Conte Sua História de São Paulo: minha trajetória de office-boy a advogado no banco

José Antonio Braz Sola

Ouvinte da CBN

Quando cursava o quarto ano ginasial, em 1970, fui avisado por meus pais de que, no ano seguinte, como filho mais velho de três irmãos, teria de começar a trabalhar de dia e estudar à noite.

Era necessário complementar o orçamento doméstico. Meu pai era comerciário e seu salário era insuficiente para o sustento da família. Mamãe era dona de casa e cuidava de mim, da minha irmã Lu e do meu irmão Nando.

Assim que terminaram as aulas, matriculei-me em um curso intensivo de datilografia, em Pinheiros, onde morávamos. Em janeiro de 1971, consegui emprego de office-boy em um banco que não existe mais, na rua Boa Vista, no Centro.

A vida era puxada. Trabalhava durante o dia e, à noite, fazia o curso de técnico em contabilidade.

Meu chefe aproveitava meus conhecimentos para alguns serviços internos, mas eu não escapava das entregas pelas ruas de São Paulo.

E não havia Google Maps. O máximo que tínhamos era o Guia Quatro Rodas ou o boca a boca.

Saía do banco com fichas telefônicas da Telesp na maleta. Se fosse necessário, ligava para meu chefe de um dos inúmeros orelhões espalhados pela cidade. Só não podia voltar sem fazer a entrega e sem o protocolo devidamente assinado pelo destinatário.

Na maioria das vezes, almoçava no refeitório do banco. Quando o serviço estava tranquilo, dava até para ir de ônibus almoçar em casa. Tínhamos duas horas de intervalo e o trânsito de São Paulo ainda não era infernal.

E, afinal, nada era comparável à comidinha da mamãe.

Na volta, descia na esquina da rua Xavier de Toledo com a Sete de Abril e passava na banca de jornal do meu amigo Gabriel. Ele me deixava folhear, de graça, A Gazeta Esportiva e o Popular da Tarde para saber as últimas notícias da nossa paixão comum: o Palmeiras.

Era o time de Dudu, Ademir da Guia, Leivinha, Leão, Luís Pereira e companhia.

Uma verdadeira Academia!

Depois, perto do Mappin, parava alguns instantes para admirar o espetáculo diário do Guarda Luizinho. Com bom humor e educação, ele orientava pedestres e motoristas. Era gentil com todo mundo e conhecia muitos office-boys pelo nome.

Nas entregas, também não resistia às lojas da rua 24 de Maio, com seus aparelhos de som de última geração expostos e ligados. Sonhava em ter um daqueles em casa para ouvir Roberto Carlos e os Beatles.

O salário não era dos melhores, mas, de vez em quando, dava para comprar uma calça Lee legítima americana numa importadora da Praça do Patriarca. Todo mundo comprava as “becas” lá, apesar do elevador velhíssimo, que às vezes parava entre um andar e outro.

Outro sonho era ganhar na Loteria Esportiva e acertar os 13 pontos.

Vira e mexe fazíamos bolões. Só conseguimos os 13 uma vez: um colega, jogando no campeonato de futebol do Sindicato dos Bancários, levou treze pontos na canela.

No curso de contabilidade, tive aulas de Noções de Direito com o advogado Belisário dos Santos Júnior. Suas aulas fizeram nascer em mim o desejo de ser advogado.

Daí em diante, sempre que passava em frente à Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, dizia para mim mesmo:

— Um dia vou estudar aqui.

E estudei.

Entrei em 1977 e concluí o curso em 1981. Depois, passei a exercer a profissão em um grande banco, onde trabalhei até me aposentar.

O pouco que sou e que tenho devo ao meu esforço e ao de minha família, mas também a São Paulo.

A cidade onde comecei carregando fichas telefônicas da Telesp e protocolos dentro de uma maleta foi também a cidade onde descobri o que queria ser.

E, para terminar, parafraseio Tom Zé:

“São, São Paulo, quanta dor,

São, São Paulo, meu amor!”

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

José Antonio Braz Sola é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcas do Conte Sua Historia de São Paulo

Conte Sua História de São Paulo: o cabelo cortado por ordem do senhor Natal

Rubens Batista Rodrigues

Ouvinte da CBN

Foto: Jean depocas on Pexels.com

A profissão de office boy, na São Paulo de 1976, era ponto de partida para a carreira de muitos jovens da periferia que temiam ficar desempregados perto da época do alistamento militar.

