Grêmio 0x1 Cruzeiro Brasileiro — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)
Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA
A gente insiste. Persiste. Sabe dos limites, mas não desiste. Acredita. Espera o milagre. A bola que desvia no zagueiro. Quem sabe um pênalti revelado pelo olho do VAR, um chute abençoado pela sorte, um lance fortuito — ou a falha do goleiro.
Assim tem sido a vida do torcedor gremista. Que dureza torcer por este time. Mas o jogo começa, e a esperança renasce. A bola rola, e a gente se ilude. Vibra com duas trocas de passe certas. Se satisfaz com o esforço na marcação. Aplaude o talento de Arthur. Quem sabe é agora?!? Bola pra fora.
Quando o adversário começa a pressionar, a gente começa a orar. Praguejar. Torcer. Se retorcer. Esperar pelo erro no passe, pelo tropeço no gramado, pelo chute mal dado. Pela defesa de Volpi.
Aí vem o escanteio, a marcação se perde, e o grandalhão deles faz o gol de cabeça. Pode ser no domingo, como em São Paulo; pode ser no meio da semana, como hoje, em Porto Alegre. Tanto faz o calendário — o gol deles acontece. E o nosso… bem, o nosso parece que só sai por acaso. E se o acaso não aparecer, o que nos resta é lamentar.
Lá se foi mais uma chance de pontuar. Um pontinho que fosse já me bastava. Mas é o que temos pra este ano: um ponto aqui e, quem sabe, outro acolá. Na maioria das vezes, nem ponto aqui, nem outro lá. Só nos resta secar.
Cruzeiro 1×1 Grêmio Brasileiro – Mineirão, Belo Horizonte/MG
Um ponto a mais na conta e três de distância daquela “zona-que-você-sabe-qual-é”. Com o empate em Belo Horizonte, o Grêmio se mantém na Série A, ocupando uma posição desconfortável, à frente de apenas dois outros clubes que também enfrentarão, nas próximas rodadas, o mesmo martírio que nos acompanha desde o início desta temporada no Campeonato Brasileiro.
Mais uma vez, saímos na frente no placar. O gol veio logo cedo, marcado por Braithwaite, que, novamente, brilhou em uma jogada iniciada e concluída por ele. Após a bola passar pelos pés de Aravena e João Pedro em um contra-ataque bem arquitetado, Braithwaite finalizou com um toque de calcanhar, sutil e cheio de classe, o suficiente para mandar a bola para as redes. Foi o tipo de lance raro que trouxe um momento de felicidade em uma temporada onde a felicidade tem sido um artigo de luxo.
No entanto, como tem sido a regra, não conseguimos sustentar a vitória que poderia nos dar um alívio. A fragilidade defensiva do time nos condena. Cedemos tanta pressão ao adversário que o gol de empate parecia inevitável – e ele veio ainda no primeiro tempo.
Na segunda etapa, mostramos um pouco mais de organização na marcação, conseguindo resistir à presença constante do adversário em nosso campo. Ao menos, seguramos o empate até o apito final, mantendo viva a luta pela permanência na elite.
É pouco, muito pouco, para um clube da grandeza do Grêmio. Mas, por ora, é o que temos. A melhor notícia da noite é saber que só faltam três partidas para o fim do campeonato. Apenas três. E, de alguma forma, eu vou aguentar até lá.
Panamenhos assistem, no terraço do bar, à Copa América Foto: eu mesmo
Acompanhei pela atualização do Google a partida do Grêmio. Era meu primeiro dia de férias e acabara de chegar ao Panamá, onde tinha uma agenda intensa de atividades, considerando que só ficaria um dia por aqui, antes de partir para outro destino. Fui surpreendido pelo que vi. Não na tela do celular, mas nos passeios previamente planejados. Surpreendi-me ao conhecer lugares impressionantes e histórias curiosas deste país da América Central, que costumo usar apenas como ponto de passagem para a América do Norte ou o Caribe.
É incrível como unir a capacidade da engenharia e o poder da natureza possibilitou o funcionamento do Canal do Panamá, inaugurado às vésperas da Primeira Grande Guerra Mundial, em 15 de agosto de 1914. É um país resiliente, também. Com sua importância geográfica, matas ricas e ouro a ser extraído foi explorado por franceses, espanhóis e americanos, entre outras nações e povos. Foi vítima da ditadura e de políticos gananciosos. Mas resiste!
Tem riqueza e diversidade na sua floresta, que se parece com a nossa Amazônia. Beleza em suas praias, especialmente as do lado do Caribe. E uma capital que se expressa por arquitetura pujante, mesmo que de gosto duvidoso, a partir de prédios intermináveis de tão altos. No centro antigo, Casco Viejo, a reforma de parte das estruturas e a transformação em patrimônio histórico fizeram do local uma atração à parte, seguro para passear e com culinária típica.
Panamá não é um país tradicional no futebol. O pessoal parece se dar melhor com tacos de beisebol nas mãos. Porém, deparei-me com uma curiosidade. Sem uma seleção local de prestígio, os panamenhos se divertem torcendo para seleções alheias, especialmente as sul-americanas. Adoram o Brasil e estavam decepcionados com nosso desempenho na Copa América. Vibram com a Argentina, especialmente por causa de Messi. E têm rixa com a Colômbia, contra quem já enfrentaram algumas batalhas violentas — e não foi nos campos de futebol.
Na noite de ontem, enquanto ainda me refazia de mais uma chulapada que levamos no Campeonato Brasileiro, as atenções na cidade do Panamá estavam voltadas para a semifinal da Copa América, entre Colômbia e Uruguai. Não havia um restaurante que não tivesse com a televisão sintonizada no jogo. Em alguns bares, situados no topo dos prédios baixos do centro antigo, havia festa e muita gente reunida para torcer. Na praça principal algumas pessoas estavam sentadas ao lado da catedral de onde conseguiam acompanhar à distância o telão de um bar no alto do prédio.
Por motivos óbvios estava mais interessado na comida servida à mesa e na conversa divertida sobre o início das férias. Só fui me atentar à partida quando Suárez apareceu ao lado do gramado para entrar em campo e tentar salvar o Uruguai. Foi um momento de nostalgia. Que saudade de nosso atacante! Aquele que nos levou ao vice-campeonato brasileiro, ano passado, a despeito de todos nossos defeitos.
Comecei a imaginá-lo de volta ao Grêmio e chegando para nos tirar dessa situação vexatória que estamos enfrentando. Puro exercício de imaginação, porque é evidente que o atacante uruguaio não tem a menor pretensão de retornar ao Brasil. Para piorar, pelo que assisti nas telas dos restaurantes panamenhos, há algumas situações no futebol que sequer Suárez resolve.
Jogadores comemoram gol em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Teve Geromel de volta. E com a braçadeira de capitão. Mais do que isso, com Kannemann também recuperado, tivemos o retorno da melhor dupla de zaga que já vestiu a camisa do Grêmio, neste século. Que enquanto esteve em campo não perdeu uma só disputa de bola. Adiantou-se ao marcador para impedir a sequência da jogada. Despachou o perigo quando o lançamento chegou a nossa área. E nos fez relembrar a imagem clássica deles levantando todos os troféus que conquistamos na última década.
Teve Luan no meio de campo vestindo a camisa 7, mesmo que apenas nos 15 minutos finais. Ouvir a torcida gritando seu nome, pedindo para que entrasse, já valia o ingresso. Diferentemente da primeira vez em que retornou ao time, foi mais acionado. Tocou a bola com leveza. Tabelou com seus colegas. Cadenciou o jogo. Esforçou-se na marcação. E acionou na mente de cada um de nós — caros e raros gremistas que leem esta Avalanche — uma série de cenas inesquecíveis de quando fomos campeões da Libertadores e Luan, o Rei da América.
