Varejo brasileiro precisa seguir Darwin, Drucker e os americanos

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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Se a qualificação de adaptação à mudança é essencial para a preservação de espécies, segundo Darwin, e negócios segundo Drucker, é hora de agir. As vendas do varejo nacional, que representa 22% do PIB e 20% dos trabalhadores, estão em queda, e os custos em alta.

 

Enquanto a indústria através da MP com o PPE – Programa de Proteção ao Emprego começa a equacionar a questão da mão de obra, o varejo precisa de legislação específica para o setor.

 

A jornada de 44hs semanais ou mesmo a de 6hs conveniadas em acordos coletivos não atendem às necessidades atuais do varejo. As equipes foram reduzidas e não correspondem às necessidades nas horas de pico. É preciso flexibilizar os períodos de acordo com o fluxo das lojas e oferecer oportunidade de trabalho aos jovens e idosos.

 

O varejo norte-americano, por sinal o maior do mundo, com 30% de participação no seu PIB, tem a prerrogativa de contratação flexível. A convergência entre o horário de oferta e demanda trará redução de despesa e aumento de venda. É por isso que um grupo de 15 entidades representativas do varejo, entre elas FACESP- Federação das Associações Comerciais de São Paulo, Fecomercio SP, SBVC – Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo, desde maio, estão pleiteando mudanças na legislação trabalhista. E,em reportagem de Claudia Rolli na Folha de segunda-feira citam que a Victoria`s Secret de New York tem 200 funcionárias flexíveis, bem como a Wal-Mart que contrata maiores de 55 anos como repositores de prateleiras.

 

Nelson Kheirallah da FACESP aposta no contingenciamento que habilitará os sindicatos trabalhistas e patronais na configuração das necessidades de cada momento. É por isso que as idas à Brasília têm sido frequentes. Kheirallah juntamente com o grupo dos 15 já visitaram o vice Michel Temer, o ministro Afif Domingos da Micro e Pequena Empresa, o ministro Manoel Dias do Trabalho, e esperam em breve estar com outras tantas autoridades quanto necessário para aprovar as melhores condições de trabalho específicas para o varejo.

 

Fazemos votos que as autoridades absorvam a sapiência de Darwin e Drucker e executem a eficiência norte-americana do varejo.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

Conte Sua História de SP: Zuzu e Darwin

 

No Conte Sua História de São Paulo, Zuleide Oliveira Monteiro de Castro, nascida em 1948, na capital. Aos 12 anos conheceu o amor da sua vida. Eles quase dançaram juntos na festa junina da segunda série, mas alguém se intrometeu no romance, como ela contou ao Museu da Pessoa, em outubro de 2008:

Ouça o texto que foi ao ar no Conte Sua História de São Paulo, sonorizado pelo Cláudio Antonio

Fui da primeira turma da Escola Estadual Wolny de Carvalho Ramos, em 1958, quando da expansão do ensino no estado de São Paulo. O velho Wolny chamava-se Ginásio Estadual de Água Rasa e funcionava à noite no prédio do Grupo Escolar Professor Theodoro de Morais. Naquele tempo a escola era bem diferente. Embora mista, os meninos e as meninas não se comunicavam, ficavam segregados, meninas de um lado e meninos do outro de uma linha imaginária, mas muito respeitada, que dividia o pátio. Na sala de aula? Conversas? Nem pensar.

Com 12 anos eu já estava na segunda série do ginásio e estudava à noite! Havia um loirinho, lindo, de olhos azuis, na minha turma, que por sorte era mista. Eu o achava o máximo! Apesar de só olhar de longe e quase não ouvir a sua voz, pois era tímido e ficava absolutamente calado durante todas as aulas. A distribuição da sala de aula era assim: por ordem alfabética, quase duas fileiras de meninas. Eu lá, na última carteira de meninas, ao lado da Zilda. Atrás de nós sentava o Constantino e isso nos proporcionava a oportunidade de trocar umas palavrinhas e uns bilhetinhos com ele e seu parceiro. As carteiras, antigas, eram duplas.

Constantino, esperto como ele só, logo percebeu o meu interesse pelo Darwin, o loirinho de olhos azuis, e resolveu dar uma de cupido. Tentou marcar um encontro entre nós no Cine Vitória, lá na Álvaro Ramos, mas o cinema era um pouco longe da minha casa, o dinheiro era curto, e papai muito severo. Então, não deu certo.

Começou então a brincadeira. No início das aulas ele passava um bilhetinho: “O Darwin é casado”. No segundo, escrevia: “O Darwin é casado e tem um filho”. No terceiro: “O Darwin é casado e tem dois filhos”. E assim, sucessivamente. Ao final da quinta aula, o meu loirinho já tinha mais de 50 filhos, segundo as notícias do colega casamenteiro. Ríamos como só riem os adolescentes.

Mas, de repente… chega a grande oportunidade. A Professora Cida, de Português, prontificou-se em ensaiar a quadrilha para a Festa Junina. O Constantino seria o sanfoneiro, o que lhe deu um certo prestígio com a nossa mestra.

–- Professora, será que a Zuzu (esse era o meu apelido, como mascotinha da turma) poderia dançar com o Darwin?

Dona Cida, uma mocinha muito “pra frente”, topou na hora. Os ensaios eram aos sábados, no galpão, atrás da escola. Constantino no fole:

((Taratantan-tan-tan-tan. Taratantan-tan-tan-tan… Taratantan-tan-tan-tan, ra-ta-tan-tan-tan… ))
 
O baile na roça foi até o sol raiar… O loirinho, do alto de seu metro e sessenta, dançou o tempo todo calado, olhando por cima da minha cabecinha oca de menina. Não trocamos uma palavra sequer. Mas foi ótimo, não via a hora de chegar o próximo sábado para dançar com aquele garoto tão lindo!

No dia da festa eu estava uma maravilha, vestido estampado de florzinhas vermelhas, chapéu de palha com laço de fita, batom vermelho nos lábios e até uma pintinha feita com carvão na bochecha, para ficar bem catita. Ensaiei o dia inteiro o que iria falar para não perder a última chance de conversar com meu amado. Meus olhos brilhavam mais que a lua de inverno. Não é que a Lúcia, uma coleguinha bem mais velha e, portanto, bem mais alta, chegou na festa toda arrumadinha e sua mamãe foi pedir à professora Cida que ela participasse da quadrilha:

–- Sabe, professora, minha filha não veio aos ensaios porque ela me ajuda no salão. E a senhora sabe como é o movimento no fim de semana…

O pedido viera a calhar. Estava faltando uma dama para o terceiro par da fila, um garoto baixinho, que eu já nem lembro quem era, mas sei que era quase do meu tamanho. Foi quando aconteceu o pior: lá fui eu dançar com o nanico e a Lúcia saiu pelo terreiro nos braços do meu loirinho. Perdi a última oportunidade. Era junho, mas aquele namoro às antigas não conseguiu evoluir até o final do ano. O Darwin repetiu e eu fui para a terceira série.

Estamos em agosto de 2008, e enquanto digito este texto, o Darwin está dando mamadeira para uma das minhas netinhas gêmeas, de três meses. Ele é meu marido desde 1994. Como isso aconteceu? Isto é uma outra história de São Paulo. Ah, um detalhe: ele já não é tão alto assim ..

Conheça a segunda parte desta história aqui

O depoimento de Zuleide Oliveira Monteiro de Castro está no Museu da Pessoa. Você também pode contar mais um capítulo da sua cidade. Marque uma entrevista ou envie um texto para o site do Museu da Pessoa. Se quiser mande o texto para mim: milton@cbn.com.br, vou ficar bem feliz de conhecer a sua história.

A praça e a evolução da espécie

 

Por Carlos Magno Gibrail 

Vinícius de Morais não deve andar nada satisfeito com o que estão fazendo na sua praça. Ronie Von também, pois  de alguma maneira sempre cantou e louvou genericamente a permanência: “o mesmo banco, a mesma praça”…

Nem mesmo Toquinho, pois especificamente a reinaugurou há sete anos, após agressiva ação promocional de recuperação feita pelo então BankBoston, investindo aproximadamente meio milhão de reais em valores da época.

A verdade é que estamos presenciando mais uma vez a repetição do agressor solto e o agredido preso. Ou, o raptado beneficiando o raptor.

Para defender os usuários da Praça Vinícius de Morais, situada em invejável paisagem no bairro do Morumbi, de frente ao jardim do Palácio dos Bandeirantes, a subprefeitura do Butantã está reformando o piso da Avenida Giovanni Gronchi mudando sua inclinação para permitir uma velocidade hoje ultrapassada pelos autos. Além disso, está também colocando “guardrail” de pista de corrida, objetivando proteger os pedestres que utilizam a praça, do perigo dos veículos que ali trafegam.

É o crescente princípio dos pedestres sem calçadas em favor dos automóveis, dos muros altos cobrindo as fachadas de casas e prédios, de isolados condomínios exclusivos, de ruas sendo fechadas impedindo  seus moradores do contato externo e mesmo interno, eliminando de vez a figura do vizinho.

Em suma, os carros livres, os bandidos soltos e os civilizados cidadãos presos em suas casas e praças.

Não podemos deixar de reagir nesta fase da síndrome de Estocolmo, quando cidadãos esclarecidos defendem o benefício dos agressores, pois a fase seguinte é um Darwinismo surpreendente. Os seres mais resistentes, entenda-se mais acomodados, se habituam às condições desfavoráveis, e surgem os novos seres. Adaptados às adversas condições de sobrevivência, submissos ao novo ambiente dominado pelos automóveis e poluição ambiental crescente.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve no Blog do Mílton Jung às quartas-feiras.