Lara Resende, a Rachel de Queiroz, ao Zuenir Ventura —- todos integrantes de uma rica lista de cronistas brasileiros —- recolho-me a minha insignificância e decido, imediatamente após imaginar-me cronista, limitar-me a ser um blogueiro, seja lá que isso signifique para você.

Travestido de blogueiro, escrevo a Avalanche Tricolor, desde 2008 (se não me falha a memória), que alguns podem confundir com crônica esportiva, apesar da minha confessa parcialidade na escrita. Relato minha paixão pelo Grêmio e me esforço para tê-la como único foco, sem jamais atacar ou até mesmo citar o adversário —- convenhamos, para falar mal dos outros já existem outros. Tento encontrar em cada jogo jogado uma inspiração, e cumpri essa tarefa em momentos bem difíceis desta jornada esportiva. Neste espaço, falo com o caro e raro leitor —- cada vez mais caro e raro —-, logo após as partidas disputadas. Poucas vezes adiei a tarefa. Mais raro ainda foi não dizer uma só palavra sobre nosso desempenho em campo. Pois não é que isso aconteceu nesta semana. 

Tivemos dois jogos disputados —- e nenhum deles aqui relatado. Um no domingo, às nove e meia da noite, goleamos; outro na quarta, às dez da noite, empatamos. Partidas que se encerraram tarde, muito tarde para coincidir com o toque de recolher em vigor no Rio Grande do Sul e impedir aglomeração de torcedor. Escrever me deixaria com pouco tempo de cama, já que às quatro da manhã tenho de estar em pé para trabalhar. No dia seguinte, tarefas de toda ordem me ocuparam o tempo, e a tristeza das notícias me roubaram inspiração. 

Nesta manhã de Sexta-Feira Santa, no silêncio de um dia de feriado, encontrei-me com o blog e com o desejo de escrever uma crônica. Quanta pretensão! Um pecado! Especialmente ao perceber que é tentação expressa em data na qual os católicos reservamos para refletir sobre a humildade de um homem santo que se entregou à cruz e à humilhação para nos salvar. Que Deus me perdoe! E os cronistas, também.

Quintanares: Pequena crônica policial

 

 

Poesia de Mário Quintana
Publicada em Antologia Poética
Interpretada por Milton Ferretti Jung

 

“Jazia no chão, sem vida,
E estava toda pintada!
Nem a morte lhe emprestara
A sua grave beleza…
Com fria curiosidade,
Vinha gente a espiar-lhe a cara,
As fundas marcas da idade,
Das canseiras, da bebida…
Triste da mulher perdida
Que um marinheiro esfaqueara!
Vieram uns homens de branco,
Foi levada ao necrotério.
E enquanto abriam, na mesa,
O seu corpo sem mistério,
Que linda e alegre menina
Entrou correndo no céu?!
Lá continuou como era
Antes que o mundo lhe desse
A sua maldta sina:
Sem nada saber da vida,
De vícios ou de perigos,
Sem nada saber de nada…
Com a sua trança comprida,
Os seus sonhos de menina,
Os seus sapatos antigos!”

Dedicatórias no sebo

 

Luis Cosme pode ser apresentado como jornalista paulista, desde que não comece a falar. O sotaque carioca foi cuidadosamente preservado e parece fazer parte do nome dele. Nascido no Rio, onde brincou e se formou, trabalha nas redações paulistanas há 23 anos. Cruzei com ele na TV Cultura, onde foi repórter de destaque por um bom tempo. Esteve na Globo e está na Record no papel de editor. Descubro, agora, que é, também, escritor tendo lançado recentemente o livro “Ponte Aérea” no qual apresenta crônicas que relatam a vida nas duas cidades.

Aqui no Blog, reproduzo uma delas para que você sinta o sabor do que ele conta e, depois, vá se deliciar com o livro em mãos. Bom proveito:

Gostei da frase: “São Paulo se ergue sobre si mesma, se constrói, se destrói, se levanta sobre suas ruínas…”. Quem a disse foi um arqueólogo que se referia à velocidade com que novos prédios surgem e enterram o que existia antes.

Acredite, até cemitérios já foram sepultados.

Há alguns anos, descobriram resquícios de um cemitério
de escravos no bairro da Liberdade. Quem sabe não está aí a explicação do nome do bairro?

Mas São Paulo sempre nos dá a chance de um outro olhar. A cidade tem fortes laços com seu passado. Por exemplo, que outra capital brasileira tem tantas e tão boas feiras de antiguidades?

Minha preferida é a da Praça Benedito Calixto, no bairro de Pinheiros. Aos sábados, pelo menos cem antiquários vendem suas relíquias. Já aos domingos, é dia da feira no vão livre do Masp, o Museu de Arte de São Paulo, na Avenida Paulista. Fui lá procurar qualquer coisa sem saber direito o quê. Como dizia aquele sucesso de Chico Buarque, estava à toa na vida… Mas como a banda não passou nem ia passar, uma prosa com um daqueles antiquários resolveria minha angústia.

Esses senhores e senhoras (aliás, você conhece algum jovem antiquário?) têm sempre um sorriso e sabem a distância exata entre a gentileza e a insistência. Oferecem suas preciosidades e sempre acrescentam uma informação sobre a porcelana, o mármore, o estilo de uma cadeira. Se é verdade ou não é outra história, mas eu faço de conta que é.

Por experiência própria, sabem que menos de 10% dos frequentadores vão comprar. A grande maioria está ali para passear, olhar e, acima de tudo, pegar.

— Tem gente que só sabe observar com as mãos — reclama em tom confidencial o seu Nelson.

O vizinho dele vende retratos, discos e postais. Cartões-postais cuidadosamente guardados em caixas de papelão. Quase todos são de cidades estrangeiras: a Praça Vermelha em Moscou, os canais de Veneza, as livrarias da Charing Cross em Londres. São dezenas, centenas de cartões. Todos antigos e o melhor: escritos!

O vendedor conta que seus fornecedores são famílias que se desfazem dos bens do pai ou de um avô já morto e que não tem onde guardar a papelada. Ele percebe o brilho dos meus olhos e incentiva: que se eu quisesse poderia ler, já levantando e oferecendo-me um banco. Elias, morador do bairro de Higienópolis, é o destinatário de quase todos.

Não sei você, mas eu já tive muita vontade de violar uma correspondência alheia… Estava ali, portanto, a chance de realizar um antigo desejo e sem complicações futuras!

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