Conte Sua História de São Paulo: diálogos que nascem no Trianon e passeiam pela Paulista

Wagner Nobrega Gimenez

Ouvinte da CBN

Foto do perfil no Instagram de @poemesenmachine

Tarde de domingo. Caminho sozinho. Faz muito frio. 

Vou até um evento do ‘Poèmes en Machine’ no Trianon. As conversas dos passantes com os artistas geram poemas datilografados na hora. “Não somos capitalistas. Escrevemos e não cobramos!”, falam com orgulho os poetas. 

Ouço a senhora nordestina: “Nossa, nunca ninguém fez uma poesia para mim. O que eu fazia antes de me aposentar? Era costureira em uma fábrica de guarda-chuvas, lá na Penha, onde moro.” 

Saio do parque. Na Paulista, por acaso cruzo com um gaúcho conhecido. Muito alto, com cara de alemão. Está com uma garota. Baixa. Ele fala, gesticula, enquanto anda. Não consigo ouvir o que  diz. 

Na banquinha, peço bolo de bacalhau e um suco. O recolhedor de latas reclama com o outro, seu concorrente: “Vamos combinar: eu não atrapalho a sua vida e você não se mete comigo, tá bom?” 

Um rapaz, nervoso, para o outro: “agora acabou tudo, ela está grávida.” 

Sigo. As garotas lésbicas em grupo alertam: “atenção, gente, vamos tirar uma self nossa!” 

O rapaz moreno, alto, no megafone sobre o palanque de sindicato: ”… então, a solução agora é a convocação de novas eleições para Presidente. Temos aqui um abaixo-assinado…”.

Pessoas estão paradas ouvindo uma banda tocar “Light My Fire”. É da década de 1960. Recordo meus 13 anos quando namorava com a Veridiana. Uma vez, no cine Universo nos beijamos. Qual era mesmo o filme? Não lembro mais. 

O som agora é outro:  “Camon baby light my fire…”.

Cruzo a avenida. Ouço ciclistas, skatistas, caminhantes, passantes, casais hetero e homo, crianças encapotadas, passeadores com cachorros, pessoas das mais variadas. A Paulista é uma festa urbana! Mas está na hora voltar. E é o som do metrô que me acompanha até em casa, no Belenzinho.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Wagner Nobrega Gimenez é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Esta história é inspirada no texto que ele enviou para contesuahistoria@cbn.com.br . A sonorização é do Daniel Mesquita. Venha participar você também e ouça outros capítulos da nossa cidade no meu blog miltonjung.com.br ou no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o reencontro com Ramos de Azevedo

Percival Tirapeli

Ouvinte da CBN

Inauguração do Monumento a Ramos de Azevedo, em 1934. Foto: Wikipedia

Os monumentos de São Paulo sempre me fascinaram. Em especial aqueles do Vale do Anhangabau. A primeira vez que passei por baixo do Viaduto do Chá foi ainda em 1958. Tinha apenas seis anos de idade. Seguia em romaria para Aparecida em um pau de arara. Da rodovia Anhanguera para a Dutra, os carros passavam pelo Vale, não havia as marginais. De um lado o Edifício Matarazzo e do outro as imensas palmeiras imperiais emoldurando o grandioso Theatro Municipal. Pouco adiante, o edifício altíssimo, o prédio Martinelli. Tudo era novidade para um menino do interior. Era a Pauliceia Desvairada de Mário de Andrade.

Seguimos para os lados da Estação da Luz, na avenida Tiradentes. Uma garoa tornava aquele edifício uma paisagem inglesa. Em frente à Pinacoteca estava o monumento em homenagem a Ramos de Azevedo. A movimentação de trens e carros era uma surpresa para mim. Um casal, muito bem-vestido, a dama com luvas, chapéu, sequer olhou para nós. Da avenida Tiradentes, recordo as grandiosas tamareiras.

Mudei para a São Paulo em janeiro de 1970. Na então Praça Roosevelt, que seria inaugurada no aniversário da capital, meus irmãos e eu fizemos nossa primeira refeição: compramos um bolo Pullman, aquele que tinha faquinha de plástico. Era o que nosso dinheiro dava para comprar.

Logo fui trabalhar como desenhista em um escritório na esquina da São João com Ipiranga. Da janela podia observar as manifestações contra a ditadura militar. Eu, para colaborar, jogava rolhas no asfalto só para ver os cavalos e militares caírem.

Fui estudar no prédio da Pinacoteca; mal sabia que depois lá atuaria por 10 anos no Educativo. Continuando os estudos, cursei a Universidade de São Paulo.

Para minha surpresa, lá estava o monumento a Ramos de Azevedo, na Cidade Universitária, aquele que eu tanto via 20 anos antes.

Decidi então pesquisar os monumentos de São Paulo e escrevi um livro sobre eles. Vieram à minha mente aqueles do Vale do Anhangabau, iluminados naquela noite das manifestações das Diretas Já, em 1984.

O Anhangabau se transformava. Antes pagava-se pedágio para passar pela propriedade do Barão de Itapetininga para se locomover do centro antigo para o novo, onde estava a Praça dos Touros, atual República. Depois, uma estrutura de ferro que passava sobre as casas das chácaras onde se plantava o chá. Em seguida veio o elegante Viaduto do Chá dando acesso ao Theatro Municipal e à loja Mappin.

O parque do Vale, desenhado pelo famoso urbanista francês Joseh Bouvard, ia desaparecendo. Fizeram o buraco do Adhemar no cruzamento com a Avenida São João. Depois o grande túnel que já desembocava defronte ao edifício dos Correios. O centro velho teve seus momentos de glória, de recuperação.

No século 21 a grande reforma foi paralisada nos tempos sombrios da Covid-19. Acompanhei a obra por meses, pois naquele período expunha minhas pinturas, sobre os monumentos da cidade, no salão de arte do prédio central dos Correios. Via entristecido que as árvores desapareciam e até esculturas eram roubadas.

Em minha memória ficava o Vale como o centro nervoso da cidade, para onde tudo confluía, como imaginara Prestes Maia. O progresso foi afundando cada vez mais o riacho do Anhangabau e os túneis ocultando de nossas vistas a bela paisagem dos edifícios ecléticos e modernos. Quando foi inaugurado o novo visual do Vale, em 2021, nada restara para comemorar. Apenas concreto e um imenso vazio, enterrando um espaço de tantas memórias.

Ouça aqui o Conte Sua História de São Paulo

Percival Tirapeli é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Daniel Mesquita. Seja você também personagem da nossa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capitulos, visite agora o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo. 

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: estratégias e cuidados na escolha de influenciadores para fortalecer a marca

O garoto propaganda da Bombril

“A celebridade empresta seu prestígio, seus fãs, para a marca e, em alguns casos, é difícil saber quem ganha mais, se é a celebridade ou a marca”

Jaime Troiano

O uso de influenciadores no desenvolvimento de marcas é a evolução de um relacionamento que se iniciou há muito tempo quando as pessoas escolhidas para serem protagonistas em campanhas publicitárias ainda eram conhecidas por “garoto propaganda” ou “garota propaganda”. O que muda nos dias atuais é o alcance que essas “celebridades” têm com as redes sociais. Jaime Troiano e Cecília Russo, em Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, identificaram como essa dinâmica impacta o mercado atual e elencaram riscos que devem ser considerados pelos gestores que investem nessa estratégia.

A evolução da publicidade e o papel dos influenciadores

Jaime Troiano começou destacando a longa trajetória da publicidade desde os tempos do “garoto propaganda” até a era dos influenciadores digitais. Lembrou de personagens que marcaram a história da publicidade, como Carlos Alberto Moreno que foi por muitos anos a cara da marca Bombril ou José Valien, que se consagrou como o “Baixinho da Kaiser”. 

O ator Paulo Goulart também teve sua imagem associada a uma marca, no caso a OMO, quando a fabricante de sabão em pó lançou o “teste da janela” em que convidava as donas de casa a colocarem os lençóis sob a luz do sol para provar que a peça lavada com o seu produto ficava mais branca. 

“É uma estratégia que funciona, mas pode ser perigosa se você não tomar cuidado. Por exemplo, se você ficar com a mesma celebridade durante muito tempo. Lembro da época em que o Paulo Goulart entrava no teatro ou em um programa de TV e as pessoas ficavam esperando que ele fosse fazer propaganda do OMO”

Jaime Troiano

Troiano observa que há sempre alguns riscos que você tem que controlar alertando para a necessidade de uma estratégia cuidadosa. Ele ilustra como a associação entre uma celebridade e uma marca é uma espécie de troca mútua, onde ambos podem se beneficiar. 

Escolhendo o influenciador certo e mitigando riscos

Por sua vez, Cecília Russo enfatiza que a escolha de um representante para a marca não deve ser baseada apenas no número de seguidores, mas deve considerar fatores como alinhamento de valores e potencial de mercado. Ela detalha três métodos de escolha do representante da marca: intuitivo, comercial e estratégico. Ela aconselha a combinação desses métodos para uma decisão mais equilibrada e eficaz.

