Por Christian Müller Jung
No cerimonial, a regra de ouro é a adequação. Mas o que acontece quando a agenda atropela o protocolo?
Na minha atividade como Mestre de Cerimônias do Governo do Estado, estou sujeito a uma montanha-russa de formatos e cenários. Trabalhar no serviço público, especialmente acompanhando o Governador, é transitar constantemente “do barro ao Palácio”.
Recentemente, vivi isso na prática. Pela manhã, eu estava de jeans e tênis em Alvorada, para a assinatura da ordem de início das obras do Projeto PUI UMBU. O cenário era uma tenda montada em um terreno embarrado — uma área que clama por readequação urbana. Sob o sol e a poeira, a roupa era a de “combate”. Ao retornar ao Palácio Piratini, recebi a notícia: teria de conduzir uma solenidade formal de homenagens da Procuradoria-Geral do Estado ao Governador. Até então, o que seria apenas uma entrega interna e informal, transformou-se em um ato oficial.
Sem tempo para a troca do traje, assumi a tribuna de jeans diante de um salão repleto de autoridades de terno e gravata.
Sei que estou longe de ser um Steve Jobs, mas a situação me conectou diretamente ao que a Harvard Business School chama de “O Efeito Tênis Vermelho”. A pesquisa mostra que, em certos contextos, quebrar uma regra visível de vestimenta pode fazer a pessoa ser percebida como mais competente e poderosa — desde que ela já possua o que os pesquisadores chamam de créditos idiossincráticos: reconhecimento e credibilidade consolidados naquele ambiente.
Nos meus 27 anos de estrada, gabinetes e cerimoniais, construí um branding pessoal clássico por meio da gravata borboleta. Criei um “logotipo mental” tão forte que ele permanece presente mesmo quando o objeto físico está ausente.
Confesso que nesses últimos oito anos, durante a gestão do Governador Eduardo Leite — que chegou ao Piratini com 33 anos e hoje está com 41 —, me afastei da borboleta e me adaptei ao estilo casual e dinâmico que ele tem por hábito utilizar. No cerimonial moderno, o MC precisa ser a extensão da autoridade que ele anuncia; se o líder preza pela agilidade, um MC excessivamente rígido pode criar uma barreira visual desnecessária.
No entanto, naquele momento no Palácio, a quebra do protocolo não foi uma estratégia de estilo; foi consequência da diversidade de atividades que o cerimonial exige. Quando um MC aparece de jeans em um evento formal, o público sente um desconforto inicial; a imagem não “bate” com a função. Por isso, logo após as boas-vindas, fiz questão de me desculpar. Expliquei que, pela natureza do trabalho, eu vinha de um ambiente mais rústico e que aquela não seria minha forma usual de vestir para uma homenagem.
O que poderia ser um ruído de etiqueta transformou-se em uma demonstração de prestígio. Fui beneficiado pelo “auxílio luxuoso” do Governador que, ao ser chamado, fez questão de frisar ao público: “O usual do Christian é a gravata borboleta”.
Nesse momento, a psicologia da comunicação agiu a meu favor. Ao comunicar uma característica pessoal, o Governador validou meu reconhecimento profissional e chancelou o traje como uma contingência do trabalho árduo. No serviço público, a imagem de quem “está na rua” carrega um peso positivo de eficiência que compensa a falta de formalidade.
Ao longo de décadas, investi em uma imagem sólida. Hoje, esse estágio profissional trabalha por mim “no automático”. A elegância da borboleta foi transferida para a minha voz e postura. Mesmo de jeans, o público “enxerga” a borboleta na dicção e na forma como conduzo o rito.
O “jeans com memória de borboleta” tornou-se, talvez, o meu melhor posicionamento: o prestígio da tradição com a agilidade do presente. É a prova de que, no fim das contas, a nossa autoridade não está no que vestimos, mas na história que carregamos.
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Christian Müller Jung é publicitário de formação, mestre de cerimônia por profissão e mentor na área de comunicação. Colabora com o blog do Mílton Jung (de quem é irmão).


