6 ou 9, uma questão de perspectiva

Por Beatriz Breves

Foto de Erik Mclean no Pexels.com

Muitas vezes, a polarização entre duas ou mais pessoas se torna inegável. É comum que cada lado tente convencer o outro de que detém a verdadeira versão dos fatos. Nesse movimento, amizades antigas se rompem, famílias se desentendem, casais se afastam; enfim, pessoas queridas se perdem ao longo da busca pela suposta “verdade”.

A divergência de ideias, quando acompanhada de emoções intensas, cria ruídos que se acumulam até provocar um verdadeiro curto-circuito nas relações.

Costumo dizer que, quando estamos falando de pessoas de boa índole, a opinião em si importa muito menos do que parece. Na maioria das vezes, tratando-se do mesmo assunto, o que muda não é a essência da ideia, mas o ângulo a partir do qual cada um enxerga a situação.

É nesse ponto que a metáfora do número 6 ganha força. Duas pessoas, se estiverem frente a frente, cada uma com o número voltado para si, verão coisas diferentes: para uma, trata-se de um 6; para a outra, de um 9. Embora estejam diante do mesmo símbolo, encontram-se, ao mesmo tempo, diante de dois números distintos. Ambas acreditam estar certas e, sob a perspectiva em que se posicionam, realmente estão. Assim, duas pessoas podem contemplar o mesmo ideal e, ainda assim, interpretá-lo de maneiras completamente diferentes.

A polarização surge, muitas vezes, da insegurança diante do diferente: o medo de que, ao escutar o outro, se perca o rumo dos próprios ideais e, portanto, de si mesmo. Soma-se a isso a dificuldade de lidar com sentimentos intensos, tornando o caminho para o diálogo mais árduo. Assim, em vez de se aproximar, a pessoa se afasta; em vez de escutar, ataca; em vez de perguntar, julga.

Há, porém, algo ainda mais curioso nessa metáfora e que muito pode nos ensinar. Quando aproximamos a visão do 6 da visão do 9, contemplamos o número 69. Nesse encontro, não há mais disputa sobre quem está certo, porque aquilo que antes era oposição se transforma em complementaridade, simbolizando integração, reciprocidade e a possibilidade de duas perspectivas coexistirem. Não se trata de transformar o 6 em 9 ou o 9 em 6. Cada um permanece o que é. Trata-se de reconhecer que ambos podem compor algo maior quando colocados, lado a lado, de forma harmoniosa.

Talvez seja justamente essa a habilidade que falte a algumas pessoas: a capacidade de transformar o embate em encontro; lembrar que discordar não significa desarmonia; aceitar que ninguém enxerga tudo sozinho; trocar certezas rígidas por curiosidade genuína. Quando percebemos que o ideal é comum, mesmo que as ideias sejam divergentes, abrimos espaço para o diálogo, para a convivência e para a construção conjunta.

No fim das contas, entre os números 6 e 9 existe apenas um giro de perspectiva. E, quando esse giro acontece, o que antes separava passa a unir. É nesse movimento que nasce o número 69 — não como consenso, mas como convivência possível e amadurecida.

Entretanto, é preciso lembrar que somos seres humanos, dotados de grande complexidade, com um mundo interno repleto de sentimentos que, se não forem bem administrados, podem gerar disputas, segregação e desavenças. Por isso, não será surpresa se, mesmo quando os que veem 6 e os que veem 9 se integrarem, surgir alguém que diga que, na verdade, o número é 96. E isso não seria necessariamente destrutivo ou ruim. Pelo contrário: é justamente entre a integração e a divergência que emergem novos caminhos, ampliando horizontes e dando origem a novas ideias.

O importante é reconhecer que, assim como os números 6, 9, 69 ou 96, as ideias também podem assumir formas distintas, desde que o ideal permaneça ético, digno e coerente. É essa ética compartilhada que fortalece o ideal comum e as relações.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Eu estou aqui, diga-me como você sente!

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagine a seguinte situação: Você telefona para um conhecido e, ao atender, ele diz que não consegue te escutar. Você insiste em perguntar: “tá me ouvindo agora?“. Ele diz: ´´Alô? Alô? Não escuto nada!“. Você aumenta a voz e se dá conta de que não adianta. Ele não te ouve. Na impossibilidade de comunicar o que você gostaria de maneira eficiente, clara, você encerra a chamada.

Algo semelhante vai ocorrer quando há a invalidação das emoções.

A invalidação emocional ocorre quando alguém comunica sua emoção, o que está sentindo e somos incapazes de compreender. Para quem comunica, fica a impressão de que sua mensagem foi errada ou inapropriada.

Ainda muito precocemente ensinamos as crianças a lidarem com as suas emoções. A família desempenha um papel significativo nesse processo, estimulando a criança a expressar o que lhe é importante. O modo como se sente, as suas convicções e suas preferências são levadas em conta. Por outro lado, ambientes invalidantes tendem a não responder às comunicações feitas pela criança ou exigem que ela não expresse suas emoções, especialmente quando se tratam de emoções negativas.

Isso pode contribuir para que haja uma dificuldade em alterar ou regular condições emocionais, que rapidamente se acentuam e passam a ser percebidas como tensões praticamente insuportáveis, difíceis de serem toleradas e para as quais se busca, frequentemente, tentativas disfuncionais de regulação, como o consumo demasiado de bebidas alcóolicas.

Engana-se quem pensa que a invalidação acontece apenas na infância, quando os pais dizem à criança que não chore porque o que ela sente não é nada demais ou quando simplesmente ignoram seu choro.

Dizer a um adolescente que sua tristeza não se justifica, afinal ele tem tudo o que necessita para ser feliz. Dizer a alguém que o que lhe aconteceu não é tão grave assim, afinal isso nem é tão ruim quanto parece. Pedir a alguém que se levante e faça suas coisas porque depressão é coisa de fraco. Isso tudo contribui para dizer para essas pessoas que seus sentimentos não são válidos, não são legítimos.

Imagino que muitos de nós já dissemos palavras, até mesmo positivas, na esperança de que pudessem levar alento e encorajamento para as pessoas. Mas não é apenas sobre o que se fala. É sobre o que se ouve e como isso repercute num momento de fragilidade, de vulnerabilidade emocional.

Quando dizemos a alguém que não deveria se sentir desse jeito, talvez desejássemos dizer que não gostaríamos que essa pessoa estivesse passando pela dita situação, que gostaríamos que o mundo fosse mais gentil com ela, que a vida fosse mais leve. Mas ao falarmos que ela não deveria se sentir assim, estamos mencionando que seus sentimentos não fazem sentido, que a maneira como se sente deveria ser outra, fazendo, mesmo que sem perceber, um julgamento.

Validação é conferir verdade àquilo que se sente.

É respeitar e compreender o que o outro está sentindo e ajudá-lo a elaborar e superar esse momento.

É simplesmente dizer: estou aqui. Me diga como se sente. Posso compreender. Se tiver algo que eu possa fazer para que você se sinta melhor, por favor me diga.

Alô? Pode continuar… eu consigo te ouvir claramente.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung