Avalanche Tricolor: Eu vi, meninos, eu vi

Grêmio 2 x 0 Santos

Brasileiro – Estádio Olímpico

Tinha quatro ou cinco anos. Não lembro bem. Era fim dos anos 60. O Grêmio disputaria uma partida contra o Santos de Pelé, no estádio Olímpico, em Porto Alegre. Lembro apenas de algumas cenas.

De mãos dadas com meu pai fui a pé de casa ao estádio. Já falei aqui quanto esta caminhada é curta. Naquela época, porém, o caminho não tinha o asfalto de hoje. Era de terra. Em vez de rua tínhamos um “beco” com esgoto a céu aberto em lugar da calçada.

Lembro, também, que o estádio estava lotado. Ficamos na área conhecida no Olímpico como social. Piso de cimento. Um alambrado ainda cercava o campo. Todos assistiam ao jogo em pé. Todos estavam lá para assistir à Pelé jogar.

Entre um corpo e outro que tapavam a minha visão, vi o “negrão” – como carinhosamente chamavam o craque – passar desfilando no gramado. Parece que o jogo pelo campeonato nacional terminara empatado em 1 a 1. Mas o resultado era o que menos importava naquele dia. Meu pai me levara para ver Pelé jogar bola, ao vivo, pela primeira e última vez na minha vida.

Nesta quarta-feira, já era tarde, quando um de meus filhos acordou e se sentou do meu lado para assistir ao segundo tempo da partida de Grêmio e Santos, pelo Campeonato Brasileiro, no Estádio Olímpico, diante da televisão. Estava um a zero, placar que garantia, naquele instante, a volta à liderança. Mas o resultado era o que menos interessava.

Um dos meus meninos se espantou com um garoto, negro também – como a maioria dos grandes craques brasileiros -, que cada vez que pegava na bola fazia uma bela jogada. Em uma delas, explodiu no poste. Em outra, um adversário ficou caído no chão após o drible estonteante. Um colega dele passou correndo sem saber o que acontecia. E o pobre goleiro se contorceu para impedir que o lance terminasse dentro do gol. No fim, meu garoto ainda teve tempo de ver aquele rapaz cobrar uma falta que iria parar nos pés de Soares e se transformar no segundo gol gremista.

Antes de voltar para cama, meu filho me olhou e perguntou: “Papai, era assim que o Pelé jogava ?”. Apenas sorri com a lembrança que ele me proporcionou, e expliquei: “É assim que Douglas Costa joga”. Voltou a dormir e eu não tive sequer tempo de dizer-lhe que o Grêmio é mais uma vez líder do Campeonato Brasileiro.