Eu morava na Penha e todos os dias pegava o ônibus Parque Dom Pedro, onde os office boys da Zona Leste se encontravam. No centro, cada um seguia seu rumo. O meu era a rua 24 de Maio, onde ficava a Gelre, empresa em que eu trabalhava.

Vestia o uniforme da firma, um terninho um número maior do que o meu, e tênis no pé. Enfrentava filas nos bancos e me virava para dar conta de todas as tarefas. Solícito e apagador de incêndio que era, aceitava sem reclamar.

Graças a esse meu perfil, me transferiram para a avenida Paulista, para uma empresa onde nenhum garoto Gelre, como éramos chamados, queria trabalhar. Tinham medo da rispidez do chefe.

A empresa ficava no número 949, em frente ao prédio da Gazeta. Do outro lado da avenida, os estudantes do Colégio Objetivo sentavam na escadaria com seus óculos degradê, cabelos parafinados e blusão amarrado na cintura.

Eu, adolescente dos anos 1970, me apresentei na Celanese do Brasil cabeludo e com um camisão cor-de-rosa todo bordado nas costas.

Assim que pisei na empresa, me deparei com o senhor Natal, que foi logo avisando:

— A empresa recebe pessoas muito importantes e você terá que cortar o cabelo.

No segundo dia de trabalho, já com o cabelo cortado, recebi outra advertência. E uma verba para voltar ao barbeiro e cortar mais curto ainda.

Meu trabalho era percorrer a região da Paulista, Brigadeiro Luís Antônio, Consolação e Pamplona, passando nos bancos, pegando correspondências, levando malotes e enfrentando filas.

Certa vez fui entregar uma correspondência na Camargo Corrêa, na rua Funchal. Me perdi no meio da chuva e fui parar na Marginal Pinheiros, onde os carros passavam jogando barro em mim.

No dia seguinte, levei bronca do senhor Natal: o envelope chegara molhado e eu ainda o havia deixado na recepção, em vez de entregar em mãos.

A vida de office boy também tinha seu glamour. No meu aniversário e no fim do ano, o pessoal da empresa fazia vaquinha para me presentear.

Conheci gente famosa, como o ator Carlos Alberto Riccelli, que esteve na empresa na época em que interpretava Aritana, novela da TV Tupi. As secretárias não paravam de passar pela recepção para ver o galã.

Também conheci o ator João Paulo Adour, na subida da rua Pamplona. Ele me abordou para pedir uma informação. Afinal, não havia Maps nem Waze naquela época.

E teve uma despedida que ficou na memória.

Menino tímido da periferia, tremi que nem vara verde quando recebi um beijo de uma secretária lindíssima do Banco Francês e Brasileiro. Ela havia passado em um concurso para a Caixa Econômica Federal e não veria mais o “homem da Celanese”, como me chamava.

Era uma brincadeira com a propaganda da empresa, que dizia: “Chame o homem da Celanese!” e mostrava um homem voando pela janela.

Décadas depois, de certa maneira, o homem da Celanese também voou.

Fui para a área de tecnologia da informação. Na memória ficaram aquelas ruas, os malotes, as filas dos bancos, o terninho grande, o cabelo cortado por ordem do senhor Natal e as lembranças de uma São Paulo que se transformou com a tecnologia.

A mesma tecnologia que transformou o mundo do trabalho e hoje me permite trabalhar em home office.

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Rubens Batista Rodrigues é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite meu blog, miltonjung.com.br, e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

50 debates para o Brasil: envelhecimento e novas formas de trabalho pressionam a Previdência

O envelhecimento da população e as mudanças no mercado de trabalho colocam novamente a Previdência no centro da discussão, apenas sete anos depois da reforma de 2019. O tema marcou o 25º encontro da série 50 Debates Para o Brasil, do Jornal da CBN, com o economista Igor Rocha e a advogada tributarista Mary Elbe Queiroz.

Pesquisador da Fundação Getulio Vargas e ex-economista-chefe da Fiesp, Igor Rocha defendeu que a reforma de 2019 foi importante, mas teve alcance limitado diante das transformações demográficas e econômicas.

O primeiro desafio está na mudança da pirâmide etária. Nascem menos crianças, os brasileiros vivem mais e cresce a proporção de aposentados em relação às pessoas que trabalham e contribuem para o sistema.

Quem está entrando no mercado de trabalho não está sendo suficiente para financiar quem está saindo do mercado de trabalho e está se aposentando”, afirmou Igor.

Para ele, há ainda outra transformação: a Previdência foi estruturada tendo como uma de suas principais fontes as contribuições sobre a folha de pagamento. O avanço do trabalho por plataformas e de outras formas de ocupação fora do emprego tradicional reduz essa base de financiamento.

Igor propôs que o país discuta uma mudança mais profunda na forma de financiar a Previdência. Em vez de concentrar a arrecadação sobre a folha salarial, seria possível vinculá-la mais diretamente à renda.

A mudança, argumentou, poderia alcançar trabalhadores que estão fora do regime tradicional de emprego e, ao mesmo tempo, reduzir encargos sobre as empresas. “Ela (a Previdência) ser financiada pela renda seria um ponto de reflexão para o futuro”, disse.

O economista relacionou o problema previdenciário às contas públicas. Segundo ele, Previdência, dívida e juros estão conectados: um déficit previdenciário maior pressiona a dívida pública, que, por sua vez, influencia o custo de financiamento do Estado.

Mary Elbe Queiroz, presidente do Centro Nacional para Prevenção e Resolução de Conflitos Tributários, concordou que mudanças estruturais são necessárias, mas questionou a concentração do debate em novas alterações na idade e nas regras de aposentadoria.

Só novamente fazer um reajuste na idade da aposentadoria não resolve o problema”, afirmou.

Para Mary Elbe, uma reforma duradoura deveria enfrentar também despesas obrigatórias, qualidade do gasto público, federalismo fiscal, fraudes e privilégios. Ela alertou ainda para o risco de transferir mais encargos diretamente para a renda das pessoas sem discutir simultaneamente a redução das despesas do Estado.

Temos que pensar grande para não termos uma reforma e cada vez mais se prejudicar o trabalhador”, disse.

O debate mostrou uma convergência importante entre os dois participantes: ajustes periódicos nas regras de aposentadoria, isoladamente, não parecem suficientes para enfrentar as mudanças demográficas e econômicas. A divergência está principalmente no caminho. Igor propõe repensar a fonte de financiamento da Previdência, aproximando-a da tributação da renda. Mary Elbe sustenta que a prioridade deve ser uma reforma mais ampla do gasto público.

A discussão deixa uma questão: quem financiará a Previdência em um país com menos trabalhadores no emprego formal, menos jovens entrando no mercado e mais brasileiros vivendo por mais tempo?

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Conte Sua História de São Paulo: viver aqui é aprender a seguir em frente, sem nunca esquecer de onde se veio

Ricardo Cordeiro

Ouvinte da CBN

Parque da Luz

Vista aérea do Parque da Luz. Foto: Renata Carvalho/CBN

Nasci em 1963, em plena ditadura militar, quando São Paulo crescia sob concreto, fumaça e silêncios impostos. Vim ao mundo no bairro da Ponte Pequena, região que hoje abriga a estação Armênia do metrô. Eu, também, descendente desse pequeno país na região do Cáucaso, a Armênia, talvez por isso traga comigo, desde cedo, o sentimento de pertencimento misturado à resistência.

Minha infância foi marcada pelo Colégio Prudente de Moraes, que hoje abriga a Pina Contemporânea, anexo da Pinacoteca. Onde antes havia salas de aula, hoje há arte — e eu gosto de pensar que essa transformação também diz muito sobre São Paulo e sobre mim. O Parque da Luz fazia parte do meu cotidiano, um respiro verde em meio à cidade dura, um espaço onde o tempo parecia desacelerar.

