Mundo Corporativo: André Clark, da Siemens Energy, fala do desafio de transformar o potencial energético do Brasil em desenvolvimento

Bastidor da entrevista online de André Clark Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“O Brasil é uma potência energética, não só na produção de energia, mas na cadeia de valor da energia.”
André Clark, VP Siemens Energy

O Brasil está numa posição rara no mundo: tem energia renovável em larga escala, uma malha de transmissão avançada e agora começa a atrair data centers e novos investimentos porque consegue oferecer eletricidade verde e em quantidade. Mas, segundo André Clark, vice-presidente sênior da Siemens Energy para a América Latina, isso não garante por si só que o país liderará a transição energética, é preciso organizar setor privado, governo e sociedade para implementar o que o mundo já decidiu fazer em clima. Esse foi o tema central da entrevista dele ao programa Mundo Corporativo, na CBN.

Clark lembrou que o país não chegou ao atual patamar por acaso “O Brasil é um país que produz 92% da sua eletricidade de forma renovável. Não chegou aqui à toa e certamente não por acidente. Foi com políticas públicas muito bem feitas que datam da década de 60”, afirmou, citando hidrelétricas, Proálcool, eólica e solar como escolhas feitas ao longo de décadas. Ele também destacou o papel diplomático brasileiro no tema: “O Brasil é um líder geopolítico disso. Na Rio 92 inicia a discussão do conceito de sustentabilidade na sociedade e nos negócios.”

Transição energética não é teoria: é implementação

Ao analisar a preparação do país para a COP30, em Belém (PA), Clark chamou atenção para o fato de que o debate climático está mais difícil no cenário internacional, mas que isso não pode servir de desculpa para a inação. “A humanidade ainda tá lutando para não aquecer mais de 1,5ºC, mas nós estamos perdendo essa corrida e nós vamos ter que correr muito mais, eletrificando os transportes, reduzindo o consumo de hidrocarbonetos e mudando o nosso estilo de vida como pessoa. O planeta não aguenta tudo isso que nós estamos fazendo.”

Para ele, a COP30 será uma conferência de execução: “Ela celebra 10 anos do Acordo de Paris e ela é uma COP da implementação.” Por isso, o setor privado brasileiro precisa chegar unido, com propostas concretas. “A primeira lição de casa do setor privado é se unir em uma agenda comum brasileira e construtiva.”

Clark fez um alerta que interessa diretamente ao país: o mundo, hoje, corre atrás primeiro de segurança energética, e só então de transição energética. O Brasil, ao contrário, vive um momento de excesso de energia renovável — e isso também exige gestão. “O mundo não tá preparado para acumular energia em larga escala. A energia produzida tem que encontrar do outro lado um consumo. Se ele não encontra esse consumo, o operador nacional do sistema tem que fechar aquela fonte.”

Na prática, isso significa que o país precisa acelerar soluções como armazenamento, baterias, hidrelétrica reversível e, principalmente, atrair consumidores intensivos de energia — caso dos grandes data centers e, no futuro, da produção de hidrogênio verde. “Nós estamos vivendo excesso de energia. Por isso que hoje o Brasil começa a atrair data centers, grandes devoradores de energia.”

Cadeia de valor, empregos e formação profissional

Ao falar da atuação da Siemens Energy no Brasil, Clark explicou por que produzir equipamentos no país é questão estratégica: “Tudo que a gente produz são equipamentos ultracríticos para o sistema energético de um país. Ter fabricação no país é um ativo estratégico, é quase uma questão de soberania nacional.” Segundo ele, a presença industrial no Brasil permite atender emergências e ainda exportar.

Esse movimento vem acompanhado de outra transformação: a dos empregos. A transição energética, afirmou, já está criando demanda por mão de obra técnica. “A transição energética vem junto com o que a gente chama de green jobs e esse green jobs, apesar de parecer só um mistério, é eletricista, técnicos em eletrônica, programadores, programadores de sistemas energéticos… coisa que existe hoje, só que em um volume muito maior.” Ele citou, inclusive, a decisão de direcionar recursos para formação no Pará, em vez de levar uma grande comitiva à COP.

Diversidade como proteção empresarial

Na parte final da entrevista, Clark ligou transição energética, cultura e gestão de pessoas. Para ele, empresas que se afastam da sociedade correm mais riscos. “Diversidade nos enriquece, reduz os riscos e nos faz enxergar os momentos em que a sociedade muda. Os grandes incidentes empresariais na última década foram quando a empresa perdeu visão da mudança da sociedade. Diversidade conecta a empresa à realidade da sociedade.”

Ele defendeu que organizações mantenham canais abertos para ouvir mulheres, negros e população LGBTQIAP+ sobre obstáculos internos. “Não é sobre como a gente erra, é sobre como a gente corrige os nossos erros.”

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: a força das memórias que não se apagam

foto: divulgação

Há marcas que não se apagam com o tempo. Permanecem vivas na memória como o cheiro de um lugar, a textura de um objeto ou o som de uma escada antiga. São parte de um “patrimônio histórico na mente das pessoas”. Esse foi o ponto de partida do comentário de Jaime Troiano e Cecília Russo, no quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, do Jornal da CBN..

Durante uma viagem a Poços de Caldas, cidade mineira onde viveu parte da infância, Jaime reencontrou lembranças de 70 anos atrás, intactas. “Antes de passar pelas portas das termas, eu já sabia qual o cheiro que iria sentir. E bingo, senti o mesmo cheiro de décadas atrás”, contou. Mas não foi só o olfato que o transportou no tempo. “A escada de madeira escura, de embuia, ainda estava lá. O mesmo ranger dos degraus me fez voltar setenta anos em alguns segundos.”

Essas sensações, segundo ele, são matéria-prima para quem trabalha com marcas. “Quem não se lembra de sons famosos que as marcas usam brilhantemente? O plim-plim da Globo, o tan-tan-tan-tan da Intel…”

Cecília Russo acompanhou a viagem e observou como certas experiências ficam gravadas com nitidez na memória. “Quando o Jaime ficou frente a frente com o Palace Hotel, os olhos dele marejaram. A fachada e os jardins estavam preservados no ‘patrimônio histórico da mente dele’.” Para ela, o episódio mostra que, embora as marcas precisem evoluir, há elementos que devem ser mantidos. “Modernizem, façam o rebranding que quiserem, mas nunca apaguem o padrão de imagem original com que a marca apareceu no mercado e ficou registrada em nossas mentes.”

A marca do Sua Marca

Toda marca relevante ocupa um espaço afetivo na lembrança de quem a vive. Como disse Jaime Troiano, “sua marca somente será um sucesso se ela não se perder pelo caminho”. É preciso atualizar-se sem apagar o passado, conservar o som dos degraus e o perfume das termas, porque é neles que mora o verdadeiro patrimônio histórico de uma marca: aquele guardado na memória das pessoas.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Conte Sua História de São Paulo: estive lá no dia em que o metrô foi inaugurado

Clênio Caldas

Ouvinte da CBN

Photo by sergio souza on Pexels.com

Na manhã de sábado, 14 de setembro de 1974, tudo apontava para um acontecimento aguardado há tempos pela população de São Paulo: o início da operação comercial do Metropolitano de São Paulo!

Desde 1968, quando as obras de construção do novo sistema de transporte coletivo começaram, ali no bairro do Jabaquara, confluência das avenidas Fagundes Filho e Jabaquara, numerosas ruas, avenidas, praças, sofreram severa intervenção de máquinas, caminhões e operários que rasgaram o solo e aprofundaram escavações para implantar o corredor Norte-Sul do metrô da cidade.

O povo paulistano suportou com paciência os transtornos de interdições, alteração de itinerários de linhas de ônibus e alternativas diversas para o trânsito caótico da capital paulistana. 

O serviço de bondes, tradicional e histórico na cidade, fora definitivamente encerrado em abril daquele ano. Era preciso dar lugar à moderna tecnologia. Paulatinamente, a obra foi seguindo o curso da linha pioneira que ligaria o bairro do Jabaquara, na zona sul, à outra extremidade, no bairro de Santana, zona norte. A extensão para além de Santana, para o bairro do Tucuruvi, ocorreu somente anos mais tarde.

Dois anos antes, em 6 de setembro de 1972, como parte das celebrações do Sesquicentenário da Independência do Brasil, fora inaugurado o pátio de manobras do metrô no Jabaquara, com as presenças do governador Laudo Natel e do prefeito José Carlos de Figueiredo Ferraz. Ali estávamos prestigiando o grande evento e cumprimentando as autoridades. 

Nos fizemos presentes, também, na viagem inaugural da operação comercial, mantendo até hoje o bilhete, picotado por fiscais. Embarcamos na composição que rumou da estação Jabaquara para a estação Vila Mariana, percorrendo apenas as estações Conceição, São Judas, Saúde, Praça da Árvore, Santa Cruz, até alcançar a estação terminal provisória, Vila Mariana. Daí em diante, outros trechos foram sendo liberados gradativamente à medida que as obras eram concluídas.  

Mais de cinquenta anos decorridos daquela radiosa manhã! O sistema metroviário foi ampliado gigantescamente: além da Linha 1-Azul, vieram as Linhas 2-Verde, 3-Vermelha, 4-Amarela e 5-Lilás; foram acrescentadas a Linha 15-Prata do monotrilho e a integração com as linhas da CPTM, formando um extenso complexo metroferroviário na Grande São Paulo

Dentro de algum tempo, a linha 6-Laranja passará a integrar essa rede. 

Nestas cinco décadas minha admiração pelo Metrô de São Paulo não esmoreceu, pelo contrário, se converteu em orgulho genuíno por esse transporte, a ponto de traçar comparações com outros sistemas visitados nas cidades de Chicago, Boston, Nova Iorque, Washington, Toronto e Santiago do Chile. 

A todas nosso metrô se destaca e se sobrepõe! Declarei isto em visita monitorada ao CCO, a convite da Direção do Metrô, anos passados, dirigindo palavras a funcionários reunidos no anfiteatro local. 

Este é o meu testemunho de brasileiro, residente há 70 anos nesta megalópole, e ainda na expectativa de participar de outras inaugurações do melhor e mais elogiável sistema de transporte sobre trilhos, o Metrô da Cidade de São Paulo!!!

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Clênio Falcão Lins Caldas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias, visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

As lições do breve espetáculo dos ipês, em São Paulo

Por alguns dias, São Paulo esquece o cinza. As ruas ganham tons de amarelo, roxo, rosa e branco. Os ipês resolveram florescer juntos, contrariando o calendário e criando um espetáculo improvável para o inverno. Normalmente, cada espécie tem seu tempo: os ipês-amarelos, por exemplo, costumam abrir suas flores por apenas cinco a sete dias; os roxos preferem o início da primavera; os brancos se reservam para o fim de setembro. Desta vez, decidiram se sobrepor, como se a cidade precisasse de um intervalo de cor. E bastou uma fala aos ouvintes, durante o Jornal da CBN, para que nosso WhatsApp fosse tomado pelas imagens captadas pelos moradores da cidade.

O biólogo José Milton Longo, ouvido pela CBN, explica que a surpresa maior está no comportamento do ipê branco, que “se adiantou” um mês e pode até florir de novo em setembro, estimulado pelo calor alternado com frentes frias. A natureza se adaptando, ou, quem sabe, reagindo. A floração simultânea, ao mesmo tempo em que encanta, é também um lembrete de que as mudanças climáticas já afetam o ritmo natural da vegetação.

O curioso é que toda essa beleza tem prazo de validade. As flores dos ipês-amarelos, por exemplo, caem quase na mesma velocidade com que surgem, deixando no chão um tapete que dura mais tempo do que a própria festa na copa. É justamente essa brevidade que nos faz olhar para cima. Se os ipês florissem por meses, talvez nem repararíamos. O que nos prende o olhar não é o volume — é a exclusividade do instante.

Talvez haja aqui um recado para nós, que vivemos num tempo de excesso: mais informações, mais reuniões, mais notificações, mais barulho. Os ipês parecem nos ensinar que atenção não se conquista pela permanência, mas pela raridade. A beleza não está em estar sempre presente, mas em saber quando aparecer.

Por isso, olhe agora. Admire o amarelo vibrante, o roxo intenso, o rosa delicado, o branco raro. Daqui a alguns dias, tudo isso será memória, e os galhos voltarão ao silêncio. Talvez seja essa a lição maior: para chamar atenção, menos pode ser mais — e a vida, assim como os ipês, também tem seus breves momentos de flor.

‘Roubo de boné’ no US Open transforma inocente em alvo de linchamento virtual

Reprodução de vídeo na internet

Foi um gesto rápido, quase instintivo. No último fim de semana, durante o US Open, o tenista polonês Kamil Majchrzak decidiu coroar uma vitória de virada presenteando um garoto, chamado Brock, que estava na plateia, com o chapéu que usara na partida. O menino, nas primeiras fileiras, esticou a mão, mas um adulto avançou antes dele e pegou o boné.

O vídeo do momento se espalhou como pólvora. O homem foi identificado como Piotr Szczerek, CEO da empresa polonesa Drogbruk. Bastaram alguns segundos de exposição para que ele se tornasse um dos personagens mais criticados da internet.

Pressionado, Szczerek pediu desculpas públicas, admitindo o erro e explicando que acreditava que o boné era para seus filhos. Devolveu o chapéu, enviou presentes para Brock e publicou uma retratação. O caso parecia resolvido — mas estava apenas começando.

A fúria da internet

A viralização do vídeo acendeu uma reação coletiva. Milhares de comentários, mensagens e avaliações negativas tomaram as redes sociais. Porém, num detalhe que passou despercebido, parte dessa fúria foi mal direcionada: os “justiceiros digitais” confundiram a Drogbruk, empresa de Szczerek, com a Drog-Bruk (com hífen) — outra companhia de pavimentação polonesa, sem relação alguma com o episódio.

O dono da Drog-Bruk, Roman Szkaradek, acordou no dia seguinte ao jogo com mensagens de estranhos o chamando de “ladrão de chapéu”. Em poucas horas, seus perfis pessoais e os canais da empresa foram inundados com ataques, xingamentos e até ameaças.

“Sou um empreendedor honesto. Construí minha marca por mais de uma década, e, em dois dias, ela foi destruída”, disse Szkaradek ao New York Times.

O bombardeio de avaliações negativas derrubou a reputação online da Drog-Bruk para 1,2 estrelas. Telefone e redes sociais ficaram incontroláveis. Mesmo explicando que não tinha qualquer ligação com o episódio, Roman viu suas tentativas de defesa apenas multiplicarem as ofensas.

Troca de identidades

O equívoco se deu por um detalhe quase imperceptível: Drogbruk e Drog-Bruk são nomes parecidos, separados apenas por um hífen, mas pertencem a empresas distintas, com sedes a mais de 160 quilômetros de distância uma da outra.

Enquanto Piotr Szczerek tentou contornar o erro e reparar o dano com o garoto, Roman Szkaradek segue tentando salvar sua própria reputação — atingida por algo que não fez.

Um especialista ouvido pelo NYT resume bem o fenômeno:

“A internet adora um pouco de caos. E adora ainda mais punir”, afirma Felipe Thomaz, professor da Universidade de Oxford.

O preço do tribunal digital

O episódio evidencia como a reação coletiva nas redes sociais pode atropelar fatos e transformar inocentes em vilões. Um gesto impensado de um adulto virou um incêndio virtual que consumiu duas reputações: a de quem errou — e se desculpou — e a de quem nunca sequer esteve lá.

O garoto Brock, por sua vez, recebeu o chapéu de volta, presentes do tenista e, provavelmente, um aprendizado precoce sobre a velocidade com que a internet transforma histórias simples em tempestades globais.

Até este momento não se tem registro de que os “justiceiros virtuais” tivessem assumido o erro dos ataques indevidos.

Avalanche Tricolor: entre o Sobrenatural e Veríssimo

Flamengo 1×1 Grêmio

Brasileiro – Maracanã, RJ/RJ

Volpi comemora gol de empate. Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

“Joga-se o futebol de rua mais ou menos como o Futebol de Verdade” — escreveu Luis Fernando Veríssimo.

Impossível começar um texto, hoje, que se atreva chamar de crônica, sem buscar referência em Luis Fernando Veríssimo, escritor gaúcho que se despediu de nós, neste fim de semana. Ainda mais em um domingo em que o Grêmio desafiou a lógica e empatou com o Flamengo, no Maracanã. Veríssimo, colorado confesso, talvez não comemorasse o resultado, mas com certeza entenderia o improvável — afinal, quem melhor do que ele para traduzir um jogo em que o “ruim que vai para o gol”, como dizia no texto “Futebol de Rua”, vira o herói da noite?

O dia começou com desconfiança. Confesso que temi um desastre desde o início da semana, ainda mais depois da goleada histórica do nosso adversário na última rodada, no Brasileiro. O Grêmio anda claudicante, sem confiança, e vínhamos de um empate em casa contra um time que estava tão mal classificado quanto nós. Nem a Velhinha de Taubaté, personagem crédula de Veríssimo, acreditaria em outro resultado que não fosse o fracasso.

Enfrentar um gigante, dentro de um estádio gigante, lotado por uma torcida gigante, era tarefa hercúlea. Bastaram 18 segundos para que as piores previsões começassem a se desenhar, com o primeiro chute contra o nosso gol. Mal tocávamos na bola e, quando tocávamos, era só para despachá-la o mais longe possível de nossa área. E comecei a dar razão à estratégia: cada tentativa de passe curto se perdia no meio da pressão adversária.

A defesa, no entanto, se virava como podia. O Flamengo envolvia: toque rápido, dribles pela esquerda e pela direita, cruzamentos que vinham de todos os lados. Nossos marcadores — os onze que estavam em campo — espantavam o perigo do jeito que dava. A despeito da superioridade do oponente, fomos para o intervalo com um honroso zero a zero.

O segundo tempo foi estonteante. Vieram os escanteios, um atrás do outro. As defesas impossíveis de Tiago Volpi. A sensação era de que só o Cristo Redentor poderia nos salvar – foi quando lembrei que ele é carioca. Até que, em um raro contra-ataque, em que cheguei a pensar no impossível, mostramos por que estamos tão mal na tabela: o passe errado, a transição lenta e a defesa desorganizada. Para o nosso azar, a bola sobrou para um dos goleadores do campeonato — e o Flamengo abriu o placar. Ali, parecia que restava torcer apenas por uma derrota magra.

Mas o futebol, felizmente, adora contrariar previsões. Foi quando um outro personagem da crônica esportiva brasileira entrou em campo. Claro que não seria obra de Veríssimo — ele jamais evocaria uma de suas criaturas para ajudar o Grêmio. Foi o Sobrenatural de Almeida, de Nelson Rodrigues, um tricolor carioca assumido, que resolveu dar uma força. Entregou a Pavón, que havia errado tudo até então, a chance de se redimir: cavar um pênalti na tentativa de cruzamento.

E, em um time que sofre para chegar ao gol, o Grêmio recorreu ao talento improvável de um goleiro. Negando a escrita — ou o escrito por Veríssimo —, Tiago Volpi bateu o pênalti com a frieza de um centroavante e silenciou o Maracanã.

O empate coloca o Grêmio na terceira partida sem derrota no Brasileiro. Ficamos um pouco mais longe daquela zona — você sabe qual — e, incrédulos e crentes, vimos o time conquistar mais um resultado positivo fora de casa: vitória contra o Atlético Mineiro, empate com o Flamengo.

Por mais problemas que tenha, o Grêmio insiste em me surpreender. E, lá do céu, desconfio que Verissimo está sorrindo. Não pelo empate — colorado que era —, mas porque só ele saberia explicar como o futebol de rua, o da pelada, o do improvável, às vezes se sobrepõe ao tal Futebol de Verdade.

Conte Sua História de São Paulo: encontrei mãe, irmãs e irmão que aqui já estavam

José Geraldo Leite Coura

Ouvinte da CBN

Photo by sergio souza on Pexels.com

Cheguei em 1978. Vim de onde o mar é o céu. Meio dia de viagem, na rodoviária Julio Prestes chegamos. Eu vim acompanhado de dois dos sete, quem nos trouxe foi outro. Atravessei o rio, esse já estava sujo; continua, apesar do já gasto. Chegamos na Freguesia do Ó. De lá corri por dias das férias em campo de cimento, diferentemente dos de terra e mato.


Encontrei mãe, irmãs e irmão que aqui já estavam. Todos agora nos juntamos a ele que veio bem antes para fazer o futuro. Essa chegada me fez vislumbrar uma São Paulo que ao longo do tempo aprendi a admirar e temer. Sempre atravessei a cidade no trem, no ônibus e no metrô.

No início foi na Cidade de Deus onde aprendi minha primeira profissão: mecanógrafo. De lá, técnico eletrônico. E, a partir deste, rodei por agências consertando tudo que mandavam. Nos intervalos, futebol e bailes. Colegas de todos os lugares. As domingueiras eram sempre animadas.

Já se foram 37 anos e hoje ou só hoje consigo parar para contar essa trajetória de luta e sucesso; de alguns tombos que me fizeram o que sou; de amigos que passaram e outros que continuam. Entre minha chegada e minha estada, são dois filhos e uma filha, todos paulistanos. Mas ela que me acompanha, também veio da minha terra natal.

Agora termino para agradecer a cidade que me fez este profissional e o cidadão que sou.  

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

José Geraldo Leite Coura é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outras histórias, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: queijos e vinhos brasileiros conquistam espaço e reconhecimento

Foto de Ray Piedra

Os vinhos e queijos brasileiros vêm ampliando seu prestígio e disputando espaço com marcas tradicionais de outros países. Entre o gole para se aprofundar no sabor e o degustar das lascas cortadas sobre a tábua, Jaime Troiano e Cecília Russo foram inspirados a falar das mudanças feitas pelos produtores nacionais, no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, do Jornal da CBN.

Jaime Troiano lembrou que, até pouco tempo, também via com ressalvas os vinhos nacionais, mas reconhece que essa percepção mudou: “De marcas nacionais que eram associadas ao garrafão, passaram a valorizar a especialidade, a uva e o terroir. Ou seja, colocaram o foco naquilo que gera valor perceptual”. Ele destacou investimentos em rótulos, embalagens e experiências de visitação, como ocorre em regiões consagradas da França e da Itália. Citou ainda um marco recente: o rótulo Casa Tés 2022 foi o único brasileiro selecionado para o World’s Best Sommeliers’ Selection 2025, no Reino Unido.

Cecília Russo apontou que o movimento é semelhante no setor de queijos artesanais: “A gente come o sabor do queijo, mas a experiência começa com os olhos”. Ela ressaltou marcas que investiram em apresentação, pontos de venda qualificados e posicionamento, criando um espaço entre o queijo artesanal e o industrial. Casos como o queijo Cuesta, da Pardinho, que conquistou medalhas na França e nos Estados Unidos, reforçam o avanço do setor.

A marca do Sua Marca

Bons produtos, aliados a estratégias de marketing consistentes e à intenção clara de elevar padrões, podem transformar mercados — mesmo os mais competitivos. Que o sucesso de queijos e vinhos brasileiros inspire outros setores a buscar o mesmo caminho.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Avalanche Tricolor: que os deuses nos perdoem

Vasco 1×1 Grêmio
Brasileiro – São Januário, Rio de Janeiro/RJ

Gustavo Martins comemora gol, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Havia depositado minhas esperanças na interrupção das partidas devido à Copa do Mundo de Futebol da Fifa. Imaginei que seria a oportunidade de o time se reorganizar, recuperar fisicamente seus jogadores e permitir que Mano Menezes descobrisse uma fórmula que fizesse os escalados oferecerem o que tivessem de melhor. Porém, desde que o calendário foi retomado, com exceção daquela vitória na Recopa Gaúcha, estamos em dívida com o futebol.

Goleado na volta do Campeonato Brasileiro e tendo colocado em risco a sequência na Sul-Americana, depois de perder a primeira partida do play-off por 2 a 0, cheguei a imaginar que hoje teríamos alguma felicidade à disposição. Apesar de estarmos jogando fora, tínhamos um adversário também fragilizado e poderíamos tirar vantagem da tensão que vinha das arquibancadas. Ledo engano!

Tivemos de contar com o excelente desempenho de Tiago Volpi — que evitou mais um desastre —, com a visão milimétrica do VAR — que anulou um gol ainda no primeiro tempo —, e com o voluntarismo de Gustavo Martins.

O guri, que está prestes a completar 23 anos (11/08), é zagueiro de origem e tem sido improvisado para resolver a ausência de nossos laterais direitos. Geralmente se destaca dentro da área adversária nas cobranças de escanteio e de falta. Foi dele o gol que nos levou à final do Campeonato Gaúcho, resultado de uma bicicleta já nos acréscimos. Hoje, no início da partida, Martins havia arriscado lance semelhante, mas a bola foi por cima da goleira.

Quando já estávamos perdendo e sob o risco de vermos o placar se ampliar, foi novamente Gustavo Martins quem apareceu para nos salvar (e veja só: uso o verbo “salvar” para um gol de empate). Depois de uma cobrança de falta do lado esquerdo, afastada pela defesa, Pavon ficou com o rebote e cruzou para dentro da área, encontrando nosso zagueiro-lateral entre os marcadores. Gustavo Martins fez de cabeça o gol que evitou a derrota.

André Henrique, que entrou no segundo tempo, quase conseguiu o gol da virada ao aproveitar um lançamento da nossa defesa que acabou batendo no travessão. Para um time que ofereceu tão pouco e foi dominado na maior parte do jogo, seria um prêmio imerecido (apesar de que eu ando aceitando qualquer coisa positiva que venha do campo).

No meio da semana, o torcedor gremista haverá de fazer sua parte enchendo as arquibancadas para comemorar a nova relação do clube com o seu estádio. Quero crer que o time entenderá a relevância deste momento e o que significará iniciar esse capítulo da nossa história com uma vitória capaz de nos levar à próxima fase da Sul-Americana.

Que os deuses do futebol nos perdoem pela escassez de talento e, ainda assim, nos abençoem neste encontro com a “Arena, verdadeiramente, do Grêmio”.

Conte Sua História de São Paulo: os coletores de lixo e as crianças do Alto da Lapa

Ana Maria Oliva

Ouvinte da CBN

Foto Divulgação Loga

Embora seja uma cidade cosmopolita, São Paulo nos surpreende com situações prosaicas, que poderiam ser bem comuns em pequenas cidades. Ao longo de meus 37 anos nesta cidade que adotei como minha, nesse caldeirão de cultura, raças, sotaques, me tornei uma observadora do cotidiano. E é justamente sobre uma cena que se repete todas as noites na minha rua que retrato nesta crônica:

Sempre, por volta de nove da noite, o caminhão dobra a esquina e entra na rua Aibi, no alto da Lapa. O barulho, inconfundível e familiar aos ouvidos dos moradores, anuncia o serviço necessário e urgente: a coleta de lixo domiciliar. Três rapazes, usando o habitual uniforme verde com faixas reflexivas, luvas e bonés, saltam do veículo, ágeis como felinos, e seguem recolhendo sacos depositados nas calçadas e lixeiras. Tudo rápido e cronometrado. E mesmo depois de horas de trabalho árduo, no sobe e desce do caminhão, encaram com bom humor e disposição a jornada que só termina na madrugada. 

Mal entram na pequena rua, já se anunciam com gritos, acenos e buzinas. Toda essa festa não é para os porteiros dos prédios ou moradores que passeiam com seus cães. Não. A festa é para um público especial e fiel: crianças de olhos vivos e atentos, boquinhas falantes e sorridentes que se postam nas janelas de vários andares dos prédios, aguardando ansiosas a chegada dos amigos alegres e barulhentos – que mais parecem passistas de uma escola de samba. Os rapazes acenam e cumprimentam com um “olá, amiguinhos” e um “boa noite” seguido do nome das crianças. Elas respondem chamando um por um pelo nome: Michel, Paulo, Sérgio. Seguram com as mãozinhas firmes nas grades, estabelecem um diálogo de muitos sons, risos e falas, enchendo a rua de alegria. 

O motorista do caminhão, um simpático jovem de barba ruiva, alargador na orelha, também participa da festa: diminui a velocidade, coloca o braço tatuado para fora do veículo e acena para a meninada, sorrindo e buzinando o caminhão. 

No fim da rua, retornam na praça e retomam o caminho aos efusivos gritos das crianças com sonoros “tchau” e “bom trabalho”. Os rapazes respondem “boa noite” e “bons sonhos” para Paulinho, Larissa e Marina – alguns nomes que ouço enquanto assisto a esse espetáculo de humanidade da minha sacada. Passado o show, as crianças desaparecem das janelas, as luzes se apagam e o movimento da rua volta com os entregadores de aplicativos no vaivém de suas motos.

Numa noite dessas, enquanto passeava com meu cachorro, pude constatar de perto a alegria genuína dos rapazes. Perguntei se aquela festa também ocorria em outras ruas e bairros de São Paulo. Me contaram que, em algumas ruas da cidade, às vezes são recebidos por crianças acompanhadas de seus pais, com saquinhos com bala e chocolate, e que, de vez em quando, há criança pequena que cisma de dar uma volta com eles na traseira do caminhão e cai no choro quando o pai explica por que não pode. 

– Mas nada se compara com a farra das crianças daqui, elas são especiais — comenta Michel, um rapaz carioca, o mais alegre de todos. 

O motorista contou que Arthur, um garoto de 4 anos, certa noite estava com o avô na calçada acenando para eles estacionarem o caminhão. Seguravam uma embalagem de pizza, uma garrafa de refrigerante, frasco com álcool gel e guardanapos. Fizeram uma pausa rápida e compartilharam a refeição com o Arthur sentados na guia da calçada. E ao se despedirem, perceberam como os olhinhos do menino brilhavam de alegria.

Fiquei imaginando a cena e as expressões do menino e como o assunto tomaria conta da conversa com os amiguinhos da pré-escola. Que efeito teria causado sobre eles? Será que convenceram seus pais e avós a replicarem os gestos de gentileza com esses trabalhadores, muitas vezes invisíveis à população? O Arthur e as crianças que avisto da minha sacada têm muito a nos ensinar sobre acolhida e empatia. 

Só na cidade de São Paulo, de acordo com dados da prefeitura, cerca de 3,2 mil pessoas trabalham na coleta de lixo. São 12 mil toneladas retiradas diariamente por 500 caminhões da prefeitura, percorrendo ruas e bairros – não estão incluídos nesta conta os catadores de recicláveis.


Torço para que demais trabalhadores da limpeza também recebam em outras ruas da cidade sorrisos e respeito – um pequeno alento para seguirem com disposição a rotina pesada de uma atividade tão essencial para a cidade, para a população e para o meio ambiente. Aqui, eles são celebrados como os verdadeiros reis da rua!

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