Foi um jogo para, também, matar a saudade recente de Suárez que estava há oito partidas sem marcar o seu, coisa rara na jornada esportiva do terceiro maior goleador em atividade no mundo. Registre-se: não ter feito gols diz muito mais de como atuamos nas últimas partidas do que propriamente do desempenho do atacante; assim como não diminuiu sua importância no elenco a medida que nos faz muito maior sempre que está em campo. Agora, em 36 partidas, Suárez marcou 14 gols e deu 11 assistências. Um prazer que poucos torcedores no mundo terão para contar.
O jogo deste fim de domingo, que nos elevou a terceira posição do Campeonato Brasileiro, mexeu com essa emoção nem sempre fácil de definir: a saudade. Até o toque de bola no meio de campo que se sobrepôs ao do adversário nos remeteu às glórias mais recentes. A começar pelo talento de Pepê que comparam com o de Michael, outro genial que vestiu nossa camisa e nos levou aos últimos grandes títulos. Foi dele, Pepê, o terceiro gol em uma jogada que nos fez lembrar os bons tempos de triangulação, aproximação e forte movimentação no ataque.
A categoria de Pepê fez fluir melhor o futebol de Villasanti, Carballo e Cristaldo — os dois últimos com participações decisivas nos gols da vitória. Cristaldo foi quem, no primeiro gol, roubou a bola no ataque e serviu Suárez; e quem, no segundo, bateu a falta com rapidez, encontrou Suárez que de calcanhar entregou para Carballo colocar com categoria nas redes.
O Grêmio, hoje, foi um time que matou a minha saudade!
O Grêmio entra no Mineirão como um Gigante, foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Beiro os 60 anos. Está logo ali. E ainda sofro como aquele guri lá da Saldanha Marinho. MeoDeosDoCeo! Como sofro! Sofro por antecipação. A partida mal havia se iniciado no Mineirão, aquela torcida imensa contra nós e do outro lado do campo um campeão legítimo de Copas, assim como nós — e frente a tudo isso, eu pensava como conseguiríamos ser maior do que tudo aquilo. Havia um misto de temor pelas dificuldades do jogo anterior e de esperança pela recuperação do futebol nas últimas duas partidas. Em meio as dúvidas, o sofrimento.
Ainda no início da disputa, aos sete minutos, houve aquela bola mal cabeceada, que por desejo próprio se encaminhava às nossas redes. Confesso, não conseguia mais imaginá-la em outro destino. Foi então que surgiu o pé salvador de Bruno Alves para inverter a história e a despachá-la para fora quando estava prestes a cruzar a linha do gol. Eu sofria e Bruno se fazia gigante!
Em dez minutos, Kannemann recebeu o primeiro cartão amarelo do jogo quando teve de interromper lá no campo adversário uma tentativa de ataque em alta velocidade. Sacrificou-se mais uma vez e se colocou em risco, considerando as exigências que viriam nos demais 80 e tantos minutos que faltavam. Eu sofria com a possibilidade de expulsão. Apesar disso, nosso zagueiro não arrefeceu. Marcou muito. Travou todas as bolas que se aproximavam da nossa área. E foi gigante como Bruno. Já havia sido na partida anterior quando nos livrou de uma derrota.
Aos 27, a presença e pressão de Luis Suárez diante dos zagueiros os fez titubearem em uma saída de bola. Suárez não perde oportunidade. Se na partida anterior aproveitou uma das poucas chances que teve para chegar ao empate que nos manteve vivo na decisão, agora foi dele a roubada de bola e a assistência para o gol. Suárez é gigante pela própria natureza! E apesar de termos esse gigante mundial, eu sofria!
O gol foi de Villasanti, o volante! Há muito tempo, o paraguaio chega na área. E com pé lá dentro sempre se coloca como alternativa. Desta vez, nem precisou entrar. Recebeu o passe de Suárez um pouco antes da risca da grande área e bateu firme para as redes. Mas Villa não é gigante apenas pelo gol marcado. O é por todos os desarmes que é capaz de fazer durante o jogo. Pela maneira como fecha os espaços, impede a chegada mais forte do adversário e sai jogando quando domina a bola. Sofro até vê-lo interceder.
Lá atrás, ninguém foi maior do que Gabriel Grando. Fez defesas de todos os tipos. Nas cobranças de escanteio espantou o perigo. Nos chutes de fora da área estava bem posicionado. Nos raros espaços que os atacantes adversários encontraram dentro da área, Gandro também se agigantou. Defendeu uma, duas, três e quantas vezes mais foram necessárias para impedir o gol de empate, enquanto eu sofria!
Bruno Uvini, Fábio, Reinaldo, Carballo, Cuiabano, Bitello e todos os que entraram em campo foram gigantes ao seu modo. Lutaram até onde dava. Marcaram com força. Esforçaram-se mais do que podiam. Souberam jogar o jogo das Copas. E eu sofria como em todas as Copas!
O Grêmio foi gigante nesta noite de Copa do Brasil e está nas quarta-de-final. E eu quero o direito de continuar sofrendo até a conquista do título, assim como sofro desde os tempos daquele guri da Saldanha.
Luis Suárez comemora o gol de empate em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Aos 16 do primeiro tempo, a bola foi no travessão e estivemos prestes a assistir a um dos mais belos gols da Arena. Já estávamos correndo atrás do placar —- e dos atacantes adversários, também — quando Carballo lançou por cima da zaga em direção a Luis Suárez. Nosso atacante dominou e ficou de costas para o zagueiro e para a goleira. Esboçou uma bicicleta, único recurso que ainda lhe restava naquele momento dentro da área. Lamentou-se Luisito e todos nós torcedores, pelo gol que não se fez e pela obra prima que não se completou.
Aos 35 do segundo tempo, a perfeição se realizou. A jogada teve como coadjuvantes Galdino e Bitello que apareceram no corredor direito para conduzir a bola que vinha da defesa. Galdino, recém-entrado, encostou para Bitello, naquela altura deslocado para a lateral em lugar de Fábio, que havia cansado. Luis Suárez se desprendeu dos dois marcadores, recuou um pouco e livre recebeu a bola.
Nesse momento, a pressão sobre ele era inevitável, mas Luisito é Luisito e tem muito mais recursos à disposição do que a maioria dos jogadores deste planeta. Fez uso de um deles. Raro no futebol como se pode ver na descrição que copio a seguir, do Wikipedia:
“Trivela é um tipo de passe/remate aplicado no futebol. É uma técnica de passe/remate pouco utilizada pela generalidade dos futebolistas, pois exige uma particularmente elevada capacidade técnica. Executado com a parte exterior do pé, é de difícil execução, mas também de grande espetacularidade e imprevisibilidade”.
Sim, foi de trivela. Lá de fora. Com lado externo do pé direito. A bola saiu veloz e com direção certeira: o ângulo esquerdo da goleira adversária. O goleiro parecia não acreditar, enquanto os marcadores dele assistiam de uma posição privilegiada o lance mais lindo da partida e um dos mais bonitos já protagonizado na Arena.
Um presente para o torcedor que sofria frente ao futebol mal jogado, a falta de repertório na movimentação e o alto risco que corremos durante toda a partida — haja vista o lance em que Kannemann mais uma vez expressou sua bravura e insistência em permanecer vivo ao evitar o segundo gol, ao fim do primeiro tempo. Uma alegria que o time nos deve há alguns jogos e só foi paga pela genialidade de nosso atacante.
Suárez ensaia arrancada em direção ao gol em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBA
Começo com uma confissão, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche. Estou enferrujado! Talvez algum de vocês possa pensar que é a proximidade dos 60 anos — duvido muito. Haverá alguém que colocará a culpa na falta de atividade física — posso provar que treino com regularidade e forte. E o que dirá: “deixa de bobagem, Mílton, você está muito bem”. Mesmo que não tenha razão, aceitarei o elogio porque ouvi de meu colega e filósofo Mário Sérgio Cortella que a modéstia é nojenta, por falsa que soa e porque diante dela você obriga o outro a elogiá-lo novamente.
De volta à ferrugem que impede o funcionamento de algumas engrenagens que desenvolvi ao longo dos muitos anos escrevendo essa Avalanche. Os que me leram no passado — quando os leitores eram caros, mas não raros — sabem que desde a criação desta coluna, em janeiro de 2008, com as exceções de sempre, sou bastante disciplinado em meu propósito: falar do Grêmio! E falar bem, porque mal tem muita gente que já é craque em fazê-lo. Escrevi a Avalanche em alguns dos mais tristes momentos da nossa história como o rebaixamento (toc-toc-toc) de 2021. Fui fiel a escrita mesmo diante de algumas goleadas acachapantes. Resiliente, mantive-me tão firme que houve época em que esta coluna era reproduzida em outros blogs gremistas que estavam cansados dos corneteiros.
Neste ano, convenhamos, não tem sido difícil elogiar o Grêmio. Fizemos a maior contratação do futebol brasileiro, reforçamos o time, tivemos bons desempenhos em campo e, mesmo quando a bola não rolava redonda nos gramados, vencemos uma atrás da outra. Já conquistamos dois títulos regionais e seguimos em frente na Copa do Brasil. Nestes meses todos de 2023 — estamos no fim de abril —, só havíamos tido uma derrota e, mesmo assim, sem muita importância. Foi fácil me virar nas palavras.
O fato é que deparo com a segunda derrota do ano, a primeira no Campeonato Brasileiro, e já na segunda rodada da competição. De tão desacostumado em ter de driblá-la, fiquei sem palavras para explicá-la, a tal ponto que só estou escrevendo essa Avalanche no domingo, um dia depois do mau resultado. Espero manter a ferrugem para essas situações e não ter de me acostumar com o fato!
Gol de Diego Souza, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
O escanteio foi cobrado para o meio da área, onde havia aglomeração de adversários, mas mesmo com os espaços aparentemente ocupados, Diego Souza apareceu imponente sobre todos, subiu alto e no movimento de cabeça fez a bola sair do alcance do goleiro e parar dentro das redes. O gol de empate do Grêmio saiu em um momento difícil da partida, quando estávamos atrás no placar, caminhando para o fim do primeiro tempo e potencializando os questionamentos que temos sobre as qualidades do time — o que tornaria a volta para o jogo bastante complicada.
Diego descobre gols onde muitos de nós duvidamos. Usa de seu corpo para conter o tranco dos zagueiros, limpa o campo para que os companheiros se apresentem, batalha contra os adversários e sua condição física —- impactada pela idade. Lidera o time, mesmo quando não está com a braçadeira de capitão. Conversa com os mais jovens, posiciona os colegas, esbraveja para mexer com o brio de quem pensa em baixar a cabeça e compartilha palavras de incentivo quando percebe que alguém se abateu com o erro. Ainda joga com a torcida, porque sabe que tem crédito na Arena — hoje marcou seu décimo segundo gol na temporada.
Mal iniciado o segundo tempo, o esforço de Diego para recolocar o Grêmio na partida foi recompensando em uma das melhores jogadas que o time fez nessa competição —- considerando participação da equipe, marcação intensa, precisão nos passes, movimentação correta e, claro, conclusão.