A discussão de Jaime e Cecília destaca um ponto crucial: a necessidade de um equilíbrio cuidadoso na escolha e no uso de influenciadores. As marcas devem estar atentas não só ao potencial de marketing, mas também aos possíveis riscos associados à imagem pública do influenciador. É uma dança delicada, onde a autenticidade e a relevância devem ser mantidas para garantir que a mensagem da marca ressoe com o público: 

“Essa pessoa que vai representar a marca é um ser humano e, óbvio, ela está passível a cometer erros. É uma pessoa, tem a sua vida social e pessoal. Então, de alguma forma essa exposição pública da pessoa que transcende a marca vai se refletir para o bem ou para o mal na marca”.

Cecília Russo

Parceria de sucesso requer cuidado e estratégia

A colaboração entre marcas e influenciadores pode ser extremamente benéfica, mas requer uma abordagem cuidadosa e estratégica. Como Troiano e Russo enfatizam, é essencial considerar não apenas o potencial de alcance, mas também a adequação e a imagem do influenciador em relação aos valores da marca. Nesta era digital, onde as percepções são rapidamente formadas e disseminadas, uma escolha acertada pode levar uma marca ao sucesso, enquanto um passo em falso pode ter consequências duradouras. 

Outro alerta é para aquelas marcas que investem em influenciadores e celebridades que estão presentes em campanhas de outros produtos ou serviços. Isso pode causar uma confusão na cabeça do consumidor que fica sem saber quem aquela pessoa representa. A marca fica em segundo plano e o investimento pode não ter o retorno esperado.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar, no Jornal da CBN, aos sábados, às 7h50 da manhã. O programa tem a sonorização do Paschoal Junior: 

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: os cinco destaques do branding que vieram para fcar

Photo by Josh Sorenson on Pexels.com

“O envolvimento com consumidores se cria com bons produtos, atrelado a uma comunicação que tem sustentação na prática. Discursos vazios, nunca mais!”

Jaime Troiano

A gestão de marcas foi fortemente influenciada pela retomada das atividades e a redução dos casos de Covid, no Brasil. Entre os cinco principais destaques do setor, ao menos três têm ligação direta ou indireta com o tema. Jaime Troiano e Cecília Russo fizeram um balanço das ações desenvolvidas pelas marcas, em 2022, muitas das quais se transformando em tendência para os próximos anos. É o caso da presença das marcas nos grandes eventos presenciais, tais como a CCXP, em São Paulo, o Rock In Rio, no Rio de Janeiro, ou a Copa do Mundo, no Catar.

“Estar lado a lado dos consumidores, num lugar onde eles estão curtindo o momento e trazendo presenças pertinentes a esse momento foi uma modalidade de Branding que parece ter vindo para ficar e esses 3 eventos em particular deixaram isso claro”

Jaime Troiano

Outro destaque que teve influência da pandemia foi a descoberta de que, em geral, as marcas dependem tanto do fisico quanto do digital. Mesmo marcas nativas digitais entenderam a importância de criarem pontos presenciais de contato com os seus consumidores. Um dos exemplos é a Petlove que se apresenta como a maior plataforma digital de produtos para animais de estimação e, ano passado, iniciou operação física para facilitar sua distribuição e agilizar a entrega.

O terceiro destaque, apontado por Jaime e Cecília, foi a presença das marcas em apoio a causas dos mais diversos temas para gerar engajamento. A ideia é oferecer ao público mais do que apenas uma uma boa entrega de produtos ou serviços. Muitas empresas, por exemplo, aderiram a campanhas em favor da saúde mental ao perceberem a necessidade das pessoas, de seus profissionais e da sociedade em buscar equilíbrio diante das incertezas provocadas pela pandemia.

O foco na diversidade também marcou o ano que se foi. Ainda bem! As marcas perceberam o interesse da opinião pública no tema e a necessidade de entenderem melhor os diversos grupos que compõem a sociedade. Ao promoverem a inclusão, seja em suas campanhas publicitárias seja na contratação de profissionais, outro benefício é a maior criatividade nas soluções oferecidas ao mercado. Mas, é preciso cuidado: 

“Sempre insisto que ainda há marcas falando mais do que fazendo de fato e isso é um grande desrespeito à sociedade. Precisamos sempre cobrar consistência”

Cecília Russo

Outro tema que passou a integrar a estratégia das marcas foi o da sustentabilidade. Definitivamente colocar essa pauta em suas comunicação e, mais do que isso, nas suas práticas. Aqui também cabe o alerta que foi feito agora há pouco: é preciso comprometimento com o meio ambiente em palavras e ações sob o risco de suas práticas serem identificadas como green washing. 

Dar sequência a essas ações é o desafio das marcas para 2023. Mas sobre as tendências do ano que se inicia, vamos conversar com você na próxima semana.

Ouça o comentário Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, com Jaime Troiano e Cecília Russo, que citam alguns projetos para ilustrar os cinco destaques do ano passado: