De Einstein

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

O exercício de desapego e escolha me leva a recomeçar mais uma vez. Não quero dizer com isso que vá tentar apagar a vida vivida para recomeçar do zero, porque é impossível; bom motivo para nem tentar. Gosto de cada
minuto que tenho vivido, e não pretendo virar as costas para nem um desses minutos. Nem dos claros, nem dos escuros. É a vida, dizia a mamãe, a cada acontecimento.

 

Sei que sou, também, o resultado de tudo o que vivi e de como vivi, e gosto de quem sou. A vida tem me levado a rir a chorar, e tenho aprendido com os dois movimentos dela, que às vezes são rápidos demais para eu
absorver e crescer, e outras vezes um arrastar sem fim, quando sinto que remo sem parar, e não saio do lugar. Mas, enquanto há vida, há chance de viver de peito aberto, de aprender e crescer. De aproveitar a viagem. E
assim vou atrás do estar-bem. Do meu e do mundo que me cerca.

 

Ainda envolvida com o este-vai-este-fica de papéis e livros, espirro, lavo as mãos um exagero de vezes e rasgo pilhas, em tiras e mais tiras. Não os livros, é claro. Num dos papéis encontrei um texto com minha letra de menina, escrito com tinta verde, com a caneta que ganhei do meu pai quando entrei no ginásio, sem fazer o quinto ano. Tinha um exame chamado muito propriamente de Exame de Admissão, logo depois do quarto ano primário. A gente passava por uma tensão parecida com a do vestibular, e eu passei direto. Ganhei uma Sheaffer e usei tinta verde, por muito tempo. Mas enfim, o texto era um fragmento do livro “Como vejo o mundo” de Albert Einstein, lançado em 1953.

 

Fala o mestre!

Educação em vista de um pensamento livre

Não basta ensinar ao homem uma especialidade, porque se tornará assim uma
máquina utilizável, mas não uma personalidade. É necessário que adquira um
sentimento, um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido,
daquilo que é belo, do que é moralmente correto. A não ser assim, ele se
assemelhará, com seus conhecimentos profissionais, mais a um cão ensinado
do que a uma criatura harmoniosamente desenvolvida.

Deve aprender a compreender as motivações dos homens, suas quimeras e suas
angústias, para determinar com exatidão seu lugar exato em relação a seus
próximos e à comunidade.

 

Se você quiser ler o texto todo, encontrei o livro inteirinho disponibilizado na Biblioteca Virtual Espírita.

 

Dá para guardar na biblioteca do seu leitor de livros. Encontrei o trecho que copiei em priscas eras, como diria minha amiga Maryur, na página 16 do livro.

 

É isso.

 

Bom domingo, bom feriado, diminue a velocidade nas curvas, e até a semana
que vem.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De desapego e liberdade

 

Por Maria Lucia Solla

 

Carmen Miranda – E o mundo não se acabou por thevideos no Videolog.tv.

 

Final de ano é como semana de véspera de prova; a gente estuda tudo o que não estudou durante o ano. É muita pressa. É engolir sem mastigar. Na contramão do fluxo, vou devagar. Remexo meus guardados para limpar, me desfazer, me desapegar, e me vejo cercada de papel por todos os lados. Adoro papel e me apego a ele. A limpeza é das boas. Papel é só o começo da saga, e me dou conta, no processo, de que não sou apegada, grudenta, mas estou apegada a um anel aqui, umas peças trazidas de viagens que só me trazem lembrança e sensação boas e uma coisa ou outra. É isso. Só as boas. E papel.

 

 

Sentei no chão, e dei de cara com o que não esperava encontrar. Assim de primeira, tirei um maço do meio de uma das pilhas e ganhei meu presente de Natal. Encontrei textos escritos por participantes de um trabalho de consciência, comunicação e expressão, em Extrema, Minas Gerais, e de outro aqui em São Paulo. Comecei a ler um por um, um daqui, outro de lá, lembrando da imagem de muitos deles, alguns sem associar o rosto ao nome, e fui me emocionando, fui crescendo, de fora pra dentro, de cima pra baixo e de baixo pra cima.

 

Com essa história que a gente vira e mexe constrói de acaba ou não acaba o mundo, a gente acaba se esquecendo de viver. Na opinião abalisadíssima da minha amiga Tânia, os Maias não escreveram mais porque acabou a tinta. Encurtaram a história, e pronto. Claro que comprei essa possibilidade, na hora, mas o fato é que a gente sempre inventa uma coisa ou outra para não se dar conta da vida que jorra, que se doa. Doa a quem doer.

 

No trabalho de encerramento daqueles eventos, pedi que os participantes olhassem para suas vidas aos oito anos e depois aos oitenta, e que escrevessem o que tinham visto, em muito poucas palavras.

 

Quanto ao passado, teve quem daria um dedinho para retocar, e teve quem se satisfez com o que viu e viveu; mas com o futuro foi diferente. O futuro mostrou satisfação, paz, celebração, realização de sonhos, certeza. No futuro tinha família, amigo, amor, aceitação do passado, que incluia aquele agora de cada um, naquele momento. Tinha consciência da colheita, tinha experiência de farol, tinha sonho, projeto e esperança. Sempre. Fruto de cada presente, de cada pensar, de sentir diferente do que se fez até então, a cada dia. Dá para reajustar esse brinquedo chamado Tempo, aceitando que ele não é linear, mas concomitante; e que podemos ter acesso a tudo isso agora, hoje, como presente, na hora, e sempre que quisermos. É só treinar.

 

Ou não.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung