Registro geral: mal na foto

 

 

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Há três anos fui surpreendido pela atendente que me recebeu em um dos postos do Poupatempo, em São Paulo, para renovar minha carteira de identidade. Soube por ela que em lugar de renovar, eu iria emitir nova carteira, o que significava ter um novo número de Registro Geral.

 

 

A carteira que portava comigo havia sido expedida em 1981, no Rio Grande do Sul. Aliás, aquele número já me acompanhava muito antes disso, pois o primeiro RG devo ter tirado ainda na adolescência. Todos os cadastros que fiz lá no Sul e aqui em São Paulo para entrar em prédios, abrir conta em banco, fazer compras em lojas, participar de concurso, inscrever-me em programas de todo tipo sempre contaram com o meu RG original.

 

 

Registre-se, um número que dava o que falar, pois era composto por dez dígitos e sempre causava espanto na pessoa que me atendia por aqui: “de onde você veio?”. Era a chance para encher a boca: “lá do Rio Grande do Sul”. Pintava sempre uma ponta de orgulho. E um início de conversa. O RG em São Paulo pelo que conto tem apenas nove dígitos.

 

 

Mais importante do que o bairrismo, porém, era o fato de mesmo sendo um RG extenso, dado o tempo de uso, eu já havia decorado dígito após dígito e os repetia de maneira sonora e ritmada. Além de CPF e todas as centenas de senhas para acessar contas e internet, ainda teria de memorizar os novos números? Haja memória.

 

 

No Poupatempo, brinquei com a atendente ao dizer que naquele momento estava tendo meu título de “gaúcho” cassado. E ela, meticulosamente, explicou-me que o “RG Gaúcho”” seria mantido; porém, a partir daquele momento, como estava fazendo um registro em São Paulo, teria o direito a um “RG Paulista”. Foi, então, que tive outra surpresa: ela me contou que qualquer cidadão brasileiro pode ter um RG em cada Estado e com validade em todo o território nacional. Ou seja, aquilo que burocratas batizaram de Registro Geral não é geral. É estadual.

 

 

Mente suja essa minha: logo imaginei aquele fraudador contumaz fazendo compras em São Paulo com RG do Rio Grande do Sul e depois viajando para Belo Horizonte onde faria compras com o RG do Rio de Janeiro e assim sucessivamente passando golpe Brasil a fora. Nem precisamos pesquisar muito na internet para ler notícias que descrevem a ação desses golpistas que se aproveitam do fato de não haver conexão entre os bancos de dados da maioria dos estados brasileiros.

 

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Na terça-feira passada, a Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei que prevê a criação de um Documento de Identificação Nacional, que terá um chip e vai concentrar dados biométricos, RG, carteira de habilitação e título de eleitor. O documento será impresso pela Casa da Moeda e o CPF será usado como base para a identificação do cidadão, dispensando a apresentação dos demais documentos.

 

 

Confesso que após ler e reler notícias sobre o assunto não entendi se ficaríamos dispensados de emitir RGs e se a prática de ter um registro em cada Estado seria eliminada. Mas com certeza a medida seria bem-vinda e ficaríamos para todo e sempre com um único e original documento.

 

 

Por via das dúvidas, na última viagem a Porto Alegre agendei visita ao TudoFacil, o Poupatempo do Rio Grande do Sul, e renovei meu RG gaúcho. Após tantos anos longe do Estado, tendo construído casa, família e trabalho por aqui, não gostaria de ter mais este vínculo desfeito.

 

 

Apesar de estar com RG novo em São Paulo e renovado no Rio Grande do Sul, o que ninguém deu solução ainda foi para a qualidade da foto no documento: segue sendo um desastre. Bem, aí a culpa é minha!

#TôDeSacoCheio: o serviço poupa o tempo; o sistema, perde

 

Uma das tarefas que chegam com a idade é a renovação da carteira de motorista que tirei pela primeira vez três dias após completar 18 anos. Achei graça quando vi o ano de 2008 na validade e imaginei que esta data jamais chegaria para mim. Chegou e logo percebi que o prazo ficaria cada vez mais restrito. Agora, dura apenas cinco anos quando devo retornar aos órgãos públicos de trânsito, encarar a burocracia, pagar taxa, fazer exame de olhos e esperar o documento em casa. Foi o que fiz recentemente em um dos postos do Poupatempo, em São Paulo, o de Santo Amaro, na Zona Sul. Fiquei impressionado com a eficiência do serviço que, após agendar pela internet, não levou mais de uma hora. Fui atendido por gente simpática, tive todas as dúvidas tiradas, e até uma boa foto (na medida do possível) foi feita. O traço cômico foi com a oftalmologista de plantão que pediu para eu repetir as letras que apareciam em uma espécie de binóculo de mesa. “Que letra?”, perguntei enquanto um ponto de luz se aproximava do meu olho esquerdo.

 

O bom atendimento e a rapidez do serviço me motivaram a voltar ao Poupatempo para atualizar a carteira de identidade, documento que estava esquecido na gaveta e ainda estampando foto com cabelos longos dos tempos de guri, em Porto Alegre. Levei a mulher a tiracolo, pois estava mais do que na hora de incluir o nome de casada no RG dela. Agenda feita pela internet, documentos separados, fila encarada e nos deparamos com um problema comum na vida dos brasileiros: o sistema. Sim, o sistema do Banco do Brasil não estava funcionando e o pagamento de taxas e serviços de postagem não podiam ser feitos no local. Tivemos de percorrer as ruas próximas para encontrar agência bancária que aceitasse o pagamento. E lógico que lá havia fila, além de um programa pouco explicativo no caixa eletrônico para se perder tempo.

 

De volta ao Poupatempo, se seguiram a espera pela senha no painel eletrônico e o bom atendimento da funcionária que pegou os documentos necessários, preencheu relatório, pediu minha assinatura e completou o serviço com destreza. Eu apenas não estava pronto para o golpe final: meu Registro Geral do Rio Grande do Sul será substituído. Por muito menos fizemos uma revolução, pensei em voz baixa (e no Twitter). A partir de agora, vou carregar no RG número registrado em São Paulo. Ou seja, acabo de ser batizado paulistano pela burocracia brasileira que não é capaz de manter o mesmo número para o cidadão brasileiro, apesar de o registro ser feito em território nacional. Ou será que o Rio Grande do Sul já se separou e eu perdi a notícia na Zero Hora?

 

Antes de voltar para casa, ouvi na CBN que os problemas em equipamentos do Banco do Brasil estavam causando transtorno no atendimento dos postos do Detran. Cidadãos estavam desde de manhã a espera da retomada do serviço, sem sucesso. Eram vítimas, assim como fui, do sistema. Tô de Saco Cheio do sistema!