Mundo Corporativo: João Neves, da Thopen, fala do desafio de levar energia limpa do atacado ao varejo

Os bastidores da gravação online do Mundo Corporativo. Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“Nós vivemos em um período em que o nosso grande desafio é que a gente faça coisas de forma que não destrua o mundo. Conforme a gente conseguir colocar dentro dos nossos negócios processos e valores alinhados com isso, eu acho que vai fazer com que os negócios sejam mais duráveis e mais rentáveis.”

João Neves, Thopen Energy

Uma conta de luz errada, um detalhe técnico quase invisível e um ressarcimento de cerca de 6 milhões de reais. O caso se deu quando a Thopen Energy identificou que um cliente estava ligado fisicamente em rede bifásica, mas era cobrado como se tivesse uma ligação trifásica: na prática, “aquela conta ali vinha sempre um terço a mais”. O caso ilustra o que está em jogo na abertura do mercado de energia no Brasil: tecnologia, regulação e educação do consumidor combinadas para reduzir custos, dar liberdade de escolha e, ao mesmo tempo, empurrar empresas em direção a modelos mais sustentáveis. Esse foi o tema da conversa com João Neves, CRO e cofundador da Thopen Energy, no Mundo Corporativo da CBN.

Da conta de luz ao churrasco: quando a energia vira varejo

A Thopen nasceu em 2018 olhando para uma transformação que já aconteceu em outros setores. Neves faz um paralelo direto: “Está acontecendo com a energia o que aconteceu nos anos 2000 em Telecom e nos anos 2010 com os bancos”. Assim como um dia foi normal esperar meses por uma linha telefônica ou deixar dinheiro parado na poupança, ele enxerga na energia um movimento semelhante de migração do atacado para o varejo — com mais opções e mais pressão por eficiência.

Hoje, o mercado livre de energia é consolidado em países que começaram essa abertura há cerca de 20 anos. No Brasil, a transição ainda avança com mais lentidão. A Thopen se posiciona nesse intervalo: quer “dar liberdade, empoderar os clientes para que eles possam consumir energia da melhor forma possível”, tanto pelo lado da oferta (de quem fornece) quanto da demanda (de quem consome).

Esse trabalho passa por reler a conta de luz. Segundo Neves, em sistemas que processam milhões de faturas “naturalmente” surgem erros. A diferença está no que se faz com eles: a empresa cruza dados físicos da ligação com as informações da distribuidora, identifica incoerências tarifárias e aciona a concessionária para ressarcir o cliente. No caso emblemático citado na entrevista, o ajuste gerou cerca de 6 milhões de reais devolvidos.

Ao mesmo tempo, a Thopen opera em um setor altamente regulado e projeta crescimento: hoje fatura entre 500 e 600 milhões de reais por ano e trabalha com a meta de chegar a 1 bilhão. São cerca de 300 funcionários diretos e uma cadeia produtiva que envolve algo em torno de 20 mil pessoas, entre representantes e parceiros comerciais. “As pessoas estão descobrindo que essa é uma forma delas ganharem dinheiro”, resume.

Um mercado cheio de possibilidades e desconfianças

O avanço do mercado livre exige menos improviso e mais método. Neves descreve o setor de energia como “um mercado que está abrindo, um mercado que está cheio de possibilidades”, mas faz um alerta: “É fundamental que esse processo educacional seja feito da melhor forma possível. Então, pessoas que conseguem conversar com pessoas fazem bastante diferença”.

Essa ênfase na educação tem uma razão prática. No Brasil, onde golpes e promessas fáceis fazem parte do imaginário cotidiano, a primeira reação à oferta de conta mais barata costuma ser a suspeita. Na entrevista, ele sintetiza o pensamento do consumidor diante de uma proposta de pagar 10% a menos: “Qual é o primeiro pensamento do cara? ‘Onde é que ele está levando vantagem? Que falcatrua tem aí?’”.

Daí a insistência em credibilidade e transparência como condições de crescimento: “O essencial na estruturação da empresa vai ser a gente conseguir entregar os ativos que a gente tem que entregar e criar credibilidade no mercado para que eles possam usar os produtos que nós temos”. Em outras palavras, reduzir a conta é importante, mas não basta. É preciso provar que a economia não vem acompanhada de risco ou de armadilha contratual.

Essa mudança também reorganiza a lógica de atendimento. No atacado, um executivo pode cuidar de um cliente que movimenta 20 milhões de reais por mês. No varejo, a realidade é outra: é preciso desenvolver sistemas que gerem informação e valor para contas de mil reais, com alto grau de automação, sem perder a capacidade de corrigir problemas rapidamente. Neves resume: “No atacado, ele pode ser mais artesanal. O varejo não, senão ele morre”.

Tecnologia, IA e o papel do CRO

O cargo de João Neves ajuda a entender a engrenagem. “Essa foi uma invenção do presidente da empresa”, brinca, ao explicar o que faz um CRO, Chief Revenue Officer — em tradução livre para o português, CRO é o Diretor Executivo de Receitas. Sua missão é “fazer com que a gente tenha um negócio sustentável, começando lá do institucional, o marketing, publicidade, até geração de lead, de venda, faturamento, crédito, cobrança e colocar esse dinheiro no caixa”. Na prática, o CRO acompanha toda a jornada da receita, da construção de reputação ao pós-venda. Esse desenho exige processos claros e métricas bem definidas. Para formar equipes, Neves aponta três requisitos: “Você precisa ter entregas super claras, um processo muito bem desenhado para chegar até ali e ferramenta para medir — e medir a coisa certa”. No tipo de negócio da Thopen, isso significa acompanhar ao mesmo tempo a relação com o consumidor, com a distribuidora e com os geradores de energia.