Aos nove anos, minha família se mudou para a então Vila Sônia, região que hoje atende pelo nome de Jardim Trussardi, próxima ao estádio do Morumbi, o que me fez são paulino. Fomos morar em uma pequena vila, carinhosamente apelidada de “vilinha”, um lugar pitoresco, acolhedor, que até hoje preserva sua identidade. Ali aprendi o valor da convivência, da rua, do bairro como extensão da casa, fiz inúmeros amigos, que até hoje me acompanham

Comecei a trabalhar cedo. Fui contínuo em banco — o motoboy da época — circulando pela cidade, conhecendo São Paulo por dentro, nos seus corredores, calçadas e contradições. Estudei, me formei em Comunicação e, como a própria cidade, mudei muitas vezes de caminho. Trabalhei em jornais, como a Folha de São Paulo, vivi o ritmo intenso das redações nos tempos do fim da ditadura, e também passei por grandes montadoras, como a Mercedes-Benz, experimentando outros mundos dentro da mesma metrópole.

Casei, me separei, tive um filho, que hoje tem 34 anos, e mais tarde fui presenteado com uma filha linda, que hoje tem 10. Duas gerações separadas pelo tempo, mas unidas por essa mesma cidade que nunca dorme.

Hoje sou empreendedor na área de design digital e impresso, criando, reinventando, comunicando. E como São Paulo também é festa e resistência cultural, criei um bloco de carnaval de rua: o Perdendo a Linha, porque às vezes é preciso se perder para se encontrar.

São Paulo sempre esteve presente nas minhas conquistas e nas minhas derrotas. Uma cidade dura, generosa, caótica e acolhedora. Cresci com ela, envelheci com ela, e sigo caminhando ao seu lado. Minha história se mistura com a dela — porque viver em São Paulo é, acima de tudo, aprender a seguir em frente, sem nunca esquecer de onde se veio.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Ricardo Cordeiro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você, também, o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: empresas precisam derrubar rótulos para aproximar jovens do mercado de trabalho, defende Daniela Redondo, do Instituto Coca-Cola

Daniela Redondo, Instituto Coca-Cola

Daniela Redondo em entrevisa online no Mundo Corporativo Foto: Débora Gonçalves/CBN

“Tira o rótulo. A gente está ouvindo tanto que essa geração não quer trabalhar. Tira isso da frente, que vai abrir um mundo com muita gente querendo trabalhar.” — Daniela Redondo

O mercado de trabalho muda rapidamente. As empresas assistem à essa transformação acontecendo agora ao mesmo tempo que olham para o futuro sem ter certeza do que será do amanhã. Pensam qual será a próxima tecnologia a influenciar a forma de produzir e trabalhar e se esquecem de que será preciso ter pessoas preparadas para os próximos desafios. 

Nesse cenário, uma das contradições identificadas no mercado de trabalho é a dificuldade de as empresas contratarem profissionais, enquanto há uma legião de jovens em busca do primeiro emprego. Em entrevista ao Mundo Corporativo, da CBN, Daniela Redondo, diretora executiva do Instituto Coca-Cola Brasil, alertou que o debate sobre o futuro do trabalho costuma concentrar-se na inteligência artificial, mas o maior desafio permanece humano.

“A tecnologia acelera mudanças, mas a conexão entre as pessoas continua sendo determinante para construir equipes, desenvolver talentos e criar oportunidades.”

À frente do Instituto, Daniela lidera programas voltados principalmente para jovens entre 16 e 29 anos em situação de vulnerabilidade social. O objetivo, além da qualificação profissional, é conectar esses jovens a vagas reais de emprego. Na avaliação da executiva, existe um desencontro entre empresas e candidatos. Enquanto muitos empregadores afirmam que faltam profissionais preparados, milhares de jovens relatam dificuldade para conquistar a primeira oportunidade. Parte dessa distância, segundo Daniela, está nos processos seletivos.

Ela explica que muitas empresas estabelecem exigências incompatíveis com quem está iniciando a carreira. Ao mesmo tempo, os jovens precisam desenvolver competências relacionadas à comunicação, ao relacionamento e ao entendimento do ambiente profissional.  

O Instituto Coca-Cola Brasil decidiu ampliar o alcance de seus programas a partir de 2019. Daniela conta que, alguns anos antes, eram atendidas cerca de 30 mil pessoas por ano. Em 2025, esse número chegou a aproximadamente 250 mil. Ao longo da história do programa, mais de 860 mil jovens foram capacitados em mais de 4 mil cidades

Aumentar o número de participantes, porém, não é suficiente. Para saber se a formação produz uma mudança concreta na vida dos jovens, o Instituto acompanha também a entrada deles no mercado de trabalho. Segundo Daniela, seis em cada dez participantes conseguem emprego depois de concluir o programa

O impacto pode chegar à renda de toda a família. A maioria dos participantes pertence a famílias que vivem com até dois salários mínimos. Nesse caso, explica Daniela, a contratação de um jovem por um salário mínimo pode representar um acréscimo equivalente a 50% da renda que aquela família tinha até então. Se o emprego oferece remuneração maior e possibilidade de crescimento profissional, o efeito tende a aumentar. 

Foi justamente a busca por alcançar mais pessoas sem perder de vista esses resultados que levou o Instituto a desenvolver uma metodologia de crescimento em escala. O modelo, denominado “exponencialidade para impacto”, reúne ferramentas, dados e formas de organização que podem ser aplicadas por outras empresas, organizações sociais e governos. O material é disponibilizado gratuitamente pelo Instituto.

Ao falar diretamente aos gestores, Daniela fez um convite para rever preconceitos sobre a nova geração. Segundo ela, muitos jovens querem trabalhar, aprender e crescer profissionalmente. O primeiro passo é abandonar generalizações e construir processos seletivos mais abertos à diversidade de experiências.

Para quem procura a primeira oportunidade, a recomendação também é clara: continuar estudando, ampliar a rede de contatos e buscar diferentes perspectivas.

“Conecte-se. Expanda a perspectiva para além do seu grupo, porque é essa diferença de perspectiva que vai fazer você ser visto e se destacar.”

Assista ao Mundo Corporativo

Assista à entrevista completa com Daniela Redondo no canal da CBN no YouTube. Você também pode ouvir o Mundo Corporativo no Spotify ou no podcast de sua preferência. Colaboram com o programa Carlos Grecco, Letícia Valente, Priscila Gubiotti, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Conte Sua História de São Paulo: o arquivo morto dos bilhetes aéreos da VASP

Monica Stocco

Ouvinte da CBN

1982. Havia completado 18 anos, finalmente! Já podia trabalhar e dirigir! Ganhei um fusca dos meus pais e consegui um emprego na VASP — sim, uma das maiores empresas aéreas do Brasil. No mesmo ano, ingressei em Administração de Empresas, na PUC de São Paulo. Não me continha de alegria. 

Chegava na VASP às 8 da manhã. Morava lá perto. Batia meu cartão — sim, aquele que a gente enfiava na máquina e registrava o horário de chegada e saída. 

Fui trabalhar no departamento que conferia as passagens vendidas — sim, aqueles bilhetes com várias folhas. Uma ficava com o passageiro para entregar no embarque. As outras vinham para nós. Tínhamos de conferir se o valor cobrado estava correto.

Loucura total! A gente analisava um monte de passagens, praticamente todas cobradas como deveriam ser. A gente colocava os bilhetes numa caixa de papelão e todas seguiam para o Arquivo Morto. Depois de seis meses, aquilo começou a me dar um desespero. Todo meu trabalho estava indo para o Arquivo Morto. 

Conversei com meuj chefe. Ele disse que não poderia fazer nada. Então, criei coragem. Subi no quarto andar, onde ficavam as salas da diretoria. Falei com secretária do diretor de marketing e pedi uma reunião com ele. Depois dela contar o diretor, fui convidada a entrar.

Apresentei-me — prazer, sou a Mônica —, disse a ele o que estava acontecendo. Do meu incomodo em ver meu trabalho ter como destino um arquivo morto. Ele alegou que não tinha vaga para mim no Marketing mas prometeu uma solução. Uns dias depois, fui chamada para trabalhar na área financeira. Aceitei na hora. 

Foram anos muito empolgantes. 

Hoje, infelizmente aquele prédio da VASP, ali ao lado do aeroprto de Congonhras, está em ruínas, vítima de um processo trabalhista sem fim. Virou o próprio Arquivo Morto.

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Conte Sua História de São Paulo: meu amigo ascensorista

João Moro

Ouvinte da CBN

Elevators

Foto: Don Harder/Flickr

Estamos no fim do ano de 1976. Para situá-los foi o ano da primeira nota 10 nos jogos olímpicos de verão em Montreal para a Nadia Comaneci e foi também o ano da morte de Juscelino Kubitschek e de João Goulart.  Eu, com 17 anos, acabara de me formar em Técnico em Eletrônica em uma das escolas mais conceituadas do Estado de São Paulo: a Lauro Gomes, em São Bernardo do Campo.

Através de CIEE  — Centro de Integração Empresa Escola — fui encaminhado para uma entrevista na Telesp, a Telecomunicações de São Paulo S.A. — que foi estabelecida em maio de 1973 como parte do Grupo Telebras, criado em julho de 1972 pelo governo federal para centralizar, modernizar e controlar as operadoras estaduais, funcionando como uma holding.

Eu, muito jovem, fui para minha primeira entrevista de emprego Jamais vou esquecer daquele senhor que conduziu nosso elevador no imponente prédio da Martiniano de Carvalho — naquele tempo muitos elevadores tinham ascensoristas. Eu o cumprimentei com toda a educação. Puxei conversa.  Ele foi muito simpático e me falou com certa tristeza que muitas pessoas nem percebiam a presença dele dentro do elevador. Assim que a porta abriu, desejou-me sucesso e eu fui para a entrevista. 

Aprovado, fiz os exames de praxe e, duas semans depois, me apresentei para o meu primeiro dia de trabalho. O prédio era atendido por oito elevadores. Qual não foi minha surpresa que ao acionar o botão para chamar um deles, de forma aleatória, a porta que se abriu era a do elevador conduzido por aquele mesmo senhor com quem conversei no dia da entrevista. A alegria no olhar dele foi contagiante. Ele me abraçou e disse que havia torcido muito pela minha contratação. Outras pessoas no elevador ficaram sem entender nada. Quanto a mim, fazia ali minha primeira amizade de trabalho.

Esteja ele hoje onde estiver … que saiba que faz parte da memória que tenho dessa grande cidade. 

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Mundo Corporativo: Luana Ozemela, do iFood, destaca o uso da tecnologia para ampliar inclusão e oportunidades

Luana Ozemela, CSO e Vice-Presidente de Impacto e Sustentabilidade do iFood
Luana Ozemela, do iFood, é entrevistada no Mundo Corporativo. Foto: Priscila Gubiotti/CBN


“A gente precisa cultivar essa mentalidade de sermos arquitetos de impacto social. Que que significa isso? Todos os dias estamos pensando como que a minha empresa, além do impacto econômico que eu gero, como que eu posso gerar mais impacto social?”

Mais de 60 milhões de consumidores, 600 mil entregadores ativos e cerca de 550 mil estabelecimentos comerciais formam um dos maiores ecossistemas digitais do país. O desafio é transformar essa escala em oportunidades de trabalho, acesso à educação, proteção social e crescimento econômico para diferentes públicos. E foi razão da entrevista com Luana Ozemela, vice-presidente de impacto e sustentabilidade do iFood, ao programa Mundo Corporativo, da CBN.

Ao falar sobre o papel da tecnologia nesse ambiente, Luana definiu a empresa como um espaço de observação permanente das relações sociais que acontecem dentro da plataforma. “O iFood de hoje é o que eu chamo um verdadeiro laboratório social”, afirmou.

Segundo ela, a tecnologia não deve servir apenas para conectar oferta e demanda. Também precisa identificar vulnerabilidades, prevenir conflitos e ampliar o acesso a direitos e oportunidades. “A tecnologia hoje, ela vem para não só aproximar a demanda da oferta, criar essas oportunidades de trabalho para toda essa população, mas também para intervir onde precisa intervir para dissipar conflitos.”

A executiva destacou ainda iniciativas voltadas aos entregadores, como acesso à educação, pontos de apoio e mecanismos de proteção contra violência e discriminação. “A tecnologia precisa estar monitorando todas essas vulnerabilidades o tempo todo e resolvendo os conflitos e levando essa educação.”

O debate global sobre o trabalho em plataformas

O crescimento das plataformas digitais trouxe para governos, empresas e trabalhadores um desafio que ainda está em construção: encontrar modelos de regulação capazes de equilibrar inovação e proteção social.

Para Luana, a economia de plataformas é um fenômeno recente e exige soluções que respeitem as particularidades de cada país. Ela lembrou que o iFood participa das discussões internacionais sobre o tema desde 2021 e integrou iniciativas promovidas pelo Fórum Econômico Mundial.

“Os últimos três anos de fórum culminaram na estrutura no lançamento da Aliança Global pelo Trabalho Digno de Plataformas”, disse.

A executiva também comentou a aprovação de uma convenção internacional da Organização Internacional do Trabalho (OIT) voltada aos direitos dos trabalhadores. Na avaliação dela, o acordo representa um avanço porque estabelece princípios globais sem impor uma única fórmula regulatória.

“Em cada país o vínculo é definido conforme a legislação local. Em cada país o ganho mínimo é definido conforme a legislação local.”

Para Luana, esse modelo permite ampliar a proteção aos trabalhadores sem comprometer a continuidade das oportunidades geradas pelas plataformas digitais.

Digitalização e acesso ao crédito para pequenos negócios

Além dos entregadores, outro grupo fundamental para o funcionamento da plataforma é formado pelos pequenos empreendedores.

Segundo Luana, uma das principais contribuições do iFood está na aceleração da transformação digital desses negócios. Ela observa que muitos estabelecimentos chegaram ao ambiente digital com atraso e agora precisam lidar com ferramentas cada vez mais sofisticadas.

“A gente já está falando de levar agentes de inteligência artificial para que esses pequenos negócios consigam organizar suas contas, o seu estoque, fazer uma melhor precificação.”

A executiva destacou ainda a oferta de produtos financeiros adaptados à realidade dos restaurantes e pequenos comerciantes. Como a plataforma possui informações detalhadas sobre o desempenho dos estabelecimentos, consegue avaliar riscos de forma diferente da utilizada por instituições financeiras tradicionais.

“Pelo fato da gente conhecer esse restaurante, conhecer como que os clientes gostam do restaurante, como que eles voltam para esse restaurante, a gente consegue dar produtos financeiros muito melhores.”

Entre os serviços oferecidos estão crédito, microcrédito, cartão de crédito e antecipação de recebíveis, instrumentos que ajudam empresas de menor porte a expandir operações e enfrentar períodos de instabilidade.

Inovação social para enfrentar problemas complexos

A área de impacto e sustentabilidade do iFood trabalha com o conceito de inovação social, que, segundo Luana, consiste em encontrar novas formas de resolver desafios coletivos.

Um dos exemplos apresentados na entrevista foi a segurança no trânsito. Em vez de concentrar esforços apenas em mecanismos de punição, a empresa passou a estudar fatores comportamentais capazes de estimular mudanças mais duradouras.

“Inovação social para a gente nada mais é do que pensar de múltiplas formas, como resolver problemas sociais complexos.”

A partir desse princípio, foi desenvolvido um sistema baseado em ciência comportamental para incentivar práticas mais seguras na condução de veículos. O programa utiliza dados e mecanismos de incentivo para estimular mudanças de comportamento entre os entregadores.

“A gente conseguiu reduzir drasticamente o número de entregadores que dirigiam consistentemente acima da velocidade do viário urbano.”

Segundo Luana, os resultados foram alcançados sem reduzir a eficiência operacional da plataforma. “A gente fez isso sem tornar a nossa operação mais lenta.”

Para ela, a inovação social se torna relevante justamente quando consegue enfrentar um problema coletivo e, ao mesmo tempo, manter a viabilidade do negócio.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

Conte Sua História de São Paulo: o chiado do rádio na Copa do Mundo de 1958

Laudizio Jorge Marquesi

Ouvinte da CBN

Foto de Athena Sandrini on Pexels.com



Meu pai, alfaiate, Luiz Marquesi. Minha mãe, excelente dona de casa, Albonea  Marquesi. Família que na época eu já considerava grande: quatro homens, com nomes iniciando pela letra L, e três mulheres, toda com nomes começando com N. Eu, por ser o caçula, escapei de me chamar Lauro. Meu pai, ouvindo a rádio Nacional do Rio, descobriu o “Laudizio, mago das joias”. E o acréscimo veio do dia de nascimento, inspirando no dia do santo, São Jorge.


De Garça, interior de São Paulo, para o bairro da Casa Verde, na São Paulo de 1955, foi um pulo. Minha irmã Neide veio na frente, em 1954, e foi ser telefonista no Hotel Jaraguá, na rua  Major Quedinho, edifício do Estadão. Ano da comemoração do IV Centenário da cidade. Era uma São Paulo festiva e brilhante. Recebeu artistas do cinema americano. Na époica já havia transmissões de TV para os privilegiados. O rádio segui imbatível.

Como disse, cheguei uma ano depois, mas me permita dar um salto no tempo: 1958. Que ano maravilhoso! Brasil, campeão do Mundo na Suécia. Foi quando Pelé nasceu para o futebol. As transmissões de rádio eram em ondas curtas e retransmitidas pelas grandes emissoras da época, casa uma em um estado diderente. 

Ao microfone da Bandeirantes, Edson Leite e Pedro Luiz. E apesar do chiado a festa era enorme a cada gol do Brasil. Lembro da final da Copa, em 28 de junho. Dia de São Paulo. 5 a 2 para o Brasil. Terminada a partida, nos céus, milhares de balões com as cores do Brasil e um foguetório enormo. Que emoção. Que alegria. Imagine o que era ouvir, pela primeira vez, o Brasil ser campeão do Mundo. 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Laudizio Jorge Marquesi é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: da metalúrgica à missão de ser professor

Flávio Santino Bizarrias

Ouvinte da CBN

Quadro negro
Foto: Isa Lima Universidade de Brasília/Flickr

Nasci em São Paulo, em 1973. Filho de um metalúrgico analfabeto e de uma servente, migrantes do nordeste.  Aos cinco anos tive uma doença grave que comprometeu 70% da visão de um dos olhos. Eu não sabia, mas isto seria determinante para eu me tornar professor. 

Aos 13 anos, era hora de ir trabalhar. Um tio metalúrgico e um cunhado metalúrgico tinham iniciado um primo no SENAI. E eu deveria seguir esse caminho, também. Mas o destino e a natureza tinham outros planos. Com uma semana, fui cortado do SENAI. O risco de um cavaco acertar meu olho bom era muito alto, e os adultos, prudentes, cancelaram minha matrícula. 

Lembro quando fui chamado em meio a aula. O nordestino é antes de tudo um forte, então eu honrei meu pai, e não chorei ali não. Chorei em casa. 

Aquele cunhado me levou para trabalhar na empresa dele: uma metalúrgica. E me colocou em uma atividade administrativa. Mas eu fazia de tudo: operava máquina, carregava caminhão, atendia telefone, vendia no balcão..  e estudava a noite. 

Foram 13 anos na metalúrgica. O paulistano é, antes de tudo,um forte, me perdoe seu Euclides. Ok, ok… o paulistano, filho de nordestino, é antes de tudo um forte. 

Na escola, eu admirava a dona Benedita, professora de matemática; dona Genézia, de história.; o prof. Evanildo de geografi Eram os meus ídolos. Foi quando comecei a perceber que eu gostava de explicar. Veio o cursinho, com o professor Riccieri, que arrematou o destino. Eu queria ser professor. 

No chuveiro, um palco de ensaio geral — vocês sabem o que estou falando —, eu começava a sonhar em dar aulas, ensinar, brincar com os alunos. Fiz vestibular para matemática. E fui estudar na USP. 

Dona Benedita ficou tão orgulhosa que chamou minha mãe na sala de aula para homenageá-la — mamãe era servente na escola. Imagina a emoção! 

Mas eu vivia um dilema. Estudava pra ser professor, mas trabalhava na metalúrgica. Fui, então, estudar administração. Meu cunhado dizia que era isso que a empresa precisava

Os anos passaram e um destes anjos de plantão, que aparecem na vida da gente, me deu a oportunidade de participar de um processo seletivo em uma universidade, que aceitava especialistas, gente que fazia MBA, e eu tinha feito dois. 

Entrei na universidade como professor. E nunca mais sai. Naquela época, havia deixado a metalúrgica e trabalhava em uma grande empresa. Fui viver uma vida dupla. Escritório de dia, professor à noite. Até que tomei a decisão de deixar o escritório pela sala de aula

Hoje sou professor há 18 ano —  mais do que o tempo na metalúrgica e mais do que o tempo na multinacional. A natureza cumpriu seu papel, e tirou de mim o fruto mais perfeito que eu poderia dar: ensinar.

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Flavio Santino Bizarrias é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.