Em 1978, aos 16 anos, cursando o último ano do colegial, iniciei o que seria minha carreira no sistema bancário. Feliz da vida, dia 13 de setembro de 1978, recebi orientações para ir sozinha de ônibus para o centro da cidade. Primeiro dia de trabalho. Imagine a alegria.
Desci no Largo do Paissandu e entrei na igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos — pedi proteção para aquele que seria o primeiro dia de muitos anos de trabalho. Caminhei até a rua Boa Vista, que era o centro financeiro e histórico de São Paulo.
Assim que cheguei, algo totalmente inesperado aconteceu. Jovem, ingênua, pouco informada, ainda sem o hábito de ler os jornais, fui surpreendida. Era dia de greve dos bancários. Pessoas com bandeiras em mãos. Gritos de protesto. A cavalaria na rua. Policias com cacetetes em punho. Tentavam acertar quem passasse pela frente.
Chorando, em um local que ainda não conhecia. Morrendo de medo de perder meu emprego, sem ao menos ter começado. Foi quando por sorte — dessas que só São Paulo para proporcionar — encontrei um anjo. Daquelas pessoas que cruzam nossa vida quando mais precisamos — quero crer que foi obra daquela ida a Igreja. Pedi uma ajuda. Precisava de uma orientação do que fazer. Não havia celular para ligar para casa, falar com os pais.
O anjo, que conhecia bem a região, me indicou um caminho que estava livre e permitia entrar no banco, pelos fundos, em uma portaria na 25 de Março.
Com essa ajuda fugi dos riscos daquele confronto e me abriguei no prédio onde haveria de iniciar meu primeiro emprego, contratada para ser conferente de dados. Eu tinha de verificar as informações em listagens imensas emitidas pelos computadores.Algo impensável para os dias de hoje mas que deu início a construção de uma história de quase 48 anos no mercado de trabalho, em São Paulo.
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Fatima Novais é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros cap[itulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Estou com 68 anos e moro no bairro de Moema, na zona sul. Aos 14 anos, fiz o curso de datilografia. Naquela época, era essencial para se conseguir emprego. No começo de 1973, fui contratado pelo Banco da Bahia com o cargo de contínuo, outro nome para a função de office boy.
Trabalhava meio expediente na agência da Domingos de Moraes, nº 193, na Vila Mariana, das sete da manhã até a uma da tarde. Havia um detalhe: eu precisava pegar o malote antes na Sucursal, que ficava na Rua São Bento, nº 480, no Centro. Chegava lá por volta das 6h15 da manhã e passava por três andares para recolher os malotes: havia cheques, contratos e documentos de lançamentos em conta corrente. Coleta feita, atravessava o Vale do Anhangabaú para embarcar no ônibus 570 – Planalto Paulista, da Viação São Benedito.
Quando lembro dessa situação, fico admirado. Caminhar bem cedo pelo Centro de São Paulo, carregando malotes e sem ser importunado. Nos dias atuais, isso seria impossível.
Chegava antes das sete na agência da Vila Mariana e começava o meu trabalho interno: separar as correspondências, envelopar e deixá-las à disposição dos clientes. Os clientes gostavam de passar na agência para pegar as correspondências.
Lembro que a maioria dos processos era manual. Alguns poucos eram mecanizados, de forma bem simples. Usavam-se máquinas que lançavam as fichas de conta corrente. Havia o som das máquinas de datilografia e das de somar também — as operações aritméticas eram feitas puxando a alavanca. Outra máquina, acionada manualmente, gravava o nome e o número da conta corrente do cliente no verso da folha de cheque.
Por volta das dez da manhã, eu tinha que retornar à Sucursal, levando muitos documentos e trazendo outros tantos.
Ainda em 1973, o Bradesco comprou o Banco da Bahia, e passei a trabalhar oito horas por dia. Visitava muitas agências de outras instituições para pagar títulos e duplicatas. A maioria ficava nas ruas Boa Vista e 15 de Novembro. Eram grandes, com muitos caixas, filas e pessoas.
Aos poucos, começou a modernização. Os cheques passaram a ser magnetizados com a identificação do cliente, e o processo de informatização se iniciava. Ainda assim, existia muito papel: talões de cheques, títulos, duplicatas, contratos, extratos.
Com o tempo, vieram os caixas eletrônicos. Muitas agências foram fechadas, e as que restaram diminuíram bastante de tamanho.
É maravilhoso recordar um tempo em que, ainda adolescente, eu andava rapidamente pelas ruas de São Paulo carregando toda aquela papelada. Hoje, ao fazer todas as operações bancárias pelo celular, custo a acreditar como as coisas eram tão diferentes em um passado não muito distante. Melhor assim, pois sobra tempo para curtir esta cidade que eu amo tanto.
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Sérgio Slak é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos $72 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Sou um carioca de 54 anos. Minha relação com São Paulo começou ainda pequeno, nas décadas de 1970 e 1980. Meus bisavós italianos migraram para cá no início do século XX. Dos irmãos, apenas minha avó decidiu viver na cidade do Rio de Janeiro. Por isso, com alguma regularidade, visitávamos nossos parentes em São Paulo.
Lembro, inclusive, de ter vindo em uma dessas viagens no antigo Trem de Prata, que ligava a Estação Barão de Mauá, no Rio, à Barra Funda, em São Paulo. Também estava na cidade quando soube das mortes de Elis Regina, em 1982, e do zagueiro Daniel González, do meu Vasco, em 1984.
Na juventude, essa relação se intensificou, mas de maneira diferente. Entre 1993 e 1999, fiz diversas viagens para o Sul do país, sempre passando por São Paulo. Eu seguia pela Dutra para acessar a Régis Bittencourt. Não existia Rodoanel, a Marginal era mais estreita e o trânsito, muito pesado. Perdíamos horas apenas atravessando a cidade. Foi nesse período que prometi a mim mesmo que nunca moraria em São Paulo.
O “nunca”, porém, decidiu se vingar. Por causa do meu emprego, fui transferido para São Paulo no início de 2000. Vim já casado, com minha esposa, que é de Fortaleza. Aqui moramos até 2009. Nesse período nasceram nossas três filhas e vivi um momento de grande crescimento profissional. Foi uma fase marcante das nossas vidas.
Em 2009, tentei “fazer as pazes com o nunca”. Surgiu a oportunidade de voltar ao Rio e fizemos a mudança com tranquilidade, já que as meninas ainda eram pequenas. Aproveitamos bastante aqueles anos em que o Rio vivia um ciclo otimista, pré-Copa e pré-Olimpíadas, com o Cristo estampando a capa da revista The Economist, em 2009.
Alguns anos depois, o país e o Rio entraram em um período difícil. A mudança de clima foi simbolizada, novamente, pela Economist, agora com o Cristo despencando. E o “nunca” reapareceu. Em 2017, fui convidado a trabalhar outra vez em São Paulo. Aqui estou desde então, agora com filhas se formando e construindo suas vidas nesta cidade que nunca para.
Os cariocas não costumam ser fãs de São Paulo. Guardo meu saudosismo do Rio, é claro. Reconheço, porém, que a cidade e os paulistanos me acolheram muito bem. Depois de tantos anos, aprendi a lidar com essa metrópole intensa e complexa, cheia de possibilidades. Hoje sou feliz aqui e não tenho motivos para pensar em sair.
Só que, desta vez, prometo não dizer mais “nunca”. Vai que ele resolve se vingar de novo.
André Luiz Marques é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Ângelo Guerra em entrevista ao Mundo Corporativo da CBN Foto: Priscila Gubiotti/CBN
“Nós tivemos 12 milhões de interações no mês de janeiro.”
O setor de atendimento ao cliente no Brasil reúne mais de 1 milhão de empregos formais e processa milhões de contatos todos os dias. Deixou de ser um serviço baseado em telefone e passou a operar como um sistema amplo de relacionamento com o consumidor. Esse movimento, impulsionado por tecnologia, dados e novas demandas do público, foi tema de entrevista com Ângelo Guerra, presidente da Atento Brasil, ao Mundo Corporativo, da CBN.
Ao explicar essa transformação, Guerra recorreu à memória do próprio setor. Citou o 102, serviço de auxílio à lista telefônica, e as Páginas Amarelas. Hoje, segundo ele, o modelo mudou na base: “Quando a gente fala desse setor de atendimento, a gente fala que é de contact center, não mais de telemarketing; nós podemos desde ajudar com uma dúvida técnica sobre um produto que você acabou de comprar, como também uma assessoria financeira para fazer uma aplicação, um investimento, uma marcação de uma consulta”.
Os números ajudam a entender a mudança. “Desses12 milhões de interações, 70% são através de canal de voz e 30% canal digital, chat, e-mail, o que seja. Todos foram receptivos”, afirmou. E acrescentou: “Menos de 3% hoje delas são relacionadas com o que nós chamávamos antigamente de telemarketing”.
Dados, tecnologia e escuta
Cada contato com o cliente gera informação. E essa informação passou a orientar decisões. A qualidade dessa informação é muito rica, de acordo com Guerra. E o volume de dados permite corrigir processos e ajustar operações. Ao mesmo tempo, exige mudança de comportamento.
“Se você me pergunta hoje quais das três prioridades que eu tenho como líder, eu acho que a escuta ativa é um ponto primordial”, afirmou.
O treinamento acompanha essa exigência, explica o executivo. O novo colaborador passa por cerca de 25 dias de capacitação inicial. Depois, o aprendizado segue na prática: “Isso é on the job training, você vai treinando ele continuamente”.
A inteligência artificial entrou nesse processo. Atua desde a seleção de candidatos até o atendimento: “Posso emular o Milton através de uma inteligência artificial”, explicou, o que torna o treinamento mais efetivo. A tecnologia também apoia o operador com informações em tempo real. Sugere respostas, interpreta o comportamento do cliente e ajuda na tomada de decisão. “A gente tem convertido bastante vendas em chamadas que não são para vendas”, disse.
Esse modelo levou a criação de um agente de IA, batizado de Robocop — permitindo que o assistente seja potencializado pela inteligência artificial. O Robocop já estará em teste em cinco mil das 45 mil posições de atendimento da empresa.
Imagem do setor e chamadas indesejadas
O setor ainda convive com um problema de reputação. As constantes ligações feitas de forma indiscriminada geram um quantidade enorme de reclamações às empresas que atuam neste mercado: “Qualquer pessoa que eu encontro na rua me pede ajuda para parar de receber chamadas que são inconvenientes”, relatou. Guerra esclarece que essas ligações não são feitas pelas empresas de atendimento ao cliente. São centrais clandestinas que atuam para coletar dados ilegalmente e dar golpes nas pessoas.
Ao apontar a atuação de grupos criminosos, ele separa essas práticas do trabalho das empresas estruturadas. Entende que uma das respostas está na regulação: “A Anatel colocou uma norma regulatória e as empresas têm até 2028 para criar o que se chama de chamada autenticada”. Quando o sistema estiver funcionando plenamente, o número que aparecerá no celular da pessoa estará acompanhando de uma espécia de selo de verificação.
A experiência internacional com este modelo indica resultado relevante: “A gente viu uma redução de 80% dessas chamadas inconvenientes”.
Emprego, inclusão e pressão de custos
O setor mantém papel relevante na geração de emprego. São mais de 1 milhão de trabalhadores com carteira assinada. Na Atento, cerca de 45 mil. As centrais de atedimento ao cliente têm por caracaterística serem o primeiro emprego de milhares de trabalhadores: “… você pega um primeiro emprego, treina e fica um período, depois está apto para coisas diferentes”, disse Guerra chamando atenção para a altar rotatividade.
A empresa também investe em inclusão. Segundo Guerra, 70% dos colaboradores são mulheres. Há equipes formadas por imigrantes, com atuação em outros idiomas.
Ao mesmo tempo, há pressão sobre custos. Ele cita o impacto da reforma tributária. “Se o meu custo é mão-de-obra, como é que nessa jornada eu consigo fazer uso de crédito (tributário)”, questionou, lembrando as mudanças que estão em andamento no sistema tributário e a dificuldade para o setor se beneficiar das compensações previstas na nova lei.
A jornada de trabalho também entra no debate. “Nós hoje fazemos 36 horas semanais, são jornadas de 6 horas com pausas”, explicou.