A tecnologia é o eixo dessa operação. A empresa montou uma frente específica de inteligência artificial, com dois focos: vendas e experiência do cliente. “A gente pegou todos esses processos, começou a digitalizar tudo e tem uma parceria com uma empresa da Califórnia, com um LLM proprietário”, conta. O objetivo é usar modelos de linguagem em tarefas que vão do relacionamento comercial até o pagamento, para “entregar valor para os nossos clientes”.

Energia limpa como valor social

No fim da entrevista, o tema se abre para além das faturas. Neves trata a energia limpa como questão técnica, mas também cultural e social. Ele amplia o horizonte do negócio: “Nós vivemos em um período em que o nosso grande desafio, como sociedade, é que a gente faça coisas de forma que não destruam o mundo”. Isso inclui medir impactos, entender o que emite mais ou menos carbono e desenvolver mecanismos — como o mercado de carbono — que incorporem esse custo às decisões.

Para ele, essa não é apenas uma demanda regulatória. É mudança geracional. “Acredito que as novas gerações não vão aceitar fazer alguma coisa que elas achem que seja suja”, diz. A imagem que usa tem forte apelo visual: lembra a época em que se fumava em aviões, com área de fumante e não fumante no mesmo ambiente. Imagina a reação dos filhos se alguém acendesse um cigarro dentro da cabine hoje: “Eles vão achar que é um terrorista e que vão explodir aquele avião, porque não vão entender nada”.

No dia a dia, essa sensibilidade já aparece na decisão de compra: “A tomada de decisão dele, quando ele percebe que aquilo é uma coisa sustentável, é bem mais rápida. Ele se sente mais tranquilo em fechar uma compra”. A lógica vale para contas de energia, mas também para qualquer empresa que transforme obrigações regulatórias em oportunidade de negócio. Quem conseguir alinhar processo, tecnologia e propósito ambiental tende a ganhar vantagem competitiva em mercados que passam a valorizar, também, a origem da energia que consomem.

Ao projetar o futuro da Thopen, Neves fala em crescimento interno e em expansão internacional, atrelados à evolução regulatória brasileira: a ideia é desenvolver, aqui, modelos de negócio capazes de competir em outros países, gerar empregos qualificados e exportar tecnologia. Nas palavras dele, o desafio é “gerar valor para as pessoas, para os clientes, e que isso seja competitivo em qualquer lugar do mundo”.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Priscila Gubiotti, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Mundo Corporativo: na Electy, Paula Klajnberg quer simplificar o acesso à energia limpa

Reprodução do vídeo do Mundo Corporativo com Paula Klajnberg

“Adoro um ‘não’.”

Paula Misan Klajnberg, Electy

O que leva uma empreendedora a insistir em um mercado altamente regulado e resistente à mudança? Para Paula Misan Klajnberg, CEO e cofundadora da Electy, a resposta é simples: cada negativa recebida foi um incentivo para provar que era possível criar um novo modelo no setor de energia. Transformar desafios em oportunidades foi essencial para estruturar a primeira plataforma digital que conecta consumidores e geradores de energia limpa no Brasil. Essa jornada de inovação e resiliência foi tema da conversa no Mundo Corporativo.

Construindo um novo modelo de negócios

A proposta da Electy nasceu da necessidade de simplificar a adesão ao mercado livre de energia, tornando-a acessível para consumidores residenciais e empresas. “O desafio inicial foi lidar com o excesso de ‘nãos’. Nos diziam que vender energia digitalmente não era possível, que não haveria energia disponível. Mas descobrimos que a dificuldade estava no fato de que isso nunca tinha sido feito antes”, contou Paula.

Além dos desafios técnicos e regulatórios, outro obstáculo foi a estrutura organizacional das startups que atuam nesse setor. Segundo Paula, a hierarquia reduzida e a proximidade da liderança com a equipe são fundamentais para a inovação. “Para inovar, para ser ágil nesse mercado, a gente tem que ter essa proximidade com quem está na ponta, porque a gente corrige rápido. Não dá para ter um nível hierárquico muito longo, senão você demora muito a perceber isso.”

A presença feminina no setor de energia

Embora tradicionalmente dominado por homens, o setor de energia tem visto um crescimento significativo na presença feminina em posições de liderança. Paula destaca que as mulheres que atuam nesse mercado têm desempenhado um papel fundamental na inovação e na transformação do setor. “As mulheres da energia fazem algo que raramente vi em outros mercados: elas se apoiam. Essa rede de colaboração tem sido essencial para superar desafios e impulsionar novas ideias”, afirmou. Com lideranças femininas à frente de grandes comercializadoras e geradoras, a diversidade tem sido um fator determinante na evolução do mercado energético.

O futuro do mercado de energia e a importância da tecnologia

A Electy aposta na digitalização para facilitar a migração dos consumidores para o mercado livre de energia. Com a abertura desse mercado prevista para os próximos anos, a possibilidade de escolher o fornecedor de energia se tornará uma realidade para milhões de brasileiros. “Hoje, o consumidor já pode economizar de 10% a 30% na conta de luz, dependendo da região e da oferta disponível”, explicou a executiva.

Paula também destacou que o setor energético ainda tem um longo caminho a percorrer na adoção da inteligência artificial. “A geração de energia já está dominada, mas as startups que tiverem foco em automação de processos e experiência do consumidor terão muitas oportunidades. Inteligência artificial ainda está começando a ser explorada no setor.”

Com uma estratégia baseada em parcerias e na tecnologia, a Electy se projeta para ser uma referência na democratização do acesso à energia limpa no Brasil. “A Electy será a plataforma de energia para todo mundo. Nosso objetivo é centralizar as soluções e personalizar as ofertas para cada consumidor”, afirmou Paula.

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