O lance se iniciou na entrega de Biel para roubar a bola e impedir o contra-ataque do adversário no meio de campo. O desarme de nosso atacante virou passe para Villasanti, que da intermediaria lançou Ferreirinha. Nosso ponteiro esquerdo usou da habilidade para chamar a marcação, enquanto Nicolas fazia a ultrapassagem. Assim que percebeu Nicolas em condições de receber, Ferreirinha entregou a bola no ponto certo. Nosso lateral esquerdo com apenas um toque cruzou para Bitello, que entrava em velocidade no meio da área, para completar de cabeça, e dar vantagem no placar. Um golaço pelo conjunto da obra.
Ali aparecia o Grêmio que os torcedores gostariam de ver jogando o tempo todo. Havia os ingredientes de um time capaz de voltar à Primeira Divisão com tranquilidade — o que, nesta altura do campeonato, não duvido que aconteça. Claramente, o Grêmio tem pontuação, equilíbrio e força para ficar entre os quatro primeiros colocados. Estamos distante oito pontos do primeiro time fora da zona de classificação.
O espetáculo não foi completo porque um ‘bate-cabeça’ na nossa área permitiu o empate, quando o jogo parecia mais bem resolvido para nós. Um lance que — assim como o do segundo gol — talvez também diga muito do Grêmio que vem sendo reconstruído desde a tragédia que foi 2021. É capaz de ajustar-se em alguns momentos; e desconjuntar-se em outros. Aliás, tem sido esse o desafio de Roger: manter o time na parte mais alta da tabela, arriscar momentos de iluminação — como os dos gols de Diego e Bitello —- e reduzir os riscos nos instantes de sombra.
Em tempo: antes de fechar essa Avalanche deparei com mais um torcedor de rede social espumando sua raiva contra Roger, como seo treinador não tivesse mérito algum e a ele cabesse toda a responsabilidade pelos cometidos. Chamava-o de convarde. Logo lembrei-me do time que montou para enfrentar o principal adversário da competição. O volante que escalou em lugar de Campaz estava dentro da área adversária quando marcou seu gol. As mudanças que fez ao longo da partida — mesmo as por questões físicas — tinham a intenção de levar o Grêmio mais para frente e pressionar o adversário no campo de ataque, jamais segurar o resultado. E quando o gol de empate saiu não se fez de rogado: tirou um zagueiro e escalou um meia-atacante. Covardia é atacar as pessoas, por preconceito ou intolerância.
É Dia das Mães! Dia de lembrar da Dona Ruth, que nos deixou cedo para os tempos atuais, estava com apenas 49 anos. Apesar de a despedida precoce, ensinou muito, ofereceu carinho e compartilhou gentileza aos filhos, parentes e amigos. Tinha personalidade forte, tomava à frente nas grandes batalhas da vida e cultivou uma incrível capacidade de unir a família. Saudade daquela feijoada de domingo, mãe!
De futebol entendia pouco, e torcia muito. Era gremista, como todos nós. Mas torcia muito mais pela felicidade do pai e dos filhos do que propriamente para o time pelo qual torcíamos. Sabia que um bom resultado, nos faria voltar para a casa com sorriso no rosto e comentários animados. Era a garantia de um jantar dominical recheado de histórias que eu não cansava de reproduzir à mesa como se fosse eu o narrador de futebol da família.
Entendia, como poucos e poucas, o coração deste que lhe escreve —- talvez o que mais sofria na família diante de reveses futebolísticos.
Seu abraço assim que eu retornava do Olímpico ou alguma partida pelo interior do Rio Grande do Sul, após uma derrota, era apaziguador. Nenhuma palavra de consolo era melhor do que o aconchego de seus braços. Bastavam-me!
O ápice da sensibilidade vinha na manhã seguinte, quando eu acordava ainda entristecido pelo resultado do dia anterior. A mãe sabia bem o que se passava dentro de mim, em especial diante das perdas mais retumbantes para aquela época — a derrota em um clássico regional ou, pior, de um título gaúcho. Ter de encontrar-me com os amigos na rua ou nas atividades extra-escolares aumentaria minha dor. Era a certeza de que seria “corneteado” pelos torcedores adversários.