Atendimento como área estratégica
O atendimento passou a ocupar espaço na estratégia das empresas. Nem todas perceberam. “Tem algumas empresas que ainda não perceberam que é importante sentar e entender o que que está acontecendo no dia a dia para ajustar a jornada do seu cliente”, disse. A análise dessas interações permite corrigir falhas e melhorar a experiência, tornando-a customizada, o que resultará em maior satisfação e retenção do cliente.
Ao falar de liderança, Guerra aponta a presença como fator central. “Eu diria para você hoje que talvez o meu papel mais importante hoje é estar disponível, escutar, ajudar, apoiar”. E resume a responsabilidade: “44.999 pessoas me tirando da cama todo dia cedinho porque eu represento tudo isso”.
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Luiz Delboni, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
Bater metas no trabalho, dar conta da rotina em casa, cuidar da saúde com alimentação regrada e exercícios físicos, ter higiene do sono, ler para ser uma pessoa bem informada… Ser produtivo é sinônimo de sucesso!
Mas, afinal: o que é ser produtivo? Quem define isso?
Viver, para um ser humano, é uma experiência complexa. Reforço “para um ser humano” porque somos uma espécie animal que tem consciência — outra coisa de difícil definição. Ou seja, sabemos dos fatos, das consequências, dos riscos, das possibilidades e isso nos dá poder e, ao mesmo tempo, angústia.
Sabemos dessa realidade dura e sentimos desejos — temos vontade de vivenciar experiências, conquistar bens materiais, ser admirados e amados. Reparou quantos movimentos acontecem ao mesmo tempo?
Unir o mundo de dentro, que é “quem somos”, com o mundo de fora, “os outros e a vida como ela é”, dá trabalho — um trabalho árduo e, muitas vezes, confuso.
Quem devo ouvir: a mim mesmo — e minhas vontades e ideias — ou aos outros — o que todos falam que é bom, o que a sociedade diz ser certo? Quem estabelece se eu “tenho sucesso”?
Ser produtivo, hoje, significa estar sempre ocupado com coisas que trazem resultado, que posso provar que fiz. Com aquilo que todos enxergam. Números, dados, imagem, soluções palpáveis ou visíveis. E isso é ruim? A verdade é que a sensação de “chegar lá” é muito prazerosa. Inclusive, a construção da nossa “autoestima” (o conceito que temos sobre nós mesmos) está muito relacionada às nossas realizações. Então, vale a pena produzir!
A grande questão aqui é: produzir o quê, quanto, por quê, para quem?
Convido você a pensar: dentro da sua realidade hoje e dos seus parâmetros (do seu mundo interno), o que é possível fazer sem se destruir de cansaço? O que é um sucesso atingível, de forma que você se mantenha vivo, com saúde, para saborear essas conquistas?
E faço uma última pergunta: qual conceito de “ser produtivo” você vai construir e viver?
Te desejo muitas realizações autênticas, muito sucesso, o seu sucesso!
Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.
Quando eu era criança, minha nonna mudou-se de Adamantina para a então distante São Bernardo do Campo. Religiosa, como sempre foi, logo encontrou um lugar para depositar a sua fé: a “Igrejinha da Record”. Simples, acolhedora, quase escondida no cotidiano da cidade.
Anos depois, já adolescente, fui eu quem se mudou para São Paulo, vinda de Adamantina — Adamantina, no interior paulista, não Diamantina, em Minas Gerais. Passei no vestibular da Faculdade Paulistana, na Vila Mariana, e ali mesmo consegui meu primeiro emprego. No segundo ano, transferi-me para a Universidade Metodista. Ainda assim, continuei trabalhando na Paulistana. Naquele momento, eu não imaginava que essas duas fases da minha vida — a da fé herdada e a da formação profissional — guardavam uma ligação invisível.
Anos atrás, movida pela memória, resolvi visitar a igrejinha da minha nonna. Entre pesquisas na internet e conversas com pessoas da igreja, descobri algo que me surpreendeu profundamente. O padre que celebrava as missas frequentadas por minha avó era o professor Azurem Ferreira Pinto, fundador e dono da Faculdade Paulistana. A mesma faculdade em que passei no vestibular, naquele distante janeiro de 1982, e onde tive meu primeiro emprego.
Quando trabalhava na Paulistana, eu sabia que o professor Azurem havia sido padre. O que eu jamais imaginei é que ele fosse justamente o padre da igrejinha que minha nonna frequentou até o seu falecimento. Coincidência? Obra do destino? Coisa de Deus?
A pequena igrejinha cresceu e hoje é o Santuário de Nossa Senhora Aparecida. A antiga capela foi preservada, quase como um relicário da cidade. Foi reconstruída no mesmo terreno onde hoje está o Santuário, no bairro da Pauliceia, em São Bernardo do Campo.
Conversando com uma funcionária do Santuário, soube de outro detalhe tocante. Na época em que minha avó assistia às missas, a igreja ficava dentro de um pátio da Mercedes-Benz, ali ao lado. Foi desmontada tijolo por tijolo e reconstruída no local atual.
Com tristeza nos olhos, ela contou que nem todos os tijolos chegaram ao novo endereço. Alguns foram levados por pessoas que quiseram guardar um pedaço da história como lembrança.
Talvez São Paulo seja feita disso: encontros improváveis, caminhos que se cruzam sem aviso. Fé, trabalho e memória assentados, literalmente, sobre os mesmos tijolos.
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Silvia Cristina Tiezzi é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 272 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Março de 1974, eu tinha 14 anos, meu primeiro emprego. Muita felicidade. Um amigo dos meus pais apresentou-me na empresa que ele trabalhava, Duratex S/A Indústria e Comércio. O meu cargo era de Aprendiz de Arquivista. Recebia CR$ 308,00 por mês para arquivar duplicatas dos clientes.
Meses depois, em novembro, um outro amigo da família, ofereceu-me emprego na Companhia Paulista de Força e Luz, com salário maior, CR$ 380,00. Era contínuo, uma espécie de office boy interno. Entregava correspondência nas seções do prédio da empresa.
Estava terminando o ginásio e o governo fazia campanha para que os estudantes cursassem o colegial técnico. Escolhi o curso em eletrônica na Escola Técnica Oswaldo Cruz – Paes Lemes, que ficava na mesma rua onde eu trabalhava, na avenida Angélica, no bairro de Santa Cecília. Meus pais não tinham condições de pagar e eu usava quase todo meu salário para a mensalidade do curso.
Três anos depois, consegui emprego no Banco Nacional S/A como Escriturário. Salário de CR$ 1.550,00. O que me permitiu, além de pagar o curso, ajudar meus pais. Trabalhei por um ano. Porém, como estava no fim do curso precisava estagiar para ter o diploma, fazer o relatório para o MEC e conseguir o registro no CREA.
Por coincidência, na mesma sala que eu, estudava o filho do dono de uma empresa de guilhotina eletrônica, a Guarani Máquinas Gráficas — guilhotinas que serviam até na casa da moeda, para cortar papel moeda. Era março de 1978 quando fui admito no cargo de técnico em eletrônica. Com salário de CR$ 12,00 por hora, trabalhei lá no período do estágio, fiz o relatório, peguei o diploma e me registrei no CREA.
Agora, meu sonho era trabalhar na Telesp: além da grande oportunidade de crescer profissionalmente, o salário era muito bom. Pois foi que, no começo de 1979, consegui uma vaga de Auxiliar Técnico do Tráfego de Operação, com incrível salário de CR$ 8.437,70. Felicidade total!
Na Telesp, que foi privatizada, virou Telefônica e depois Vivo, trabalhei por 32 anos. Nesse tempo, cursei faculdade e meu último cargo foi de Analista de Telecomunicações Sênior. Em 2009, me aposentei e, em janeiro de 2011, parei de trabalhar. Trinta e seis anos depois daquele primeiro emprego.
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Odnides Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 272 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Em 1980, conquistei meu primeiro emprego com carteira assinada. Tinha 18 anos, morava no Imirim com meus pais e minha irmã. O Centro da cidade parecia um território distante, um mundo enorme para ser desvendado.
Fui trabalhar no Banco Noroeste, na rua Boa Vista. Era a mais jovem do departamento. Observava, aprendia e tentava me adaptar à rotina daquele mundo novo.
Logo percebi que meus colegas mantinham uma tradição, um hábito curioso. Às segundas-feiras, saíam rapidamente do trabalho, atravessavam o Viaduto do Chá e seguiam para o Teatro Municipal. Ali assistiam às apresentações gratuitas de música, teatro e balé — um presente inesperado no começo da semana.
Resolvi acompanhar o grupo. Na primeira vez, assisti à peça Pedro e o Lobo, com participação de uma orquestra cujo nome, infelizmente, não guardei. Guardei, no entanto, algo muito mais importante: a emoção. Até hoje me faltam palavras para descrever o que sentiu aquela menina da periferia ao entrar no Teatro Municipal e ouvir uma orquestra ao vivo. Era mais do que cultura; era pertencimento.
Passei a ser presença constante nas segundas-feiras do Municipal. O trabalho me abriu portas que eu sequer sabia que existiam. Caminhar do banco até o teatro era atravessar não apenas o centro da cidade, mas também limites pessoais que eu imaginava intransponíveis.
Um dia, sem aviso, as apresentações foram interrompidas. O ritual terminou. A lembrança, não. Ela segue viva como você pode perceber nesta história de conto de São Paulo.
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Cintia Capello é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Sou um jovem de 46 anos, casado com Silvana, dois filhos, Júlia e Felipe Noé. Comecei a trabalhar muito cedo. Tinha 16 anos. Foi na rádio e TV Bandeirantes, como mensageiro, entregando correspondências internas para grandes nomes do rádio: José Paulo de Andrade, Mano Véio e Mano Novo …
Logo no início da minha carreira, perdi meu pai, que era a minha maior referência. Noe leite da Silva era um grande homem, honesto, digno e de enorme coração.
Somos em cinco filhos: Noelmo, Nelson, Simone, Silvana e eu, Neomar. Minha mãe, dona Maria, criou a gente com todo amor.
Aos 20 anos fui trabalhar no Shop Tour como assistente de câmera. Fiquei totalmente apaixonado pela profissão. Logo virei operador de câmera e corri atrás dos meus documentos para tirar o meu DRT.
Curiosamente, falava sempre para o meu irmão Nelson, que me dava carona todos os dias para o trabalho, ao passar em frente a sede da TV Globo, ali na Marginal Pinheiros, que eu ainda trabalharia lá.
Sonho realizado em 2006, contratado como técnico de sistemas. Na Globo permanecei até 2023, quando fui contratado pelo SBT. É lá que trabalho atualmente. No próximo dia 1º de abril, completarei 30 anos de carreira. Sou apaixonado pela profissão. E agradeço a São Paulo pelas oportunidades que me ofereceu.
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Neomar Leite é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também um personagem da nossa cidade: envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Orelhão em São Paulo. Foto de Ednei Lopes/Flickr CBN SP
Quem apostaria em um jornalista recém-formado, mineirinho de Poço Fundo, diante de um desafio que não caberia nem nos seus melhores sonhos? De repente, lá estava eu, em um dos espigões da antiga Faria Lima, dentro de um escritório executivo todo envidraçado da Editora Abril. Não como jornalista — que, afinal, nunca fui —, mas como o publicitário que me tornei, por essas linhas tortas com que dizem que Deus escreve certo.
Quase por acidente, eu representava um grupo empresarial de Uberlândia que, em parceria com a Abril, disputava, lá pelos idos de 1985, uma concorrência acirrada para a impressão das listas telefônicas de São Paulo. Coisa grande — literalmente. Do outro lado, nada menos que o grupo Estadão.
Munido de um slogan escrito despretensiosamente apenas para orientar minha defesa estratégica diante de um grupo de americanos da Nynex — a maior impressora de listas telefônicas de Nova York —, ouvi o tradutor repetir a minha frase em inglês:
“Now you know where to go!”
Soou perfeita. Melhor, inclusive, do que a minha versão em português:
“Agora você sabe onde ir.”
Os americanos, smart como são, perceberam o mesmo que eu e reagiram à sua maneira: “Ohhhh!”, “Good!”, e por aí afora.
As listas não saíram. Na verdade, poucos anos depois, desapareceram de vez. Mas ficou a experiência. O batismo de fogo do publicitário — quase jornalista — em uma daquelas oportunidades que só São Paulo costuma oferecer: aquelas que a gente não planeja, mas que mudam o rumo da nossa história.
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Luiz Serenini Prado é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.