Cúmplice do meu abatimento, Dona Ruth se antecipava a qualquer pedido de súplica para me ausentar dos compromissos externos e me propunha alguns convites irrecusáveis: “hoje o tempo não está muito bom, quer voltar pra cama?”; você não parece muito bem, será que está resfriado? Fica em casa hoje!”. Era a maneira dela dizer que entendia meu sofrimento e estava ali para me proteger.
Dona Ruth não está mais por aqui para me consolar das derrotas gremistas. Não que hoje necessitasse desse afago. O tempo me ensinou a encarar as perdas de uma forma diferente, em especial no futebol. Mostrou-me que ganhar e perder é do jogo. O importante é aprender com os altos e baixos. Mas bem que ela poderia estar aqui com a gente, seria uma ótima maneira de passar este domingo e dizer a ela o quanto eu sempre a amei!
Pepê e Ferreira, a nova geração em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA
Havia pouco a ganhar na partida desta noite, em Porto Alegre. Nosso destino já estava traçado quando entramos na Arena. Em 2020, mais uma vez estaremos na Libertadores da América — a 12ª vez no século e a 20ª na história — e, novamente, pela porta da frente. Os três pontos diante de um adversário desesperado eram previstos. E, provavelmente, viriam com naturalidade. Sem muito esforço. Com calma, toque de bola — mesmo que alguns desses toques sem a precisão com a qual nos acostumamos — e um pouco de pressão, alcançaríamos a vitória.
O destino porém quis nos mandar um recado. Um feliz recado. Mostrar que mais importante do que a vitória era comemorar o futuro do Grêmio que se apresentava em campo.
Renato já havia iniciado a partida com um dos nossos talentos emergentes, Pepê, que está com 22 anos e fez uma temporada incrível com gols em momentos decisivos. Um atacante que está pronto para ser titular ao lado ou —- dependendo o que acontecer — no lugar de Everton, o “veterano” de 23 anos, considerado o melhor jogador em atividade no Brasil.
Nosso guri Pepê foi quem deu a arrancada para a vitória, levando a bola pelo lado esquerdo e enxergando um companheiro livre do outro lado da área. Quem apareceu por lá foi Ferreira, ou Ferreirinha, ou Aldemir Ferreira —- seu nome ainda será melhor escolhido no ano que vem —- que entrou no segundo tempo e demorou pouco para ratificar sua fama de goleador, construída nos times de base: aos 21 anos marcou seu primeiro gol com a camisa profissional do Grêmio. Ainda deu drible, chapéu e nova dinâmica a um ataque que estava acomodado frente à apatia do adversário.
O mesmo Pepê nos encaminhou à vitória definitiva ao driblar, cair e voltar a driblar marcadores desnorteados com sua velocidade. Ele passou por quatro até ser derrubado dentro da área e conquistar o direito de cobrar o pênalti e se estabelecer como um dos principais goleadores da temporada, mesmo ainda não tendo ganhado o crachá de titular.
Além de Pepê e Ferreira, ainda tivemos o privilégio de assistir aos primeiros passos de Isaque, também com 22 anos, e rever Patrick, com 21 e jeito de moleque. Todos esses jovens comandados no meio de campo por outro que amadureceu mais cedo do que eles, mas divide a mesma idade: Matheus Henrique apesar de jogar como um “senhor volante”, não esqueça, caro e raro leitor desta Avalanche, tem apenas 22 anos.
O futuro do Grêmio se apresentou na Arena nesta noite de quinta-feira. E ouviu das arquibancadas uma mensagem bastante positiva quando nossos torcedores, no segundo tempo, aplaudiram a entrada de Pedro Rocha no time adversário e, ao fim, gritaram o nome de Edílson — a mensagem de que aqueles que se dedicarem à camisa tricolor serão respeitados para todo e sempre.